3 de maio de 2010

A probabilidade de Deus

Pedro Galvão estará no Seminário de Filosofia Analítica, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, para falar da probabilidade de Deus, no dia 7 de Maio, às 16 horas, na sala 5.2. Resumo:
O universo, pelo que ficámos a saber graças aos avanços na física cosmológica, está minuciosamente afinado para a existência de vida racional. Isto significa, por exemplo, que o seguinte parece ser verdade a respeito de várias constantes físicas: se estas tivessem assumido valores ligeiramente diferentes, nunca poderia ter surgido alguma vez vida racional, nem sequer outras formas de vida. A afinação minuciosa do universo motivou um novo argumento teleológico a favor da existência de Deus. Os seus defensores sustentam que esta aumenta significativamente a probabilidade da perspectiva teísta. Há, porém, uma forma de dar conta da afinação minuciosa que dispensa a existência de qualquer afinador inteligente: admitir que o nosso universo é apenas um entre muitos universos. Defenderei que, dada a afinação minuciosa em causa, deveremos inferir que a disjunção «afinador ou multiverso» é efectivamente muito provável. Para justificar a opção por uma das hipóteses disjuntas em detrimento da outra, ambas as partes envolvidas neste debate filosófico têm invocado o critério da parcimónia. Argumentarei que este critério, devidamente entendido, coloca em vantagem a hipótese do afinador -- o qual, no entanto, não tem de ser identificado com Deus.

38 comentários:

  1. A disjunção "afinador ou multiverso" é possivelmente falsa. Num modelo em que as constantes da natureza são logicamente contingentes, mas metafisicamente necessárias, a disjunção é falsa. A disjunção presume sem argumentos que do facto de as constantes naturais serem logicamente contingentes, que poderiam realmente ter sido diferentes. Mas Kripke ensinou-nos que em muitos casos a contingência metafísica não se segue da contingência lógica.

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  2. Os argumentos parecem pouco convicentes. Vejamos: "O seguinte parece ser verdade a respeito de várias constantes físicas: se estas tivessem assumido valores ligeiramente diferentes, nunca poderia ter surgido alguma vez vida racional, nem sequer outras formas de vida". E então? Se o universo fosse diferente nas suas constantes, seria... diferente nos respectivos efeitos? O que prova isto, que não estou a entender? O facto de eu ter nascido prova que tenho pai e mãe, mas daí segue-se que o meu pai e a minha mãe teriam necessariamente que se ter conhecido, casado e tido a mim como filho? Não me parece. Ademais, o autor não refere isto, mas não seria necessário outro universo para não existir vida: poderia bastar algum remoto mas significativo acontecimento no passado não ter sucedido para ela não existir.

    Por outro lado, que conceito de probabilidade é utilizado? "Aumenta significativamente a probabilidade" significa o quê? Mais uma vez, não entendo. Primeiro, diz-se que o universo todo converge para a existência de vida nos moldes actuais. Depois, diz-se que isto aumenta a probabilidade da perspectiva teísta. Bom, de acordo com um conceito objectivo de probabilidade, não aumenta: este radica na observação das frequências relativas dos fenómenos (dos fenómenos, coisa pouco metafísica). Assim, a existirem vários universos paralelos, teriam de ser todos rigorosamente iguais para termos uma probabilidade igual a um de existência de vida tal como a conhecemos. Nesse momento, talvez pudéssemos então perguntar por que razão existiria essa probabilidade.

    Finalmente (desculpem-me não ser sistemático, mas escrevo ao correr da “pena”), para “aumentar a probabilidade da perspectiva teísta”, teríamos de ir observando sucessivos universos em que os casos favoráveis se manifestassem. É simples. O autor diz-nos isto: como lancei um dado e a face que ficou voltada para cima é 5, daqui concluo que a) a saída da face 6 decorre necessariamente da estrutura deste dado; b) a probabilidade de saída da face 5 em qualquer dado é maior que qualquer outra porque é mais económica ou parcimoniosa (curiosa metafísica economicista). Eu aconselharia a rever o conhecimento do autor sobre probabilidades. Ou a lançar mais vezes dados.

