6 de abril de 2010

Um dilema moral

François de Salignac de la Mothe Fénelon (1651-1715), bispo de Cambrai, é o autor do romance Les aventures de Télémaque 1699 (As Aventuras de Telémaco 2006), que transmite um conjunto de ideais políticos ponderados e sensatos a ser observados pelos governantes de um país. O anarquista e romancista inglês William Godwin (1756–1836), pai de Mary Shelley (1797–1851), autora de Frankenstein, or the Modern Prometheus 1818 (Frankenstein, ou o Prometeu Moderno), usou Fénelon como paradigma de um grande benfeitor da humanidade na seguinte experiência mental.

O leitor pode salvar apenas uma pessoa de um edifício em chamas. Das duas que estão no interior, um é um criado, um bêbado preguiçoso e grosseiro, dado a brigas e desonesto, a outra é o Arcebispo Fénelon. Quem deve salvar?

A resposta é óbvia: deve salvar o grande benfeitor da humanidade, porque, ponderando todos os factores, é isto o que terá provavelmente as melhores consequências. (Godwin era utilitarista.)

Mas há um senão nesta história.

E se o bêbado grosseiro, etc., for o seu pai?

27 comentários:

  1. Creio que a maioria das pessoas, intuitivamente, salvariam o seu pai. Em atitude contrária a esta acção, ou sequência de acções, está que produz o seu julgamento do ponto de vista altruísta do benefício à comunidade humana: o ponto de vista geral aconselha, mesmo numa óptica utilitarista, a salvar aquele que trará maior benefício provável a esta comunidade. Se tomarmos este ponto de vista como não susceptível de possibilitar excepções, é irrelevante ser ou não o nosso pai - devemos, em qualquer caso, salvar aquele que julgamos ser o que maior benefício trará à comunidade humana.

    Penso, não obstante, que existem outras possibilidades legítimas de acção, mesmo de um ponto de vista não egoísta. Se interpretarmos a comunidade humana como uma comunidade de seres biológicos que se reproduzem sexuadamente, podemos dar relevância à tese de alguns biólogos e sociobiólogos (apresentada simplificadamente) que afirma ser o altruísmo familiar uma forma de conservação do património genético familiar, num quadro geral de luta pela prevalência dos genes. Deste ponto de vista, podemos dizer que salvar o pai não constitui uma forma de egoísmo, mas uma forma de altruísmo característica da espécie e, enquanto tal, promotora provável do seu sucesso evolutivo.
    A.Martins

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  2. Errata:

    Na segunda linha do meu comentário, leia-se por favor "está aquele que produz"...

    A. Martins

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  3. Eu salvaria o arcebispo, porque as probabilidades deste me adoptar, caso o salvasse, seriam maiores do que o meu pai bêbado (o do post, claro) se transformar no grande befeitor da humanidade, caso lhe fizesse o mesmo. Portanto, para a humanidade, as consequências de salvar o arcebispo eram incomparavelmente superiores do que salvar o meu pai. Já para mim, as consequências de salvar um em vez de outro também poderiam ser melhores. Se eu faço parte da humanidade, também beneficiaria da bondade e do génio do arcebispo, logo, ficaria uma melhor pessoa, do que se ficasse com um pai bêbado nos braços.

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  4. Isto pode ser um dilema moral sem saída ou com saída.

    Sem saída:
    Se salvo o meu pai, que por acaso é bêbado e desonesto, e supostamente ser um problema para a humanidade, sou acusado pelos utilitaristas de não proporcionar supostamente um bem maior à humanidade, que é um arcebispo.
    Se salvo o arcebispo, vou ser perseguido pela culpa e pelo remorso até ao fim da vida por não ter tido um pingo de sentimentos e ter sido cruel com o meu pai.
    Logo, qualquer conduta será sempre alvo de recriminação. Qualquer que seja a opção, deixo sempre de fazer aquilo que devia fazer.

    Com saída:
    A saída deste dilema moral, uma vez que está excluída a possibilidade de salvar os dois, é invocar uma razão de princípio. Devemos colocar o nosso pai sempre acima de qualquer outra pessoa, seja ela quem for, o Papa ou o Presidente da República. Claro que neste caso estaria a atacar os utilitaristas.

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  5. Salvaria o meu pai, pois claro. Sem qualquer reserva moral.

