25 de maio de 2010

Defesa da diversidade

photo by babastevevia PhotoRee

O Carlos põe aqui o dedo na ferida: caso toda a gente se dedicasse à matemática, física, filosofia e história, por exemplo, não haveria pão; não haveria restaurantes; não haveria supermercados nem mercearias. Há duas grandes confusões presentes quando as pessoas objectam ao que disse o Carlos e que me parece uma verdade inevitável.

A primeira está patente logo no primeiro comentário ao apontamento do Carlos: consiste em pensar que fazer pão ou guiar um taxi ou trabalhar num supermercado são coisas "estúpidas". Mas nem a ideia original do Carlos fala de estupidez, nem tem seja o que for a ver com isso. Podemos ver o que está em causa de outro modo: imagine-se que toda a gente se interessava exclusivamente por fazer pão; nesse caso, não haveria médicos nem pedreiros. Nem filósofos, nem físicos. Dizer isto não é dizer que estas actividades são "estúpidas". Do mesmo modo, dizer que se toda a gente se interessasse por história, matemática, física, filosofia, etc., não haveria padeiros, não sugere que ser padeiro é estúpido.

A segunda é uma incapacidade para compreender e aceitar a diferença. Presumivelmente, isto é fruto de provincianismo ou de falta de experiência de vida. As pessoas não têm todas os mesmos interesses. Felizmente. O que para uma pode ser um projecto de vida estimulante e fonte de felicidade, para outra pode ser uma perspectiva deprimente. Quem sofre desta incapacidade para ver a diferença não consegue aceitar que uma pessoa possa gostar do que ela não gosta (ou pior: do que ela finge gostar por pensar que dá estatuto social, mas da qual realmente não gosta), e se ela por azar gosta de matemática, não consegue entender como se pode gostar de ser taxista. Ou vice-versa.

Claro que está aqui subjacente outro aspecto: a valorização social. Socialmente, um emprego como professor universitário é mais valorizado do que um emprego como taxista. Mas isto é apenas um reflexo de uma sociedade classista e palerma. Lutar contra isso não é lutar contra os taxistas, mas antes lutar contra a ideia de que ser professor universitário tem mais valor ou é "superior" a ser taxista. Lutar contra uma sociedade classista não é querer acabar com actividades vistas como menores, mas antes acabar com a ideia de que tais actividades são menores. Lutar contra o classismo é lutar pela valorização de profissões tradicionalmente desvalorizadas.

O que se segue de tudo isto no que respeita ao ensino? Que se deve dar uma formação científica e cultural a todos os cidadãos e que se lhes deve dar também a oportunidade de escolher a área de actividade na qual pretendem dar a sua contribuição à sociedade em que vivem.

E o que pensa o leitor?

24 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Desidério:

    Obrigado pela referência ao meu post.

    Fazer pão ou guiar táxis não são de modo nenhum coisas estúpidas. (Já agora, julgo que o Mário não percebeu o meu post e escolheu mal a palavra, mas não creio que defenda nenhuma forma de elitismo.) São actividades muito necessárias e dignas e uma pessoa pode ser feliz e realizar-se fazendo-as.

    Não sei bem se concordo com o final do teu texto, pois o alcance daquelas palavras não é claro. Dar formação científica e cultural a todas as pessoas… sem dúvida - mas até quando?

    Relativamente a isso transcrevo uma parte do comentário que entretanto fiz para responder ao Mário:
    “É errado dar a todas as pessoas durante demasiados anos uma formação semelhante. A situação que sugeri mostra que isso não faz sentido, pois caso os objectivos fossem alcançados teríamos uma sociedade inviável.•
    Deve dar-se a todos os alunos uma sólida formação no ensino básico (até ao 9º ano no máximo) e depois o ensino deve deixar de ser obrigatório e diversificar-se. Cursos de prosseguimento dos estudos e cursos profissionais - mas não como os actualmente existentes.
    Os cursos profissionais actuais não têm de facto um carácter profissionalizante, mas sim facilitista: ensina-se mais ou menos as mesmas coisas que nos outros cursos, mas de modo mais simplista, menos exigente, mais ‘aguado’. E esse facilitismo não atinge apenas os conteúdos, mas também a avaliação e o comportamento dos alunos, em que é costume ser-se bastante permissivo. Ou seja: trata-se os alunos do Profissional como alunos de 2ª, em vez de pessoas que decidiram que a sua vida teria um rumo mais prático mas igualmente digno e necessário.”