    A.Martins

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  3. Errata ao comentário anterior: é óbvio que pretendia escrever "a) a saída da face 5 decorre necessariamente..."
    A.Martins

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  4. Não se trata de ser necessário que um dia tenham vindo a conhecer-se. Trata-se do seguinte: é uma probabilidade tão ínfima os seus pais um dia terem vindo a conhecer-se, que para que tal tenha ocorrido, tiveram de estar reunidos muitos factores, suficientes mas também necessários, no sentido em que se algum deles não fosse parte desse conjunto, esse acontecimento não teria ocorrido e o A. Martins não teria nascido.

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  5. Penso até que se pode ir ao contrário dessa necessidade de se terem conhecido: em vez de dizermos que é necessário que se tenham vindo a conhecer, podemos dizer que era quase necessário que não se tivessem vindo a conhecer, e que apesar de todos os dados contrários ao facto de que se tenham vindo a conhecer, eles conheceram-se. O mesmo se aplica ao Universo - segundo o que ouço sobre a improbabilidade do Universo ser como é, a vida, etc. - como ele é, com tudo o que ele é ou nele está.

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  6. Caro Fm-Ra,

    Decerto. Mas a questão mantém-se. Esses factores estarem reunidos apenas prova, em meu entender, que eu sou um caso particular e improvável. Mas, segundo creio, o autor resolve-se pela hipótese do "afinador", ou seja, procura (penso eu) passar da contingência à necessidade, mesmo eventualmente à vontade ou inteligência do "afinador". Agradeço a sua precisão, porque não explicitei suficientemente bem o meu ponto de vista, mas continuo sem ver saída para a posição do autor.
    A. Martins

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  7. É muito simples. Eu existo. Sem pais, eu não existiria. Logo, os meus pais existem. Mas se eles existem, existe também o que explica a sua existência.

    Por analogia: Nós existimos. Sem certas constantes na natureza, não existiríamos. Logo, essas constantes existem. Mas se existem, existe também o que explica essas constantes. O melhor candidato (assim reza o argumento) é Deus. Logo, Deus existe.

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  8. Caro Desidério Murcho,

    Mas Bertrand Russell não tinha já argumentado que não tem que haver uma causa eficiente para tudo?

    A.Martins

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  9. O argumento invocado pelo Desidério Murcho implica uma regressão ao infinito.

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  10. Caro Fm-Ra,

    Isso equivale a dizer, imaginemos, que a probabilidade de eu nascer é de 0,0000000000000000000000000001 (será muito menor, mas não vou ocupar o espaço todo com zeros). Como é que daqui se segue que isto tem que ver com um afinador? Parece-me estranho constatar uma improbabilidade e em seguida dizer que ela é fruto de uma "afinação". Se existe probabilidade, é porque existe incerteza ou indeterminação; e deduzir do mais incerto ou indeterminado o determinado (o afinador) é correcto?
    A. Martins

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  11. Para mim segue-se a escuridão: nem a presença nem a ausência de afinador. Limitação minha, incapacidade de ir mais além.

    Pode é dizer-se que houve uma série de acontecimentos possíveis que não chegaram a actualizar-se e que, caso se tivessem actualizado, pelo menos um dos acontecimentos actuais necessário para o encontro dos seus pais - pegando no exemplo - não teria ocorrido, e não se teriam encontrado, com todas as consequências posteriores implicadas por isso.

    Por isso, até se pode entender "afinação" ou, melhor, "afinador", como aquilo que impede que os acontecimentos possíveis no mesmo espaço e tempo que A1 (que é por exemplo os seus pais terem vindo a conhecer-se) mas diferentes de A1, não ocorram.

    E de facto pode deduzir-se que se há algo que ocorre em vez de outralgo que poderia ter ocorrido, podemos dizer que há algo que impede que o outralgo ocorra, ou que obriga ou permite a que o primeiro ocorra. Ou não?

