27 de abril de 2010

Parricídio filosófico

O Rolando afirma aqui e aqui que a filosofia do 12.º ano em Portugal morreu. Isto não é novidade. Ao passo que antes do actual programa havia várias turmas de filosofia do 12.º ano em cada escola, hoje dificilmente há uma escola por distrito que tenha uma só turma do 12.º ano de filosofia.

Mas por que razão isto aconteceu? A verdade, desagradável, é que foram os próprios professores que a mataram ao inventar um programa absurdo, que consiste numa lista de obras de leitura integral. As minhas críticas mais minuciosas ao programa encontram-se neste livro. Aqui, só quero sublinhar o seguinte: com um programa em que é impossível prever que formação o aluno terá no final do ano, seria previsível que os cursos que exigiam formação em filosofia tenham deixado de a exigir, como foi o caso de Direito (que envolve milhares de alunos em todo o país, todos os anos). Daí a desertificação, que era perfeitamente previsível.

Portanto, não se queixem agora os professores portugueses de filosofia, pois foram eles mesmos, e não o Ministério da Educação, que provocou esta situação. Os professores que fizeram aprovar e que aplaudiram este programa do 12.º ano deviam ter a hombridade de reconhecer o mal que fizeram à filosofia no país.

Quando fiz uma palestra sobre o ensino da filosofia, na Universidade do Porto, publicando depois este texto, algumas pessoas disseram (não escreveram, pois estas pessoas nunca têm a frontalidade de fazer críticas de cara levantada, parecem ter medo que alguém as leve presas) que eu era louco porque estava a condicionar o ensino da filosofia aos interesses comerciais dos editores. Isto é o tipo de ideias que têm as pessoas que não encaram o estudo da filosofia a sério. No meu modesto entender, não pode haver estudo de qualidade da filosofia sem bons livros; isto só não é evidente quando se concebe a filosofia como uma conversa de café de aristocratas cheios de tédio pela vida. Ora, não há bons livros quando fazemos um programa que na prática significa que num dado ano há 40 alunos a ler uma dada obra, outros 50 a ler outra, etc., distribuindo-se assim por dezenas de obras opcionais.

Estes dois factores mataram a filosofia no 12.º ano: mataram-na escolar, editorial e socialmente. Agora, é como se não existisse. Mas, por favor, assuma-se as culpas. Não se trata de crucificar os culpados; errar é humano e toda a gente erra. Eu conheço pessoalmente alguns dos responsáveis pelo programa, e não tenho qualquer azedume ou irritação perante eles. Fizeram um mau trabalho; toda a gente erra; paciência. Mas é importante aprender com os erros e só aprendemos com erros se começarmos por os assumir. Portanto, quem aplaudiu o programa do 12.º ano, e não apenas quem o fez, deve agora reflectir e assumir que errou, em vez de vir agora queixar-se que não há filosofia no 12.º ano. Só assim evitaremos voltar a fazer os mesmos erros. Reponham-se os exames de filosofia no 11.º ano, e estaremos a um passo de reactivar o 12.º, depois de se fazer um verdadeiro programa de filosofia para o 12.º ano.

11 comentários:

  1. Desidério:

    Gostaria muito que o exame de filosofia no 11º regressasse. De preferência, obrigatório e mais rigoroso e exigente que os exames que se têm feito noutras disciplinas nos últimos anos.
    Mas será possível fazer um exame nacional de filosofia rigoroso, exigente e justo com o actual programa de 10º e 11º? Sublinho o justo.
    Mesmo após a boa influência das Orientações de Gestão nas práticas de muitos professores e até na concepção de manuais, continua a verificar-se uma grande disparidade de abordagens. Dois bons alunos preparados por professores diferentes perante a mesma questão de exame: um poderia saber responder e o outro não.

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  2. Carlos,
    Eu acho que é perfeitamente possível fazer um exame de filosofia claro e rigoroso se os professores de filosofia se interessassem todos em fazer um ensino da filosofia claro e rigoroso.E justo. E tu diagnosticas bem o problema: mesmo com as orientações, os disparates continuaram. Imagina lá que eu sou teu aluno e te respondo num teste que a dedução é o método da ciência e a indução é o método dos filósofos. Isto é gritante, concordas? Pois é, procura lá o manual da Lisboa Editora, o de capa verde, do 11º ano. Encontras lá isto. E este é um entre dezenas de exemplos que apanhei quando examinei os manuais do 11º ano. Mais: ainda tive autores de manuais que me escreveram a chamar de ignorante e mania que sei mais que eles. E não é que sei mesmo!!! :-)

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  3. Carlos, consideras que a mudança de programa impediria ou tornaria menos provável que os alunos que têm o azar de ter professores incompetentes ficariam mal preparados para o exame, ao passo que os alunos de professores competentes ficariam bem preparados?