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  6. Há uns tempos, com os meus alunos, analisei uma situação semelhante à colocada a partir de uma notícia de um pai que entregou o filho à justiça. Após o anúncio do homicídio, o pai teria descoberto na mala do carro do filho aquilo que ele considerou serem as provas de que o seu filho era o homicida. Já não me lembro dos pormenores, nem eles são aqui essenciais. Mas recordo que, a todos, o caso causava alguma perplexidade. Aliás a notícia era essa, ele entregou filho em vez de o esconder ou pelo menos não interferir de forma desfavorável ao filho, como nos parece que qualquer pai faria.
    Que devemos concluir? A sua acção foi moralmente correcta? Quer do ponto de vista deontológico quer do utilitarista parecer-nos-ia fácil justificar a adequação da sua acção… se não se tratasse do filho.
    Neste caso parece que, de alguma forma, o eixo se desvia um pouco. Parece até que seria o seu “dever” defender o filho ou que a comunidade cujo bem tem a obrigação de primeiro considerar é a do seu grupo/família. Parece que não só desculparíamos mas aprovaríamos, mesmo, essa acção em detrimento da praticada.
    No caso apresentado, concordo com o Rolando Almeida, se só podia salvar um, então salvaria o meu pai sem qualquer reserva moral. Neste segundo, a não ser que o dilema se me colocasse de forma mais intensa (estivessem, por ex. a acusar um inocente ou fosse chamada a depor) talvez protegesse a cria. Uma cambada de imorais? 
    Carolina S.

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  7. Salvaria meu pai, é claro.
    Se eu estou ali, é porque devo salvá-lo. Se fosse o Arcebispo quem devesse ser salvo, estaria ali um padre ou um bispo.
    E quem sou eu para julgar quem faria um bem maior à humanidade? De repente o meu pai poderia mudar para melhor depois deste episódio ou o arcebispo poderia encobrir um caso de pedofilia.

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  8. Estou completamente de acordo com a última posição (do Anónimo das 21:57). A humildade no julgamento, a par de um acto fundado no amor filial e não numa moral abstracta, parecem-me, à partida, correctos.

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  9. antes de começarmos a tratar as pessoas por "anónimo das 15:00", etc, será que é um sacrifício assim tão tão grande... assinar a bodega dos comentários com o nome próprio... como meninos crescidos e vacinados?

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  10. Curioso. Algumas das pessoas que salvariam o pai, com ou sem reservas, alguma vez estudou o Êutífron de Platão?

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  11. Salvaria Fénelon, sem dúvidas.

    A resposta é um pouco discrepante da opinião corrente nos comentários, mas deixe-me justificar: quando um professor escolhe um aluno para uma bolsa de iniciação cinetífica ou de monitoria pela razão de possuir algum vínculo pessoal com esse aluno (ainda que esse aluno não seria o mais competente), isso é considerado completamente errado (sem sombra de dúvidas). Quando um político indica um filho para um cargo público, unicamente por ele ser seu filho (ainda que existissem outros mais competentes), isso é considerado claramente errado.

    O que está de errado nestes casos? Colocamos nossas inclinações subjetivas (gosto desta ou daquela pessoa) a frente do que é correto objetivamente. Isso me parece algo muito provinviano: meu grupo vem antes dos demais simplesmente porque é MEU grupo. O mesmo ocorre com patriotismo: adoro meu país acima de todos ou outros pelo motivo de que ele é MEU país. Isso me parece tolo. Desenvolvemos um sentimento exacerbado por algumas coisas, simplesmente porque esta coisa tem alguma relação comigo.

    Isso acontece no caso de salvar meu pai ou Fenelon. Porque haveria de salvar meu pai? Seria só porque é MEU pai? Me parece bem tolo...

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  12. Claro que sim Desidério, mas no post não dizes que o pai é um criminoso. Segundo recordo, o pai do Eutifron tinha cometido um crime.

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  13. Visto que a opção de salvar o arcebispo em vez do pai é abominada por quase toda a gente, aqui vai um desafio a essa teoria moral aqui comummente defendida, que se poderia chamar "familiarismo" ou "amor pelo parente":
    A violou e assassinou B, uma criança de 8 anos. Depois de fugir às autoridades, A foi capturado e mais tarde presente a julgamento como principal suspeito. Entre os presentes na sessão estavam os pais da vítima e, sem ninguém saber, a mãe do suspeito (e real assassino). O julgamento chegou ao fim sem que as suspeitas fossem conclusivas e, por isso, o suspeito deveria ser ilibado. Caso fosse dado como culpado, a sentença certa a aplicar seria a pena de morte. A única maneira de A ser dado como culpado era a mãe, que conhecia o crime, depor contra ele. O que deve a mãe fazer? Manter-se em silêncio e guardar segredo do crime, permitindo que o filho sobreviva, ou depor contra ele, sendo certo que, nesse caso, ele será condenado à morte?