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  12. Caro Fm Ra,

    Na escuridão me sinto, igualmente. Acredite, gostaria de ter respostas.

    Já agora: diria que a classe de fenómenos possíveis mas não ocorridos, ou seja a classe complementar dos fenómenos que ocorrem e ocorreram, não ocorre(u) em função de um jogo complexo de indeterminações objectivas. Por outro lado, penso que aquilo que ocorre não tem que ser necessário. O FmRa mesmo considerou que a vida é uma improbabilidade, isto é, considerou que existe um espaço de indeterminação no seio do qual ela ocorre.

    A.Martins

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  13. É uma questão de explicação. Se temos um dado fenómeno e temos duas alternativas, dizer que é um facto sem explicação, ou dar uma explicação, geralemente preferimos uma explicação. Podemos dizer que não há explicação para o facto de as constantes naturais serem como são. Ou podemos avançar uma explicação.

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  14. Caro Desidério Murcho,

    De acordo. Geralmente preferimos uma explicação e a história confirma-o. Talvez eu seja um céptico desconfortável com o meu cepticismo (digo-o sinceramente).

    A.Martins

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  15. Já agora, permitam-me a nota pessoal e desculpem-me "desviar" um pouco o foco da discussão: quando não estou censurado pela auto-imposição do cepticismo (ossos de ofício...), sou talvez mais agostiniano que tomista. Nesses momentos, sinto a transcendência numa espécie de "comunhão com o ser" (isto pode soar muito mal...) e não a procuro a partir de argumentos.~

    Em todo o caso, parabéns pelo post. Estimula a reflexão.

    A.Martins

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  16. Só uma adenda: leia-se "ocorram" em vez de "não ocorram", no fim do 3º parágrafo do comentário das 11:19.

    Quanto aos acontecimentos que não ocorrem, podemos perguntar por que não ocorrem. O A. Martins afirma que não ocorrem "em função de um jogo complexo de indeterminações objectivas". É engraçado, porque podemos também dizer que não ocorrem porque certas condições necessárias para a sua ocorrência não estão reunidas. Mas essas condições não reunidas são também acontecimentos possíveis mas não actuais, factos que ficaram apenas no domínio da possibilidade (e é também engraçado que não sabemos se de facto pertencem ao domínio da possibilidade, por serem logicamente possíveis, ou se podem ser logicamente posssíveis, mas actualmente impossíveis). Ou seja, acontecimentos que dependem de acontecimentos... ao infinito?

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  17. A ideia de indeterminação objectiva é de Karl Popper. Segundo Popper, falamos em probabilidade na exacta medida em que existem indeterminações reais e não apenas desconhecimento. Por isso nos dá uma definição objectiva de probabilidade e não uma definição subjectiva. A indeterminação objectiva pode ser testada através do confronto com as frequências relativas dos fenómenos. Esta ideia, curiosamente, em nada contradiz a possibilidade de existirem fenómenos que não ocorrem porque outros não se tornaram actuais (são meras propensões). Pelo contrário, dá-lhe um estatuto hipotético digno. É engraçado, também. Certp?

    A.Martins

    A. Martins

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  18. Mas que existem indeterminações reais e não desconhecimento é algo que não pode ser provado; por exemplo, quando pensamos sobre o futuro, e pensamos que pode acontecer A ou B, que ambas são prováveis, pode dar-se o caso de uma delas não só ser improvável, como impossível. A realidade pode ser determinada. Agora, que para nós existem probabilidades, e colocamos hipóteses e agimos até estrategicamente de acordo com o que pensamos ser mais ou menos provável, melhor ou pior, é verdade; mas isso é psicológico. E se até alguma ciência demonstra - embora eu desconheça porque desconheço essa ciência (física, matemática) - que existem probabilidades, o presente ou futuro em aberto, escolhas, incerteza, a filosofia pode questionar-se acima disso, e colocar ainda assm a pergunta: será que a realidade é determinada? Vivemos num Universo determinista?