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  4. Ó Desidério, as coisas que a gente às vezes aprende contigo ;-) Por ex., eu não sabia que eram os professores (e não o ministério) os responsáveis pelos programas. Fico a saber...

    Já agora, vai preparando um texto sobre o fim da filosofia em todo o secundário. É que, com o galopante aumento dos profissionais, a filosofia vai de vela. Dou-te um exemplo (que não há-de ser único): na escola onde trabalho, metade das turmas já não têm filosofia -- tem A.
    de Integração. Serão, neste caso, também os professores os responsáveis pelo fim da filosofia?

    Abraço.

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  5. Gomes,
    Podes fazer tu próprio um teste. Extrapolando da qualidade dos alunos em diferentes sistemas de ensino (profissional e regular) faz lá um inquérito aos teus colegas e pergunta-lhes se preferem leccionar filosofia, psicologia, area de projecto ou filosofia? Se quiseres ir mais longe questiona também se preferem leccionar AI ou o antigo programa de filosofia do 12º ano.
    Os programas de filosofia tem a assinatura de professores de filosofia e não de "educadores" do Ministério.

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  6. O Ministério limita-se a contratar professores para fazer programas. Os professores responsáveis pelos actuais programas são conhecidos. São eles os responsáveis pelo programa do 12.º ano. O ministério teria aceitado qualquer outro programa razoável que tivessem feito, em vez de uma lista de obras de leitura integral. A responsabilidade, consequentemente, é desses professores, em particular, e não do Ministério, em abstracto.

    Mas a responsabilidade é também de todos os professores que, não sendo autores do programa, não se manifestaram atempadamente contra o mesmo. Se o tivessem feito, o programa não teria sido adoptado.

    Repito que nada me move contra os colegas, alguns dos quais conheço e prezo, que fizeram o programa. Nada me move também contra a generalidade dos professores portugueses de filosofia do ensino secundário. Mas 1) é bom aprender com os erros e 2) não o fazemos se deitarmos as culpas sempre para um anónimo Ministério.

    Quanto ao segundo assunto de que falas, já falei dele noutros textos. E, uma vez mais, a responsabilidade é também dos professores de filosofia. Em primeiro lugar, porque não protestam e nada fazem; em segundo lugar, porque a maior parte dos professores de filosofia não gosta de filosofia e prefere dar balelas em vez de filosofia. Alguns até acham que é melhor.

    Na verdade, pensando bem, eu sou das poucas pessoas que tem feito sistematicamente uma intervenção ao longo dos anos sobre os problemas do ensino da filosofia no ensino secundário, em Portugal, defendendo sempre a disciplina dos seus mais diversos ataques. E, contudo, nunca fui, e provavelmente nunca serei, professor de filosofia no ensino secundário. Nem sequer sou, e nunca fui, professor de filosofia em Portugal.

    A verdade é esta: entre a apatia da maior parte dos professores e a maldade de muitos outros que, contra o fantasma inventado de que eu sou “analítico” não se importam de destruir a própria disciplina, a situação que vivemos hoje é precisamente a que seria de prever: a extinção gradual da disciplina. Aplaudida pela maior parte dos professores de filosofia, que assim podem dedicar-se ao que realmente gostam: conversa de café nas aulas. O desconforto pela filosofia é patente nos professores de filosofia portugueses, que tudo fazem para fugir da disciplina — ele é sociologia de café, psicologia de salão, antropologia televisiva, literaturas não muito caras, conversas ecológicas e sobre a cidadania, etc., etc., etc., excepto Kant ou Platão, Aristóteles ou Tomás de Aquino, Sartre ou Heidegger, Descartes ou Hegel.

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  7. Rolando:

    Como conseguir que a generalidade dos professores de filosofia se interessem por fazer um ensino rigoroso? Um bom programa (tal como bons manuais e outros bons livros) contribui para alcançar esse objectivo – embora não garanta.

    Desidério:

    Duvido que na educação, e mesmo em outras áreas, haja situações em que a adopção de uma certa medida consiga impedir completamente seja o que for. Um bom programa de filosofia não impediria a existência de professores incompetentes, mas contribuiria para diminuir o seu número. Com um bom programa (nomeadamente, mais claro e com menos formulações vagas e ambígua – interpretáveis de modos bastante diferentes), um aluno empenhado e inteligente que tivesse o azar de ter um professor incompetente teria mais facilidade de estudar sozinho e de mesmo assim se conseguir preparar para o exame. Com o actual programa, esse aluno ao procurar manuais, livros e artigos que o pudessem ajudar tanto poderia deparar com recursos úteis e rigorosos como poderia apenas encontrar recursos tão incompetentes como o seu professor. Com o actual programa, se acusarmos esse professor de incompetência ele tenderá a refugiar-se no “isso é discutível, o autor X no manual Y diz o mesmo que eu”, em vez de se confrontar com as suas lacunas e tentar superá-las.

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  8. Um bom programa é um elemento importante no estímulo ao ensino de qualidade. Concordo. Também concordo que não é uma garantia.

