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Mensagens

A mostrar mensagens de Abril, 2010

Pensamento lateral

Quando a banha da cobra da auto-ajuda ainda não tinha o pujante viço que tem hoje, surgiu a ideia de que havia uma maneira especial de pensar. Consistia em pensar para o lado, dando relevância a outra coisa que não o que parece relevante à primeira vista. Talvez esta técnica mais ou menos mágica de pensar seja importante e mereça divulgação. Mas hoje em dia, no contexto dos blogs, faz falta a defesa do pensamento anti-lateral, pois o que mais se vê é alguém escrever um artigo sobre cosmologia e depois os comentários são todos sobre carapaus. Foi o que aconteceu no meu artigo anterior. De modo que é tempo de fazer a apologia do pensamento anti-lateral, e de estimular os comentadores a comentar exactamente o que está escrito e não seja o que for que, por via de interessantes associações de ideias e palavras, lhes ocorre naquele momento. Uma boa regra é: se nada tenho para dizer sobre o que acabei de ler, não vale a pena falar de outra coisa fingindo que estou a falar daquilo. Ao fim ao …

Sociedades da privacidade e desresponsabilização

Falei noutro texto de uma característica curiosa de algumas sociedades a que chamo “sociedades da privacidade” — sociedades nas quais a vida privada é a única coisa genuinamente valorizada pela generalidade das pessoas, encarando-se a profissão como uma coisa chata que se tem de fazer para ganhar a vida. Poderia ter-lhes chamado “sociedades da infantilidade”, pois só adultos com uma mentalidade infantil podem ter esta perspectiva da vida.

Mas não falei de um aspecto central da mentalidade das sociedades da privacidade: a desresponsabilização. Ao falar com qualquer profissional de qualquer área, ele dirá cobras e lagartos da sua própria profissão: que muita coisa está mal, que devia ser diferente, etc. Mas, surpreendentemente para quem não tem essa mentalidade infantil, esse mesmo profissional nunca sequer tentou melhorar as coisas na sua profissão — quanto mais tentar continuamente melhorá-las, como é próprio de qualquer profissional propriamente dito.

Isto compreende-se melhor com …

Ciência e contradição pragmática

Uma tendência recente de alguns intelectuais públicos é uma certa histeria pró-ciência, geralmente associada a uma igual histeria anti-religião. Esta atitude foi rapidamente copiada por alguns defensores nacionais da ciência. E está profundamente errada.

O erro chama-se “contradição pragmática”. É o que acontece quando uma pessoa grita: “Não estou a gritar!”. É o que acontece quando o facto de se fazer algo contradiz o que se está a afirmar. No caso dos patriotas da ciência, para usar a expressão de Carlin Romano, a contradição resulta de o discurso montado contra a religião e em prol da ciência exibir todos os vícios de forma e conteúdo que eles mesmos dizem ver na religião e na superstição. Neste artigo, Carlin Romano explica o que há de errado com esta postura.

Parricídio filosófico

O Rolando afirma aqui e aqui que a filosofia do 12.º ano em Portugal morreu. Isto não é novidade. Ao passo que antes do actual programa havia várias turmas de filosofia do 12.º ano em cada escola, hoje dificilmente há uma escola por distrito que tenha uma só turma do 12.º ano de filosofia.

Mas por que razão isto aconteceu? A verdade, desagradável, é que foram os próprios professores que a mataram ao inventar um programa absurdo, que consiste numa lista de obras de leitura integral. As minhas críticas mais minuciosas ao programa encontram-se neste livro. Aqui, só quero sublinhar o seguinte: com um programa em que é impossível prever que formação o aluno terá no final do ano, seria previsível que os cursos que exigiam formação em filosofia tenham deixado de a exigir, como foi o caso de Direito (que envolve milhares de alunos em todo o país, todos os anos). Daí a desertificação, que era perfeitamente previsível.

Portanto, não se queixem agora os professores portugueses de filosofia, po…

No país da filosofia II

A França é um país onde praticamente não se escrevem livros introdutórios às diferentes disciplinas da filosofia. Mas isso não impede as pessoas de se entusiasmarem com uma boa polémica filosófica, como a que tem ocupado os principais jornais e canais de televisão franceses nos últimos dias.