    Não sei se alguém reconhecerá esta situação num filme verídico, mas como a memória me falha, julgo estar a distorcer um pouco os factos. O certo é que quando vi há muitos anos um filme semelhante à situação descrita, fiquei surpreendido com o desfecho.

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  14. Sócrates manifesta perplexidade perante Êutífron por este ir denunciar o seu próprio pai. Esta perplexidade é a mesma do que ocorre se uma pessoa salvar o arcebispo em vez do seu pai. Em ambos os casos, o comportamento comum, que não provoca perplexidade, é o favorecimento pessoal.

    O que está em causa é saber se o favorecimento pessoal é eticamente defensável e, se o for, em que circunstâncias o é. Em alguns casos, como argumentou o Iago, é claramente reprovável. E em todos, será que também o é?

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  15. "A máxima da benevolência (o amor prático para com os homens) é um dever de todos os homens para com os demais; considerem-se ou não estes dignos de ser amados, tal dever existe de acordo com a lei ética da perfeição: ama o teu próximo como a ti mesmo.
    (...) Mas um é-me mais próximo do que outro, e, em matéria de benevolência, eu sou o mais próximo de mim mesmo. Como é que então isto está de acordo com a fórmula: ama o teu próximo (o teu semelhante) como a ti próprio? Se alguém está mais à beira de mim mesmo (em matéria de dever de benevolência),e, portanto, eu estou obrigado a ser mais benevolente com um do que com outro, mas estou, obviamente, mais próximo de mim próprio do que de qualquer outro (inclusivamente sob o ponto de vista do dever), então parece que não posso, sem com isso me contradizer, dizer-lhe: devo amar a cada um como a mim mesmo; pois que a medida do amor próprio não permitiria nenhuma diferença de grau. - Vemos, de imediato, que aqui não se alude simplesmente a uma benevolência do desejo, a qual é verdadeiramente uma mera complacência em relação ao bem de cada um, sem ter que contribuir com algo para isso (cada um por si, Deus por todos nós), mas sim uma benevolência activa, prática, que consiste em propor-se como fim o bem-estar e a saúde do outro (fazer bem). Pois que em tal desejo eu posso querer bem a todos por igual, mas na acção o grau pode, todavia, ser muito diferente, de acordo com a diversidade de pessoas queridas (de entre as quais uma me toca de mais perto que a outra), sem, com isso, violar a universalidade da máxima".
    Immanuel Kant

    A.Martins

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  16. Não acho que seja tão difícil optar por salvar o bispo. Mesmo o bêbado grosseiro sendo meu pai, o fato de ele ser um bêbado grosseiro e meu pai, nesse caso, só agrava a situação por causa do mal causado a si mesmo, a estranhos e a mim mesma. Não vejo razoabilidade nenhuma em salvar alguém tão desprezível e deixar uma pessoa importante como Fénelon morrer só por ter a obrigação moral de salvar meu pai independente de quem seja.

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  17. Será que ser bêbado e grosseiro, é uma coisa assim tão desprezível que faça a pessoa deixar de merecer consideração moral? Não estamos a falar de genocidas nem sequer de tipos que batem nos filhos.
    Talvez para ponderar bem esta questão seja necessária a experiência de ter um pai bêbado e grosseiro, mas também experiência suficiente para se ver a si próprio com uma relatividade (ou seja, como seres que não têm uma moralidade à prova de bala pela maior parte do tempo, o que nos é muito custoso admitir por causa do orgulho simiesco que herdámos dos nossos tetra-tetra-[...]-avós símios), relatividade que negamos de imediato ao bêbado grosseiro. É que muitas vezes na vida acabamos por fazer coisas que do nosso ponto de vista não parecem as mesmas que a do tal bêbado grosseiro, mas a quem nos observa de fora são exactamente as mesmas coisas.

