2 de abril de 2010

Símbolos

Uma das ideias feitas curiosas é a de que devemos respeito e subserviência a certos símbolos: a bandeira, o hino, uma cruz, etc. Penso que isto é um disparate. Devemos respeito a pessoas, e não a símbolos. Na verdade, penso que qualquer adulto deve desrespeito aos símbolos, ou pelo menos completa indiferença.

Um aspecto curioso quando se fala de símbolos é a atitude paternalista das pessoas que os defendem. O argumento usado é mais ou menos este: “Sem o respeito pelos símbolos, seria o caos”. Quando pergunto a quem usa este argumento se sem respeito pelos símbolos me iria matar ou passar a ser um ladrão, ela responde que não — mas que isso aconteceria com "os outros". Isto é curioso. Nunca conheci pessoa alguma que aceitasse que sem símbolos se tornaria um renegado, e conheço infelizmente muitas bestas sem respeito algum pelas pessoas que no entanto respeitam os símbolos. Então, para que servem os símbolos?

A resposta é que serve para dominar e manter os seres humanos na menoridade intelectual.

17 comentários:

  1. Se temos representações verbais de certas coisas, por que não termos representações visuais das mesmas? Ambas estão em vez delas. Em que diferem? Poder-se-á dizer que a palavra serve, como o símbolo, para oprimir? Ou, por outro lado, que este serve como aquela para comunicar?

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  2. Falei de certos símbolos a que se pede respeito e subserviência. E não de todo e qualquer símbolo. A palavra "mar" também é um símbolo, constituído pelos símbolos "m", "a" e "r", mas ninguém pede respeito e subserviência por este símbolo.

    O meu post não é sobre todo e qualquer símbolo, o que deveria ser óbvio.

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  4. Nesse caso, posso falar do que penso sobre a bandeira, do que já pensei algures no tempo, sobre a de Portugal. Já pensei que não tenho que respeitar bandeira alguma, que é de facto apenas um símbolo ou um desenho, formas e cores, algo morto. Depois, pensei um pouco mais e então pensei que representa ou tenta representar o "sangue derramado" dos nossos antepssados, o seu esforço na construção do país, etc., tal como o hino, por exemplo. Aí, achei que merecia respeito. Supostamente, nela estão representados todos os "esgares" de sempre deste país: os mais loucos e aventureiros, os mais cobardes. Se isso me oprime? Se isso oprime alguém? Pode, no sentido em que é falado no texto - posso ser induzido a pensar que, por pensar que representa o esforço dos antepassados, devo respeitá-la, devo-lhe respeito, devo-lhes respeito. De facto, não fui eu que inventei a bandeira, não fui eu que me lembrei de me ou nos lembrar desses antepassados (mas também não temos a bandeira escarrapachada ante o nosso olhar, embora ocorra em alguns países... Tunísia, por exemplo, dizem). Mas ninguém me obrigou a interpretá-la dessa forma, ou terei sido educado para isso? Respeito e honra (honrar os antepassados) podem equivaler a liberdade. Ou não.

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  5. Mas desde quando é preciso uma bandeira ou um hino para respeitar as pessoas que morreram há séculos? E o que é isso de respeitar quem morreu há séculos? A verdade é que se limpares o rabo à bandeira portuguesa és preso. Mas não estás a limpar o rabo a pessoa alguma, nem sequer às pessoas que morreram há séculos.

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  6. Não é preciso uma bandeira para nos lembrarmos de quem morreu há séculos, mas também não é preciso uma guitarra para que exista um grupo musical, e há grupos musicais com guitarras. E há muita gente que gosta muito de ouvir as mesmas. Do mesmo modo, há eventualmente muita gente que gosta do sentimento que a bandeira lhe dá, seja ele qual for. Tal como quem não gosta de guitarras não tem de ouvi-las, quem não gosta de bandeiras não tem de olhar para elas ou tê-las, na maioria dos casos, em democracias. Pior é receber multas da emel, porque a terra é tanto deles como minha.

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  7. Mas então concordas que não temos o dever de respeitar símbolos. Apenas podemos fazê-lo, se o quisermos.

