4 de abril de 2010

Patriotismo linguístico

Uma língua reflecte muitas coisas. Não é uma entidade linguística pura, um instrumento puro de comunicação e entendimento, de arte e elegância. Reflecte aspirações sociais, objectivos políticos, modos de vida. Por vezes, reflecte o que há de mais tolo e caricato na mentalidade de uma população.

Portugal é um dos mais antigos países do mundo, com fronteiras inalteradas há quase nove séculos. No entanto, há uma certa ansiedade patriótica em alguns sectores da sociedade, resultado talvez da irrelevância cultural, económica e política do país em termos internacionais.

A língua portuguesa é, em grande parte, uma mentira política. Separou-se do castelhano artificiosamente, para marcar a diferença nacional — e os portugueses perderam com isso, pois hoje poderiam bem pertencer a essa gigantesca língua, sem que isso ameaçasse de modo algum a independência política e cultural de Portugal. Por vezes, essa separação linguística foi feita à toa: os portugueses deixaram de dizer “mais grande”, como em castelhano, mas continuaram incoerentemente a dizer “mais pequeno”; os brasileiros são mais coerentes e rejeitam as duas.

Todavia, quero falar de outro artificialismo mais recentemente introduzido na língua portuguesa de Portugal: o cagaço do gerúndio. Isto é muito recente, dado que em textos de Eça de Queirós ou de Fernando Pessoa se vê o gerúndio correctamente usado — para falar do que está em curso no momento. Assim, é correcto dizer “Estou escrevendo este apontamento” e um disparate português dizer “Estou a escrever este apontamento”. A minha hipótese é que a dada altura de finais do séc. XIX ou já no séc. XX algum português que não tinha sensatez em excesso sonhou que o gerúndio era brasileiro — porque realmente se abusa do gerúndio no Brasil — acabando por tirar das calças o que os brasileiros põem a mais na camisa.

Outro exemplo deste patriotismo linguístico é o “se vende”. No norte do país, é tradicional, e correcto, dizer “Se vende uvas”. É correcto porque a alternativa, “Vendem-se uvas”, usa uma forma igual ao reflexo de “A Joana vende-se”, que significa que ela se vendeu a si mesma, mas as uvas não se vendem a si mesmas. O medo do papão brasileiro fez os linguistas dar voltas aos miolos para justificar a segunda locução, mas a minha hipótese é que a justificação não é linguística: é meramente social e política, o resultado de um sentido histérico de patriotismo, que denuncia uma falta de sentido histórico da nação, sossegada há séculos sem quaisquer ameaças exteriores. Na verdade, a maior ameaça à nação é interior, na forma de patriotismos linguísticos histéricos como estes.

26 comentários:

  1. Respuesta en castellano:
    Apagar texto con errores ortograficas elimina comentarios hechos por extranjeros que no hablan correctamente portugues. Lo siento.

    Entiendo bien la lengua portuguesa y su parte linguistica, pero no llegué al punto de dominar la lengua perfectamente. Hay catedráticos de linguistica que no hablan o escriben correctamente ciertos idiomas...

    ¿Por qué cerrar + fronteras en vez de abrirse al mundo?
    Siento mucho no escribir portugues perfectamente, pues es un idioma riquísimo y muy bonito que aprendí en la Universidad de Recife cuando estaba en Brasil.
    Mireille Nedelec Mendes (francesa)

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  2. Só apago os erros de ortografia sistemáticos, e não um qualquer deslize. E podes perfeitamente escrever em castelhano!

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  3. O gerúndio sempre se usou no Alentejo. Tenho 50 anos (sou um dos tais sem hipóteses de ser um génio) e sempre usei o gerúndio desde que me conheço. Na escola primária foi-me ensinado que era uma característica dos alentejanos e eu mantenho-a com muito orgulho.

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  4. usa-se muito também na Madeira. E é frequentemente corrigido pelos professores continentais.

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  5. Pois, na verdade o gerúncio faz parte da língua, com toda a razão de ser. Pode ser mais ou menos abusado aqui e ali, mas isso é normal e aceitável. O que não aceitável é umas aves raras pensarem que o gerúndio é um "erro" ou uma brasileirice. Isso é uma parvoíce, para ficarmos a rimar.

