5 de abril de 2010

Plágios, tradutores e autores

Denise Bottmann, tradutora brasileira, tem agitado as águas pardas da melancolia editorial brasileira. Descobriu que uma prática infeliz de alguns editores brasileiros consiste em reeditar traduções antigas, mudando o nome do tradutor — para um nome fictício ou não, não interessa — fingindo tratar-se de nova tradução.

Não fosse o tradutor nos países de língua portuguesa (Portugal incluído) considerado um moço de recados, e esta prática seria naturalmente inaceitável e impugnável em tribunal. Pois imagine-se o que seria eu, como editor, pegar num romance qualquer com trinta ou quarenta anos (ou duzentos anos!), e que caiu no esquecimento, reeditá-lo e... tirar o nome do autor e enfiar-lhe outro nome qualquer. Evidentemente, num caso destes, o crime intelectual seria evidente. Já no caso dos tradutores as pessoas assobiam para o ar e fingem que está tudo bem.

Do meu ponto de vista, isto deve-se ao estatuto absurdo que tem o tradutor em Portugal e no Brasil, ao contrário do que ocorre em França ou na Inglaterra: na lusofonia, o tradutor não é considerado um autor, o que é inaceitável. Os nomes dos tradutores de países culturalmente mais sofisticados vêm na capa dos livros, e os tradutores têm direitos intelectuais sobre a sua tradução: são co-autores, juntamente com o autor original. É um trabalho intelectual criativo, único, irrepetível. E que dá muito, muito trabalho, para ser bem feito. É inaceitável usar o trabalho de um tradutor, eliminando-lhe o direito de autoria.

Do meu ponto de vista, já que as práticas editoriais fraudulentas, denunciadas pela Denise, são infelizmente muitas, é preciso legislar para proteger o tradutor. E um passo importante nessa direcção é passar a ser obrigatória a menção do nome do tradutor na capa de todos os livros traduzidos.

Denise tem sido perseguida pelos editores cujos plágios ela provou no seu blog. Dois editores brasileiros levantaram-lhe processos em tribunal — isto é kafkiano, pois é como um ladrão que levanta um processo ao jornalista que lhe denunciou os trabalhos nocturnos. Leia o blog da Denise e, caso concorde, assine esta petição. É tempo de pôr cobro a estas práticas.

3 comentários:

  1. O Blog da Denise é bem interessante. Eu me lembro de uma vez comparar duas traduções de "A República" publicadas pelas editoras Martin Claret e Gulbenkiam. Eu fiquei espantado que eu, na época ainda um aluno de graduação de primeiro período, pude constatar que uma tradução, a da Claret, tinha sido copiada da outra. E não estamos falando de uma editora pouco conhecida no Brasil: seus livros de bolso estão em todas as livrarias e várias bancas de jornal. Alguma coisa está muito errada no modo como a cultura e os direitos autorais são encarados no Brasil. Algumas informações sobre os processos que a Claret têm recebido estão aqui: http://pt.wikipedia.org/wiki/Editora_Martin_Claret.

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  2. Caro Desidério

    Casos destes, no Brasil, tenho conhecimento de vários e alguns com obras de Edições 70, entretanto descatalogadas («Os Sonâmbulos», de Hermann Broch). Não servindo esta resposta como defesa corporativa do sector, note que nem todos os editores maltratam os tradutores. Além disso, o Código dos Direitos de Autor (português) equipara-o de certa forma ao autor. Acontece que nenhum tradutor está disposto a assinar um contrato de tradução com direitos de autor(na 70 temos uma colecção que funciona nesses moldes, os «Clássicos Gregos e Latinos»), e preferem contratar a obra por uma verba, cedendo a propriedade da sua tradução ao editor. Quanto à inclusão do nome na capa, diz-me a experiência que tal só ocorre na ficção. E muitas vezes o resultado final tem o contributo de outras pessoas, que por vezes nem reconhecido é na ficha técnica.
    Dito isto, os casos expostos são lamentáveis e deveria haver mão pesada para abusos deste género.

    Um abraço

    Pedro Bernardo

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  3. Caro Pedro

    Espero não ter ficado sugerido no meu apontamento que todos os editores tratam mal os tradutores. Pessoalmente, só posso dizer o contrário, em quase 10 anos, penso, de relações com editores.

    Deixe-me só precisar um aspecto: o reconhecimento do direito autoral do tradutor é diferente do género de contrato de pagamento feito com o editor. O que está em causa é o primeiro e não o segundo aspecto.

    Se eu for autor, posso muito bem fazer um contrato consigo em que me paga não uma percentagem das vendas, mas um valor fixo inicial. Mas nem por isso, como autor, perco o direito a deixar de ter o meu nome referido e destacado como autor, nomeadamente na capa, nem daqui a duzentos anos.

    É este aspecto, e só este, que está em causa na batalha que a Denise tem travado, pois descobriu variadíssimos casos em que os editores publicam obras traduzidas de facto por X, mas assinadas como se fossem traduzidas por Y.

    Evidentemente, um tradutor pode, ele mesmo, fazer a fraude, mas é menos provável porque à partida a primeira coisa que o editor irá ver é se a tradução que pagou foi copiada ou se é original. Mas se o tradutor fizer a fraude deve ter as mesmas consequências legais que o editor.

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