16 de maio de 2010

Doutrinação e liberalismo

Tenho reparado muitas vezes que quando os alunos são libertados da doutrinação dando-lhes a conhecer outras alternativas que até então estavam silenciadas, os professores mais doutrinários gritam então que os alunos estão a ser doutrinados. Aparentemente, só há problema se forem doutrinados na doutrina que não se professa, ao passo que se forem doutrinados na que se professa não há qualquer problema. Vale a pena reler o texto "Anti-liberalismo", de João Cardoso Rosas, que narra um exemplo hilariante.

5 comentários:

  1. O problema parece-me não tanto estar nos conteúdos a serem leccionados mas sim o julgamento que se tenta fazer passar dos mesmos conteúdos. Por exemplo, seria aceitável na nossa sociedade que se ensinasse o nazismo e o holocausto, fazendo passar uma mensagem de repúdio e de um grande exemplo de um enorme erro.

    Já ensinar a democracia e o 25 de Abril, fazendo passar a mensagem de repúdio e de um enorme erro pode ser um cataclismo para a maioria dos Portugueses.

    Portanto mais do que dar a conhecer conceitos, ideais, etc, aqui o problema parece residir na forma como os estamos ensinar e no pré-julgamento que fazemos deles.

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  2. Se me permite, discordo completamente. O problema é a ideia de “fazer passar mensagens” quando se ensina algo. Isso é instrumentalizar ideologicamente os conteúdos do ensino. E tanto faz se a ideologia é a que favorecemos ou não. O ensino de excelência tem em vista a autonomia e a liberdade do aluno. São-lhes transmitidos dados históricos, são-lhe dados a conhecer bibliografias e métodos de pensar. E é incentivado o debate aberto na aula. Um ensino que tenta fazer passar mensagens de repúdio ou de agrado, seja pelo que for, não pode deixar de ser, do meu ponto de vista, um ensino acanalhado e manipulador, sem qualquer respeito pela autonomia do aluno nem sequer pela imparcialidade intelectual e pelo amor da verdade que o professor deve exemplificar.

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  3. Considerando errado “orientar” ideologicamente o ensino da Filosofia Política, tornando-o doutrinante, o problema mais interessante é como escapar a esta doutrinação. Por mais honesto intelectualmente que se seja, não acredito que haja a possibilidade de um ensino totalmente isento de ideologia porque qualquer escolha de autores (e apagamento de outros) parte de uma grelha que pode ser tomada, à partida, como ideológica (e nem mesmo o critério de relevância na história das ideias políticas nos faz fugir a este enviesamento). Assim o esforço a fazer tem de ter a modéstia de conhecer as suas limitações ideológicas, restando dar acesso, de forma a mais isenta e clara possível, a várias tradições e formas de pensamento.
    O texto de João Cardoso Rosas que é citado não me parece um bom exemplo:

    - em primeiro lugar critica uma palestra sem a enquadrar devidamente (ficamos a saber que alguém fez uma palestra sem saber quem, ficamos a saber que defendeu escolhas sobre o ensino do problema da liberdade no ensino secundário mas não sabemos qual a argumentação completa que utilizou, ficamos com uma impressão caricatural da situação e não com os dados suficientes para julgar a posição do autor e a daquele que critica etc.).
    - Em segundo lugar parte de um princípio abertamente ideológico e não faz sequer um esforço de neutralidade: “Para qualquer pessoa informada sobre a história do pensamento, este tema conheceu grande desenvolvimento com o liberalismo e com as reflexões de autores como Benjamin Constant, John Stuart Mill, etc. Seria lógico que se recorresse a esta tradição de pensamento para introduzir os alunos ao conceito de liberdade.” Descontando o facto de “qualquer pessoa informada” me soar a um argumento de autoridade, não fica claro se o autor defende que o ensino deste tema no secundário fique restringido aos autores liberais ou que inclua também estes. Entre as duas posições há uma enorme diferença.
    - Em terceiro lugar toma como evidente, sem o provar, que outras tradições de pensamento que não a liberal não são adequadas para a idade dos jovens estudantes: “Mas é mais do que óbvio que não são os mais adequados para jovens de 16 anos que ainda estão a tentar compreender os conceitos políticos básicos. Nem são, em qualquer circunstância, os mais adequados para começar a compreender uma ideia tão rica e com tantas implicações como a de liberdade.”
    - Em quarto lugar salta da defesa de princípios ou de autores no ensino para uma caricatura: “A atitude do orador de que faço aqui eco é muito mais comum do que se possa imaginar. Entre muitos intelectuais, a hostilidade ao pensamento liberal traduz também um ódio mal disfarçado às instituições liberais: à democracia representativa, aos mercados livres, etc. Os intelectuais nunca gostaram da democracia porque lhes causa impressão que a populaça — que não é sábia e inteligente como eles — tenha direito de voto.” Assim, fica a imagem do palestrante criticado (quem afinal?) enquanto não um anti-liberal mas um anti-democrata, associa-se liberalismo político a liberalismo económico, liberalismo a democracia (não existiram liberais anti-democratas?) e reduzem-se todos críticos do liberalismo a intelectuais elitistas assustados com a democracia.

    Carlos Carujo

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  4. Não me compete responder às críticas ao texto do João, algumas das quais me parecem boas.

    Mas por mais de uma vez vi este género de ideia:

    "Por mais honesto intelectualmente que se seja, não acredito que haja a possibilidade de um ensino totalmente isento de ideologia".

    Ora, isto é muitas vezes o início de uma falácia: se não é possível um ensino totalmente anti-dogmático, então nem vale a pena distinguir entre o mais e o menos dogmático e nem vale a pena tentar ensinar da maneira menos dogmática e mais imparcial de que somos capazes. E isto, claro, é falacioso. Do facto de ser impossível evitar os erros (todo o professor diz coisas erradas nas aulas) não se segue que o professor deve deixar de tentar não dizer coisas erradas nas aulas.

    Não estou a dizer que o Carlos cometeu esta falácia explicitamente, mas sugeriu-a. Repito: mesmo sendo verdade que não é possível ser completamente imparcial, não se segue que não há uma diferença abissal entre mais e menos imparcial, nem se segue que não devamos tentar ser imparciais.

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  5. O novo link do artigo: http://criticanarede.com/ens_antiliberal.html

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