27 de março de 2010

Pátria e infantilidade

A propósito de infantilidade, uma das ideias que me vem logo à cabeça é a de pátria. Acho que fazem todo o sentido os versos de uma canção francesa de Maxime Le Forestier "Je m'en fous de la France, on m'a menti / On a profité d'mon enfance pour me faire croire à une patrie" (Estou-me nas tintas para a França, fui enganado / Aproveitaram-se da minha infância para me fazerem acreditar numa pátria).

Se me perguntarem por que razão digo que essa história da pátria é uma fantasia, a minha resposta pode soar algo decepcionante para alguns. Digo que não passa de uma fantasia pelo mesmo tipo de razões que digo que as histórias de bruxas não passam de fantasias. Afinal de contas, preciso de melhores razões para acreditar numa pátria do que para não acreditar.

Haverá por aí alguém que me consiga apresentar boas razões para ser patriota?

24 comentários:

  1. Eis uma razão para ser patriota: sem essa ideia, dificilmente poderias controlar vastos números de pessoas, para teres poder político, económico, social, como líder que veste a capa do defensor da pátria.

    A questão é saber se esta é uma boa razão.

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    1. então a liberdade de pensamento anularia a razão para ser patriota?

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  2. Quanto a ser uma fantasia, não me custa admitir que o seja como a das histórias de bruxas, mas já não me parece que o seja pelas mesmas razões. As razões, pelas quais ambas são fantasias nem são boas nem más. Quanto à ideia de pátria, ou a história de pátria (não confundir com a história da pátria) ser uma fantasia em que se acredite ou não, depende do que essa fantasia representar.

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  3. O patriotismo pode ser mais um daqueles efeitos reflexos da evolução. No passado, quando vivíamos em grupos pequenos, o tribalismo era uma atitude sábia de preservar as gerações futuras dos membros do clã. Os ícones de união e solidariedade entre os indivíduos tinham uma relação directa com a sobrevivência dos mesmos. Com o passar do tempo e com o desenvolvimento dos estados, as pessoas continuaram a acreditar que esse grupo gigantesco a que pertenciam era importante para a sua sobrevivência. Nos países mais atrasados, que são precisamente aqueles onde o Estado é mais dominante, não deixa de ser curioso verificar que ser patriota continua, afinal de contas, a ter alguma importância para a sobrevivência.

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  4. alguns comentários no post anterior revelam perplexidade quanto ao que possa significar "raciocinar intensamente". Se estivessemos aqui a falar de obesidade, seria pacífica a ideia de "treinar intensamente". Toda a gente percebia claramente que exercitar o corpo com alguma intensidade era a melhor forma de combater a obesidade. O mesmo funciona para o cérebro, que é um músculo do nosso corpo. Só que a forma de exercitar o cérebro não é abanar a cabeça intensamente, mas usar uma das suas melhores faculdades intensamente, que é o raciocínio.

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  5. Não sou patriota. Mas, pensando numa boa razão de o ser, vejo uma: as relações internacionais, sem nenhuma espécie de nacionalismo, tenderiam a permanecer sempre polarizadas. No nível doméstico, o sujeito que governa e acha seu povo humilde melhor que aquele do lado de lá da fronteira -- esse sujeito pode não saber muito bem pq faz o que faz, mas acaba nacionalizando uma parte do desenvolvimento que trariam todos os fluxos da globalização.

    Essa razão faz muito sentido?

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  6. Pátria é o pai, simultaneamente protector e desafiador. Ela existe ao nível físico, delimitada, como um ventre, mas também, e acima de tudo, ao nível simbólico (possivelmente será mais mátria que pátria). Fantasia talvez não, simbólica talvez sim. Mas ser simbólica não se compadece com fantasias. Agora, como alguns comentários parecem querer dizer, o ventre alarga-se proporcionalmente ao sentido do termo pátria. Sócrates inaugurou um novo sentido do conceito ao dizer que era cidadão do mundo.

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  7. Proponho para reflexão estes versos de Alexandre Herculano de Carvalho Araújo (nasceu em Lisboa, a 28 de Março de 1810; m. em Vale de Lobos, próximo de Santarém a 13 de Setembro de 1877).

    XXV

    Oh, talvez como o vate, ainda algum dia
    Terei de erguer à Pátria hino de morte,
    Sobre seus mudos restos vagueando!
    Sobre seus restos? - Nunca! Eterno, escuta
    Minhas preces e lágrimas: sé em breve,
    Qual jaz Sião, jazer deve Ulisseia;
    Se o anjo do extermínio há-de riscá-la
    Do meio das nações, que dentre os vivos
    Risque também meu nome, e não me deixe
    Na Terra vaguear, órfão de pátria.