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  3. Ó Desidério, se o Carlos apenas quis dizer o que tu dizes que quis (e eu, que o li quando o texto foi publicado, portanto antes do teu comentário, não o entendi assim), então o que ele diz é uma banalidade sem qualquer interesse.

    Eu iria mais longe, mesmo não saindo da banalidade: se TODA a gente tivesse O MESMO e único interesse, não haveria OUTROS interesses (para além desse). Ok! E...?

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  4. Caros,

    Não digo que a ideia do Carlos seja que ser padeiro ou pedreiro são coisas "estúpidas". Mas o Carlos afirma que:

    "Numa tal sociedade, haveria alguém disposto a ser padeiro ou pedreiro? Duvido"

    Ou seja, que se nos interessamos por filosofia, ciência e afins então não nos satisfaremos em ser pedreiros ou padeiros. E este passo parece-me questionável, pois não vejo nenhuma razão para que um pedreiro não possa chegar a casa e estudar, ler e discutir filosofia ou matemática.

    A minha opinião é que podemos retirar prazer e satisfação profissional de uma determinada actividade (ser padeiro, pedreiro, filósofo ou engenheiro) e retirar prazer pessoal e intelectual de outra actividade qualquer. Assim, um pedreiro pode retirar prazer da filosofia e um filósofo pode retirar prazer da jardinagem.

    Onde é que quero chegar com isto? Que numa sociedade em que todos tivessem um nível intelectual mais sofisticado (estou a tentar fugir ao “superior” e “mais elevado”) seria perfeitamente possível e viável que continuassem a existir pedreiros, padeiros, jardineiros e engenheiros. Assim, julgo que a sociedade deverá dar a todos, na medida do possível, a oportunidade para atingirem essa sofisticação intelectual. Agora não me perguntem como é que isso pode ser feito…

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  5. Carlos,
    Hoje mais que nunca é quase impensável que um ser humano passe na vida desprovido dos conhecimentos científicos mais elementares.Creio que ainda existe resistência quando se fala nestes termos, já que algumas pessoas pensam que o ensino só serve para ensinar coisas mecânicas e demasiado técnicas. Mas não é isso que se pretende. O que se pretende, em termos gerais, é formar os indivíduos, tornando-os mais cultos, mais conhecedores, mais autónomos. E a ciência é parte fundamental da cultura dos nossos dias. Muitas pessoas acham escandaloso que de repente se retirasse o Português do ensino em Portugal, mas não acham escandaloso que um estudante - até do ensino superior - não compreenda que se largar um telemóvel e uma folha de papel enrolada, os dois caiam ao mesmo tempo ao chão. Pois isto para a ciência como não saber identificar sujeito e predicado numa frase em português. Como a língua é um mapa para comunicar, a ciência funciona como um mapa para nos orientarmos no mundo. Faz tanto sentido aprender a língua na escola, a todo e qualquer estudante, como faz aprender ciência. O ensino profissional é ainda mais desprovido de ciência.

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  6. Acima onde se lê:
    "Pois isto para a ciência como não saber identificar sujeito e predicado numa frase em português.",
    queria dizer:
    "Pois isto está para a ciência como não saber identificar sujeito e predicado numa frase está para o ensino do Português".

