20 de março de 2010

indexicais, proposições e contingências da língua

As frases em que se usa indexicais (expressões como "aqui", "ali", "isto", "aquilo", "agora", etc.) têm propriedades curiosas. Por exemplo, a frase "estou aqui" tem a propriedade de ser verdadeira em todas as circunstâncias em que a proferimos; seja onde for que nos encontremos, é sempre verdade que estamos "aqui" pois o conteúdo de "aqui" varia com a circunstância em que é proferido. Daqui pode resultar a ilusão de que a verdade da afirmação "estou aqui" é necessária, ou que a afirmação é logicamente verdadeira.
Esta ilusão resulta de uma confusão básica entre frases e proposições. A proposição, ou aquilo a que chamamos "afirmação" é o conteúdo que a frase exprime, por exemplo: está a chover, its raining, es regnet, il pleut - são quatro frases mas exprimem uma só afirmação ou proposição.
Imaginemos que estou no Porto, às 15:00 do dia 20 de Março de 2010 e que nesse preciso momento digo "estou aqui". Qual a proposição que se exprime na frase? Trata-se de "Estou no Porto, no momento t" e esta proposição é contingente, pois eu podia estar noutro lugar em t. Não é uma verdade lógica que eu esteja no Porto naquele dia. Se eu estiver noutro lugar, a mesma frase exprimirá outra proposição (p. ex. "Estou em Lisboa em t"). Mas então o que faz a frase "estou aqui" ser sempre verdadeira na circunstância em que é proferida? A resposta é: uma contingência da língua. É contingente que a nossa língua tenha indexicais com estas propriedades, nomeadamente, a de tornar verdadeira a afirmação condicional seguinte: "Se usar a expressão indexical "estou aqui" na circunstância x, a proposição expressa nessa frase é verdadeira nessa circunstância"; mas isto é uma contingência da língua; podia dar-se o caso de não termos entidades linguísticas com essas propriedades.
Logo, a afirmação expressa em "estou aqui", bem como a condicional que é tornada verdadeira pelas propriedades do indexical, são contingentes, e não necessárias. (são também afirmações empíricas mas isso não basta para saber se são contingentes) Num caso constatamos a contingência de estarmos no lugar x em t, noutro caso constatamos a contingência de a nossa língua ter certos componentes com certas propriedades. Mas ter estes componentes não é um aspecto essencial da língua, pois esta podia ser diferente.

Correcção: onde digo "Mas então o que faz a frase "estou aqui" ser sempre verdadeira na circunstância em que é proferida? A resposta é: uma contingência da língua" devia ter dito algo como "Mas então por que o facto de a frase "estou aqui" ser invariavelmente verdadeira em todas as circunstâncias em que é proferida não faz essa frase ser necessariamente verdadeira?" Devia ter deixado claro neste post que não estou a tentar explicar o mecanismo dos indexicais, e sim a afirmar que é contingente a seguinte verdade: "Se uso a frase "estou aqui" em qualquer circunstância x, exprimo uma proposição verdadeira em x". A ideia era apenas explicar a confusão possível de considerar "estou aqui" como uma verdade necessária pelo facto de a sua verdade não variar com as circunstâncias em que é proferida. Ela não é necessária porque a proposição que exprime varia com as circunstâncias, e essa proposição só pode ter um veridador (o estado de coisas que a torna verdadeira), ao contrário da frase, que pode ter como veridador o veridador de qualquer proposição que exprima.

35 comentários:

  1. Desde quando é que é uma contingência da língua, de qualquer língua natural, que contenha indexicais? Todas as línguas naturais distinguem-se essencialmente das linguagens formais pelo facto de conterem indexicais e serem dependentes do contexto num sentido mais lato que a indexicalidade de alguns termos.

    Há que ter muito cuidado quando se faz divulgação de filosofia para não se cometerem erros nem fazerem generalizações equivocadas. As noções de que aqui falas são noções técnicas tratadas na semântica formal, e não se podem tratar levianamente desta maneira.
    Vamos por partes: na semântica de Kaplan, pode dizer-se que, como dizes, "está a chover, its raining, es regnet, il pleut - são quatro frases mas exprimem uma só afirmação ou proposição." Porquê? Porque na semântica kaplaniana a forma como se determina o valor de verdade de uma elocução de uma frase processa-se em dois momentos distintos. No primeiro, no caso de a frase conter um indexical como 'aqui' ou 'eu' para que se determine a condição de verdade de, p exemplo, 'eu estou aqui' é preciso primeiro determinar as contribuição sistemática dos termos componentes na frase. 'Aqui' é um indexical. Que quer isso dizer? É uma expressão cujo significado é um carácter, isto é, é uma função que toma valores entre parâmetros do contexto da elocução para um local, em particular, o local do contexto de elocução. Igualmente, 'eu' tem como significado uma função do contexto de elocução para indivíduos, nomeadamente o único indíviduo que profere um exemplar de 'eu' no contexto, i.e., o falante. É POR ISSO QUE É SEMPRE VERDADE, PARA QUALQUER FALANTE QUE UMA SUA ELOCUÇÃO DE "EU ESTOU AQUI" É VERDADEIRO. A condição de verdade expressa por 'eu estou aqui' será, a de que o falante que profere a frase está no local onde profere a frase.
    Segundo, uma vez determinada qual essa condição de verdade, ou proposição, em cada contexto, passamos à segunda fase necessária para a avaliação da frase: Está o actual falante num contexto c, por exemplo eu, que actualmente profiro 'eu estou aqui' no contexto c não estar no local determinado por c onde actualmente profire essa frase? Sim, estou. Mas tenho de estar? Não. Eu podia não estar aqui. Esta é uma maneira de explicar a diferença que existe entre a dependência de contexto do CONTEÜDO, proposição ou condição de verdade, expressa no uso de uma frase, e a dependência do valor de verdade noutras coisas, que para não confundir com contexto Kaplan chama circunstâncias de avaliação, por exemplo o mundo possível. A frase não é necessariamente verdadeira porque há mundos possíveis nos quais o falante (i.e., eu) não está aqui.
    A explicação de Lewis é distinta da de Kaplan, porque não procede por meio de estas duas etapas, uma na qual se determina o conteúdo e outra na qual este é avaliado contra mundos possíveis, mas antes procede fazendo uma dupla-relativização dos valores de verdade a dois tipos de conjuntos de coisas, por um lado contextos, por outro índices.
    mas a diferença é aqui irrelevante.