A polémica surgiu a propósito do último livro de Michel Onfray, publicado na semana passada. Ainda o livro, intitulado Le Crépuscule d'une Idole: L'Affabulation Freudienne (O Crepúsculo de um Ídolo: A Efabulação Freudiana), não tinha saído e já soavam as trombetas a anunciar o escândalo. Onfray tem-se desdobrado nos jornais e televisões, queixando-se dos mimos com que o têm presenteado: fascista, anti-semita, maniqueísta de direita (parece que o problema é ser de direita porque chamar-lhe maniqueísta de esquerda não seria ofensivo) e outras tiradas ad hominem.

Para quem acompanha minimamente o ambiente intelectual no país da filosofia, isto até que nem devia ser assim tão surpreendente. Os…

Temos um bom ensino da filosofia no ensino secundário?

Quando discuto o ensino da filosofia no ensino secundário em Portugal defendo a ideia de que temos um mau ensino da filosofia partindo de uma premissa que é algumas vezes discutida, a de que temos uma má formação académica em filosofia. O argumento formalizado será este:
Se temos uma má formação em filosofia, então temos um mau ensino da filosofia Temos uma má formação em filosofia Logo temos um mau ensino da filosofia
O argumento é válido, é um Modus Ponens. Mas será um bom argumento? Para ser um bom argumento, além de ser dedutivamente válido, tem de ter premissas verdadeiras e as premissas tem de ser mais plausíveis que a conclusão. Que acha o leitor?

Ensino e filosofia, linguagem e metafísica

Estarei na UFMG, em Belo Horizonte, nos próximos dias 3 e 4 de Maio para dar duas conferências.

A primeira, intitulada "Ensinar a Filosofar", dia 3 de Maio, às 11:30 horas, dirige-se a alunos de licenciatura e versa sobre alguns dos problemas que o ensino da filosofia enfrenta, sobretudo no ensino médio, e que estratégias se pode usar para os resolver.

A segunda, intitulada "Kripke Acerca da Linguagem e da Metafísica", dia 4 de Maio, às 14:00 horas, dirige-se a alunos de graduação e mestrado que já tenham tido algum contacto com as teorias da referência e do significado de Russell e Frege (descritivismo), e visa esclarecer aspectos centrais da teoria da referência de Kripke, incluindo alguns aspectos da sua metafísica que costumam ser confundidos (e.g. a tese da designação rígida não implica o essencialismo; na verdade, sem ela é impossível ser anti-essencialista).

Um mundo sem Deus

Está já à venda a minha tradução de Um Mundo Sem Deus: Ensaios sobre o Ateísmo, colectânea de ensaios dirigida por Michael Martin (originalmente, um dos Cambridge Companions). Na Crítica podemos ler um dos capítulos: "Teorias Antropológicas sobre a Religião".

Palavra e objeto

A edição brasileira de Palavra e Objeto, de Quine, com tradução de Sofia Stein e minha está já à venda no site da Vozes. Ainda não chegou às livrarias, contudo. Na Crítica, podemos ler dois excertos da minha tradução: "Proposições e Frases Eternas" e "Ascensão Semântica".

Pitágoras e os pitagóricos

Poucas pessoas sabem que quase tudo o que se conta por aí sobre Pitágoras e os pitagóricos é mentira. Desde a publicação de Weisheit und Wissenschaft: Studien zu Pythagoras, Philolaus und Platon 1962, de Walter Burkert, sabemos que a imagem tradicional de Pitágoras é quase inteiramente falsa. O mito resulta de várias vicissitudes históricas, a principal das quais foi o facto de os sucessores de Platão desejarem encontrar uma autoridade antiga que defendesse algo semelhante à sua versão de platonismo. Mesmo a ideia tradicional de que Pitágoras terá sido um matemático exímio, ainda que não tenha descoberto o famoso teorema que hoje tem o seu nome, é presumivelmente falsa; segundo o próprio Aristóteles, os pitagóricos desenvolveram um misticismo numerológico, mas nada que se parecesse com matemática propriamente dita; sobretudo, não foram os pitagóricos que descobriram a noção de demonstração matemática.

M. F. Burnyeat explica aqui a revolução que foi o livro de Burkhert, e como ainda ho…

Uma Breve História da Filosofia Moderna

Já dispomos de uma tradução brasileira do livro de Roger Scruton, Uma Breve História da Filosofia Moderna. Foi publicada pela editora José Olympio. O livro pode ser comprado aqui.

Roger Scruton

Acabei de saber a partir do Blogue, Logosfera, da autoria de Carlos Marques e Helena Serrão da publicação para breve em Portugal do livro de Roger Scruton,A Short History of Modern Philosophy : From Descartes to Wittgenstein (Routledge Classics). A edição em Portugal será da Guerra & Paz que de resto já tem publicados outros títulos de Scruton. Pode ler-se um excerto da obra aqui.