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  6. Então, uma das baboseiras que aparece no Ciberdúvidas, mau grado os excelentes insights que lá podemos colher, foi postada há já uns bons anos por um linguista, a propósito da construção "preposição "em" + adjectivo" com valor adverbial, p. ex., "em especial", "em geral" etc. Argumentava o linguista (creio que infelizmente já falecido) que esta construção era errada em português por ser uma "influência castelhana". O defeito deste argumento devia ser óbvio para qualquer ser humano com os parafusos da razão intactos: mas então o que faz essa expressão ser correcta em castelhano, e o que ao certo a faz ser errada em português? Se é perfeitamente aceitável usar preposição + ajectivo, com valor adverbial, numa língua, que propriedade misteriosa tem o português que faria essa mesma construção ser errada? Isto não é explicado pelo linguista, mas é posto a nu quando pensamos em fenómenos como o "se vende" nortenho (que qualquer lisboeta palerma, ao vir cá acima, atribui imediatamente a um excesso de telenovelas brasileiras) (não se pense que isto é bairrismo, pois eu sou do Sul, ainda que viva no Norte): trata-se do tal apagamento artificial das semelhanças com o castelhano. Mas recentemente vi algo ainda mais caricato e que denuncia a mesma coisa:

    Ao ver livros infantis numa papelaria aqui da terra, deparei-me com um, com texto do José Jorge ("Era uma vez um rei conquistador" http://www.wook.pt/ficha/era-uma-vez-um-rei-conquistador/a/id/1797738). Numa das páginas deste livro vemos uma ilustração da cabeça de D Afonso Henriques (o tal filho do emigrante francês) com a língua de fora. Na língua está escrito: "galego-português" ou algo assim, com a seguinte legenda: "D. Afonso H. sonhava com uma língua que fosse só nossa", o que denuncia de uma penada a palermice nacionalista: nem sequer língua havia para legitimar a pretensão do filho do emigrante a ser rei à força, teve de ser fabricada. O "sonho" da mentira política para justificar uma secessão sem a qual nenhum mal teria vindo ao mundo.

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  7. Caro Vítor Guerreiro, repare que o ramo galaico-português das línguas ibero-ocidentais já estava formado em pleno séc. VIII, sem interferência política ou de D. Afonso Henriques (!?!). O que esse livro infantil refere é mais do que abusivo.

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  8. Esta opinião do Desidério e de quejandos comentadores é algo que me causa bastante confusão porque contrasta com a habitual sobriedade das restantes postas do blogue Crítica.

    Acima de tudo, e embora reconhecendo que o alvo a atingir permanece algo vago - desde linguistas obscuros, a livros infantis até aos agentes que professam o patriotismo linguístico - parece-me ser fruto de uma espécie de ressentimento. É a única explicação que encontro porque não considero válidos nenhuma das razões apresentadas.

    Claro que reconheço a existência de alguns modos de falar e escrever erróneos mas não os unifico com uma teoria da conspiração patriótica. Como é habitual sempre que leio este tipo de opiniões por aqui, desde há vários anos repetidas, parecem ser o tipo de opiniões pouco aprofundadas e estudadas, gratuitamente provocadoras e que talvez devessem ficar guardadas no caderno de apontamentos para não comprometerem tanto o seu autor.

    Recordo-me quando no blogue De Rerum Natura o Desidério desatou a expor esta sua veia intempestiva e levou, literalmente, uma lição de linguista e história de diversos comentadores pouco preocupados com a causa nacional, mas preocupados sim com a verdade do que o Desidério avançava. Não aprendeu nem reviu nada, o que só atesta que a sua insistência na repetição dos mesmos temas pretendem vencer à força de serem repetidos, por que por outro lado teriam cedidos aos (bons) argumentos avançados para a descontrução da sua tese.