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  7. Ah! Ainda há outro aspecto interessante nesta dscussão: como todos nós, ta,também eu já conheci pessoas com profissões não intelectuais com mais interesse na vida intelectual do que pessoas com profissões intelectuais e sem qualquer interesse na vida intelectual. Conheço centenas de professores todos os anos, desde biologia, matemática, história e filosofia que têm profissões de estudo e vida intelectual e que não só não se interessam pela vida intelectual como a desprezam deliberadamente e a abominam. Ou seja, também é em certo sentido falso que dar a oportunidade à pessoa de estudar faça da pessoa alguém interessado no estudo :-)

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  8. Jaime,

    o que o Carlos esta' a assumir implicitamente quando escreve

    "Numa tal sociedade, haveria alguém disposto a ser padeiro ou pedreiro? Duvido"

    e' que, de facto, uma vez acedendo com gosto a essas actividades intelectuais perde-se a disponibilidade para os trabalhos mais duros fisicamente ou mais mecanizados (taxista ou pedreiro ou caixa no supermercado sao exemplos que me veem 'a mente). De certa maneira, existem umas actividades que sao superiores 'as outras na medida em que se imagina um trabalhador do supermercado ir para casa ler filosofia, mas nao se imagina um filosofo a ir para o supermercado nos tempos livres para se realizar um pouco mais. De facto, existem actividades que preenchem uma vida humana, outras que nao preenchem de todo (limpezas, caixa no super, etc) e outras que sao intermedias. Existe decerto uma dependencia em funcao de gostos pessoais, mas existem alguns invariantes no problema: filosofo versus caixa no super ou limpezas e' um exemplo claro.

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  9. Obrigado pelos vossos comentários. Penso que agora as coisas são mais claras.

    Primeiro, as pessoas objectam a uma verdade óbvia: mesmo depois de contactar com coisas como a filosofia ou a matemática, muitas pessoas (na verdade, a maior parte) não mostra qualquer interesse nelas. A maior parte dos alunos de filosofia não tem o menor interesse nessa área, nem em qualquer outra actividade intelectual; o interesse principal é a cerveja, o futebol e outros entretenimentos do género. Não tenho razões para pensar que os alunos de outros cursos sejam substancialmente diferentes. Conheci vários alunos de letras, por exemplo, cujo interesse em literatura era menor do que o meu.

    Segundo, não vêem que, caso tivessem razão, teriam de resolver o problema de saber quem iria fazer outras coisas que não essas actividades.

    Ora, penso que o Carlos tem a coragem de dizer o que muitas pessoas não têm qualquer interesse em coisas como física, matemática, filosofia, etc. O que é uma boa notícia, por um lado, porque caso o mundo fosse como algumas pensam que é, teríamos um problema sem solução. Não se trata de as pessoas poderem ter interesses em matemática ou filosofia sendo profissionais de outras áreas, o que é saudável; trata-se de não terem qualquer interesse nessas coisas, sejam de que área forem — até mesmo, como sublinhou o Rolando, quando são professores dessas mesmas áreas!

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  10. O comentário do Miguel fez-me lembrar de pelo menos um caso que pode funcionar como contra exemplo, Jack London. Foi um activista com um ritmo de escrita e vida intensos (trabalhou como marinheiro durante um largo período da sua vida e mesmo assim foi escrevendo e curiosamente estudou) e teve também uma intensa relação com o alcool que acabou por lhe destruir a vida devido ao descontrolo. Ainda assim alcançou a fama como escritor durante a vida. Escreveu um romance fabuloso, autobiográfico e publicado na Antigona. Creio que tem uma edição recente. Qualquer coisa como "memórias de um bebedor" não estou certo. Mas há muitos mais que tiveram vidas intelectuais criativas no meio de guerras, catástrofes económicas, etc. É um erro pensar que o ser humano só produz intelectualmente quando tem uma confortável casa virada para o mar e não tem mais nada para fazer. Aliás, eu tenho uma casa virada para o mar e não produzo nada :-)

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  11. Jack London -- um excelente exemplo. E escreveu um romance notavel em que descreve o confronto entre um literato burgues com um homem do mar, capitao de um navio que o recolheu de um naufragio, um terrivel marinheiro de inspiracao nietzscheana, homem duro com enorme capacidade fisica e que tinha um soberbo desprezo por aqueles que vivem uma vida sedentaria e afastada das realidades mais cruas da vida. E' um livro fascinante, e uma luta pela sobrevivencia a que o literato acaba por sobreviver . Joseph Conrad, um escritor ainda maior que foi marinheiro dutrante cerca de vinte anos antes de se dedicar totalmente 'a escrita.