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  2. continuo aqui:
    O que é importante é que introduziste uma noção que é técnica, mencionas um problema real que uma teoria semântica tem de explicar, para logo dizer meia dúzia de coisas erradas.
    Quando dizes: "Mas então o que faz a frase "estou aqui" ser sempre verdadeira na circunstância em que é proferida? A resposta é: uma contingência da língua." está muito mal, desculpa que te diga. A resposta é a que dou acima, esquematicamente, e requer explicar como é que uma teoria, por exemplo a de Kaplan, dá conta deste facto. Dizer "é uma contingência da língua" nem sequer se dirige ao problema. Podia ser uma contingência da língua que existem indexicais e outras expresões dependentes de contexto, (adjectivos como 'alto', 'rico', etc., quantifadores como 'alguns', 'todos', 'a maioria', etc.) Podia ser, coisa que não é de todo claro que seja. Mas dizer ISSO continua sem explicar como é que se diferencia a dependencia de contexto da dependência de circunstâncias de avaliação ou índices, que é o que está aqui em causa.

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  3. Teresa,

    Devia ter escrito, ao invés "É uma contingência da língua (supostamente) haver frases tais que são verdadeiras em qualquer circunstância em que são proferida " Claro que não é a (suposta) contingência da língua (haver indexicais) que é o truthmaker da frase. Não estou a falar da condição de verdade da frase, e sim da invariabilidade da verdade da frase (por contraste com as proposições que a frase exprime em cada circunstância diferente). Aqui errei, ao falar em "aquilo que faz a frase ser verdadeira em todas as circunstâncias possíveis", porque o que faz a frase ser verdadeira em cada circunstância é o mesmo que faz ser verdadeira a proposição que ela exprime numa dada circunstância. O que eu queria dizer é o seguinte: será que a invariabilidade do valor de verdade da frase "estou aqui" faz que essa frase seja necessariamente verdadeira? Eu não estou a investigar como funcionam os indexicais, estou a justificar a classificação de todas as afirmações expressas pela frase "estou aqui" como afirmações contingentes. Estou a tentar explicar por que razão considero contingente a verdade da condicional "Se uso a frase com o indexical em c, exprimo uma proposição verdadeira em c".

    Quando me refiro à frase "estou aqui" estou a distinguir a frase da afirmação que ela exprime na circunstância c. Eu estar no Porto às 15:00 e eu estar em Lisboa às 15:00 funcionam ambos como truthmakers da afirmação expressa por "estou aqui" quando a profiro na circunstancia 1 ou 2 (em Lisboa ou no Porto). Mas a afirmação que a frase exprime não é a mesma nas duas circunstâncias. O que faz a FRASE ser verdadeira numa dada circunstância é o mesmo que a faz ser verdadeira em todas as circunstâncias possíveis em que é proferida (é ser proferida nessa circunstância, seja esta qual for), o que não é o mesmo que a condição de verdade da afirmação que a frase exprime em cada situação, pois para cada afirmação expressa pela frase numa dada situação há apenas um truthmaker, ao passo que toda a série de truthmakers para cada afirmação que a frase possivelmente exprime podem funcionar como truthmakers da frase. Basicamente, estou a dizer que é uma contingência da língua haver frases que podem ter como truthmaker as circunstâncias veridadoras (truthmaking) de qualquer proposição que essas frases possam exprimir.


    Os estados do mundo, ou factos, ou o raio, são truthmakers da afirmação. Mas não podem ser estes factos a dar à frase a propriedade de ser invariavelmente verdadeira em qualquer circunstância: eu estar em lisboa as 15:00 e eu estar no porto às 15:00 tornam verdadeiras proposições diferentes. Mas a frase é verdadeira nas duas circunstâncias e isto não se deve aos estados do mundo mas sim às propriedades dos indexicais. Tu fizeste toda a tua crítica no pressuposto de que eu estou a tentar explicar o mecanismo dos indexicais num parágrafo, quando não estou a falar de tal coisa.

    De resto, não vejo por que seria uma verdade necessária as linguagens naturais terem indexicais só porque há indexicais em todas as linguagens naturais que conhecemos. É perfeitamente possível termos uma linguagem em que os indexicais desapareciam para dar lugar a coisas como "estou no Porto às 15:00 do dia x". É contingente que as línguas que conhecemos tenham indexicais, ainda que todas os tenham.

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  4. sorry, "Vítor está no Porto em t"

    é irrelevante, metafisicamente, que fosse um pesadelo prático ter uma língua sem indexicais. É irrelevante que por essa razão prática jamais surja uma língua natural sem indexicais. A questão é se há algo na própria língua que obrigue à existência de indexicais.

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  5. Agora uma questão perfeitamente lateral:
    não vejo por que terias de pedir desculpa. qual é o problema de apontar erros, e, já agora, qual é o problema de cometer erros? Há erros que só se detectam a discutir e não a ler livros em reclusão solitária. Ao discutir somos obrigados a usar as nossas próprias palavras, inevitavelmente, usamo-las mal, depois lemo-nos enquanto ouvimos as críticas dos outros e percebemos por que razão errámos. Não é isso óptimo? Em áreas onde o tipo de pedagogia que tivemos na licenciatura (medo do disparate, orgulho académico, sentido de dignidade institucional, etc.) jamais funcionaria, p. ex., na música, isto É o processo de conhecimento e não uma anomalia do mesmo.

