27 de abril de 2010

No país da filosofia II

A França é um país onde praticamente não se escrevem livros introdutórios às diferentes disciplinas da filosofia. Mas isso não impede as pessoas de se entusiasmarem com uma boa polémica filosófica, como a que tem ocupado os principais jornais e canais de televisão franceses nos últimos dias.

A polémica surgiu a propósito do último livro de Michel Onfray, publicado na semana passada. Ainda o livro, intitulado Le Crépuscule d'une Idole: L'Affabulation Freudienne (O Crepúsculo de um Ídolo: A Efabulação Freudiana), não tinha saído e já soavam as trombetas a anunciar o escândalo. Onfray tem-se desdobrado nos jornais e televisões, queixando-se dos mimos com que o têm presenteado: fascista, anti-semita, maniqueísta de direita (parece que o problema é ser de direita porque chamar-lhe maniqueísta de esquerda não seria ofensivo) e outras tiradas ad hominem.

Para quem acompanha minimamente o ambiente intelectual no país da filosofia, isto até que nem devia ser assim tão surpreendente. Os intelectuais franceses (em França as coisas nunca se passam só entre filósofos, até porque os não filósofos são sempre um bocadinho filósofos) pelam-se por uma boa polémica que lhes permita aguçar o verbo e exibir a sua autoridade. O estilo quase heróico, contundente, e fanfarrão é muito frequente entre os "intelectuais" franceses. É por isso que as discussões raramente se ficam apenas por aí; transformam-se normalmente em polémicas. A polémica, diferentemente da discussão, assemelha-se mais a um desporto radical, com montes de adrenalina a saltitar. É também por isso que o grande público nunca regateia o espectáculo de uma boa polémica filosófica nos jornais ou na TV.

Mas o que diz Onfray de tão escandaloso, a ponto de suscitar tamanha polémica? Bom, num ambiente intelectual como o francês, só o título do livro já chega para justificar o escândalo. Onfray ousa tocar num dos nomes da santíssima trindade filosófica que caracteriza o universo intelectual e filosófico francês dos últimos cem anos. Houve tempos não muito distantes em que encontrar um filósofo ou intelectual francês que não fosse marxista, nietzscheano ou freudiano era mais difícil do que encontrar um padre ateu. Muitos eram simultaneamente marxistas, nietzscheanos e freudianos.

Ora, Onfray, diz ter lido tudo o que Freud escreveu, incluindo toda a sua correspondência, e concluiu que o fundador da psicanálise foi um brilhante impostor, que manipulou, distorceu intencionalmente e até inventou casos que nunca aconteceram. Considera que a psicanálise não tem qualquer carácter científico (eia, Onfray descobriu a pólvora!) e que se assemelha mais a uma religião com os seus sacerdotes obedientes ao papa fundador, sem esquecer a promessa de cura dos males das pessoas. Pior, Onfray defende que tudo começa no duvidoso carácter do seu fundador, que se considerava um génio da ciência só igualado por Copérnico e Darwin, mas que trabalhou e escreveu durante doze anos sob o efeito da cocaína em que se tinha viciado, que teve continuadamente relações adúlteras com a cunhada, que gostava muito de dinheiro, que era misógino e homofóbico, etc.

Onfray até parece ser um tipo simpático, com um discurso mais claro e articulado do que muitas das vedetas filosóficas francesas, sempre prontas a cantar de galo. Mas, ficamos algo perplexos com alguns dos seus argumentos, sobretudo quando o vemos queixar-se dos ataques ad hominem que lhe são dirigidos.

Enfim, no país da filosofia há "discussões filosóficas" assim.

6 comentários:

  1. Aires,

    Apenas uma nota: é verdade que Freud tomou cocaína durante anos, mas isso deve-se a uma outra razão que não o lado lúdico. Naquele tempo, a cocaína era usada para fins médicos e não se conheciam os seus efeitos psicotrópicos. Sucede que Freud tinha um cancro, do qual viria a falecer, que lhe proporcionava dores intoleráveis. O consumo de cocaína, medicamente prescrito, era aconselhado como medicamento de um modo generalizado. O próprio Freud escreveu algumas cartas em que se interrogava sobre os "efeitos estranhos" e as "estranhas sensações" provocadas peo consumo da cocaína. Só uns anos mais tarde a cocaína (e não apenas) viria a ser banida da prática médica. Hoje assistimos ao percurso inverso: questiona-se se em determinadas circunstâncias será preferível regressar à prescrição médica de vários psicotrópicos.

