29 de março de 2010

Mandeville, os moralistas e a economia

Uma tendência curiosa ao longo de todas as épocas, e ainda hoje, é um certo discurso moralista contra as escolhas livres da generalidade das pessoas. Às tantas, defende-se até que essas escolhas não são realmente livres, presumivelmente por serem muito diferentes das dos intelectuais. Que são livres, pois claro.

O que está em causa é uma certa incapacidade para aceitar e compreender a diferença. A mim não me interessaria ter o género de vida prezada pela generalidade da população, baseada em automóveis, futebol, novelas, Coca-Cola, frivolidades e mesquinhices. Mas qual é o problema de as pessoas preferirem essas coisas? Presumivelmente, se tivessem o meu tipo de vida seriam tão infelizes quanto eu seria se tivesse o tipo de vida delas. Além disso, se toda a gente tivesse o meu tipo de vida, como argumentou Mandeville no séc. XVIII, seríamos todos presumivelmente muito pobres, pois é a frivolidade e a mesquinhez que é o motor da economia, fazendo as pessoas comprar desenfreadamente o que eu não quero nem oferecido.

Por isso, ao contrário de tantos intelectuais, eu aplaudo o consumismo frívolo, a Coca-Cola, as novelas e o futebol. Apenas procuro pôr o máximo de distância possível entre mim e essas coisas.

10 comentários:

  1. Quem estiver interessado pode baixar as obras de Mendeville aqui: http://olldownload.libertyfund.org/?option=com_staticxt&staticfile=show.php%3Ftitle=846&chapter=66866&layout=html&Itemid=27

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  2. Deve estar um calor de ananases aí por Ouro Preto, Desidério. Só isso justifica a distribuição de paulada por tudo o que mexe neste blogue.

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  3. Quanto a «uma certa incapacidade para aceitar e compreender a diferença» diria eu que tudo depende da diferença que for. A neutralidade é tão abstracta e humanamente inútil ou mesmo contraproducente como outra coisa qualquer que não formos capazes de «mover» a favor da nossa saúde e da saúde da humanidade.

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  4. Desidério, considera que as pessoas deviam ler? Não ler é uma opção como ler também é. Então por que razão dizemos que as pessoas deviam ler? E quanto à última frase, não estará o Desidério a ser moralista?

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  5. as pessoas deviam ler no mesmo sentido em que deviam ter reservas de vitamina c. mas isso nao significa que o estado tenha de lhes dizer o que fazer, não significa um estado moralista que se certifica que as pessoas fazem certas coisas. Quem escolhe nao ler tem todo o direito de fazer essa opção, como nós temos o direito de pensar e dizer que ler é algo bom. Mas isto nao é verdade sempre: há leituras péssimas, e mais valeria a pessoa nada ler do que ler essas coisas. Mas isto sou eu a dar a minha posição, e nao um estado moralista a dizer aos cidadaos o que fazer.

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  6. as pessoas devem ler se for possível determinar um bem comum como consequência da leitura. Pensar numa determinação universal do dever de ler parece absurdo, mas a maioria das determinações universais da nossa cultura são até mais aberrantes que a de dever ler. Pessoalmente a ideia de dever ler, parece-se parva. O que me parece fazer sentido é a ideia de dar a possibilidade à maioria das pessoas de ler, pois é talvez uma das melhores formas de aceder ao conhecimento e ao saber. Mas são as próprias pessoas que acabam por determinar as regras do dever e direito de ler. Se eu prefiro gastar o meu dinheiro no futebol do que nos livros, é evidente que estou a contribuir para minimizar este direito ao saber e ao conhecimento. Já agora: como leitor admito que ler não me dá aquele prazer que é habitual apregoar-se. Leio porque é dessa forma que melhor acedo ao conhecimento e porque sou curioso. Dá-me prazer conhecer e a leitura é um dos melhores acessos que tenho ao conhecimento. De resto, ler, de muitos pontos de vista nem me parece uma coisa boa. Pelo menos comigo, devo a minha miopia à leitura. E gostava de não ser miope.