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  19. Bom, não vou retomar todo o argumento popperiano.

    A.Martins

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  20. Claro. E podemos retomar a (ou uma) questão de Deus, perguntando: que papel tem Deus num Universo determinista? Se o Universo está desde sempre determinado, a existência de Deus não faz sentido - que papel teria? Então, se Deus existe o Universo não é determinado. E se esse ser existe, existem probabilidades e isso tudo. É só uma forma de re-relacionar os comentários com o post. Mas o post fala em afinação. O que é propriamente "afinação"? "Afinador"? Que tipo de ser é? Inteligência pura, um ser imaterial? Omnisciente?

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  21. Algo me parece estranho no conceito de Deus. é que trata-se de um ser omnipotente, mas não me parece que 1+1 possa ser diferente de 2. Parece-me necessário. E por isso Deus é impotente para mudar isso e por isso não é omnipotente. E se algo, seja o que for, não é mais do que os seus atributos, seria interessante falar-se dos atributos de Deus, para que percebêssemos do que estamos a falar e se estamos para lá da ideia do ser omnisciente, omnipotente e sumamente bom. De resto penso que foi aqui falado há uns tempos num post a partir de Leibniz.

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  22. A ideia de indeterminação objectiva, na realidade, seria congruente com um Criador livre de intervir na sua Criação. Ou com a ideia de livre arbítrio. A ideia do afinador é a de uma espécie de demónio de Maxwell, que intervém na realidade organizando-a num determinado sentido. A questão é não vejo como alguém poderá provar em definitivo a existência de um "afinador universal" por meios meramente especulativos. Sabiamente, os religiosos costumam afirmar que esta é uma questão de FÉ.

    A. Martins

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  23. Enquanto estava a escrever, não li o seu outro post. Bom, isso já me parece bem mais interessante. Na verdade, encaminhamo-nos para um respeito pelas ciências naturais e para uma ideia de "Deus" talvez mais interessante e metodologicamente correcta: talvez não possamos dizer se Deus é e o que é, mas podemos pelo menos saber muito daquilo que não é.

    A. Martins

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  24. O máximo que consigo pensar sobre algo semelhante a um afinador do Universo é isto:

    Se o Universo é ordenado, existe algo que ordena o Universo.
    O Universo é ordenado.
    Existe algo que ordena o Universo.

    Algo que ordena o Universo é um ordenador do Universo.
    Existe um ordenador do Universo.

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  25. Se o Universo é ordenado, têm de existir as condições necessárias e suficientes para que assim seja.
    O Universo é ordenado.
    Existem as condições necessárias e suficientes para que assim seja.

    Ou:

    Se o Universo é ordenado, existem as condições necessárias e suficientes que o ordenam.
    O Universo é ordenado.
    Existem as condições necessárias e suficientes que o ordenam.

    Essas condições que ordenam o Universo, ordenam o Universo.
    O que ordena o Universo é o ordenador do Universo.
    Essas condições são o ordenador do Universo.
    Essas condições existem.
    Existe o ordenador do Universo.

    (para defesa de quem diga que não se segue da ordem do Universo que exista algo que o ordene, que pode ser sem causa, por acaso)

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  26. Se existem constantes psicológicas, existe ordem no Universo,
    se existe ordem no Universo, o Universo é ordenado.
    Existem constantes psicológicas.
    O Universo é ordenado.

    Se o Universo é ordenado, existem as condições necessárias e suficientes que o ordenam.
    O Universo é ordenado.
    Existem as condições necessárias e suficientes que o ordenam.

    O que ordena o Universo chama-se ordenador do Universo e é só e apenas só a ordenação do Universo (ou o acto de ordenar o Universo).
    As condições necessárias e suficientes que ordenam o Universo, ordenam o Universo.
    As condições necessárias e suficientes que ordenam o Universo chamam-se ordenador do Universo e são só e apenas só a ordenação do Universo.
    Essas condições existem.
    O ordenador do Universo existe.

