8 de maio de 2010

Falibilidade e necessidade

Uma confusão constante em filosofia é entre conceitos epistémicos e metafísicos. Uma parte infelizmente importante de debates confusos e sem interesse baseia-se nesta confusão. Um desses casos é a confusão entre falibilidade e necessidade. São conceitos inteiramente distintos. O primeiro é meramente epistémico. O segundo é metafísico.

Dizer que algo é falível é dizer que nos podemos enganar. Não é dizer que algo é contingente. Algo ser contingente é algo que é de certo modo poder ser de outro. Mas isso nada tem a ver com falibilidade. Por exemplo, é contingente que não está a chover em Ouro Preto; poderia estar a chover. Mas o meu diagnóstico de que não está a chover, se for falível, não é por ser contingentemente verdade que não está a chover, mas antes por estar a chover e eu pensar erradamente que não está a chover. O que faz a falibilidade do meu juízo não é a contingência da chuva, mas o meu engano. Um juízo é falível não quando diz que p num mundo em que p havendo outro mundo possível em que não p, mas antes quando diz que p em mundos possíveis nos quais não p.

Dizer que algo é necessário nada tem a ver com a falibilidade, com o engano. Se p for uma verdade necessária, pode ser ou não transparente, óbvia, imediata. Muitas verdades necessárias são erradamente tidas como falsas, porque as pessoas se enganam. A necessidade de uma verdade não implica a sua infalibilidade: não implica que não nos podemos enganar pensando que é falsa.

Confundir necessidade e falibilidade é confundir o que as coisas são com o que pensamos que as coisas são. Confusão mortal para quem quiser fazer filosofia com lucidez.

O que pensa o leitor?

12 comentários:

  1. Em outro texto, você faz uma distinção entre questões científicas, em que resultados consensuais são encontrados, e questões filosóficas, que não nos dão resultados consensuais substanciais.
    Nas questões filosóficas também fica clara a distinção entre necessidade e falibilidade?
    Entendo o que você escreveu acima, quando penso no caso de fatos como a chuva, mas e sobre afirmações éticas? É possível a mesma clareza na distinção que você fez quando pensamos em questões éticas, por exemplo? Que fato torna falsa a minha afirmação de que o aborto é um mal?
    Pedro

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  2. O ponto é que 'poder estar enganado' não é o mesmo que 'ser possivelmente falso'. É uma confusão com ares anti-realistas na medida em que mistura o modo como conhecemos uma proposição (o âmbito da falibilidade) com a condição de verdade da proposição (cuja satisfação absoluta ou relativa ocupa o âmbito da modalidade).

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  3. Sim, a necessidade e a falibilidade são sempre dois aspectos muito diferentes, independentemente de estarmos a falar de ciência, filosofia ou gastronomia.

    Quanto aos factos em ética:
    http://blog.criticanarede.com/2010/03/confusao-sobre-valores.html

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  4. Será o conceito de necessidade lógica um conceito metafísico?

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  5. A necessidade lógica é da ordem do pensamento ou da ordem do ser?
    Os princípios lógicos são «leis» do ser ou do pensamento?

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  6. Pensar é um modo da realidade. A separação radical entre pensamento e realidade é ilusória. Pensar é um fenómeno natural, como os rios e as pedras. Portanto, mesmo que fosse verdade que as leis da lógica são leis do pensamento, esta é uma tese que disfarçadamente já declara que as leis da lógica são leis da realidade.

    Do meu ponto de vista, chamamos "necessidade lógica" a um tipo de necessidade metafísica captável apenas pela forma lógica. Esta tese pode ser vista como um desenvolvimento do que já pensava Russell, que declarava serem as leis da lógica leis da realidade.

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  7. Desidério,

    Talves eu esteja a interpretar mal, mas parece-me que estás a dizer que para um raciocínio ser falível, tem que estar errado: "Um juízo é falível não quando diz que p num mundo em que p havendo outro mundo possível em que não p, mas antes quando diz que p em mundos possíveis nos quais não p."

    Ora a ideia que eu tinha era que uma crença é falível quando a justificação não implica que esta seja verdadeira. Por exemplo, a crença que vem de um raciocínio indutivo é falível.