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  8. Eis uma razão para ser patriota: sem essa ideia, dificilmente poderias unificar e organizar pessoas, no sentido de que assim pode-se fornecer condições suficientes para o desenvolvimento humano, seja em nível intelectual, político, social, econômico e talvez humanitário.

    A questão é saber se esta é uma boa razão.

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  9. As pessoas já se uniam e organizavam muito antes de se ter inventado a pátria. A pátria é apenas um modo de por certos grupos de pessoas a competir com outros grupos quando na realidade essas pessoas não têm interesses divergentes, ou radicalmente divergentes, ou pelo menos só os têm por causa da ideia de pátria. A pátria foi uma treta que se inventou quando não dava jeito pagar portagens aos senhores feudeias para vender bens de uma cidade para outra. Era preciso calar esses chatos duma figa, e isso foi uma coisa muito boa para o desenvolvimento humano. Mas logo a seguir o espírito do senhor feudal se instalou na própria coisa boa que se acabara de conseguir.

    Dentro dos países, as pessoas organizam-se constantemente, independentemente de pátrias, para atingir fins, objectivos, que nada têm a ver com a competição entre mercados nacionais. Até porque hoje esta treta não faz qualquer sentido. Parece que as multinacionais conseguem fazer muito mais depressa e bem aquilo que o proletariado marxista nunca conseguiu fazer: passar por cima do preconceito local e exportar a tal consciÊncia de que as pessoas afinal têm interesses muito parecidos: basta ir a qualquer centro comercial onde se vende os produtos dessas empresas.

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  10. Aires, vou partir do princípio, talvez errado, que não estás a colocar em causa a existência dos Estados enquanto forma de organização económica e jurídica, mas apenas do sentido mais forte de pátria e patriotismo, enquanto sentimento de pertença a esse Estado.

    Mas será possível imaginar um estado sem pátria? Será que um estado funcionaria se não houvesse o mínimo de sentimento de pertença por parte dos seus cidadãos?
    Eu não me julgo especialmente patriota, não ando de bandeira na lapela e, confesso, não coloco bandeiras na janela. Mas gosto quando vejo uma referência positiva a Portugal, sinto-me bem quando dizem bem de Portugal. No fundo, sinto que de alguma forma faço parte do país e este faz parte daquilo que sou. Será que os Estados seriam possíveis sem que uma parte significativa das suas populações sintam este sentimento (desculpa a redundância) de pertença?

    Uma pequena analogia. O futebol é-me completamente indiferente… ou melhor, sinto-lhe alguma aversão. Ainda assim, costumo dizer aos meus amigos mais dados à coisa que até compreendo que se goste de futebol (e compreendo), mas que acho completamente incompreensível o fenómeno do clubismo. Reparo agora que o futebol, cujo interesse para alguns consigo entender, não seria possível sem o clubismo, cujo interesse me transcende por completo! Apesar de isto não me convencer a ser adepto de um clube, pelo menos ajuda-me a entender porque é que o clubismo deve existir (poderíamos argumentar que é melhor um mundo sem futebol e sem clubismo do que um mundo com futebol e com clubismo…)

    Não se passará algo semelhante com os estados e pátrias?

    Sei que isto não é uma boa razão para se ser patriota, e essa já não consigo apresentar; mas parece-me que haverá boas razões para que o patriotismo exista, e para que seja algo desejável dentro de certos limites (a não ser, claro, que defendas que é melhor um mundo sem estados e sem pátrias a um mundo com estados e com pátrias).

    O que te parece?

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  11. Claro que um estado funciona sem sentimento de pertença. O estado é apenas uma coisa que se inventou para resolver problemas. As pessoas servem-se de uma série de serviços públicos, da burocracia pública, para resolverem problemas (às vezes para criarem ainda mais problemas do que já tinham) sem que isso envolva sentimentos místicos de pertença.

    O nacionalismo, seja na versão softcore do "respeito pelos símbolos da nação e do estado de direito", seja na versão hardcore perfilhada por grupos anti-sociais de vândalos e assassinos, não passa de uma psicofoda.

    Em 2003 fui passar 10 dias à Escócia e lá usei uma série de serviços, públicos ou privados, como a biblioteca da Universidade de Glasgow, e tudo isso funcionou sem qualquer "sentimento de pertença" por minha parte. Tudo o que foi preciso foi... racionalidade humana da mais simples e quotidiana. Curiosamente, o céu não veio abaixo por causa dessa ausência de sentimento de pertença. Sentimento de pertença tive foi no lar das pessoas que me acolheram lá, um ambiente caloroso de amizade e abertura de espírito. Por sinal tratava-se de uma família nada dada a nacionalismos e com muito mais "pertença", ou diga-se antes, equilíbrio mental e emocional, do que muito lar português temente a Deus, à Pátria e ao Canhão.

