2 de maio de 2010

Racionalidade distribuída

Quando li pela primeira vez Sobre a Liberdade, de John Stuart Mill, obra publicada pela primeira vez em 1859, fiquei surpreendido com um aspecto epistémico que não tinha visto mencionado pelos historiadores e comentadores (ainda que eu esteja longe de conhecer a bibliografia sobre esta obra). Mill defende uma tese epistémica extremamente forte, mas muitíssimo plausível, sobre a racionalidade: o que chamo tese da racionalidade distribuída. O que pensa o leitor?

3 comentários:

  1. Corrija-me se estiver enganado, mas você retira suas teses sobre racionalidade distribuída do segundo capítulo "Da liberdade de pensamento e discussão", que é o primeiro grande estudo de caso apresentado por Mill a favor da "liberdade social ou civil". Mas a mesma tese - de que os homens somente chegam à plenitude na busca pela verdade EM COMUNIDADE - você a encontra na "Antropologia de um ponto de vista pragmático" de Kant. Kant estuda as várias formas de egoísmo e uma dessas formas é o egoísmo lógico, ou seja, a atitude segundo a qual posso alcançar as verdades e obter os melhores argumentos SOZINHO. Se não estou enganado, o mesmo tema ocorre em algumas "Lectures on Logic" - os cursos de lógica de Kant - mas nesse momento não estou com o livro para poder conferir.

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  2. Obrigado pela referência, Frank! Nunca li esses textos de Kant, vou ver isso.

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  3. É de facto uma tese interessantíssima e que não fazia ideia de estar incluída no pensamento de Mill. Quanto ao carácter social da racionalidade, diversos são os estudos de sociologia e de psicossociologia que o confirmam. Infelizmente, como Desidério Murcho afirma com correcção, esta constatação conduz frequentemente alguns semi-doutos a quererem daqui inferir que "todo o conhecimento é relativo". É algo que pessoalmente me espanta: por que razão haveria o conhecimento construído colectivamente de ser mais erróneo que o conhecimento de um só indivíduo? Se virmos bem, é quase absurdo crer nisto. A verdade parece-me ser que apenas se chega, amiúde, a meio caminho: primeiro, constata-se que o conhecimento é socialmente constituído; depois, parece que se chega a uma espécie de nostalgia não assumida do solipsismo gnoseológico e se critica o conhecimento por ser... socialmente constituído. O facto de haver diversas interpretações do mundo não implica que elas sejam equivalentes sob todos os pontos de vista.
    A. Martins

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