    A opinião do Desidério começa logo as suas imprecisões quando resume a génese da língua portuguesa a uma mentira política e lamenta o facto histórico, que julga inédito, da nova nação se ter desenvolvido e diferenciado graças à língua; não fosse o caso, pertenceríamos hoje à gigantesca língua castelhana. Enfim. O Desidério tenta separar o que não é separável, ou seja, o facto de uma língua apoiar e ser apoiada por uma realidade política. Não há mentiras políticas nesta questão porque nenhuma língua é pura no sentido de não necessitar de uma realidade política que a expanda e alimente, por via de ser uma matriz comum aos seus falantes. Não percebo os pruridos ingénuos de supor que uma língua se ter afirmado para apoiar uma nova realidade política - o condado portucalense - não é um motivo estratégico válido.

    É engraçado seguirmos o mesmo critério para vermos quantas línguas não são mentiras políticas. O castelhano, essa língua gigantesca, afirmou-se na medida em que ia anulando politica e militarmente outras línguas existentes na península. E as línguas ibéricas, serão também vítimas de caldinhos políticos para que as putativas nações se diferenciassem da realidade latina e francesa? E seria a língua castelhana gigantesca sem a determinação política que a expandiu para lá de Castela e para lá da península ibérica? Por favor, alguma seriedade. É relevante, nesta questão, indagarmos um catalão ou um galego sobre a génese das suas línguas. A resposta comum é a de verem a língua portuguesa como mais uma variante da matriz comum ao galego, ao castelhano, ao provençal ao catalão e que felizmente conseguiu escapar ao jugo castelhano.

    Questões menores que por este canto e por teimosia nunca são consideradas. Sintoma dos que falam de si para si próprios.

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  9. Recorda-se pela 500ª vez aos leitores com o tipo de abordagem do TCM que aqui não se convida as pessoas a ficarem caladas ou a reprimir opiniões. O único argumento em todo o comentário é o de que estamos a invocar uma espécie de conspiração nacionalista. Não sei se o Desidério foi refutado no De Rerum, talvez sim, talvez não. Mas num comentário que ele próprio não argumenta isto só pode ter o fim de sugerir vagamente na cabeça dos leitores que somos uns tolos a repetir coisas que já se provou falsas. A primeira parte é verdadeira, somos uns tolos. Quanto à segunda, ou se argumenta directamente ou então cai a pedra no saco roto de um mero ataque ad hominem sem fundamento, porque nunca aqui se defendeu uma conspiração nacionalista. Estamos simplesmente a atacar uma mentalidade partilhada. A euforia irracional pelo tribalismo futebolístico também não resulta de uma conspiração, mas é uma mentalidade partilhada por hordas de seres humanos que se divertem a fazer espectáculos tristes. Não é por atacar essas manifestações de macaquice humana que estou a invocar uma "conspiração hooligan". De igual modo, aqui ataca-se uma mentalidade, e não uma conspiração.

    Quanto à afirmação de que as línguas precisam de uma "realidade política" que as expandam, não compreendo a pertinência nem vejo que seja verdadeira. As línguas são instrmentos usados por comunidades, nascem, mudam, morrem. Que necessidade há de artimanhas políticas para "expandir" a língua? Isto é de facto feito, pelos conquistadores, por regimes autoritários, como fizeram a Espanha com as outras línguas ibéricas e a URSS no império russo. Mas e depois? Será isto bom? É duvidoso. Será que as línguas não existem sem isto? Evidentemente falso.

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  10. Rui,

    na ilustração, se a compreendi, não se pretende afirmar que o galego-português foi criação política de Afonso Henriques. O que a ilustração sugere às criancinhas é que havia o galego-português e que o tal senhor que levantava espadas muito pesadas (historietas que parecem excitar quase falicamente os fascistas) queria uma língua que fosse mesmo SÓ "nossa". A mentira política aqui não é a génese da língua. A mentira política é este "nós" artificial. Os afastamentos linguísticos feitos à martelada (como os pruridos dos linguistas em usar construções que soam a castelhano, como "se vende") é que vão no sentido de cimentar esta ilusão política, esta mentira, do "nós". Não há "nós". Mas que "nós"? O que há aqui é um conjunto de indivíduos que usam as mesmas instituições, tal como 50 gajos que usam a mesma carruagem de metro não são por isso um "nós", com um vapor místico a emanar do pronome.