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  18. O exemplo que quis dar há pouco pretendia mostrar a incoerênciade de uma moral que privilegia os entes mais próximos do agente moral. Se nos colocarmos no lugar dos pais da vítima, queremos que o responsável pela morte do(a) nosso(a) filho(a) seja punido, eventualmente, morto. Se estivermos na posição da mãe ou do pai do assassino, queremos, à partida, defender a sua vida. Se não me engano, naquele caso, a mãe do assassino preferiu que o filho fosse condenado à morte, mesmo:
    i) sofrendo muito com isso; e
    ii) sabendo que isso não poderia compensar os pais da vítima pela morte da criança.
    A mãe do assassino foi contra a reacção intuitiva das pessoas, mas a sua atitude evita que se caia num critério moral contraditório: "quando é com os outros deve-se aplicar a regra X, mas quando é comigo ou com os meus, deve-se aplicar a excepção dessa mesma regra X".
    Dito isto, a escolha que eu disse que tomaria em salvar o arcebispo é feita com distância e "frieza", com certeza. Não sei que estado psicológico teria ao ver um edifício em chamas com pessoas lá dentro a morrer. Mas isto é um tipo de constrangimento semelhante ao que sofre um ateu que nega, de seu perfeito juízo, que nunca se converterá no seu leito de morte. Sabe lá ele se nessa altura o medo ou a senilidade o fazem mudar de ideias. Isto não invalida, contudo, a posição que nós achamos correcta, quando estamos no conforto de discorrer racionalmente sobre as coisas. É também um constrangimento semelhante, e sobre o qual penso muitas vezes, ao de viver num regime totalitário e opressor como o nazismo. Podemos considerar as acções de certos agentes nazis imorais sem, no entanto, conceber uma forma diferente de agir, caso estivéssemos na mesma situação, uma vez que aqueles agentes tinham ordens a cumprir e, caso fossem desrespeitadas, era a sua própria vida que estaria em risco. Isto mostra, quando muito, a violabilidade e a independência da moral face à natureza e ao instinto de sobrevivência.

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  19. Este comentário foi removido pelo autor.

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  20. Vitor,

    Parece-me o que você está querendo dizer é que qualquer pessoa merece, a priori, as mesmas considerações morais porque todos, por sermos seres falíveis, estamos sujeitos aos mais variados comportamentos ditos errados, e, por isso, não deveríamos ser tão severos com o bêbado e salvá-lo, porque, além de todos merecerem as mesmas considerações morais, ele é nosso pai. Sendo assim, tanto faz se quem precise ser salvo seja um bêbado grosseiro ou um bispo que contribui para o bem da humanidade, porque o único critério de diferenciação passa a ser o fato de ele ser o nosso pai. Mas você também parece sugerir que se a pessoa a ser salva for uma pessoa com um perfil que consideramos o de uma pessoa muito ruim, como um nazista, por exemplo – o que não é um caso porque ele é só um bêbado grosseiro – então talvez seja preciso reconsiderar nossa decisão. Mas sendo assim, então temos uma avaliação baseada no mérito e o que estava sendo defendido a princípio já não tem a mesma força e torna-se defensável o salvamento do bispo porque se por um lado o bêbado é melhor do que o nazista, o bispo é melhor do que pai.

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  21. Há um aspecto engraçado nesta questão. Uma coisa é reconhecer que a maioria senão todos salvaria antes o pai, isto é, agiria segundo a inclinação. Uma vez constatado o facto, que pode ter uma explicação psicológica, biológica, social, whatever, queremos desesperadamente uma teoria moral segundo a qual esse modo de agir é o correcto... porque, inalterado o resto, preferimos uma teoria que nos represente como tipos porreiros e o mundo ou os outros como causa da nossa desgraça.

    E que tal esta observação: se a acção mais moral é a que tem melhores consequências gerais, e salvar o bispo é a acção que tem melhores consequências, eu sei que o melhor seria salvar o bispo. Contudo, salvo o meu pai bêbado e grosseiro, fazendo conscientemente o que é incorrecto, sabendo conscientemente que o faço e que estou a agir irracionalmente com base num imperativo biológico que pode nem ter coisa alguma de moral. Contudo faço-o e nem sequer tento justificar o que fiz com uma teoria moral que me recoloque na verdade.

    Constatamos o mesmo tipo de coisa quando se discute, digamos, o vegetarianismo. Quando as pessoas sentem algum peso nos argumentos a favor do vegetarianismo moral, mas continuam a comer carne, inalterado o resto, preferem manter uma teoria que não os represente como outra coisa que não tipos porreiros, ainda que no fundo dêm o seu assentimento aos argumentos vegetarianos. É a necessidade desesperada de o ser humano conciliar duas coisas: fazer de qualquer modo aquilo que já queria fazer, e preservar a imagem de si próprio como um Gajo Porreiro cuja desgraça e desvios morais são causados pelos outros, pela sociedade, pelo capitalismo, ou por outra coisa qualquer.