    (mas não podem ser apenas isso, ou podem?)

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  27. "Ou podemos avançar uma explicação."

    Sem duvida, pelo menos podemos tentar. Mas dizer que as constantes foram afinadas por Deus equivale a parametrizar a nossa ignorancia acerca desse processo com a utilizacao de uma palavra: Deus.
    E' impossivel encontrar uma "explicacao" mais pobre do que essa.

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  28. As condições NF (necessárias e suficientes) para que o Universo seja ordenado, têm de estar reunidas (ou: têm de ocorrer) antes do Universo começar a ser ordenado ou no momento em que o Universo começa a ser ordenado. Mais precisamente, têm de começar a ocorrer, ou têm de ocorrer, no momento em que o Universo começa a ser ordenado. Se já existissem antes, mas algo impedisse que o Universo começasse a ser ordenado, então diremos que não existiam, dado que existia essa outra condição que impedia a ordenação do mesmo, sendo então o conjunto de condições existentes diferente do conjunto necessário e suficiente para a ordenação do Universo. Ou o Universo é desde sempre ordenado, ou não. No primeiro caso, as condições NF são eternas, no segundo caso não são. No primeiro caso, identificamo-las com Deus. No segundo caso, não as identificamos com Deus (neste caso este é a causa destas). Em qualquer dos casos, Deus existe: mas que Deus?(O primeiro caso fecha a porta ao Deus das três grandes religiões monoteístas, o segundo deixa-a aberta. Importa saber que condições são estas. Quanto à questão de Deus - não da sua existência, porque creio que há algo que podemos identificar com Deus, seja qual for o caso, mas do que é - o interessante é saber se é algum tipo de int...[inacabado])

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  29. Deus pode (escolher) criar ou não o número 1, as operações de soma ou de igualdade. Mas não pode (escolher) afinar a soma de 1 com 1 ao ponto do seu resultado ser diferente de 2. É pensável. Será que o produto de uma - ou várias - entidade contingente pode ser uma entidade necessária?

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  30. Este comentário foi removido pelo autor.

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  31. E quanto às constantes supostamente afinadas por Deus, referidas no texto como "constantes físicas", podemos perguntar: que constantes são? Onde estão? E, sendo constantes físicas: onde estão as constantes físicas? Que constantes físicas existem? O que pode ter gerado essas constantes? Por exemplo a gravidade, que penso ser uma constante, onde está? E, se está na matéria - e o que é a matéria? -, perguntamos, supondo que é algo análogo a uma programação informática: poderá um programação estar contida na matéria? Ter sido inserida na matéria? Um código, com instruções, como (supostamente) o ADN: poderá um código com instruções, programado conscientemente, por uma inteligência, ter sido inserido na matéria? Assim posto, pode, até porque de resto nós - isto é, outros que não eu: os programadores informáticos - fazêmo-lo; resta saber se está bem posto.

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  32. A inteligência permeia a matéria e a matéria permeia a inteligência. A inteligência existe em corpos físicos, os nossos, e a matéria existe na inteligência ou na mente, por exemplo sob a forma de memórias. Talvez esta suposta existência da matéria na inteligência ou na mente não seja a existência da matéria pura, já que são memórias, cópias, mas também, talvez a existência da inteligência na matéria não seja a existência da inteligência pura, por exemplo porque não conseguimos compreender tudo. E talvez mais não haja do que esse entrelace de matéria e inteligência, sendo que cabe a esta, se conseguir, explicá-lo.

    (delicioso momento acognitivista: Nem Deus, nem amos, mas somente um en(tre)lace desses dois diferentes - e no entanto, tudo é um... zero, infinito, explosão, vontade... na mão... na palma, aberta; um sopro a desperta, à existência que parte, um abismo entre o olhar do antes, o partinte do depois caminha, o espaço, o abismo infinito do tempo entre ambos... tudo é... inexorável!)