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  11. ... e agora virá talvez a cantilena vagamente marxista, vagamente comunitarista, e que nada tem a ver com aquilo que estou a dizer, segundo a qual isto que acabei de dizer é uma defesa desapiedada do individualismo que ignora a riqueza, o pulsar da vida comunitária, as idiossincrasias da realidade local, cimentada nos laços que as pessoas estabelecem, bla blá blá...

    Não sei de coisa alguma disso. Não, não estou a teorizar o "neo-liberalismo burguês".

    E quanto a tradições, até tenho e muito acarinho os 5 volumes do cancioneiro português, recolhido por aquele senhor da Córsega. (Há um documentário sobre o trabalho dele, mas até foi feito por um francês, Pierre Marie Goulat, e para comprar o DVD é preciso mandar vir de lá) Coisa que muitos entusiastas nacionalistas desconhecerão, convictos de que o fado é a "canção nacional", tão certo como os outros não saberem o que é a Saudade com S.

    Acrescento também que ninguém aqui defende um regresso ao galego ou a expurgação da terrível mentira política, etc, etc. O que defendemos aqui é que: a) podia muito bem não ter havido separação linguística e que daí nenhum mal viria ao mundo. b) muita da separação que há é forçada, martelada, para tentar exorcizar o papão castelhano. c) isto é o mesmo que se começou a fazer, mais tarde, com a paranóia de evitar os gerúndios e tudo o que soasse a "brasileiro".

    Procuramos apenas denunciar a idiotia da mentalidade que nos inibe de usar gerúndios à vontade, expressões que "soam a brasileiro", preposições e adjectivos com valor adverbial, etc. etc. Estamos a denunciar essa mentalidade chata, palerma, que até nos arranja chatices com aqueles revisores e editores que eventualmente se preocupem em seguir as paranóias nacionaleiras.

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  12. Provavelmente, a língua vai mudando pelo uso. Daí a existência ou origem de diferentes pronúncias e palavras, em diferentes regiões de um mesmo país. Daí que pense que a mudança da língua por convenção é um mito, sendo por isso a senda contra esse suposto facto baseada numa premissa falsa.

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  13. Sim certo, é por pensar que a língua não muda por convenção que há quem queira fazer acordos ortográficos. Para mais, quem disse que a mudança pelo uso e a mudança pela convenção são coisas separadas? O uso é uma convenção, tal como o sistema tonal é uma convenção musical, mesmo que não tenha sido decidido por uma só pessoa ou grupo exclusivo de pessoas. Mas tudo isso é secundário, o que o post ataca, o que o meu comentário sobre o livro infantil denuncia, não tem primariamente a ver com estes detalhes semânticos.

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  14. Resta-me acrescentar que o que digo é o caso em democracia.

    Como nota, refiro que não existem entidades linguísticas puras, a menos que tenham uma origem completamente linguística, o que não parece ser o caso para nenhuma entidade existente.

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  15. É perfeitamente possível alguém querer fazer acordos ortográficos, de facto fazê-los, e estes nada mudarem. Tal como é possível eu querer fazer a maior banda de rock de sempre, e acabar por nunca sair da garagem.

    Enquanto a convenção propõe uma mudança abrupta, a mudança pelo uso não é abrupta, mas ocorre ao longo do tempo. Logo, mudança por convenção e mudança por uso não são uma e a mesma coisa.

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  16. O post e os comentários têm a ver com uma coisa apenas: a mentalidade que fez aquele linguista, por exemplo, defender que não se pode usar aquela construção; a mentalidade que produziu a legenda daquela ilustração no livro infantil, com tudo o que tem de ridículo. A mentalidade que nos faz pensar que x é bom quando é português mas já é muito mau quando o mesmo x é "dos outros"; a mentalidade que postula este "nós" e estes "outros", com todo o rol de atropelos à verdade que acompanha tais quimeras. É ISSO que está em causa neste post, e não a formação de um partido neo-pan-galego, o regresso ao passado, a invectiva contra Lisboa (ou contra outra coisa qualquer), o separatismo... enfim, nada dessas atrasadices é o que está em causa. Isso seria a repetição do mesmo, o mesmo disparate que está ilustrado na imagem e na legenda do tal livro infantil que referi, ou na correcção apontada pelo linguista.