    Ora, o meu post nada diz contra tal coisa. Se as pessoas quiserem respeitar símbolos, ou cabras, ou escrotos, o problema é delas, desde que não prejudiquem os outros. O meu post era sobre o dever de respeitar símbolos. E não sobre a permissibilidade de os respeitar.

    Às vezes dá jeito saber ler.

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  8. Faz-me lembrar um programa que vi uma vez na televisão há muito tempo:

    Falava-se da sociedade e do triste estado em que esta se encontrava. Depois de se falar atenderam-se umas quantas chamadas e toda a gente dizia que realmente a sociedade estava muito mal, mas que eu (sendo eu a pessoa em questão) até que não sou mau de todo.

    Faz-me lembrar também uma situação ainda mais antiga.
    Estava eu no meu nono ano numa aula de Geografia e toda a gente se estava a portar muito mal. Após muita insistência da professora, ela perdeu a calma começou a gritar mesmo a sério, marcou falta disciplinar colectiva e toda a gente teve que fazer uma composição a explicar o que se tinha passado.
    Escrevi a minha composição em que realmente dizia que a turma se tinha portado no geral, mas que eu em particular até tinha sido dos mais bem comportados.
    Na aula seguinte a professora veio com a composição de toda a gente e não é que toda a gente tinha dito que se tinha portado mais ou menos individualmente mas que a turma em geral tinha abusado.
    Isto do diluir a responsabilidade é uma coisa muito bonita...

    Que tem isto a ver com a obrigatoriedade em respeitar símbolos? Nada.
    Mas tem algo a ver com isto: "Quando pergunto a quem usa este argumento se sem respeito pelos símbolos me iria matar ou passar a ser um ladrão, ela responde que não — mas que isso aconteceria com "os outros"."
    Dá mesmo muito jeito haver os outros.

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  9. Bom, o post me faz lembrar de uma conclusão que cheguei a um tempo atrás: que o patriotismo nada mais é que um recrutamento inconsciente para a guerra; seria uma garantia que nós lutaríamos por nosso país. Falo em patriotismo porque é o que vem a cabeça quando falamos em respeitar a bandeira [símbolo], por exemplo.

    Alguém vê outro objetivo que não seria alcançado sem tal patriotismo?

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  10. A pátria é um ectoplasma, mais um entre os milhentos congeminados pela imbecilidade humana, para dar origem a comportamentos irrazoáveis acerca de uma entidade concreta e perfeitamente compreensível: a nação, que consiste num território, num certo número de pessoas, instituições, com uma certa organização social, etc.

    Ora, a nação é como qualquer outra coisa, como qualquer outro modo de as pessoas se organizarem. Ninguém bom da cabeça proporia que se praticasse uma fidelidade até à morte ou um misticismo acerca, p. ex., do clube de filatelia ou qualquer coisa assim. Já com os clubes de futebol isto, por alguma razão que se prende com a propensão simiesca dos humanos para o tribalismo, funciona muito bem. Até funciona em muitos casos melhor que com a pátria, razão pela qual os políticos têm investido imenso, nos últimos anos, na paranóia futebolística, associando a mística nacional à mística do futebol, e essas coisas (O Sócrates a aparecer na "Bola" fotografado com a camisola 13 - o número do "Povo" - as medalhas a futebolistas e coisas assim).

    A nação é como o clube de filatelia: existe por causa das pessoas que o formam e dos interesses que elas têm. Existe PARA os interesses dessas pessoas. Há outras coisas na vida e há outras formas de organizar interesses. Basta a racionalidade humana, não é preciso místicas nem sentimentos simiescos de pertença e místicas do escroto primordial.

    A "pátria", portanto, é um ectoplasma, e a crença nesse ectoplasma permite que pessoas de contrário normais pensem e se comportem como bestas analfabrutas, irracionais, na defesa sôfrega de algo que nem sequer compreendem o que é; na transformação de algo que deve ser apenas um mero instrumento contingente para servir os seus interesses, das pessoas, que são o que mais importa, num fétiche (ou feitiço, dito mais correctamente). São os interesses das pessoas que passam a estar subordinados ao "feitiço" ou ao ectoplasma, que por sua vez é apenas um modo de embelezar interesses mais venais.