    Para que serve evitar o uso das próprias palavras e desencorajar a discussão das coisas enquanto não dominámos a tal ponto os textos deste e daquele especialista? Para dizer que não cometemos erros? Mas os especialistas também erram e só escrevem coisas bestialmente interessantes porque discutem intensamente entre si, e, ao fazê-lo, dirão centenas de disparates que corrigem pela discussão crítica.
    Quando nos apontam erros durante uma discussão ocorre algo muito interessante, pelo menos no meu caso: dou comigo a pensar muito mais intensamente do que alguma vez fiz para qualquer aula no tempo da licenciatura. E isto acontecia precisamente porque discutir erros era uma coisa embaraçosa, que envolvia desculpas, glórias e ofensas. Eu já sei que sou um macaco idiota e falível; isso não me causa angústias existenciais e tão-pouco me causa saber que os outros sabem que sou um macaco idiota e falível.

    Certamente que na resposta que escrevi atrás há também erros de formulação e raciocínio. Se mos apontares ou se os detectar por qualquer outra coisa que digas, amanhã estou melhor do que estou hoje. E a importância de a minha ignorância ter sido detectada por uma série de pessoas? Não tem o mínimo interesse. E a alternativa: evitar dizer disparates e continuar ligeiramente mais burro do que estaria se não tivesse o atrevimento de tentar falar em x sem antes ter analisado solitariamente tudo o que se escreveu sobre x. Muito pior.

    Resumindo: nesta "leviandade" da divulgação há mais interesse, precisamente porque acabamos a discutir coisas relevantes, como os erros que se comete, do que em quase todas as aulas de licenciatura do meu curso, onde basicamente se aprendia "boas maneiras à mesa", isto é, a ter vergonha de confessar ou denunciar ignorâncias, a ficar calado durante 5 minutos depois de uma pergunta, e dar risos abafados quando finalmente alguém tentava responder sem copiar ipsis verbis o que leu algures; e lá íamos para casa, devorar livros solitariamente e a repetir para dentro os mesmos disparates durante anos.
    É mais ou menos isto: no conservatório aprendemos a tocar oboé; no departamento de filosofia aprendemos a fazer playback, com um oboé sem palheta, mas muito contentes por nunca termos sido apanhados num disparate. O problema é que... tocar oboé é muito mais divertido e gratificante, mesmo quando nos enganamos nas notas ou aquilo soa mais como uma gaita de foles.

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  6. ... ou então estás preocupada que eu contamine os leitores do blogue com ideias erradas. Mas essa preocupação não tem razão de ser. Se a sociedade não se importa que dos nossos professores de licenciatura só 2 ou 3 consigam seguir esta nossa discussão (erros incluído) sem ficar tontos, por que haveria de se preocupar com a propagação de erros entre os leitores do blogue? Ao contrário das aulas de licenciatura, talvez este blogue seja o único modo de esses leitores sequer se aperceberem de que existem estas ideias e estes erros e como podíamos tentar começar a responder-lhes.

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  7. Teresa, o teu comentário à posta do Vítor permite compreender melhor alguns aspectos por ele referidos. Mas o teu raspanete doutoral parece-me bastante deslocado, como se o que ele diz estivesse fora de qualquer discussão filosófica.

    A noção técnica mencionada pelo Vítor é a de indexical. Quanto a isso não vejo qualquer problema no que ele diz. Outra coisa é a explicação do funcionamento dos indexicais. O teu apelo às teorias de Kaplan e de Lewis não mostram o que queres mostrar; apenas mostram que algumas das afirmações do Vítor são filosoficamente disputáveis. Como disputáveis são as teorias de Kaplan e de Lewis, por muito persuasivas que te pareçam. Trata-se, afinal, de teorias filosóficas, né? Neste caso, os apelos à autoridade não servem de grande coisa e, em vez de promoverem a saudável discussão filosófica, acabam por a bloquear. Por isso, acho até filosoficamente saudável que o Vítor - ou outra pessoa qualquer - diga coisas que consideras erradas.

    Se bem entendi o que ele disse, o que estava em causa era se o que torna invariavelmente verdadeiras as proposições expressas por frases como "Eu estou aqui" é algum estado de coisas extralinguístico ou não. Bom, ok, ele disse algo que é tecnicamente incorrecto (não é correcto afirmar que tais proposições sejam verdadeiras em todas as circunstâncias possíveis, tal como, em rigor, não são as frases os portadores primários de valor de verdade), mas não vejo que isso seja leviano ou digno de indignação. Ora, a resposta dele é que não é algo extralinguístico que determina que elas sejam invariavelmente verdadeiras.

    Eu, tal como tu, não concordo e também penso que a condição de verdade da proposição expressa por "Eu estou aqui" é o estado de coisas tal que o falante que profere a frase se encontra no local onde a profere. Mas a discordância é perfeitamente normal numa discussão filosófica. Também não é por quase não haver quem defenda o descritivismo acerca dos nomes próprios que é tecnicamente errado defender o descritivismo acerca dos nomes próprios.

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  8. O que afirmei é que "estou aqui" não exprime a mesma proposição de cada vez que é usado. Depende de factos extralinguísticos qual a proposição que a frase "estou aqui" exprime (se estou no Porto quando profiro a frase, a proposição expressa é "Vítor está no Porto em t", se estiver em Lisboa a proposição é "Vítor está em Lisboa em t".

    Essas proposições jamais são tornadas verdadeiras por factos linguísticos. O que é uma contingência linguística é haver expressões que exprimem proposições diferentes consoante a circunstância e que por isso são invariavelmente verdadeiras quando proferidas. Por outras palavras: a proposição que exprimo quando digo "estou aqui" é sempre uma proposição contingente, além de empírica. Se afirmo "Vítor está no Porto em t" quando em t estou em Lisboa, a afirmação é falsa; mas "estou aqui" é invariavelmente verdadeira. Claro que podemos ser mais estritos e dizer que as frases simplesmente não são as portadoras de valor de verdade, pelo que para saber se "estou aqui" é verdadeira ou falsa temos de ver que proposição exprime. Por exemplo, suponhamos que estou em Castelo de Vide sem o saber e digo "estou aqui". Para um habitante local que me ouve, estou a exprimir a afirmação "Vítor (ou "aquele gajo" para usar mais um inexical) está em Castelo de Vide em t". Mas é essa a proposição que estou a exprimir, ou será que estou a exprimir algo que tenha valor de verdade? Creio que sim: estou a exprimir a afirmação "Seja onde for a região do espaço onde me encontro em t, encontro-me aí em t" e isto é necessariamente verdadeiro. Mas é uma contingência da língua que haja expressões com essas propriedades. Nada na língua obriga a que haja indexicais, no sentido em que algo na prata obriga a que tenha o número atómico que tem. Seria um pesadelo prático uma língua sem indexicais mas isso é irrelevante desde que seja concebível seres racionais com uma língua sem indexicais.