Sentido na vida

A Princeton University Press acaba de anunciar um novo livro de Susan Wolf sobre o sentido da vida. Trata-se de apenas dois ensaios sobre o tema, seguidos de comentários críticos de John Koethe, Robert M. Adams, Nomy Arpaly & Jonathan Haidt, precedidos por uma introdução de Stephen Macedo, que pode ser lida aqui. Na Crítica podemos ler de Susan Wolf os artigos "Os Sentidos das Vidas" e "O Sentido da Vida"; e no livro Viver para Quê? encontra-se o seu ensaio clássico, "Felicidade e Sentido: Dois Aspectos da Vida Boa".

No país da filosofia

Se há país onde onde a filosofia e o seu ensino têm um estatuto de intocabilidade é a França. Os franceses consideram-se mesmo o país da filosofia. Por isso, todos os estudantes franceses têm de fazer, no final do secundário (o bac, como lhe chamam), um exame nacional de filosofia.

O bac philo é uma verdadeira instituição. O exame tem apenas uma pergunta (o que está de acordo com o programa, que é simplesmente uma lista de noções filosóficas e outra de autores, que os professores podem combinar como quiserem) e os estudantes têm de dissertar sobre o assunto. Há na net vários sítios, como este, este ou este, com listas de questões possíveis e sugestões de respostas a essas questões, que se fazem pagar pelos seus serviços.

Uma das coisas que se tem discutido frequentemente entre estudantes é se os resultados do exame do bac philo são uma lotaria, dada a disparidade de critérios e daquilo que se pode dizer numa prova assim. Muitos alunos e pais encaram as coisas precisamente dessa forma:…

Informação e contição

Numa resposta ao Rolando, Frank defendeu implicitamente que num argumento dedutivo válido a informação contida na conclusão está já contida nas premissas, sendo apenas um rearranjo desta. Será? O que pensam os leitores?

Pessoalmente, não consigo tornar interessante, ou sequer verdadeira, esta afirmação, que era muito comum em livros de lógica dos anos 50. Por exemplo, o argumento "Sócrates era grego; logo, a vida tem sentido ou a vida não tem sentido" é válido. E não vejo que a informação da conclusão esteja contida nas premissas.

O único sentido que consigo dar à afirmação tradicional é o seguinte: qualquer pessoa adequadamente formada, que saiba lógica, é capaz de saber que a conclusão é verdadeira se as premissas o forem. Mas isto não significa que a conclusão não contenha mais informação do que as premissas. A menos que se defina falaciosamente "informação" ou "conhecimento" de maneira a que seja idêntico a "conhecimento a posteriori".

Eis…

Prémio de título mentiroso

Depois de descobrir a edição portuguesa de Ryle, eis um novo caso de edição enganosa: o livro de Putnam intitulado O Colapso da Dicotomia Facto/Valor no Brasil chama-se... O Colapso da Verdade. Não há diferença alguma entre os dois, pois não?

Thomas Mautner

Muitos autores começam por admitir que não têm uma definição clara de pós-modernismo e que não é claro o que é abrangido pelo termo, mas depois passam a celebrá-lo intensamente — um procedimento curioso.

Teoremas da completude

Acabo de publicar uma recensão, da autoria de Rui Daniel Cunha, do livro The Mathematics of Logic, de Richard Kaye.

Big Bang chega a Portugal

Mais vale tarde que nunca. Big Bang, de Simon Singh, chega finalmente a Portugal, em edição que a Gradiva anuncia para este mês. Originalmente publicado em 2004, a tradução brasileira foi publicada em 2006. Trata-se de um dos melhores livros de divulgação científica que me foi dado ler. A recensão que publiquei em 2006 sobre a edição inglesa está aqui. Se quer saber quem somos, de onde viemos e tudo isso, leia este livro e deixe-se de fitas.

A mente segundo Dennett segundo João

Acabo de publicar uma recensão, da autoria de Eduardo Benkendorf e Nivaldo Machado, do livro A Mente Segundo Dennett, de João de Fernandes Teixeira.

Filosofia Antiga já tem capa

Consumismo cultural

Quando se fala de consumismo dá-se quase sempre o exemplo de pessoas que  não resistem a comprar electrodomésticos, gadgets, roupas de marca, jornais desportivos e coisas assim. Além disso, o consumista é frequentemente visto como alguém inculto e vagamente exibicionista. Mas isto não passa de uma caricatura bastante enganadora, pois dá a entender que o consumismo exclui os chamados "bens culturais", como os livros, os discos ou os concertos.

