7 de Março de 2010

O direito de defender o criacionismo



Levei um susto ao ser informado que Thomas Nagel, filósofo respeitado e influente, tenha escolhido o livro criacionista Signature in the Cell: DNA and the evidence for Intelligent Design, de Stephen C. Meyer, como um dos melhores livros do ano. O livro é repleto de especulação religiosa contrária ao evolucionismo e (como acontece com os outros livros desse gênero) sequer é mencionado na literatura científica relevante.

Fui procurar mais informações e descobri que Nagel tem defendido recentemente ("Public Education and Intelligent Design", Philosophy & Public Affairs 2008) que o criacionismo não é pseudociência, mas má ciência. E como toda má ciência ainda é um tipo de ciência, argumenta Nagel, as decisões jurídicas de proibir o ensino do criacionismo são incorretas. Eu discordo deste argumento. Como qualquer pessoa que se deu ao trabalho de discutir calmamente com um criacionista sabe, as hipóteses criacionistas são imunes ao processo normal de justificação crítica e argumentada e, portanto, não podem ser consideradas como ciência.

O argumento de Nagel a favor do ensino do criacionismo não me convenceu e a sua escolha do livro criacionista me deixou surpreso. Mas o que me deixou ainda mais surpreso foi a reação fanática de alguns ateus, como Brian Leiter, frente a escolha de Nagel. A reação extremada de Leiter e outros é uma clara tentativa de silenciar Thomas Nagel, o que é inaceitável. Nagel tem o direito de defender o que bem entender, incluindo o criacionismo, por mais infundado que este seja. O impulso de inibir que posições criacionistas sejam sequer consideradas é um impulso totalitarista injustificado. O que se deve fazer nesse caso é o que já sabemos: argumentação e discussão cuidadosa dos argumentos.

Fiquei com a impressão de que Leiter é daqueles ateus militantes que assumem o evolucionismo como uma espécie de hino de guerra aos religiosos, pressupondo erradamente, como os próprios criacionistas, que o evolucionismo e o ateísmo são indissociáveis. A defesa fanática do ensino do criacionismo é uma opção tão prejudicial quanto a defesa fanática do evolucionismo. E ambas contribuem para uma vulgarização extremada do debate público entre criacionistas e evolucionistas, impossibilitando qualquer discussão que não seja pura propaganda ideológica.

1 comentário:

  1. I think it's ridiculous to label the reaction to Nagel as "fanatical". Meyer's book is not simply wrong, but actively dishonest. A capable philospher, such as Nagel, should be able to figure this out. A "fanatical" reaction would be to call for Nagel's firing, or to picket his house or university, or target his grants, none of which has happened. This is in contrast to what happens, for example, to legitimate climate scientists. As for "militant atheists", maybe you should learn not to speak in cliches.

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