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  9. E com isto percebi uma coisa curiosa: qual a proposição que exprimo quando digo "estou aqui" depende do estado das minhas crenças. Se não sei onde estou e digo "estou aqui" a proposição expressa pela frase é necessariamente verdadeira - "seja qual for a região do espaço onde x se encontra em t, x encontra-se nessa região do espaço em t" - (também pode dar-se o caso de saber onde estou mas proferir "estou aqui" com a intenção de exprimir esta proposição e não "Vítor está no Porto em t").

    Pelo que cometi mais uma incorrecção: a proposição expressa pela frase não é sempre empírica nem é sempre contingente.

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  10. Discordo de algumas coisas:

    (i) não acredito que a proposição que exprimo com a frase "Eu estou aqui" dependa do estado de minhas crenças.

    O que expresso com a frase "Eu estou aqui" é sempre algo do seguinte tipo "A pessoa que pronuncia esta frase está no local que esta frase é pronunciada".

    Eis um contra exemplo para a tese de que o que é expresso pelos indexicais depende de meu estado de crenças: se acredito que estou em Portugal, quando na verdade estou no Brasil, e digo "Eu estou aqui", então isso deveria significar "Eu estou em Portugal", e eu teria dito algo falso.

    Mas assumir que disse algo falso quando disse "Eu estou aqui" neste contexto é descabido.

    (ii) não acredito que possa haver linguas sem indexicais. Bem, na verdade defendo uma tese mais modesta: acredito que existem coisas que não podem ser feitas sem indexicais.

    Quando digo "Eu sou um estudante de filosofia", eu utilizo um indexical. Agora vamos tentar reconstruir esta frase em uma frase informacionalmente equivalente e sem indexicais.

    Dizer "Iago é um estudante de filosofia" não me ajuda se eu não souber que o Iago sou EU (indexical).

    Dizer que "a pessoa que escreveu este post é um estudante de filosofia" também não me adianta se eu não souber que a pessoa que escreveu este post sou EU (indexical de novo).

    Em suma, me parece que não posso ter a mesma informação da frase com indexical em nenhuma frase sem indexical.

    Nota: os argumentos não são meus, são do John Perry. Mas me parecem bem acertados.

    Que acham?

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  11. Mais uma discordância (mais ou menos).

    "Seja qual for a região do espaço onde x se encontra em t, x encontra-se nessa região do espaço em t" é necessariamente verdadeira ou contingentemente verdadeira consoante o operador de necessidade ser relativo a uma necessidade De Dicto ou De Re.

    Se é uma afirmação de necessidade De Dicto, então estou a falar da sentença. Neste caso, é necessário: a sentença, expresse que proposição ela expressar, será uma proposição verdadeira.

    Se é uma afirmação de necessidade De Re, então estou a falar dos objetos e dos lugares referidos pela sentença proferida naquela ocasião específica. Neste caso, é contingente: é contingente que aquele objeto específico (referido naquela ocasião) esteja naquele lugar específico (referido naquela mesma ocasião) naquele tempo específico (referido ainda naquela mesma ocasião).

    Não sei se consegui deixar de todo claro o que queria dizer, mas é mais ou menos isso.

    Que tal?

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  12. Não é necessário que um objecto x esteja no local l no momento t, mas se é verdade que x está em l em t, isso implica que x está em l em t. Para a afirmação ser necessariamente verdadeira não tem de ser logicamente necessário nem metafisicamente necessário que x esteja em l em t. "Se Aristóteles nasceu em Estagira, nasceu em Estagira" - mas podia ter nascido noutro lado, qual é o problema?

    Se acredito que estou em Castelo de Vide quando na verdade estou em Marvão, quando afirmo "estou aqui" das duas uma, ou pretendo exprimir a proposição "se x está em l em t, x está em l em t" ou então pretendo exprimir a proposição "Vítor está em Castelo de Vide em t" e isto é falso. Claro que um habitante de Marvão que me ouça falar irá supor que quero exprimir outra afirmação.

    A tua objecção tem uma consequência curiosa: imagina que acidentalmente afirmo uma verdade. Foi pura sorte. Será isto conhecimento? Não parece. Agora imaginemos o seguinte exemplo: estou a falar sobre música com alguém e afirmo "Lopes-Graça era nabantino" e o meu interlocutor percebe "Lopes-Graça era de Tomar", o que é verdade. Agora suponhamos que por alguma razão estranha eu pensava que "nabantino" significava "natural do Entroncamento" ou algo ainda mais estranho. Imaginemos que eu nunca lera em lado algum que Lopes-Graça nasceu em Tomar, apenas que era nabantino e juntemos isso com a minha crença de que "nabantino" é um residente no Entroncamento. Que proposição estou a exprimir? Aquela que na realidade quero exprimir, embora seja falsa, ou aquela que o meu interlocutor, que tem crenças verdadeiras acerca do rio Nabão, do concelho de Tomar, e da história do termo "nabantino", pensa que estou a exprimir?

    Há outro aspecto curioso, no qual ainda não pensei bem, que decorre da tua consideração: Se ter conhecimento é (entre outras coisas) acreditar em proposições verdadeiras, como pode ser que o estado das minhas crenças não importe para determinar em que raio de proposição acredito quando profiro determinadas frases, que, supostamente, exprimem o conhecimento que tenho da realidade?

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  13. A questão não é saber se há coisas que não podemos fazer sem indexicais, é saber se algo na língua obriga à existência de indexicais, por muito que fosse um pesadelo prático não os ter.