Há pessoas que coleccionam livros e discos como quem colecciona caricas ou gadgets. E não vejo qualquer superioridade dos consumidores de livros e discos em relação aos consumidores de telemóveis. Ambos são consumidores e, na maior parte dos casos, ambos exemplificam o mesmo tipo de atitude social.

O consumidor de livros, quando já perdeu a ilusão de que comprar muitos livros o torna mais letrado, limita-se a comprar livros por rotina ou para impressionar os outros com uma erudição que não tem. Quantas vezes esses livros nunca são lidos…

Research, scholarship, education

Esta tríade conceptual resume bem o que deveria ser a missão de qualquer universidade, distinguindo claramente três actividades fundamentais, que não devem ser confundidas, ainda que todas ganhem com a interacção com as outras. Infelizmente, não sei sequer como raio dizer isto em português.

A confusão entre estes três aspectos é recorrente nas zonas mais debilitadas da vida académica. Chama-se “investigação” ou “pesquisa” ao que de facto é, na melhor das hipóteses, mera scholarship: relatos, que podem ser muito importantes e bem feitos, da investigação alheia. Mas a investigação, propriamente dita, é a criação de conhecimento novo; não é repetir o que disse Kant, é fazer o que fez Kant. Por outro lado, sem uma educação sólida, nunca será possível ter bons investigadores, porque ficaram de tal modo mal formados desde o início que na melhor das hipóteses conseguirão fazer relatórios sofríveis sobre o que disse Aristóteles ou Platão.

Quero formular esta tríade em português, mas não sei…

Compre artigos pelo Comut

Essa dica vai para os brasileiros interessados em comprar artigos de filosofia: todo pesquisador brasileiro sabe que para adquirir artigos não disponíveis gratuitamente no Portal Capes, só é possível recorrer a duas opções: comprar o artigo diretamente no site do periódico relevante ou comprar através do Comut, por meio da biblioteca de sua universidade. O que pouca gente sabe é que é possível comprar os artigos diretamente no próprio site do Comut, sem mediação da biblioteca e com preços ainda mais baixos. Para comprar os artigos pelo site, basta seguir os seguintes passos:

1° Passo: para se cadastrar no site utilize o seu número de CPF (ou documento estrangeiro equivalente) e senha.

2° Passo: escolha as opções cadastro -> bônus -> comprar, nessa ordem. Aqui você comprará o bônus que irá gastar na compra de artigos, capítulos de livro, anais de congressos ou teses. O valor do bônus não diminui com a frequência da compra. O valor é de R$1,82 para cada bônus. Se você comprar 15 bô…

Coleção Os Grandes Filósofos

A editora Unesp tem contribuído para o desenvolvimento da filosofia no Brasil com publicações de obras de filosofia indispensáveis. Ela já publicou a algum tempo a tradução da excelente coleção de bolso da Routledge: "Os Grandes Filósofos" . Os consultores da coleção são Ray Monk e Frederic Raphael. Os livros têm em torno de sessenta páginas e apresentam um pouco da vida e da teoria de filósofos como Bertrand Russell, Collingwood, Hume, Ayer, Schopenhauer, entre muitos outros. Vale a pena conferir!

A Filosofia de Leibniz

Alguns livros de Leibniz e sobre a sua filosofia foram publicados em português, vale a pena divulgá-los:
Discurso de Metafísica

A Monadologia e Outros Textos

Discurso de Metafísica e outros textos

Sistema Novo da Natureza e da Comunicação das Substâncias e outros textos

Leibniz de G.Macdonald Ross

Compreender Leibniz de Franklin Perkins

Um dilema moral

François de Salignac de la Mothe Fénelon (1651-1715), bispo de Cambrai, é o autor do romance Les aventures de Télémaque 1699 (As Aventuras de Telémaco 2006), que transmite um conjunto de ideais políticos ponderados e sensatos a ser observados pelos governantes de um país. O anarquista e romancista inglês William Godwin (1756–1836), pai de Mary Shelley (1797–1851), autora de Frankenstein, or the Modern Prometheus 1818 (Frankenstein, ou o Prometeu Moderno), usou Fénelon como paradigma de um grande benfeitor da humanidade na seguinte experiência mental.