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  12. Vitor Guerreiro, certo. Mas o estado tem um fundamento jurídico, contratualista. A pátria tem uma base emocional. portanto, a pátria tem um sentido simbólico. Estarei errado?

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  13. o nazismo tem uma base emocional e um sentido simbólico. E depois? Não estou a dizer que todo o nacionalista é nazi. Estou a fazer uma analogia relevante para dizer que do facto de algo ter uma base emocional ou um simbolismo qualquer não se segue que esse algo é uma Coisa Boa. Por outro lado, as emoções associadas ao nacionalismo, quer ou nao as pessoas se apercebam disso, são naturalmente fascistas.

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  14. "mas parece-me que haverá boas razões para que o patriotismo exista"

    A piada estaria em identificar algo que exista e que não tenha boas razões para existir. Fica o desafio. E o que diz isso em relação à coisa que existe? Não será, por outro lado, mais revelador dos critérios que aplicamos à escolha das razões?

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  15. não se trata de procurar boas razões para existir. Essa tarefa seria tola. Existem pedras. Quando muito procuramos uma explicação para a existência de pedras, de haver a tipologia de pedras que há, etc. Boas razões procuramos, sim, para aceitar ou rejeitar CRENÇAS, ou para suspender o juízo.

    Não se misture metafísica com epistemologia.

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  16. qual seria o argumento implícito aí? vejamos...

    as pedras existem sem precisar de boas razões para existir, logo... devo ser nacionalista mesmo que não tenha quaisquer razões para isso.

    Mas que tem a ver a aceitação ou rejeição de crenças com as razões que uma pedra teria para existir? Boas razões há, isso sim, para acreditar que as pedras existem. Mas isso também não vem ao caso.

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  17. Jaime,

    Estado e pátria são coisas diferentes, pelo que a ausência de justificação racional para acreditar numa pátria, seja lá isso o que for, não é ausência de justificação para defender a existência do estado. Quando falo de justificação, refiro-me a justificação racional, bem entendido.

    Parece-me claro que existe estado sem pátria, pois penso que a própria noção de pátria é bastante posterior à existência de estados. Aliás, para ser claro, nem sequer sei bem o que é isso da pátria e ainda ninguém me conseguiu explicar tal coisa. Mas é relativamente fácil dizer o que é o estado: em traços gerais é constituído por uma população que se relaciona socialmente no mesmo território, cujas relações são regidas por leis que um governo tem o poder de fazer e por instituições que têm autoridade para as fazer aplicar.

    Como se vê, nada de misterioso há aqui. De resto, para explicar os exemplos que dás do futebol e tal, não precisamos da pátria para nada. Posso simplesmente acreditar (bem ou mal) que a publicidade aos membros do comunidade a que pertenço acabarão indirectamente por me beneficiar de algum modo. Tal como o trabalhador que defende uma boa imagem pública da sua empresa, acreditando que isso acabará por o beneficiar pessoalmente (maiores garantias de um futuro profissional próspero, etc.). Talvez o Pedro tenha razão quando diz que a ideia de pátria foi um efeito primitivo da evolução, mas que deixou de se justificar em sociedades mais abertas e avançadas.

    Ou podes simplesmente dizer que o fervor clubístico que encontras no futebol é algo de não racional. As pessoas nem sempre agem racionalmente e isso pode nem sequer ser especialmente grave. Por vezes cansam-se de ser racionais e procuram algo como o futebol para desopilar e dar temporariamente tréguas à cabeça. Sempre é melhor do que andar à porrada e coisas assim.

    António Daniel,

    As letras e as palavras escritas também são símbolos. Isso nada tem que ver com emoções. Além disso, o que está em causa é se há alguma coisa realmente a ser simbolizada quando falamos de pátria. A bandeira portuguesa, tal como a palavra "Portugal", simbolizam Portugal; não a suposta pátria portuguesa.

    O que mais não falta são símbolos. Há símbolos de marcas de automóveis, de farmácias, do diabo, etc. E daí?

    Afinal a pátria existe mesmo ou é apenas um símbolo? E se é um símbolo, simboliza o quê?