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  7. Um moralista é, por definição, alguém que prescreve aos outros o que considera que é melhor para si. Eu estou a dizer que não prescrevo aos outros senão o que eles pensam que é melhor para eles. Isto é o oposto exacto do moralismo.

    As pessoas devem ler? Por que raio de razão alguém que não quer, não gosta ou não tem paciência para ler haveria de aceitar o meu direito a dizer-lhe paternalmente e com ares de superioridade que deve ler? Ele poderia retorquir-me que eu devo embebedar-me ou frequentar discotecas ou a acompanhar os intermináveis campeonatos de futebol. E do mesmo modo que não quero ser importunado com tais conselhos sábios, também não quero impor os meus conselhos sábios seja a quem for.

    O que está aqui em causa é uma mentalidade de manada. É difícil uma pessoa sentir-se diferente. Se uma pessoa gosta de sopa de batata, toda a gente tem de gostar de sopa de batata. Mas isto é uma tolice. Pessoas diferentes gostam de coisas diferentes, dentro de certos limites — ninguém gosta com certeza de levar com tijolos na cabeça, mas mesmo neste caso eu não apostaria a minha fortuna — e há muitas maneiras diferentes de viver a vida, a maior parte das quais não inclui a leitura de livros.

    E nem falei de que tipo de livros seria “bom” universalmente ler, porque aí então, como outros comentadores já notaram, torna-se tudo ainda mais óbvio. Eu prefiro estar a dormir ou a olhar para uma árvore ou a nadar ou pensar com os meus botões a ler a maior parte dos livros que se encontram numa livraria. Gosto de ler, mas não gosto de ler tudo e mais alguma coisa. Se eu fosse obrigado a ler todos os dias jornais diários, por exemplo — ou desportivos, ou revistas de celebridades — a qualidade da minha vida ficaria seriamente ameaçada.

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  8. Do ponto de vista (da vontade)de cada um tudo é arbitrário, inclusivé o que é moralista e moralismo, por exemplo. Quanto ao dever, isto ou aquilo, num plano estrito de racionalidade lógica que abstrai de qualquer dado (ou da aceitação de qualquer princípio), parece-me evidente que o dever (como uma necessidade lógico-dedutiva-formal)não existe. Assim, não vejo por que devo respeitar os outros, na diferença ou na semelhança, nem por que se há-de compreender ou fazer seja o que for.

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  9. Não concordo.

    Em primeiro lugar, não falei da vontade de cada um, mas das escolhas livres de cada um. E o que contrariei foi a ideia feita de que os intelectuais devem tratar os outros como atrasados mentais, dizendo-lhes o que deveriam preferir (que curiosamente coincide com o género de coisas que os intelectuais preferem).

    Em segundo lugar, não se segue de modo algum do que eu disse que todas as preferências são igualmente defensáveis e estão a par de quaisquer outras. As preferências podem ser justificadas, e se prejudicam seriamente terceiros dificilmente são defensáveis.

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  10. estimular uma criança a ler, lendo para ela, com ela desde cedo, deixando-lhe livros à disposição (não estou a falar em pregar sermões sobre as virtudes da leitura, que normalmente são pregados por pessoas que não lêm elas próprias) será moralista? Quando vemos uma criança interessada em coisas cognitivamente valiosas, como tocar um instrumento musical, sentimos (pelo menos eu sinto) alegria porque pensamos na alegria que essas coisas nos trazem, pensamos no contraste com as frivolidades das novelas e das ideias feitas e as últimas modas disto e daquilo. Se o nosso puto escapa à treta maioritária que é estarem todos mais preocupados a comparar o tamanho do visor do telemóvel entre si, e o vemos dedicar-se a leitura, musica, etc, sentimos (hipotese) alegria nisso porque a valorização dessas coisas nao é indiferente, por mais que respeitemos as decisões livres dos outros. É valioso estudar filosofia porque dá autonomia cognitiva.

    Será isto paternalismo? Mas então qualquer actividade que promova o que é cognitivamente valioso (ser sócio de uma instituição como a academia de amadores de música, ou talvez... divulgar filosofia) é paternalista.

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