    Mas além de um bom programa, é crucial haver exames. E além de exames, é crucial haver boas bibliografias.

    Contudo, de todos estes elementos, o que tem maior eficácia causal é o exame. A existência de boas bibliografias não obriga o professor a sair das tolices vagas a que está habituado. Nem um bom programa o faz, porque sem exames não é preciso cumprir o programa. De modo que os exames são um elemento central na cadeia causal.

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  9. Olá Carlos,
    Creio que o Desidério respondeu à questão que me colocas. Pelo menos eu dificilmente concebo outra forma de tornar a leccionação de filosofia mais competente. O exemplo que deste das Orientações é disso prova, creio. Antes das Orientações somente o Arte de Pensar falava em conhecimento como crença verdadeira justificada. Se falasses dessa tese à maioria dos colegas, desconheciam-na e olhavam-te, muitos deles, com desconfiança sem sequer discutir ou procurar saber se tal tese é uma tese em estudo. Isto porque pura e simplesmente praticamente não se fala nas universidades. Mas depois do ministério mandar a "ordem" que tal teoria seria leccionada todos os manuais e professores passaram a conhecer a coisa, por muito que resmungassem já que a tese ia contra aquilo que consideravam ser a filosofia. Quando fiz a formação com o Desidério sobre lógica marquei uma viragem no ensino da lógica. Comigo estiveram mais 24 professores a aprender na formação. De todos os que conheço nenhum passou a ensinar a lógica formal. Então para que foram à formação? Tanto valia ter ido à formação do Desidério como uma sobre pintar azulejos, já que em nada lhes mudou a vida profissional. Mas se a ordem vem do pai Ministério ai jesus que temos de obedecer por muito aborrecido que seja. Pá, os professores são pessoas responsáveis e com responsabilidades assumidas. Não vejo mesmo o que é que o Ministério tem a ver com isto. Pura e simplesmente não querem mudar. Ainda esta semana ouvi da boca de profissionais da filosofia que a àrea de projecto estimula o pensamento crítico tal como na filosofia e até mais. Até pode estimular mais, mas afirmar que é igual à filosofia denuncia logo que a pessoa que faz tal afirmação nem sabe o que é a filosofia ou tem uma ideia completamente vaga sobre a mesma. Eu também não sabia nada destas coisas. A diferença é que tenho aproveitado algumas oportunidades de aprender com as pessoas certas e ler alguns livros até que as coisas comecem a fazer sentido na minha cabeça. Não me dá gozo especial estar aqui a dizer estas coisas mas a maioria dos professores não se interessam muito em aprender ou têm outras coisas para fazer na vida.Isto pode ser um defeito meu, mas tenho sérias dificuldades em lidar com esta realidade já que a norma não é o interesse genuíno pela disciplina, mas o disfarce e quase completo desinteresse. Hoje mesmo falava com um colega de física, interessado e com quem esclarecço muitas dúvidas da minha deformação científica e ele fez a seguinte afirmação: " a maioria dos professores depois da licenciatura leram pouco mais que manuais escolares". Eu fui mais longe ao afirmar que conheço imensos casos que nem sequer leram nada durante a licenciatura. Tenho colegas meus que acabaram a licenciatura com uma média superior à minha até e que na biblioteca deles têm dossiers cheios de apontamentos das aulas que decoravam para fazer testes. Quando é possível fazer todo um curso de filosofia com esta estratégia, não podemos esperar daí gente por aí além interessada em ensinar o que nunca leu.

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  10. "O desconforto pela filosofia é patente nos professores de filosofia portugueses, que tudo fazem para fugir da disciplina — ele é sociologia de café, psicologia de salão, antropologia televisiva, literaturas não muito caras, conversas ecológicas e sobre a cidadania, etc., etc., etc., excepto Kant ou Platão, Aristóteles ou Tomás de Aquino, Sartre ou Heidegger, Descartes ou Hegel."

    Taí. Hoje mesmo escrevi na lista do meu ex-curso (graduação) o seguinte:

    "E por quê? Porque a fil. não é, quase sempre, o que as pessoas veem nos deptos de fil. brasileiros hoje. Lá elas veem uma espécie de salada indigesta de má literatura, sociologia simplista, política maniqueísta, psicologia de bar, poesia infantil, história politicamente correta e filosofia de movimento estudantil. Fil. elas estariam vendo se estivessem discutindo os pressupostos teóricos das teorias políticas, não os apetites ideológicos do prof."

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  11. Lenine,
    O facto, para nós da filosofia, é que se encararmos isto que estamos aqui a debater como um debate sério e honesto sobre a nossa disciplina, de certeza que todos tiramos boas conclusões do que aqui dizemos. Vamos supor que todos os profissionais da filosofia se reuniam para discutir estes problemas. É exactamente isso que estamos aqui a fazer e isso mesmo que a filosofia precisa para ser filosofia.

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