    Sim, a realidade e' muito mais rica do que as ideias esquematicas acerca da arte, da filosofia, da ciencia, e por ai' fora. Mas isso todos estao de acordo e nao estou a ver como e' que o Jack London iria ser capaz de passar os criterios rigorosos que o Desiderio costuma enunciar como necessarios para a pratica da filosofia-- em especial, o conhecimento actualizado da bibliografia.

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  12. Esta conversa fez-me recordar esta cena tirada de um dos filmes mais belos da historia do cinema. Aqui esta'.

    http://www.youtube.com/watch?v=co-c5gPWfiM

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  13. Uma sociedade classista é palerma? Grandes desigualdades sociais são injustas, mas todas serão? Há desigualdades resultantes do mérito, por exemplo, sem as quais haveria pouco estímulo para fazer melhor.
    Além dissso as tentativas para acabar com as classes e outra desigualdades deram mau resultado: países arruinados, ditaduras

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  14. Uma sociedade classista não é o mesmo do que uma sociedade com desigualdades económicas. Uma sociedade pode ter pessoas com diferentes rendimentos, sem ser classista: basta que as pessoas não sejam valorizadas ou desvalorizadas por ganharem mais ou menos dinheiro. Na verdade, nenhuma sociedade classista é defensável, porque a ideia classista é que eu, porque ganho mais dinheiro, sou "superior" ou tenho mais valor do que um sapateiro, o que é indefensável.

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  15. Mas não se pode argumentar que as diferenças económicas são o reflexo de diferentes valorações sociais? Um médico ganha mais do que um sapateiro, porque a sua formação também foi mais cara e presta um serviço que todas as pessoas consideram valioso. Compare-se com um modesto professor, que estudou tanto como um médico, e não aufere nem metade dos seus rendimentos. O dinheiro é o meio mais objectivo que temos, em sociedade, para medir o valor das coisas. Portanto, defender uma sociedade com desigualdes económicas é defender que certas funções têm mais valor do que outras. Logo, uma pessoa que ganha mais dinheiro é, claramente, mais valorizada, mesmo que achemos que não deveria ser.

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  16. Penso que isso é uma confusão. Não sou eu que sou mais valorizado pelo facto de ganhar mais do que outra pessoa; é a minha função. Eu não tenho mais valor por isso, e quem ganha menos do que eu merece o mesmo respeito como pessoa do que eu, coisa que a sociedade classista nega, tratando-me com mais respeito do que um sapateiro. Isto é indefensável.

    Em segundo lugar, o preço das coisas não é um reflexo real do valor que as pessoas lhe atribuem porque está em muitos casos distorcido pela intervenção do estado. A Madonna é claramente mais valorizada do que Bach, porque aqui a intervenção do estado não tem grande influência. Mas no meu caso, só ganho mais do que um sapateiro porque o estado me protege; sem isso, dado que a generalidade das pessoas não valoriza a filosofia, eu ganharia menos do que um sapateiro.

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  17. Concordo com o segundo ponto, mas o primeiro ainda deixou dúvidas. Dizer que o que é valorizado é a minha função e não eu próprio é evidente, mas não é muito importante fazer essa distinção. É impossível valorizar uma actividade em abstracto, sem valorizar a pessoa que a faz. O mesmo se passa no mercado. Simplificando um pouco, qualquer produto com mais procura vale mais do que aquele que tem pouca, assumindo que ambos têm a mesma oferta. Mas isso faz com que X, com muita procura, seja mais valioso do que Y, com pouca procura. Portanto, dizer que se atribui valor à função e não à pessoa é o mesmo que dizer que se dá valor ao produto com mais procura e não a X.
    Dizer: "Eu ganho mais do que tu, mas temos o mesmo valor" pode ser bonito, mas eu prefiro a fórmula: "Eu sou mais valioso do que tu, mas não é por isso que te devo explorar, tratar mal ou retirar-te direitos". Uma coisa não se segue da outra. Não se segue do facto de alguém ser mais forte do que eu, que me pode dar um murro; não se segue de alguém ser mais inteligente do que eu, que me pode impedir de estudar, etc.. Penso que a diferenciação em alguns valores não impede que outros valores fundamentais, sejam iguais para todos.