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  22. Caro Vítor Guerreiro,

    É importante pensarmos no que são "as melhores consequências gerais". As consequências, boas, da acção do bispo, são-no do ponto de vista geral da comunidade, bem certo. Mas, alguém pode defender que as consequências boas da acção biologicamente influenciada de salvar o pai se inscrevem num processo próprio da espécie que é vantajoso para a humanidade em geral. Assim, se pode ser verdade que salvar o bispo beneficia directamente mais pessoas, a defesa da acção que se guia apenas por este critério pode, deste ponto de vista, prejudicar um número ainda maior de pessoas, à medida que for sendo aceite.

    Pela minha parte, este tipo de argumento não me faz ver-me como um Gajo Porreiro; o biologismo é algo que me repugna. No entanto, estou crente que, se nos cingirmos àquilo que é a "democraticidade do bem", isto é, à sua distribuição pelos homens e mulheres, não conseguimos evitar argumentos como o biologista. É certo que não pensei sistematicamente nisto, posso estar enganado.

    A. Martins

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  23. Quem se interessa por essa discussão acerca do favorecimento pessoal vai adorar a aula do Michael Sendel http://www.justiceharvard.org/index.php?option=com_content&view=article&id=48&Itemid=19

    A única diferença é que a discussão é ampliada: ao invés de discutir a correção moral de salvarmos um familiar ao invés de outra pessoa em um acidente, Sendel discute o patriotismo, o comunitarismo, etc.

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  24. Penso que a questão do favorecimento só pode ser adequadamente conceptualizada a partir de uma teoria da justiça. Se seguirmos Michael Walzer, devemos distinguir, no procedimento, i)monopólio de ii) predomínio.
    i) o monopólio refere-se à apropriação exclusiva de um bem ou conjunto de bens por um homem, mulher ou organização de qualquer tipo;
    ii) O predomínio refere-se à situação em que um certo bem é dominante por referência a todos os outros bens, permitindo aos seus detentores obter com maior facilidade, através de trocas, um conjunto de outros bens.
    Penso que, à luz destas definições, o predomínio se revela potencialmente mais injusto que o monopólio. Isto, porque, numa sociedade aberta e plural, o monopólio de um bem não é o aspecto mais problemático do ponto de vista da justiça, ante a diversidade de bens socialmente reconhecidos. A situação de predomínio pode ser mais problemática. É o caso do dinheiro: tende a impor as suas regras no acesso a muitos outros bens, pertencentes a esferas que se esperam autonomamente regidas em termos distributivos.
    Ora, quanto à questão do favorecimento, podemos pensar que existem diferentes esferas de justiça, correspondentes a diferentes bens e regras de distribuição respectivas; assim, na família e na empresa, por exemplo, existem regras diferentes, que regulam a distribuição de bens diferentes.
    Por conseguinte e quanto à questão do favorecimento, a distribuição do afecto familiar é coisa bem diferente da distribuição dos lugares por mérito numa empresa. Claramente, a distribuição dos lugares na empresa por questões afectivas/familiares, como a distribuição do afecto na família em função do mérito profissional, representam tentativas de estabelecer o predomínio de certos bens sobre outros, o que pode configurar situações injustas.
    Claro está que isto é bem diferente do que se discutia inicialmente, em função do critério do "benefício geral".
    A. Martins

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  25. Salvaria o meu pai, óbvio
    Pois, por ser uma pessoa próxima a mim, não ficarei com um "peso na consciência" por não ter salvado o arcebispo, o qual sua morte não fará falta em minha vida, principalmente se ele não fizer parte de minha família

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  26. E se o salvamento do arcebispo fosse em nome de um favorecimento pessoal, como, as recompensas possíveis por ter livrado uma pessoa importante para a sociedade e a consequência ser o reconhecimento social por tal ação? Não seria o caso de agir por egoísmo?

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  27. Acredito que seja mais fácil para efeitos de argumentação se levar-mos a situação a algo um pouco mais extremo: optar entre salvar a própria vida ou a vida de algum grande benfeitor da humanidade. A relação com familiares envolve um tipo de preferência intermediária entre uma usual indiferença (frente a quem não conhecemos) e o instinto de manter-se vivo. Visto desde fora, entre alguém absolutamente comum e algum 'grande ser humano', todos optariam por este último. Mas se o comum for vc, o que deve decidir, o que se está pedindo é um tipo de sacrifício altruísta extremo, não exigível de ninguém. Voltando ao caso original, a decisão é, na melhor das hipóteses, moralmente neutra. Lembro que J. Rachels em "Elementos de Filosofia Moral' aborda essa situação, mas não lenbro bem one.

    []s,
    Nypoa

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