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  11. Eu tenho alguma dificuldade em distinguir a nação da pátria. Admito que até haja alguma diferença entre elas, mas penso que as duas andam sempre de mãos dadas. Uma nação não é um território com um povo e instituições políticas lá dentro. Há territórios com um governo central, chamemos-lhes estados, que têm várias nações. Estou-me a lembrar da Rússia, do Iraque, da China, da URSS ou, para não ir tão longe, da vizinha Espanha. O que me mete impressão na pátria e também na ideia de nação é o sentimento de pertença a uma colectividade, que só é tida como tal, devido a certos elementos simbólicos. Pode-se argumentar que a nação tem certos traços mais concretos do que a pátria, nomeadamente, étnicos, mas nem todas as nações são assim tão homogéneas. Além disso, as diferenças naturais ou biológicas entre os diferentes membros de uma nação não devem ser assim tão distintas das diferenças entre membros de várias nações. Por isso, penso que a unidade que se quer conferir a UMA nação só pode sobreviver se ela se fundar em valores fantasiosos e pretensamente exclusivos dessa nação. Com franqueza, a única razão por que me sinto português é falar a língua portuguesa de pronúcia europeia. Não há mais nada que me faça sentir português. Nem sequer sinto que partilho (ou que deixo de partilhar) alguma coisa com as gentes do meu concelho, quanto mais com a pretensa nação portuguesa ou outra qualquer. Parece-me, assim, que a pátria é o "leitmotiv" de uma nação, o que faz parecer que várias pessoas são uma só. Agora, se em vez de nação se falar de povo, tudo bem. O povo é uma coisa muito simples. Basta ter um B.I. do estado X e é-se membro do conjunto de pessoas desse estado. Neste sentido, sinto perfeitamente que faço parte do povo do país chamado Portugal.

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  12. Só uma pequena nota ao meu comentário: quando disse que a única coisa que me fazia sentir português era falar a língua portuguesa, não está aí subjacente qualquer orgulho ou patriotismo linguístico. Na verdade, lamento que não se fale espanhol em Portugal. O que quis dizer foi que isso era o único traço que me fazia sentir diferente. É um pouco como se eu tivesse 80 anos e dissesse que a única coisa que me fazia sentir velho era ter rugas e ser corcunda.

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  13. Perguntei a um amigo, que pretende ficar anónimo, e ele respondeu-me com uns versos. Não me parece grande poeta porque a coisa nem rima mas enfim...
    ele pediu muito e aí vai...

    Símbolos? Estou farto de símbolos...
    Mas dizem-me que tudo é símbolo.
    Todos me dizem nada.
    Quais símbolos? Sonhos.—
    Que o sol seja um símbolo, está bem...
    Que a lua seja um símbolo, está bem...
    Que a terra seja um símbolo, está bem...
    Mas quem repara no sol senão quando a chuva cessa,
    E ele rompe as nuvens e aponta para trás das costas
    Para o azul do céu?
    Mas quem repara na lua senão para achar
    Bela a luz que ela espalha, e não bem ela?
    Mas quem repara na terra, que é o que pisa?
    Chama terra aos campos, às árvores, aos montes.
    Por uma diminuição instintiva,
    Porque o mar também é terra...

    Esta treta parece que tem continuação mas ele já estava demasiado com os copos para me ditar o resto

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    1. Penso que o professor entende o paternalismo e o dever de respeito partindo da consciência de seu tempo como entrave do progresso espiritual, logo, ameaça a qualquer perspectiva de autonomia privada e, também, qualquer perspectiva de superação. Assim, como se símbolos fossem um ciclo terminável (sem sequer um aprofundamento do “entre”), sem deslocamento de fronteiras, intocável e indissociável do sujeito real do qual só vê de baixo da pele uma superfície compacta mas que não passa de uma atmosfera simbólica e imaterial - suprassensível - suspensa e dispersa.

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  15. Acredito que os simbolos foram de grande utilidade no estudo de civilizações primitivas, embora não fosse esse seu objetivo, os simbolos religiosos sempre tiveram pontos em comum em sua criação, a representação não objetiva de locais e entidades que a percepção e a inteligência não alcançam, aqueles que representam instituições de alguma forma são úteis, mas superficiais, portanto não vejo nenhum motivo de respeito ao simbolo em si...

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