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  18. Creio que o Desiderio nao tem razao no segundo ponto. O motivo e' simples. Considere-se Harvard, Princeton, Yale, etc. Os professores de filosofia (e nao so') sao muitissimo valorizados e muito bem pagos. Nao sao protegidos directamente pelo Estado, quem os paga sao universidades privadas. E creio que nao estarei errado se disser que sao muito mais bem pagos do que o Desiderio. Por que razao? Bom, porque as pessoas que constituem a classe dominante com poder economico e politico sabem perfeitamente de que necessitam de formar jovens com excelentes capacidades analiticas para formar os quadros do governo, das empresas, da investigacao, etc. Isto demonstra que, de facto, aquelas pessoas que teem maior influencia nos destinos das suas sociedades e do mundo teem as prioridades bem claras quanto ao valor das actividades humanas. Ha' um invariante nisto: quanto mais selecta a instituicao maior e' o ordenado que os professores recebem; porem, o ordenado dos empregados da limpeza e outras funcoes subordinadas, nao especializadas e inferiores recebem essencialmente o mesmo quer limpem as casas de banho em Harvard seja numa pequena universidade de provincia. Claro que nao ha' ninguem que venha negar que todos merecem o mesmo respeito enquanto seres humanos. Mas isso sao as palavras, os actos demonstram exactamente o contrario.

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  19. Alias, quem e' que e' mais importante: o Van Gogh ou o marceneiro que construiu o cavalete onde Van Gogh colocou a sua tela e pintou a sua obra genial? (mesmo que o cavalete fosse muito bem construido e bonito)

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  20. Diferentes coisas ou pessoas podem ser valorizadas diferentemente por diferentes pessoas e em diferentes situações. Um náufrago numa ilha deserta com poucos recursos valoriza mais a hipótese de ter um companheiro agricultor ou pescador, do que poeta ou pintor. A pessoa que fez o cavalete do Van Gogh era mais valorizada pelos seus filhos e amigos do que Van Gogh, e podia ser uma pessoa de muito melhor trato do que este. Parece óbvio dizer que Van Gogh tinha mais valor porque estamos apenas a dizer “Tem mais valor quanto à pintura” ou “Valorizo-o mais porque fez algo que hoje gosto de apreciar”. Basta pensar noutras variáveis e noutras pessoas e a pessoa que fez o cavalete ou que lhe serviu o pequeno-almoço é mais valorizada.

    De modo que não é a pessoa em si que tem mais ou menos valor, mas as coisas que faz; e mesmo considerando uma dada coisa feita por alguém, depende de quem vai avaliar isso e da situação em que essa pessoa está.

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  21. Diferentes pessoas valorizam diferentes coisas em diferentes situações. Há quem valorize a filosofia, e esteja disposto a pagar por isso, em alguns países, mas não noutros. Em Portugal, o número de alunos a fazer graduações em filosofia diminuiu brutalmente desde os anos 80 até hoje. A razão? O que os alunos realmente queriam era um curso superior, sobretudo Direito, mas não conseguiam entrar e iam para filosofia a contragosto; mal a universidade começou a oferecer dezenas de cursos mais profissionais, esses alunos preferiram esses cursos à filosofia. O mesmo está hoje a acontecer no Brasil, à medida que a universidade se expande e abre novos cursos mais atraentes para os alunos. O que num país é valorizado por muitas pessoas, pode não o ser noutro país.

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  22. Desidério, qual a diferença da sua defesa para a defesa dos relativistas morais? Se o valor de X é determinado pela perspectiva de alguém acerca de X também o valor moral de uma ação X é determinado pela perspectiva que alguém tem acerca de uma ação X.

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  23. A diferença é que não se segue do facto de o valor ser relacional que não tem objectividade, tal como não se segue do facto de a paternidade ser relacional que é subjectiva. Ao passo que o relativismo, pelo menos o popular, pensa que uma coisa se segue da outra.

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  24. Pode existir um taxista-filósofo. Sem problema. Penso até que deve ser uma profissão que se dá muito a isso.

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