    Todos os violinos são tocados com arco, mas também podem ser tocados beliscando as cordas. Nada nos violinos obriga a que sejam tocados com arco, pelo menos não no sentido em que a água tem de ser h2o. (não qualquer coisa a que chamemos "água", mas aquele composto químico). Eu não estava a afirmar que ter indexicais não é uma característica universal das línguas naturais. Mas ser uma característica universal não significa ser uma propriedade essencial de... É uma característica universal (ou quase) dos oboés terem o sistema de chaves moderno inventado no século XIX, mas não é uma propriedade essencial dos oboés terem esse sistema de chaves, pois já havia oboés no século XVII sem essa característica. E nem é preciso o facto histórico dos oboés barrocos. Basta ser possível haver oboés com sistemas de chaves diferentes para isso não ser uma propriedade essencial do instrumento, embora seja uma característica universal.

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  14. Vitor,

    sobre a contingência ou necessidade das afirmações acho que estamos falando a mesma coisa.

    Sobre o resto, estou com problemas para endender os exemplos, pois não sou de Portugal e os nomes me são estranhos... ;) Mas vamos lá.

    Primeiro: com a frase "Eu estou aqui" você não pode expressar "se x está em l em t, então x está em l em t". A última frase é uma condicional, mas a frase original não chega nem perto de ser uma condicional...

    Segundo: continua super estranho que alguém consiga proferir algo falso quando diz "Eu estou aqui"...

    Terceiro: não consegui entender o exemplo do Lopes-Garça... Todos os nomes me são estranhos ;)

    Mas considere o seguinte: o significado das palavras têm de se dar socialmente, e não individualmente.

    Tanto faz o sentido que você dá as palavras, se você faz parte de uma comunidade linguistica, então o significado de seus termos têm de ser os mesmos da comunidade linguistica.

    Se não fosse assim, poderia dizer "Prometo lhe pagar amanhã" e amanhã quando você me cobra eu digo "Ah não, o significado que dou para a palavra "prometer" é outro...".

    Claro que não funciona. Não é?

    Quarto: o caso do conhecimento. Você acredita em certas proposições, mas falha em conseguir exprimir tais proposições com certas palavras.

    Se acredito que Iago é estudante de filosofia e digo para alguém "Iago é estudante de direito", quando acredito que a palavra "direito" significa "filosofia".

    Que houve? Falhei em exprimir minha crença verdadeira...

    Quinto: sobre a necessidade dos indexicais. Sem eles não poderíamos, por exemplo, falar de nós mesmos.

    Veja, eu poderia falar do Iago, mas isso não ajuda se eu não souber que Iago sou EU.

    Não poderíamos falar sobre o agora. Poderia falar do dia 22 de março de 2010 às 12:16hrs. Mas isso não adianta se eu não souber que essa data é AGORA.

    Não poderíamos falar sobre aqui. Posso falar sobre a Rua tal na cidade de Ouro Preto no Brasíl, mas, de novo, não me adianta nada se eu não souber que esse local é AQUI.

    Dentre outras...

    Não sei se é possível uma lingua sem essas funções... Talvez seja, mas não me é claro como.

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  15. Então, a nossa apreensão do significado da expressão "Rua da Alegria, no Porto" depende da apreensão da palavra "aqui"? Não parece.

    Imagina o exemplo: a) Tu acreditas que a palavra "filosofia" quer dizer direito. b) Iago estuda filosofia. c) Tu afirmas "Iago estuda filosofia". - a que proposição estás a dar o teu assentimento ao proferir a frase?

    Não se trata de o significado das palavras ser relativo às minhas crenças. "Navio" não muda de significado por eu usar mal o termo ou por ter crenças erradas acerca de que objectos a palavra "navio" refere. Imaginemos que estou no litoral a observar um veleiro e exclamo "Ah! olha um navio". Suponhamos que nunca aprendi a usar apropriadamente a palavra "navio". A proposição a que estou a dar assentimento será algo como "Ali está uma coisa que flutua, na qual se pode navegar, etc" e abrevio essa conversa com a palavra "navio". Mas a palavra continua a ter um significado preciso independentemente das minhas crenças. Contudo, saber a que proposição estou a dar assentimento quando uso as palavras não é uma questão de ir ao dicionário ver o significado. Por exemplo, para usar o exemplo estafado:

    P= "Iago pensa que a estrela da manhã é bonita"
    Q = "Iago pensa que a estrela da tarde é bonita"
    R = "Iago pensa que o planeta Vénus é bonito"

    P, Q e R exprimem a mesma proposição, diríamos, mas aqui entra os famosos quebra-cabeças sobre as chamadas "atitudes proposicionais". Se Iago não souber que a estrela da manhã e a estrela da tarde são o mesmo corpo celeste, e que este corpo celeste é o planeta Vénus, então P, Q e R não exprimem a mesma crença. Mas para um utilizador competente da língua, e razoavelmente instruído, parecerá que R equivale às duas anteriores, pois pressuporá que Iago tem uma série de crenças verdadeiras acerca daquele corpo celeste, partilhadas por ambos os falantes.

    Sendo assim, em que sentido é que o estado das minhas crenças não é relevante para saber a que proposições dou o meu assentimento? Isto nada tem a ver com o significado objectivo das palavras.

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  16. Qual o problema de usar a condicional? Por exemplo, "Penso logo existo" não é uma afirmação, é um argumento: premissa 1 - "penso", conclusão "existo".
    Mas podemos tratá-la como uma afirmação parafraseando numa condicional: "Se penso existo".

    Se profiro "estou aqui" com a intenção de querer dizer que estou no local onde estou, seja isso lá onde for, estou a dar o meu assentimento à afirmação "Se x está em l em t, x está em l em t". Não posso ter a crença de que "estou aqui" é sempre verdadeira onde quer que a profira sem acreditar ao mesmo tempo nesta segunda afirmação.

    Claro que "estou aqui" não tem de exprimir a condicional. Aquilo que essa frase exprime depende das circunstâncias. Tudo o que esotu a afirmar é que essas circunstâncias não se limitam ao local onde profiro a frase mas também ao estado das minhas crenças e a que proposição quero dar assentimento quando profiro a frase.

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  17. Desculpa, só agora percebi o detalhe que "nabantino" só é claro para quem está deste lado do atlântico.