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  33. Devido à sua essência sui generis - a essência utilizada, por exemplo, nos argumentos ontológicos - creio que é possível provar acerca de Deus que:
    1. Se ele existe, a probabilidade de sua existência é 1.
    2. Se ele não existe, a probabilidade de sua existência é 0.

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  34. Desculpem-me, mas li os comentários um pouco por alto e, claro, não tive acesso aos argumentos apresentados na palestra senão pelo pequeno resumo acima. Mas eu creio que o uso do chamado Princípio Antrópico como prova da existência de Deus já foi bem refutado. Creio que vi o argumento em algum escrito do Dawkins. Usando o exemplo que vi em algum lugar, o argumento equivale a um ganhador de loteria dizer "é altamente improvável ganhar na loteria, portanto eu não posso ter ganho na loteria por acaso, deve ter sido destino". Supondo que todos as combinações tenham sido jogadas, deve haver um vencedor da loteria. A probabilidade de que alguém ganhe a loteria nessas condições é 1, diferentemente da probabilidade a priori de que uma determinada pessoa ganhe na loteria. O problema é que um dos diversos universos possíveis tinha que ser atual (obs1: isso não implica uma teoria de múltiplos universos *atuais*). (obs2: Falar em termos de possível x atual elimina a complicação de lidar com a questão "por quê algo existe ao invés do nada?", já que um dos universos possíveis é o universo vazio. Do ponto de vista lógico, se nada existisse, isso também seria a realização de uma possibilidade.) Calha de o nosso universo ser o universo atual e essa improbabilidade ser realizada, mas o nosso ponto de vista que reflete depende desse resultado, enquanto não há e, portanto, não temos acesso ao ponto de vista da possibilidade alternativa. O improvável não é impossível e se o lance de dados dá esse resultado, não se pode inferir que uma causa interferiu e mudou as chances a favor do improvável. Bem, como só há ou só temos acesso ao resultado de uma rodada dos dados cosmogônicos não temos como provar que os dados estão viciados e um Deus apostador trapaceiro interfere a favor da existência humana. Precisaríamos observar um número considerável de inícios de universo para tirar alguma conclusão sobre um viés nas probabilidades!

    Leonardo Cisneiros

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  35. "(...) o nosso universo é apenas um entre muitos universos."

    O termo "universo" se refere ao conjunto de tudo que há. Sendo assim, se há muitos universos, então há muitos conjuntos de tudo que há. Mas o conjunto de tudo que há só pode ser um único conjunto e não vários. Logo,ou não faz sentido falar de "multiversos" ou os 'multiversos" seriam elementos do universo.

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  36. Pode-se defender que "universo" refere não o conjunto de tudo o que há, mas um conjunto de matéria e energia causalmente ligada. Assim, nada obsta a que existam vários universos: vários conjuntos causalmente independentes de coisas causalmente ligadas.

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  37. Caro Desidério,

    Concordo que é possível que "universo" tenha o significado que você indicou, mas considerando a propriedade ser-matéria-e-energia-causalmente-ligada (MECL), podemos pensá-la como um critério de unidade. E, por conseguinte, podemos pensar que tudo que é matéria e energia teve uma origem comum, ainda que existam diversos tipos de relações e de outras propriedades em jogo. Podemos pensar ainda que as diferenciações são derivadas. Sendo assim, os multiversos seriam apenas subconjuntos de um universo cujo critério de identificação é matéria e energia causalmente ligada. Portanto, mesmo admitindo a idéia que você mencionou não há razões suficientes para entender que há multiversos em sentido pleno, mas apenas em sentido relativo.

    O curioso é que para levarmos a sério a idéia de multiversos, deveriamos pensar que há outros universos com propriedades que excluem MECL, ou seja, universos não materiais e que não caem sob relações de causalidade. O que, por sua vez, abriria espaço para idéias compatíveis com o teísmo. Por fim, creio que a disjunção "afinador ou multiverso" não descarta necessariamente a existência de Deus em nenhum dos lados.

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