16 de março de 2010

Mentira ou ignorância

José Eduardo Agualusa, romancista angolano, tem defendido a aplicação da nova ortografia no seu país, Angola, e usa aqui um argumento que resulta de mentira ou ignorância:
Importamos livros de Portugal e do Brasil. Isso significa que temos livros em duas ortografias no nosso território, facto que suscita natural confusão, sobretudo aos leitores recentemente alfabetizados — em particular jovens e crianças.
O argumento é que com a nova ortografia Angola poderia importar indiferentemente livros de Portugal ou do Brasil, sem diferenças ortográficas. Isto é falso. Com ou sem acordo ortográfico, os leitores angolanos irão ler nos livros portugueses as palavras “económico”, “génio” e “facto”, lendo “econômico”, “gênio” e “fato” nos brasileiros. Além disso, onde antes do acordo liam “espectadores” ou “aspecto” nos livros de qualquer país, depois do acordo irão ler “espetadores” e “aspeto” nos livros portugueses, se os editores adoptassem o acordo (o que não está a acontecer e não é previsível que aconteça), e “espectadores” e “aspecto” nos brasileiros.

Portanto, ou Agualusa desconhece a nova ortografia — singular desconhecimento num defensor dela que ainda por cima é romancista — ou mente. Como a quase totalidade dos defensores do acordo, julgo que mente. Quem me dera a mim, e a muitos editores, que o acordo realmente unificasse a ortografia. Não unifica. Apenas muda mudanças. O que uns escrevem de uma maneira, outros passam a escrever de outra, o que em alguns casos se escrevia da mesma maneira, passa a escrever-se de maneira diferente. O acordo ortográfico nada unifica. Nem sequer a ortografia. E mesmo que o fizesse, ainda faltaria unificar o léxico, pois as crianças angolanas iriam sempre ler "electrão" nuns livros e "elétron" noutros, mais c menos c.

Só mais um aspecto (sim, com c, à brasileira): quem se preocupa tanto com a confusão das crianças como pode não se preocupar com a confusão dessas mesmas crianças que, depois do acordo ortográfico, vão a uma biblioteca e encontram não duas ortografias, mas quatro? Quatro porque encontrará livros portugueses com a ortografia antiga e com a modernaça, e o mesmo nos brasileiros. A preocupação de Agualusa com as crianças angolanas é uma argolada. Se está preocupado com elas, deve agarrar-se às duas ortografias que já existem, e declarar que qualquer uma delas é bem-vinda no seu país.

1 comentário:

  1. Novo link do artigo: http://www.ciberduvidas.com/controversias.php?rid=1602

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