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  17. O sistema tonal não é uma convenção mas uma descoberta. Chamar "sistema tonal" ao sistema tonal será já uma convenção, provavelmente devida ao uso.

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  18. A mudança pelo uso é a mudança pelo uso de uma convenção. Só há mudança se o "uso modificante" é por sua vez objecto de convenção. O que o Fm-Ra quer dizer é que a língua não muda por decreto ou por vontade administrativa. Bom, nós defendemos que a língua deve mudar pelo uso natural e não administrativamente; mas defender isto não é o mesmo que afirmar que as intervenções administrativas não PODEM produzir mudanças. Aparentemente podem, porque já não escrevemos "monarchia" nem "muyto".

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  19. perdão, o sistema tonal é uma convenção musical. É convenção entre os músicos coisas como o ciclo das quintas, que lá menor é a relativa de dó maior, etc. Também há convenções sobre a construção de oboés, embora elas resultem de descobertas, por exemplo, do construtor do séc. XIX que revolucionou os sistemas de chaves em toda a família das "madeiras".

    ... mas estamos sistematicamente a descambar do objecto do post. Isto são questões que se resolvem a ir ao dicionário (mas não a um português, aconselho, com muito pesar). Há uma espécie de doença no nosso espaço linguístico, que vai contra qualquer forma de pensamento lógico. Ainda há pouco ouvi na televisão uma "explicação" para crianças da razão por que as flautas têm buracos. A "explicação" não fez mais do que colocar de outro modo coisas que as crianças já sabem (que sem buracos a flauta não dá notas) mas não explicou coisa alguma. Mas fica a "sensação" de que algo foi respondido. Estas deficiências de pensamento são a causa de os dicionários portugueses serem a bosta que são.

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  20. Mesmo argumentando que o sistema tonal não é uma convenção por ser uma entidade abstracta que é descoberta pela actividade cognitiva humana, isso não faz que deixe de ser uma convenção. Repare, também podemos pensar que os fonemas e os grafemas são descobertos nesse sentido e no entanto o uso de fonemas e grafemas é algo convencional. Não vejo por que as coisas teriam de se excluir mutuamente. Posso ser realista acerca de entidades matemáticas sem que com isso esteja a defender que não há convenções matemáticas. Mais, a própria descoberta do sistema tonal só foi possível devido a uma série de convenções e à alteração dessas convenções, p. ex., o tipo de harmonias que se considerava "aceitáveis" no canto litúrgico e como tudo isso se foi alterando ao longo dos séculos.

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  21. outro exemplo: quando faço figas, há duas coisas a referir nesse acontecimento - 1) o meu gesto particular, 2) o facto de o meu gesto ser a instanciação, ou um espécime, de um tipo de gesto. O gesto de fazer figas é uma entidade abstracta, e cada gesto particular que o instancia (tokenize) é um espécime desse tipo abstracto. Nesse sentido, posso dizer que o primeiro ser humano que "fez figas" descobriu um tipo abstracto, tal como S. Cirilo descobriu o alfabeto cirílico (segundo a lenda). Mas isso não significa que "fazer figas", o gesto, não seja uma convenção.

    Mas dou outro exemplo ainda: a bandeira grega como a conhecemos, foi adoptada em 1978. É uma entidade abstracta (só cada pedaço de pano particular é concreto), é um tipo. No entanto é um tipo convencional.

    A propósito desta conversa, aconselho o interessantíssimo artigo de Jerrold Levinson, sobre tipos e "tipos indicados" - é uma discussão sobre ontologia da música. "What a musical work is".

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  22. O único argumento do anónimo TMC que consigo vislumbrar é este: a língua portuguesa não é o único caso de uma língua que resulta de imposição política; logo, nada de errado há com a mentira política da língua portuguesa. O argumento é mau. Seria como argumentar perante uma pessoa que denuncia um genocídio que aquele não é o único genocídio, há muitos mais. Pois há. E são todos maus.