    No exemplo que deste, "está a chover em Ouro Preto", a crença é falível mesmo que esteja de facto a chover em Ouro Preto e eu tenha uma forte justificação para crer em tal. Qualquer justificação que eu tenha para crer que chove em Ouro Preto não implica que esteja a chover - existe a possibilidade de eu estar enganado (apesar de poder não estar).

    Estou enganado quanto ao conceito de falibilidade?

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  8. A crença de que p é falível sse 1) há circunstâncias nas quais p e eu penso que não p nessa circunstância ou 2) há circunstâncias nas quais não p e eu penso que p nessa circunstância.

    Dizer que uma crença é falível é dizer que podemos estar enganados. Mas para podermos estar enganados não é preciso que p seja contingente. Tanto nos enganamos com proposições necessárias quanto contingentes. As verdades necessárias não são mais transparentes do que as contingentes.

    O que provoca confusão é a diferença entre crer que se um conjunto de premissas é V, então a conclusão é V e crer que a conclusão é V. São crenças completamente diferentes. Se tens um argumento dedutivo válido, então a tua crença de que se as premissas são V, a conclusão é V é bastante próximo de ser infalível. Mas se tiveres um argumento indutivo válido, a tua crença de que se as premissas são verdadeiras, a conclusão é provavelmente verdadeira também está bastante próximo de ser infalível. Mas em nenhum dos dois casos são crenças infalíveis.

    Em primeiro lugar, porque a tua crença de que o argumento é válido pode ser falsa. Em segundo, porque só podes transitar da crença na validade do argumento para a crença na verdade da conclusão se tiveres a crença de que as premissas são verdadeiras; e aqui, uma vez mais, podes errar: podem ser falsas mas parecerem-te verdadeiras.

    Outra coisa que provoca confusão é pensar da seguinte maneira: tome-se a crença de que p, na circunstância em que realmente é verdade que p. Esta crença é falível porque a realidade poderia ser diferente, e nesse caso p seria falsa. Isto é uma confusão porque só considera uma maneira de sermos falíveis: pega-se na nossa crença de que p e imagina-se um mundo possível em que não p. Este é apenas um dos casos da falibilidade. Se só este caso existisse, seria impossível ser falível com respeito a proposições necessárias. Dado que isto é patentemente absurdo, algo tem de estar errado. E está. Falta outra maneira de sermos falíveis, que é pensar que p sendo necessariamente verdade que p, mas havendo outro mundo possível em que pensamos que não p.

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  9. 1) Que o logicismo é uma metafísica não está em causa.
    2) Que o pensar é um modo de ser é uma modalidade de ser também não está em causa.
    3) Das perguntas que fiz não se pode inferir que defenda uma separação entre pensar e ser. Contudo, considero indefensável a tese: ser e pensar são uma ou mesma coisa ou coincidem.
    4) Nas minhas perguntas o que está em causa é a relação entre o pensar e o ser. Que todo o pensar pressupõe, só por si, alguma forma de ser, é para mim inquestionável. Mas o ser coincide com o pensável?
    5)Se não coincide, como defendo, as leis lógicas são de modalidades de ser e, por conseguinte, de certas ontologias e não metafísicas. Por exemplo eu defendo que a Lógica Formal pressupõe sempre uma ontologia formal, mas a lógica aristotélica pressupõe uma ontologia substancialista/essencialista.
    6) quanto à naturalidade do pensar e da pedra, parece-me uma análise demasiado simplista. Algum homem pensa naturalmente ou todo o homem tem de aprender a pensar? Um homem privado da convivência social pensaria? Uma pedra será naturalmente uma pedra.

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  10. A convivência social não deixa de ser natural.
    Mas sim, um pedra é sempre uma pedra e um homem poderia não pensar - é pensável.
    Mas o que é pensar? Não será ter consciência do mundo ou seja do que for já pensar?

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  11. É banal que ser e pensar não coincidem. As pedras não pensam e são. Também é banal que nem tudo o que se pensa coincide com o que é.

    Não é banal saber se tudo o que é é pensável. Algumas coisas que são e não são pensadas poderão ser impensáveis, pelo menos para agentes cognitivos como nós. Mas daqui não parece resultar qualquer consequência interessante.

    Da hipótese, plausível, de o ser e o pensar não coincidirem não se segue, de modo algum, que as leis da lógica são modalidades do ser.

    Da hipótese de que as leis lógicas são modalidades de ser, não se segue que não são modalidades metafísicas.

    Este tema não é o tema do post.

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