7 de março de 2010

Theodore Dalrymple

Theodore Dalrymple já foi comparado a George Orwell, e não é apenas por usar um pseudónimo literário; no entanto, não se situa à esquerda, politicamente, mas antes à direita. Mas encontra-se nele, de facto, algo da mesma lucidez de Orwell: inteligência penetrante e uma insistência em ver a realidade sem as distorções das ideias feitas, das ideologias partilhadas e do que se considera que é bonito pensar hoje em dia, ambos servidos por uma prosa quase tão magistral quanto a de Orwell.

"Thank You For Not Expressing Yourself" acaba de ser publicado e é sobre este fenómeno inacreditável que se encontra nos comentários da Internet: a falta de civilidade, simpatia e sensatez. Tudo começa com o que aconteceu recentemente a Dawkins, que pretendeu eliminar o imenso ruído (comentários irrelevantes e sem relação com o conteúdo que supostamente estaria a ser comentado) dos comentários do seu site; a reacção não se fez esperar, e todos os nomes feios lhe chamaram. E a primeira ideia é logo falar de censura -- um completo absurdo, como nota o doutor Theodor, porque a censura é impedir alguém de ser publicado; não é censura recusar-se a publicar o que alguém escreve. Ou seja, não é censura eu impedir neste site, como Dawkins, os comentários irrelevantes ou tolos ou insultuosos, porque não estou a impedir essas pessoas de publicar precisamente essas coisas, mas noutro lado qualquer que não aqui. Censura seria eu impedi-las de publicar essas coisas, não aqui, mas em absoluto.

O fenómeno da irrelevância e da falta de civilidade nos comentários da Internet é muito interessante, e o doutor Theodore faz dele uma análise que subscrevo. Acrescento apenas que estaríamos a recusar ver a realidade caso se considerasse que é o meio que faz as pessoas agirem como brutos não o sendo todavia; pelo contrário, a vantagem do meio é mostrar à humanidade o que a humanidade realmente é: um grupo de pessoas totalmente reféns dos brutos que entram a matar e eliminam a possibilidade da discussão racional de ideias, de alternativas, de propostas. Na verdade, eliminam a possibilidade de qualquer outro género de sociedade excepto uma sociedade de brutos, que é a única que conseguem conceber. O curioso disto, como nota o doutor Theodor, é que muitos destes brutos são professores universitários (escondidos pelo habitual anonimato da Internet).

5 comentários:

  1. Desidério

    Talvez a afirmação de que não é censura recusar-se a publicar o que alguém escreve precisa ser desenvolvida melhor. Imagine o seguinte caso: uma pessoa submete um artigo a uma revista de filosofia, seguindo à risca os critérios exigidos pela revista e o artigo é recusado. O que aconteceu? Ao procurar mais informações constata-se que a revista tem publicado artigos piores, até segundo os critérios exigidos pela própria revista. Só depois esta pessoa descobre que o que conta é a titulação ou a bibliografia escolhida (por exemplo, se é você for um doutor tem mais chances de ser publicado, se for um aluno de graduação não tem chance alguma ou artigos com a bibliografia analítica têm menos chances de serem publicados que artigos com bibliografia continental), mas nada disso está nas normas da revista. Em suma: as pessoas responsáveis pelo periódico possuem critérios que não são os critérios explicitados nas normas da revista (são continentais) e, por isso censuram o artigo, que não é publicado. Isso me parece completamente arbitrário e acaba por ser censura. Portanto não me parece uma boa idéia dizer que a recusa de publicação nunca é censura, sem mais. No mínimo é preciso especificar isto, algo como: não é censura recusar-se a publicar o que alguém escreveu se isto não satisfaz os padrões exigidos pela revista ou as normas de civilidade mínimas numa discussão de internet, como é o caso dos sites.

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  2. Não me convenceste. Seria censura se quem recusou publicar o teu artigo nessa revista te impedisse de publicar em qualquer outra revista. Mas a partir do momento em que podes publicar noutras revistas, não é censura.

    Contudo, essa rejeição não é correcta, mas por outras razões. Não é correcta por ser incompatível com os próprios critérios da revista; e mesmo que seja compatível com os critérios da revista, continuaria a ser incorrecta se o artigo é melhor ou pelo menos tão bom, sob qualquer avaliação imparcial, do que outros artigos publicados na revista. Assim, haveria erro do director da revista, mas o erro não é um tipo de censura. É apenas incompetência e parcialidade -- duas propriedades comuns, mas não menos desagradáveis.

    E por falar em parcialidade, há aqui outro aspecto em que as pessoas fazem também muita confusão. Sempre que publico na Crítica qualquer coisa que viola as ideias preferidas de alguém -- marxismo, por exemplo -- as pessoas acusam-me de parcialidade. Mas só poderiam acusar-me de tal coisa se me enviassem um artigo marxista com a mesma qualidade e eu me recusasse a publicar, coisa que não acontece.

    Portanto: nem tudo o que parece censura o é, e nem tudo o que parece parcialidade o é.

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  3. Já fui apresentado a crítica arguta de Dalrymple por meio da leitura de outro artigo - o mesmo retratava a pobreza como uma condição social do desenvolvimento humano atual - e confesso que de pronto me identifiquei com sua argumentação.
    Ao ler os comentários acima novamente convenci-me da linha de raciocínio deste autor, pois novamente reconheço que na Era Digital os indivíduos passaram a requerer liberdade irrestrita de falar ou escrever aquilo que desejam em qualquer lugar, seja apropriado ou não. Acredito que toda liberdade repercuta na responsabilidade pessoal de quem a goze e haja restrição aos excessos que tão pouco acrescentam ao contexto da obra autoral.
    De fato há a necessidade de expressão individual, porém não se deve penalizar a sociedade com divagações ou tergiversações esdrúxulas.

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