    Eu uso a expressão “mentira política” para falar da criação de ficções históricas e políticas que, falando brandamente, faltam à verdade. Tanto me faz se isso ocorre com o cirílico ou com o castelhano. No caso, estou a falar da língua portuguesa, porque é relevante que fale dela a lusófonos.

    Não se deve inferir do que escrevo que penso haver uma qualquer conspiração. Trata-se, antes, de uma mentalidade. E esta é tão transparente que qualquer linguista adequadamente formado a vê. Linguisticamente, nenhuma razão há para deixar de dizer “mais grande”, excepto o prurido de ser parecido ao castelhano. Igualmente, nenhuma razão há para pensar que o gerúndio “Estou escrevendo esta resposta a um anónimo, o que mostra que não estou muito bom da cabeça” é uma “brasileirice”, excepto um prurido patriótico ridículo, de pessoas que obviamente não leram Eça ou Pessoa, que usavam os gerúndios onde eles devem ser usados.

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  23. Caro Vítor Guerreiro, aceito o seu ponto de vista de que "galicismos", "anglicismos" ou "castelhanismos" não são necessariamente vícios de linguagem. Concordo, e eu só os criticaria quando introduzem redundâncias na linguagem.

    Aquilo de que eu discordo profundamente é da ideia que as línguas se formem por imposição política. Há muitos exemplos de línguas que foram reduzidas à insignificância por imposição política (basta recordar a história linguística de Espanha, do Reino Unido, de França...), mas língua que tenha nascido por imposição política, não conheço nenhuma! Aliás, seria algo de anacrónico supor que tal coisa pudesse acontecer no séc. XII, quando a organização do estado e das autoridades "culturais" era pouco mais do que incipiente.

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  24. Sou tão anónimo que até já nos correspondemos, Desidério.

    Não concordo com a sua adopção do meu suposto único argumento, nomeadamente na comparação que faz dele com um genocídio. Reconhecer que as línguas também são usadas pela política como instrumentos de poder não faz delas mentiras políticas. De facto, não percebo o conceito de mentira política aplicada a uma língua: se uma língua existe nos dias de hoje, se gerou autores, sofreu acordos ortográficos, adquiriu novos falantes, foi porque sobreviveu, contraindo-se ou expandindo-se, a outras, e para isso precisou da política. Se houvesse mentira política no critério defendido pelo Desidério, não haveria nenhuma língua verdadeira, mas não é por isso que muitas delas não deixam de ser belas, gigantescas ou adequadas ao que desejamos expressar através delas.

    É este o ponto, parece-me, em que não concordamos porque eu reconheço e até me revejo nas suas intempestivas contra certas mentalidades que pretendem ver a língua como a fundação da nacionalidade. Sou perfeitamente capaz de reconhecer a mentalidade que se quer afirmar linguística e estilisticamente por diferenciação do brasileiro e do castelhano mas sem dizer que a origem dessa mentalidade é uma origem política.

    Espero que agora consiga detectar mais argumentos no que escrevi.

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  25. Perdão, devido à pressa, na última frase do penúltimo parágrafo deve-se ler: [...] mas sem dizer que a origem dessa mentalidade é uma mentira política.

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  26. não afirmei que a diferenciação linguística que deu origem ao português moderno resultou unicamente da imposição política ou que as pessoas foram coagidas a falar português tal como no antigo bloco soviético foi imposto o ensino do russo, ou do castelhano na espanha, ou na supressão do gaélico em certas partes da britânia.

    Afirmei que MUITA da diferenciação linguística foi politicamente motivada, feita à martelada e à pressão. Claro que tudo isto é uma mistura de mentalidade, que cria a motivação política e por sua vez é modificada por ela, e isto ocorre muito lentamente e quase nunca de um modo "maquiavélico", consciente. Embora muitas vezes as justificações pseudo-linguísticas para os resultados consumados desta mentaliadde sejam semi-maquiavélicas ou mais ou menos conscientemente desonestas.

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