    Sempre achei bastante infantil a conversa de que a pátria portuguesa é a alma portuguesa. Há até quem chame filosofia a esta conversa da treta. Até se diz que a saudade é a marca característica da nossa alma lusitana; que os outros povos não têm a palavra "saudade" e dislates do tipo. Bom, os brasileiros também têm a palavra "saudade". Será que têm uma alma portuguesa? Nas outras línguas claro que não existe a palavra "saudade", tal como não existe em inglês nem em francês a palavra "caganeira" e tantas outras. Será que há uma filosofia da caganeira (uma palavra que só a língua portuguesa tem) que consiga captar a essência da alma portuguesa?

    Não levem a mal, mas apeteceu-me acabar de forma descontraída.

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  18. Há muitos anos fiz uma experiência. Escrevi um poema sobre a saudade, chamado "Saudade Dada". Como os patriotas dizem que o conceito de saudade é inexprimível noutras línguas, pedi a uma amiga, especialista em literatura inglesa, que mo traduzisse. O inglês ficou igualmente expressivo. O termo que ela usou foi "longing". A própria ideia de que não há palavras noutras línguas para "saudade" é pura e simplesmente falsa.

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  19. "A piada estaria em identificar algo que exista e que não tenha boas razões para existir. Fica o desafio."

    Vou aceitar o desafio. Vou dar só alguns exemplos de coisas que existem e a favor das quais não há boas razões:

    -- Sida
    -- Mulheres sem direitos políticos
    -- Terrorismo
    -- Holocausto
    -- Ladrões
    -- Anónimos em blogs que escrevem coisas sem pensar

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  20. Essa ideia da «saudade» ser exclusiva do português é originária de uma falsa ideia. Esta, dita muitas vezes, torna-se uma verdade. Evidentemente que o termo saudade e o semblante que consigo arrasta é próprio do ser humano. Posso estar errado, mas Pascoaes pretendeu fazer uma análise linguística do termo e com ela encontrar uma característica do ser português. Mas também creio que este aspecto não se «liga» com a pátria. Evidentemente que, e reafirmo-o, a pátria é pura e simplesmente símbolo. É uma pertença simbólica, sim, é um local de memórias e estas, consideradas de um ponto de vista psicanalítico, tem a sua razão de ser.

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  21. portanto, o desafio agora será apresentar as boas razões para existência dessas 6 coisas que listou?

    SIDA: a boa razão para a existência da SIDA é ela ser uma configuração possível de um genoma; Para seres vivos que se alimentam de cadávares, a SIDA é boa porque aumenta o número de cadávares e, quem sabe, dará origem a novas estirpes dessa 'nação' de seres vivos extremamente simples.


    Bem, não vou continuar, e arranjar boas razões para a existência dos outros. É verdade que requer alguma imaginação, e acho que não ficaram dúvidas que também há boas razões para a existência das outras coisa todas que existem.

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  22. Há uma confusão conceptual elementar entre "razão" e "causa". Presumivelmente, tudo tem uma causa, mas uma causa nem sempre é uma boa razão. Uma causa para eu dar um tiro a alguém é que quero vê-la morta, mas isso pode não ser uma boa razão para lhe dar um tiro.

    Que há causas para a existência da mentalidade patriótica é evidente. Só um tolo poderia pôr duvidar disso. A questão é saber se há boas razões, e não apenas causas.

    Isto deveria ser óbvio.

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  23. Penso em razões para defendermos um patriotismo alargado, que nos identifique como espécie. Me agrada alguns aspectos do patriotismo, tais como sentimento de pertença, corresponsabilidade, união, fraternidade. Se somos parte de uma pátria somos frateres, irmãos. Isto deveria implicar maior solidariedade e empatia. No entanto, não vejo razão para um conceito exclusivo, estrito de pátria, vinculado ao de estados nacionais. Neste sentido, ser patriota se aproxima de concepções facistas; o patriota é um bairrista em maiores proporções. No Brasil ocorreram alguns acontecimentos, recentemente, onde a noção de patria foi evocada para defender uma política energética mais orientada pelos interesses nacionais, em detrimento da concessões favoráveis à Bolívia e ao Paraguai. O caso foi muito bem conduzido pelo Presidente Lula.Para o qual o desenvolvimento do Brasil deve vir acompanhado do desenvolvimento dos outros países latino-americanos. Poderia dizer que Lula foi patriota em relãção a ser latino-americano. Tendo a concordar com quem vê no patriotismo estadista tendencias à criação de barreiras . Contudo, ainda reconheço aspectos positivos mesmo no patriotismo estadista. É possível citar vários casos na história onde o sentimento patriótico de unidade nacional serviu de mola propulsora para a reconstrução dos países. Acho que consegui à custos formular minha concepção: Um patriotismo que não seja somente ligado ao estado, mas, que se alargue, se ajuste à cidadania global.

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