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  2. No número de Fevereiro da revista “Philosophie”, Jacques-Alain Miller (à defesa) e Michel Onfray (ao ataque) polemizam no melhor estilo "French Theory" sobre Freud, o Freudismo e a Psicanálise. Eis algumas das questões abordadas nessa discussão, vertidas agora nesta obra recente de Onfray:
    É a psicanálise, epistemicamente, uma teoria freudulenta? Acumula postulados infundados e propõe a existência de "objectos teóricos" fictícios (Inconsciente, Complexo de Édipo, Tópicas)? É a ontologia do psiquismo humano proposta pelo Freudismo negada pelas neurociências? E do ponto de vista histórico-filosófico? Consuma a psicanálise o projecto crítico emancipatório das Luzes, ou constitui uma regressão antimoderna e antifilosófica a uma Weltanschauung pessimista da civilização e da cultura? O pansexualismo freudiano é da direita ou da esquerda moral? Anarco-porno-libertário-libertino-permissivo ou rigorista? É a práxis terapêutica do psicanalista da ordem da magia? Os seus efeitos são da ordem dos placebos? Condenou Freud a masturbação e o onanismo por denotarem uma sexualidade narcísica? E a homossexualidade? Defende Freud nos seus escritos que a homossexualidade é uma sexualidade parcialmente desenvolvida e incompleta? É Freud um misógino falocrata, que considera que a mulher é um rapaz inacabado?
    Todas boas questões, bem se vê!

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  3. Hélio Schwartsman trata do assunto muito bem, como sempre: http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/helioschwartsman/ult510u727245.shtml

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  4. Obrigado pela nota, Sérgio. Não estou familiarizado com a biografia de Freud, além dos factos mais conhecidos. Não sei se Onfray esclarece esse aspecto da vida Freud (não li o livro, apenas tenho acompanhado algo divertidamente a polémica desencadeada por ele), mas se não referir, parece-me algo desonesto.

    Enfim, em França há discussões (não diria que esta é sequer uma discussão filosófica) em que se fica com a ideia de que ninguém tem razão. Creio que o problema é não estarem habituados nem se sentirem obrigados a argumentar.

    É interessante o artigo que o Lennine indica e concordo com várias coisas que o autor diz.

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  5. Aires,

    Discutir é muito difícil. Na maior parte das discussões sobre o aborto, a justiça social, Deus, arte, etc., cada um põe um cachecol ao pescoço e levanta bem alto a sua bandeira. Faz lembrar os monólogos das crianças de 3 anos: falam uma para as outras, mas de forma alguma com as outras. Claro que num cenário destes a discussão não avança: limitamo-nos a produzir sound bytes. É assim que se faz política.

    Voltando a Freud...
    A psicanálise não é ciência. Mas como cita o Desidério aqui http://blog.criticanarede.com/2010/04/ciencia-e-contradicao-pragmatica.html , talvez não valha a pena fazer grande alarido em torno disso e assumir, simplesmente, que é uma interpretação que pode ou não ajudar cada um a encontrar-se na vida (chiça!, que isto agora ficou mesmo lamechas!).
    Dito de outra forma: pouco me importa que a psicanálise seja científica ou seja apenas uma ciência oculta. Interessa-me é saber se pode ajudar a resolver determinados problemas que as pessoas vivem. Por exemplo, um caso de desestruturação da personalidade "cura-se" com psicologia ou psicanálise, de nada servindo a psiquiatria...

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  6. Sérgio, discordo de ti num ponto: não acho que seja pouco importante saber se a psicanálise é ou não uma ciência. Acho até bastante relevante, nomeadamente para saber como avaliar as suas pretensões em termos terapêuticos.

    Mas já não acho que uma dada actividade ou campo de estudo só é respeitável se for científica. Não há drama algum em não ser científica, mas é precisamente isso que os psicanalistas mais ortodoxos não vêem.

    De resto, não vejo por que não haveria a psicanálise de ajudar algumas pessoas a conviver melhor com os seus problemas do foro psicológico, mesmo não sendo uma ciência. Até o desporto, a música e os passa-tempos podem ajudar as pessoas a combater alguns dos seus problemas psicológicos, quanto mais a psicanálise. Por exemplo, certos problemas de solidão podem ser tratados sem a intervenção de qualquer ciência; basta encontrar companhia.

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