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As delícias da linguagem

Acabei de receber um exemplar da minha tradução parcial de Palavra & Objeto, de Quine. A secção 47, traduzida por mim, tem por título "Um enquadramento para a teoria". O original é "A framework for theory". Mas mudaram a minha tradução para "Uma armação para a teoria". Gostaria de saber se a armação é de aço ou de madeira.

As frases ou proposições condicionais também mudaram de sexo e passaram a ser "os condicionais" em vez de "as condicionais", o que no mundo de hoje se compreende e aplaude, dado o direito à transsexualidade e tudo isso.

No início da bibliografia podemos ler, no original: "Listam-se apenas as obras a que se alude algures no livro" (Only those works are listed that are alluded to elsewhere in the book). Mas na tradução lê-se "Somente aos trabalhos listados aludiu-se em algum lugar do livro", uma maravilhosa frase enigmática que dá logo outra densidade ôntica ao velho Quine.

O que se lê na página 17 do original eu traduziria assim:
O padrão de condicionamento é complexo e inconstante, de pessoa para pessoa, mas há pontos de congruência geral: combinações de perguntas e de estimulações não-verbais que quase certamente provocam uma resposta afirmativa a qualquer pessoa que se possa adequadamente considerar que pertence à comunidade discursiva relevante. Johnson tropeçou numa dessas combinações, pondo-se frente a um estímulo que despoletaria uma resposta afirmativa de qualquer um de nós à questão de saber se está ali uma pedra.
Mas o que se lê na pág. 40 da edição brasileira é:
O padrão de condicionamento é complexo e inconstante de pessoa a pessoa, porém existem pontos de congruência geral: combinações de questões e estimulações não verbais que são muito prováveis de provocar uma resposta afirmativa de qualquer um adequado a ser considerado como parte da comunidade de fala relevante. Johnson enfrentou tal combinação, examinando um estímulo que precipitaria uma resposta afirmativa de qualquer um de nós à questão se há uma pedra ali.
O original inglês é:
The pattern of conditioning is complex and inconstant from person to person, but there are points of general congruence: combinations of questions and non-verbal stimulations which are pretty sure to elicit an affirmative answer from anyone fit to be numbered within the relevant speech community. Johnson struck such a combination, putting himself in the way of a stimulus that would trigger an affirmative response from any of us to the question whether a stone is there.

Comentários

  1. Eu pensei que o título "Uma armação para a teoria" tratasse de uma tramóia elaborada pelos críticos da teoria : )

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  2. Talvez os revisores conheçam a fama do Quine de não ser muito claro e estejam tentando deixar a tradução mais esquisita para se manterem fiel à pouca clareza dele...

    Como leitor amador da lingua inglesa, a única alteração que eu faria em sua tradução seria tirar o "bom" da expressão "bons pontos". Me parece que isso está a mais.

    De resto, parece que eles se esforçaram em só deixar a tradução pior mesmo...

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  3. eu perguntaria directamente aos revisores: são atrasados mentais? Têm casos documentados de atraso mental na árvore geneaógica?

    O surpreendente é que se faça este tipo de coisas à revelia do autor do trabalho, com todos os direitos que inerem a esse estatuto, que é o tradutor. Mas nas culturas simiescas, que são só proto-culturas, como é o caso da portuguesa também, o tradutor ainda é considerado pouco mais que um macaco dactilógrafo, cujas posições só são levadas a sério por quem não sendo tradutor conhece por dentro o trabalho de tradução.

    Haja respeito, "galera"!

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  4. Desculpem a ignorância: um revisor não discute as alterações com o tradutor? se não, não me apanham num trabalho desses...

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  5. Obrigado, Iago, nem sei de onde me veio o "bom" que estava a mais. Curiosamente, não considero o Quine um autor difícil de traduzir. Ele é muito simplista, na verdade, mas disfarça isso com um uso lexicalmente rebuscado da língua inglesa. Mas não tem o género de densidade e subtileza filosófica que torna mais difícil traduzir um autor como Thomas Nagel. Além dos tiques de linguagem, o que Quine diz é geralmente muito superficial e banal; nada tem de sofisticado, filosoficamente falando. Mas é preciso saber lógica elementar, pois quase sempre ele está a usar coisas simples da lógica elementar (aparentemente pensando que está a dizer coisas profundas).

    Rui, se eu e outros tradutores estivermos à espera de um mundo perfeito para traduzir, nem tu nem os estudantes poderiam ler fosse que tradução fosse. Temos de tentar fazer o melhor, nas circunstâncias em que vivemos.

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  6. Compreendo, mas quando um título é alterado impõe-se uma consulta ao tradutor. Por outro lado, um revisor deve pelo menos perceber tanto como o tradutor (senão mais) do conteúdo científico do livro. Por isso em muitos títulos aparece o Desidério como revisor de outros tradutores. Para lá da falta de cortesia no caso que refere, existe também uma elevada dose de ...falta de profissionalismo.
    Mas ainda bem que sobrevivem a estas descortesias, pois sabe bem ler filosofia

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  7. Mas, no fim das contas, a versão que vai parar na publicação é a versão tosca (a versão da "armação")?

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  8. "Condicional" admite os dois gêneros: masculino e feminino.

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  9. O novo link: http://criticanarede.com/palavraeobjeto.html

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