7 de abril de 2010

Consumismo cultural

Quando se fala de consumismo dá-se quase sempre o exemplo de pessoas que  não resistem a comprar electrodomésticos, gadgets, roupas de marca, jornais desportivos e coisas assim. Além disso, o consumista é frequentemente visto como alguém inculto e vagamente exibicionista. Mas isto não passa de uma caricatura bastante enganadora, pois dá a entender que o consumismo exclui os chamados "bens culturais", como os livros, os discos ou os concertos.

Há pessoas que coleccionam livros e discos como quem colecciona caricas ou gadgets. E não vejo qualquer superioridade dos consumidores de livros e discos em relação aos consumidores de telemóveis. Ambos são consumidores e, na maior parte dos casos, ambos exemplificam o mesmo tipo de atitude social.

O consumidor de livros, quando já perdeu a ilusão de que comprar muitos livros o torna mais letrado, limita-se a comprar livros por rotina ou para impressionar os outros com uma erudição que não tem. Quantas vezes esses livros nunca são lidos ou são apressadamente lidos apenas para não se ser apanhado em falso numa conversa?

6 comentários:

  1. Reconheço-me no segundo parágrafo deste post. É uma atitude lamentável da minha parte que tenho de corrigir. Com o terceiro parágrafo já não me identifico. Graças a Deus.

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  2. Concordo em absoluto. Já uma vez defendi este ponto de vista e fui imediatamente insultada pelos 'novos ricos culturais'. lolol

    Sofia P.

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  3. Só o simples facto de escolher e comprar um artigo dito cultural é por si só um acto de cultura. Pois quando compramos algo deste género, como qualquer outro bem, se fizermos uma escolha, por mais superficial que seja, entramos sempre em contacto com a essência da coisa que compramos. Quando andamos a ver e escolher livros para comprar estamos sempre aprender e conhecer algo de novo. Não podemos conhecer e ler todos os livros do mundo, mas ter uma noção do que existe e do que está ao nosso dispor já é só por si sabedoria.

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  4. Segundo a Infopédia (Enciclopédia e Dicionário Porto Editora online), consumismo é:
    1. Sistema económico e social que favorece o consumo exagerado;
    2. Tendência para consumir exageradamente;
    3. Procedimento resultante desta tendência.
    Parece-me que o texto refere-se ao segundo ponto. Se assim for, qualquer pessoa que tenha uma tendência para consumir exageradamente será uma consumista, seja qual for o objecto de consumo ou a motivação que a leva a ter esse comportamento.
    Agora, se pegarmos no conceito de consumismo e o levar-mos para outros contextos que não o económico, como já foi feito, parcialmente, pelas áreas de tratamento de adições que usam a palavra consumo, poderemos observar essa tendência para o consumo a revelar-se noutras situações e com outros objectos. Recordo-me, especificamente, de Erich Fromm, psicanalista alemão, que, inspirado pelas ideias marxistas, introduz o conceito de consumo na esfera das relações afectivas humanas, pelo menos, na sua obra A Arte de Amar.

    Bem haja a todos

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  5. Há algum tempo atrás havia escrito um pequeno texto sobre esse tipo de consumismo demonstrado no primeiro parágrafo. Avaliei-o parcialmente errado, pois desconsiderei o lado apresentado por você no segundo parágrafo. Na época nem atinei para o lado cultural da questão. Seu texto abriu meus olhos. Eu mesmo, às vezes, acabo comprando livros por impulso.
    Belo texto! Ele ampliou meus pensamentos com relação ao consumismo.

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  6. Penso que o consumismo pode ser entendido como algo subjetivo, ou como algo social. De um ponto de vista subjetivo, trata-se de uma compulsão ao consumo. Do ponto de vista social, trata-se de uma tendência social exagerada ou cega para o consumo de bens ou mercadorias. Tal tendência é estimulada ou pelos meios de comunicação ou pelo ambiente social no qual vivemos. Creio que deveríamos nos perguntar a razão pela qual é possível acreditar que o consumismo tem um caráter negativo. Evidentemente, o consumo de bens ou mercadorias não é ruim por si só. Se consumir significa adquirir um bem ou mercadoria necessário para sobreviver ou para satisfazer algum desejo, parece que não há nada de ruim nisso. Mas parece que o consumo se torna algo ruim ou preocupante quando ultrapassa o bom senso ou torna-se algo que impede a realização de outras coisas que poderíamos considerar mais valiosas. É possível também dizer que o consumismo acaba nos fornecendo uma falsa felicidade ou uma felicidade muito efêmera e, neste caso, é ruim em razão de representar uma ilusão ou uma mera futilidade. Haverá, ainda, quem diga que o consumismo é ruim porque faz parte da lógica capitalista, que precisa produzir cada vez mais para que a classe dominante obtenha cada vez mais lucro ou acúmulo de capital, alimentando, assim, a situação de injustiça típica do sistema capitalista. Bem, eu particularmente penso que o consumismo seria ruim por todas estas razões.
    Talvez uma pessoa que compre um livro apenas para dar aparência de erudição seja um caso peculiar de consumismo. Porém, é possível que uma pessoa, sedenta por conhecimento, compre vários livros acreditando sinceramente que irá conseguir lê-los. Creio que só poderíamos avaliar tal situação como tipicamente consumista se o indivíduo estivesse bastante consciente de que nunca teria a oportunidade de ler os livros e, ainda assim, insistisse em comprá-los.

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