O leitor pode salvar apenas uma pessoa de um edifício em chamas. Das duas que estão no interior, um é um criado, um bêbado preguiçoso e grosseiro, dado a brigas e desonesto, a outra é o Arcebispo Fénelon. Quem deve salvar?

A resposta é óbvia: deve salvar o grande benfeitor da humanidade, porque, ponderando todos os factores, é isto o que terá provavelmente as melhores consequências. (Godwin era utilitarista.)

Mas há um senão nesta histó…

Plágios, tradutores e autores

Denise Bottmann, tradutora brasileira, tem agitado as águas pardas da melancolia editorial brasileira. Descobriu que uma prática infeliz de alguns editores brasileiros consiste em reeditar traduções antigas, mudando o nome do tradutor — para um nome fictício ou não, não interessa — fingindo tratar-se de nova tradução.

Não fosse o tradutor nos países de língua portuguesa (Portugal incluído) considerado um moço de recados, e esta prática seria naturalmente inaceitável e impugnável em tribunal. Pois imagine-se o que seria eu, como editor, pegar num romance qualquer com trinta ou quarenta anos (ou duzentos anos!), e que caiu no esquecimento, reeditá-lo e... tirar o nome do autor e enfiar-lhe outro nome qualquer. Evidentemente, num caso destes, o crime intelectual seria evidente. Já no caso dos tradutores as pessoas assobiam para o ar e fingem que está tudo bem.

Do meu ponto de vista, isto deve-se ao estatuto absurdo que tem o tradutor em Portugal e no Brasil, ao contrário do que ocorre …

Patriotismo linguístico

Uma língua reflecte muitas coisas. Não é uma entidade linguística pura, um instrumento puro de comunicação e entendimento, de arte e elegância. Reflecte aspirações sociais, objectivos políticos, modos de vida. Por vezes, reflecte o que há de mais tolo e caricato na mentalidade de uma população.

Portugal é um dos mais antigos países do mundo, com fronteiras inalteradas há quase nove séculos. No entanto, há uma certa ansiedade patriótica em alguns sectores da sociedade, resultado talvez da irrelevância cultural, económica e política do país em termos internacionais.

A língua portuguesa é, em grande parte, uma mentira política. Separou-se do castelhano artificiosamente, para marcar a diferença nacional — e os portugueses perderam com isso, pois hoje poderiam bem pertencer a essa gigantesca língua, sem que isso ameaçasse de modo algum a independência política e cultural de Portugal. Por vezes, essa separação linguística foi feita à toa: os portugueses deixaram de dizer “mais grande”, co…

Refutação do materialismo

Segundo Leibniz, o que é verdadeiramente real, no sentido de ser real em última análise, é o que não depende de outra coisa qualquer para existir. É o que existe por si mesmo. A ideia é que o que depende de outra coisa deve a sua realidade a essa coisa, sem a qual não existiria.

Daqui segue-se que o verdadeiramente real não pode ter partes. Isto porque se tivesse partes dependeria delas para existir: uma bicicleta não pode existir sem as suas rodas, uma molécula sem os seus átomos.

Daqui segue-se que o que é verdadeiramente real não pode ter extensão espacial, pois tudo o que tem extensão espacial tem partes — as suas partes espaciais.

Daqui segue-se que o materialismo e o atomismo estão errados. O fundamentalmente real não pode ser material, porque não pode ter extensão espacial. Logo, tem de ser espiritual. QED

O que pensa o leitor?

Símbolos

Uma das ideias feitas curiosas é a de que devemos respeito e subserviência a certos símbolos: a bandeira, o hino, uma cruz, etc. Penso que isto é um disparate. Devemos respeito a pessoas, e não a símbolos. Na verdade, penso que qualquer adulto deve desrespeito aos símbolos, ou pelo menos completa indiferença.

Um aspecto curioso quando se fala de símbolos é a atitude paternalista das pessoas que os defendem. O argumento usado é mais ou menos este: “Sem o respeito pelos símbolos, seria o caos”. Quando pergunto a quem usa este argumento se sem respeito pelos símbolos me iria matar ou passar a ser um ladrão, ela responde que não — mas que isso aconteceria com "os outros". Isto é curioso. Nunca conheci pessoa alguma que aceitasse que sem símbolos se tornaria um renegado, e conheço infelizmente muitas bestas sem respeito algum pelas pessoas que no entanto respeitam os símbolos. Então, para que servem os símbolos?

A resposta é que serve para dominar e manter os seres humanos na me…