    "nabantino" é o termo usado para referir pessoas naturais de Tomar, cidade, concelho do distrito de Santarém. Fernando Lopes-Graça foi um compositor português que nasceu aí em 1906. (foi uma espécie de herói de adolescência para mim) O termo vem do rio Nabão, que passa pela cidade. Entroncamento é outra cidade do mesmo distrito.

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  18. Hmm, Vitor, acho que há algo de errado com sua posição, ou eu que ainda não entendi bem.

    Você disse que minhas crenças determinam a proposição a qual dou assentimento, mas não o sentido objetivo da palavra. Tudo bem, com isso eu concordo. Mais adiante você diz que as minhas crenças, e, consequentemente, a proposição a qual dou assentimento (e mais algumas coisas), determinam aquilo que a frase exprime. Com isso já não concordo.

    Aquilo que a frase exprime é a proposição expressa pela frase, que é o sentido objetivo da frase. Afinal, você defende que minhas crenças determinam o sentido objetivo da frase ou não?

    Eu acredito que não. Tanto faz aquilo que acredito e aquilo que dou assentimento e aquilo que eu quero exprimir com a palavra "direito" ou "aqui". Quando digo "estou aqui" ou "estudo direito" o que eu digo é que estou aqui e que estudo direito, independentemente daquilo que acredito, ou dou assentimento, ou aquilo que quero exprimir.

    Sobre a condicional. Tudo bem, "Penso, logo existo" pode ser visto como um argumento ou como uma afirmação de uma condicional. É plausível. Mas "Estudo filosofia" quer dizer -estudo filosofia- e não -se eu estudo filosofia, então eu estudo filosofia-. Igualmente, "Estou aqui" quer dizer -estou aqui- e não -se estou aqui, então estou aqui-.

    Se a frase "estou aqui" significasse -se estou aqui, então estou aqui-, eu estaria dizendo algo da forma -se P, então P- o que é uma verdade lógica. Mas não parece que estamos dando expressão a um teorema da lógica quando dizemos "Estou aqui"...

    Sobre a necessidade dos indexicais: não estou defendendo que a nossa apreensão do significado da expressão "Rua da Alegria, no Porto" depende da apreensão da palavra "aqui". Estou defendendo que existe um conteúdo informacional na expressão "aqui" que não existe na expressão "Rua da Alegria, no Porto", (mesmo que a Rua da Alegria, no Porto seja aqui) e que também não existe em nenhuma frase sem indexicais.

    Precisamente, estou defendendo que os indexicais são irredutíveis a quaisquer outras expressões linguisticas sem indexicais. E se eles são irredutíveis, e dependendo da importância do papel que desempenham, então talvez sejam essenciais em qualquer linguagem.

    De fato estou inclinado a defender que são necessários em qualquer linguagem humana, mas vou ainda pensar uma pouco mais no argumento que pensei para defender isso...

    ;)

    P.S. Me desculpem. Coloquei alguns caracteres diferentes no post anterior que não apareceram. Estou postando de novo sem os caracteres estranhos.

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  19. Repara que são coisas diferentes: a) as palavras terem um significado que não depende das tuas crenças; b) usares incorrectamente as palavras para exprimir crenças verdadeiras; c) usares sequências de palavras, frases completas, para exprimir proposições que podem ser verdadeiras ou falsas, para manifestares o teu assentimento numa ou noutra proposição (uma verdade ou falsidade acerca do mundo, independente das frases com as quais a exprimimos).

    Usar mal as palavras é ter crenças falsas sobre o significado das mesmas. Assim, podes usar mal as palavras para exprimir crenças verdadeiras, usando "navio" para dizer "veleiro" mas pensando num veleiro, quando está de facto um veleiro à vista.

    Depois há algo que não tem a ver com usar mal as palavras, por exemplo, alguém que não sabe que a estrela da manhã e a estrela da tarde são o mesmo corpo celeste - o planeta Vénus - não tem as mesmas crenças que tu e eu acerca do corpo celeste que todos observamos. Não ter as mesmas crenças significa dar assentimento a proposições diferentes (e inconsistentes) acerca do mesmo objecto. A ideia é que mesmo usando bem as palavras (como no caso do ignorante sobre Vénus), a ignorância ou outras causas no estado das minhas crenças pode levar a que use as mesmas palavras para dar assentimento a proposições diferentes.

    Se por "filosofia" tu entendesses "doxografia" (como faz quase toda a gente, continentais e analíticos), quando falasses em filosofia não estarias a falar no mesmo que eu quando falo acerca disso. E isto não tem a ver com relativismo ou o significado da palavra ser "para mim" uma coisa e "para ti" outra. É termos crenças diferentes acerca do que a filosofia é. A palavra pode permanecer intacta (p. ex., "aquilo que os filósofos fazem").

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  20. Não compreendo o teu raciocínio sobre o conteúdo informativo de "aqui". Basta pensar na seguinte situação trivial, ao telefone:

    Vítor - "Estou aqui!"
    Iago - ""Aqui" onde?!"
    Vítor - "Na rua da Alegria, no Porto"

    Se "aqui" fosse mais informativo, este diálogo seria algo muito estranho.

    Há linguagens humanas sem indexicais, p. ex., a lógica clássica. A questão aqui é talvez se pode haver línguas NATURAIS sem indexicais. A minha posição é que o pesadelo pragmático é irrelevante.

    Pensa nas paráfrases nominalistas para predicações de universais. A maior parte das paráfrses nominalistas, a serem sistematicamente usadas, dariam em algo bastante cómico e insólito... mas isto não é argumento contra as paráfrases nominalistas. Um argumento contra as paráfrases nominalistas é algo como: quem me garante que é a paráfrase nominalista a revelar os comprimissos ontológicos reais, e não a frase que predica o universal? Analogamente, um argumento contra a ideia de que línguas com indexicais é algo contingente não é chamar a atenção para que todas as línguas têm indexicais. É mostrar que línguas sem indexicais são algo impossível. E isto não funciona porque há linguagens sem indexicais - a lógica clássica. É irrelevante que nenhuma língua natural efectivamente exista sem indexicais. Vou tentar um argumento diferente: eu nasci em portugal, não na bulgária. Agora imagina que eu argumentava: neste mundo (para obviar às minhas contrapartes noutros mundos, que não são chamadas ao barulho) eu nasci em portugal. Logo não podia ter nascido na bulgária. Mas isto é falso, eu podia ter nascido na bulgária, apesar de a única ocorrência desta entidade (Vítor) na história deste mundo ter nascido em portugal. Chamar a atenção para que o conjunto de causas que teriam feito que eu nascesse na bulgária, dada a história efectiva dos meus pais, era improvável ao ponto de ser quase impensável não mostra que eu ter nascido em portugal é uma propriedade essencial minha.

