20 de abril de 2010

No país da filosofia

Se há país onde onde a filosofia e o seu ensino têm um estatuto de intocabilidade é a França. Os franceses consideram-se mesmo o país da filosofia. Por isso, todos os estudantes franceses têm de fazer, no final do secundário (o bac, como lhe chamam), um exame nacional de filosofia.

O bac philo é uma verdadeira instituição. O exame tem apenas uma pergunta (o que está de acordo com o programa, que é simplesmente uma lista de noções filosóficas e outra de autores, que os professores podem combinar como quiserem) e os estudantes têm de dissertar sobre o assunto. Há na net vários sítios, como este, este ou este, com listas de questões possíveis e sugestões de respostas a essas questões, que se fazem pagar pelos seus serviços.

Uma das coisas que se tem discutido frequentemente entre estudantes é se os resultados do exame do bac philo são uma lotaria, dada a disparidade de critérios e daquilo que se pode dizer numa prova assim. Muitos alunos e pais encaram as coisas precisamente dessa forma: o resultado do exame de filosofia é uma questão de mera sorte. 

Ora, parece que se instituiu também o chamado bac blanc, que é um teste de preparação para o exame final, em tudo semelhante ao exame, e que é realizado por esta altura em todas as escolas. Um jovem que acabou de realizar essa prova disse-me hoje qual foi a questão do bac blanc. Foi a seguinte: Pode-se ganhar a vida a trabalhar? (Peut-on gagner sa vie en travaillant?)

Eis uma proposta para o leitor: tentar responder a este interessantíssimo problema filosófico.
Eis também a minha tentativa: Poder pode, pois foi o que os meus pais fizeram; mas não seria a mesma coisa... que ganhar a vida sem trabalhar.

E são estas as entusiasmantes notícias do país da filosofia. 

4 comentários:

  1. Verdadeiramente inspirador para a filosofia no secundário em Portugal.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. bom divulgar isso para acabar com esse mito de que França é o país da filosofia - está mais para cemitério de filósofos. Não faz muito tempo que um colega me disse que o doutorado sanduíche na França (parte do doutorado no país de origem e parte na França) é uma picaretagem dos diabos: praticamente nenhuma reunião com o orientador de tese, etc. Ele só mencionou isso casualmente, mas certamente não deve ser boa coisa. Já que você tem amigos por lá, Aires, deveria obter mais algumas informações sobre o funcionamento do mundo acadêmico na França. Quanto mais informações obter, mais implausível torna-se o mito.

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  4. Já estudei um semestre em França no curso "duplo" de Filosofia-Direito. O nome é pomposo, mas, só para ficar por filosofia, direi que tive as seguintes cadeiras:
    Filosofia moral e política (sim, uma coisa não vai sem a outra): o professor era um sociólogo doido varrido que saltava de Hobbes para Comte e deste para Pascal. Não posso dizer o que dali retive, porque não entendia praticamente nada do que ele dizia, mas no exame consegui...um 13, coisa que não me espantou, uma vez que fiz questão de empregar o jargão do senhor.
    Filosofia geral: é uma disciplina, onde se lecciona um grande tema da filosofia. No meu caso era a consciência. Estudávamos por um livrinho de cento e poucas páginas com excertos de textos dos filósofos representativos do tema. Fraquinho, muito fraquinho, mas sobressaía pela qualidade quando comparado com as outras aulas.
    História da Filosofia: as cadeiras de história de filosofia não obedecem a nenhuma ordem cronológica. Não sei se isto é pedagogicamente errado, mas penso que é, no mínimo, bizarro. Eu comecei por história da filosofia moderna. Supostamente, dever-se-ia contemplar os principais problemas e teorias desse período, os filósofos mais representativos e, de preferência, tomar uma atitude crítica perante eles. Qual quê! Levei com a Fenomenologia do Espírito e pronto. O livro era tratado como uma bíblia e comentado em jeito de sermão dominical. Não se analisavam ideias nenhumas e a sensação com que fiquei foi que a professora tinha escolhido aquela obra por ter ela própria uma carga historicista forte, o que poupava o trabalho à senhora de preparar materiais pela própria cabeça. O elemento de avaliação único foi um trabalho para comentar uma frase que ela tinha escrito no quadro. Sinto até vergonha de dizer isto, mas o trabalho que fiz consistiu basicamente em plagiar, com algumas adaptações, um livro de filosofia em português do ensino liceal dos anos 80. Penso que a tradução estava bem feita, porque tive um 13 (hurra!) e a nota mais alta na turma foi um 15.
    Quando acabei os exames, nem pus os pés na Universidade no 2.º semestre, pois não aguentava tanta desonestidade intelectual.
    Dito isto, a França não é o único mau exemplo, com certeza, mas há mitos que não podem perdurar contra as evidências e têm de me provar muito, muito bem, que há algo de jeito em França por estes dias em todas as áreas onde o mito esconde muitas vezes a vacuidade.

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