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  21. um argumento análogo em filosofia da música:

    uma coisa é ser esmagadoramente improvável que um compositor anónimo, digamos, João Barandão Bach, que nasceu em Alhos Vedros em 1902, ter composto uma estrutura sonora exactamente igual à Partita em Dó menor, composta por João Sebastião Bach, em 1726. (Pressupomos que João Barandão não está plagiar a obra do outro. Ele desconhece-a simplesmente).

    Outra coisa é ser fisicamente impossível João Barandão Bach compor essa estrutura, isto é, haver algo nas leis físicas deste mundo que o impeça; ou ser metafisicamente impossível que João Barandão componha um clone da Partita, isto é, não se poder dar o caso, em qualquer mundo possível, de dois compositores distintos chegarem à mesma estrutura sonora.

    voltando atrás: há algo na língua que torne impossível a ideia de uma comunidade linguística que não usa indexicais? Não, pelo facto de haver línguas (não naturais) que não os têm, por muito esmagadoramente improvável que seja haver uma língua natural que nisto seja semelhante à lógica.

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  22. Sobre os casos do mal uso da lingua, penso que quando uso mal a lingua para exprimir uma crença minha, falho em exprimir uma crença minha.

    O exemplo do veleiro e do navio não é muito bom, pois um veleiro e um navio são coisas do mesmo tipo. Neste caso conseguimos nos entender. Agora, quando digo "Eu estudo direito" quando quero dizer que estudo filosofia, não estou de maneira nenhuma dando expressão a minha crença de que estudo filosofia. Posso até ter a intenção, mas não o faço realmente.

    Se por "direito" eu pudesse significar o que me deste na telha (se eu pudesse dar expressão a qualquer crença que me estivesse na telha), implica sim uma posição como "o significado de uma palavra é o significado da palavra para mim".

    Veja, informalmente dizemos sim que na verdade estávamos a falar de coisas diferentes. Quando eu digo: "Ah, eu estudo direito: estudo Sócrates, Aristóteles, Kant, etc". A resposta comum é: "Ora, mas não estas a falar de direito e sim de filosofia"

    Mas, ao pé da letra, eu estava sim falando de direito, mas querendo falar de filosofia. E meu interlocutor percebeu meu erro e percebeu que eu queria falar é de filosofia, apesar de estar falando que estudava direito...

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  23. Sobre os indexicais:

    Não estou defendendo que neste caso o indexical "aqui" possua MAIS informação que a frase "Rua da Alegria, no Porto". Estou defendendo que existe um conteúdo informacional na expressão "aqui" que não existe na expressão "Rua da Alegria, no Porto", isto é, tem algo na frase com indexical que não tem na frase sem indexical.

    Veja: se digo "está havendo um incêndio na casa número 25, Rua da Alegria, no Porto" não tenho motivo algum para sair correndo. Por outro lado, se digo "está havendo um incendio aqui" aí sim tenho algum motivo para sair correndo. Ou se digo: "está havendo um incêndio na casa número 25, Rua da Alegria, no Porto" e "casa número 25, Rua da Alegria, no Porto é aqui". Novamente tenho um motivo para correr.

    Agora tente me dar um motivo para correr sem usar indexicais.

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  24. Sobre a necessidade dos indexicais: concordo com tudo o que disseste, menos que eles são dispensáveis.

    Pense no caso de aprendizagem de uma linguagem por uma criança que ainda não possui lingua alguma. Como ensinar uma lingua para ela? Bem, dizendo o nome das palavras e apontando para as coisas. Ora, o ato de apontar é como um indexical (é uma linguagem, ainda que não escrita, e o apontar é um indexical, me parece).

    Essa parece ser a única maneira. Agora, como ensinar uma lingua sem utilizar no processo algum dispositivo indexical? Se isso não for possível, então para existir alguma linguagem, precisa existir algum indexical.

    Veja, a lógica pode não possuir indexicais, mas ela funciona somente depois que já temos uma linguagem natural. Mas tente imaginar um povo que nunca utilizou um indexical, mas que possui uma lingua.

    Não parece possível.

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  25. eis a razão para fugir:

    P = "Na região do espaço onde Iago [+ qq designador para referir apenas Iago] se encontra no momento da locução de P há uma considerável quantidade de objectos a arder, de um modo incontrolável por um só indivíduo"

    Não afirmei que os indexicais são dispensáveis, apenas que a partir do momento em que podemos fazer paráfrases (sem indexicais) para todas as afirmações com indexicais, é concebível o uso da linguagem sem indexicais... não é um facto metafisicamente necessário haver indexicais.

    É mais ou menos isto: uma coisa é afirmar que é contingente haver sanitas dentro das casas. Outra coisa é dizer que são dispensáveis ou que podíamos passar muito bem sem a sanita dentro de casa. É bastante claro.

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  26. Vitor,

    em seu exemplo, você pressupõe que sei que Iago sou EU. Mas continuo na mesma: se não souber que Iago sou EU, então ainda continuo sem motivo para correr...

    O indexical ou continua aí, ou continuo sem motivo para correr. Então ainda não aceito que podemos fazer paráfrases de frases com indexicais em frases sem indexicais.

    Sobre ser metafisicamente necessário, não sei se é metafisicamene necessário. Mas parece fisicamente necessário para humanos possuir indexicais, pois não vejo outra maneira de ligar a linguagem ao mundo (e de ensinar a linguagem)... Um povo (humano) sem indexicais e com linguagem não é nem mesmo concebível...

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  27. Tu sabes que és tu porque associas a expressão "Iago [+ outros designadores quaisquer]" à entidade concreta que és tu. As pessoas começam a ter consciência de si próprias como entidades que existem ao longo do tempo e distintas das outras antes de aprenderem a dominar as convenções linguísticas. Senão, como é que foi possível a algum grupo de ser humanos começar a estabelecer convenções, entre elas os indexicais? Parece que antes de haver indexicais as pessoas nem sequer podiam ter autoconsciência. Será assim tão difícil imaginar um grupo de seres humanos que fala como o papagaio do pirata: "Paco quer bolacha"? E que a dada altura convenciona usar certas palavras que têm o mesmo conteúdo que "o indivíduo que ouvem falar", "a região do espaço x", etc? Afinal, supomos que antes os indivíduos se tornam conscientes de ocupar uma certa região do espaço e não outra, e depois referem-se a essa região do espaço usando sons que acabam por se tornar convenção. Não supomos que primeiro se acende milagrosamente nos seus espíritos um indexal, para logo a seguir os seus cérebros começarem a funcionar. Afinal, o que há assim de tão contra-intuitivo em imaginar um falante que só diz "onde Paco está", em vez de "aqui"?

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  28. Bem, não estou dizendo "que primeiro se acende milagrosamente nos seus espíritos um indexal, para logo a seguir os seus cérebros começarem a funcionar".

    Estou dizendo que as pessoas apontam para as coisas antes de falar das coisas, e que sem apontar para as coisas antes, é impossível falar das coisas.

    Apontar não me parece ser tão dificil assim... E também não me parece tão mistico assim...

    Sobre a consiencia de si mesmo, de duas uma: ou não existe uma linguagem do pensamento, e essa questão não tem nada haver com a discussão. Ou existe uma linguagem do pensamento, distinta da natural (e que não tem nada haver com convenções), na qual nos tornamos consientes de nós mesmos.

    Nesta linguagem, se ela existir, não sei como podemos nos tornar consientes de nós mesmos sem referirmos a nós mesmos como "nós mesmos"...

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  29. Veja bem, vou tentar esclarecer no que acredito para ver se clareia o ponto:

    Podemos referir ao mundo apenas de duas maneiras: ou por descrição (aquele objeto vermelho e redondo) ou por ostenção (este objeto). Destas duas maneiras, a segunda é uma maneira indexical (este) e a primeira depende da segunda (não posso saber o que é vermelho ou o que é redondo sem aprender que isto é vermelho e que isto é redondo).

    Nesse sentido, sem um dominio primario de indexicais (apontar para as coisas e olhar ara as coisas) não posso referir por descrição.

    O que está errado aqui?

    P.S. Ops, o post anterior saiu errado de novo. Então apaguei e estou corrigindo aqui.

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  30. E qual seria o problema de apontar, referir por ostensão, etc., mas sem que houvesse palavras convencionadas, para exprimir esse acto?

    Para o que interessa, as convenções linguísticas chegam (é ou não contingente haver essas convenções, palavras, entidades linguísticas com certas propriedades), não é preciso ir para a linguagem do pensamento. Ter indexicais não é uma propriedade essencial da linguagem enquanto tal, porque há linguagens sem indexicais, mesmo que todas as línguas naturais os tenham. Isto nada tem a ver com a importância do papel que os indexicais desempenham na língua.

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  31. Ah, ok. Entendo. Neste caso, no qual apontamos, mas não fazemos isso com palavras, em um certo sentido temos uma linguagem sem palavras para exprimir indexicais.

    Ok, mas o próprio ato de apontar seria um "termo indexical". A palavra "termo" aqui está deslocada, pois o ato de apontar não é um termo no sentido estrito da expressão.

    Mas a idéia que estou defendendo que é que para, em primeiro lugar, chegarmos a ter uma primeira linguagem, precisamos de algum dispositivo indexical.

    Depois, para construir outras linguagem subsequentes, aí sim podemos construí-las sem indexicais.

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  32. uma observação: o gesto de apontar para a pedra não exprime um indexical, apenas refere por ostensão a pedra. O referente é a pedra e não uma entidade linguística.

    "estou aqui" é invariavelmente verdadeira quando proferida. Mas o gesto de apontar não é verdadeiro nem falso. Só afirmações têm valor de verdade. O equivalente a "estou aqui" em linguagem gestual não nos resolve coisa alguma, porque continuamos a poder conceber uma série de gestos significativos sem pensar em gestos ostensivos. Por exemplo, é perfeitamente possível jogar um daqueles jogos em que se tem de dar a entender algo com gestos, sem usar a ostensão (apontar para algo).

    Mas toda esta discussão está a tornar-se ociosa, porque o relevante em tudo isto nem sequer são os indexicais em si mesmos (razão pela qual a discussão começou logo a descarrilar no início). O que eu estava interessado em fazer era classificar afirmações como "estou aqui" (que têm a propriedade de ser invariavelmente verdadeiras quando proferidas) quanto a serem lógicas, empíricas, contingentes, necessárias, etc. É mais interessante, para o que me interessa, o aspecto de "estou aqui" poder exprimir proposições diferentes em circunstâncias diferentes, do que o aspecto de a frase conter indexicais. Acontece que o aspecto qeu me interessa é possível pelo uso de indexicais, mas não estava interessado nos indexicais em si. Nem sequer devia ter posto "indexicais" no título do post.

    Agora vemos como a discussão da ostensão nada me adianta: apontra para a pedra não é uma afirmação, logo não pode ser algo que é invariavelmente verdadeiro ou algo que exprime uma proposição. Não estou a predicar seja o que for de entidade alguma com o gesto.

    Onde queria eu chegar? Simples: afirmações como "estou aqui" exprimem uma de duas coisas:

    a) uma proposição do tipo "Vítor está no Porto", que varia com a circunstância de locução. Neste caso a afirmação é empírica e contingente.

    b) a proposição "Vítor está onde Vítor está", que não é empírica.

    No meio disto havia a observação de que a existência de expressões linguísticas com a propriedade de serem invariavelmente verdadeiras por exprimirem proposições diferentes em momentos diferentes é uma contingência da língua.

    ... Acabamos a discutir algo que não me interessava de todo, que é a origem, importância, e funcionamento dos indexicais.

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