1 de maio de 2010

Uma refutação dos anti-aléticos

Se não há verdades, não há erros.
Se não há erros, somos todos infalíveis.
Mas não é verdade que sejamos todos infalíveis.
Logo, há verdades.
Uso muitas vezes este argumento para ver como pode um anti-alético responder-lhe. Até hoje, não vi uma resposta satisfatória. Talvez o leitor tenha uma. Mas, seja ela qual for, não pode cometer a “falácia da falta de vergonha na cara”, que consiste em rejeitar a lógica que refuta a sua própria posição, mas aceitar a mesmíssima lógica para argumentar a favor dela.

53 comentários:

  1. É claro que "infalível", no teu argumento, tem um sentido meramente negativo: nunca falha. (Na linguagem ordinária significa: sempre acerta.) Mas se o anti-alético está disposto a aceitar que nunca acerta, dado que não há verdade, por que recusaria que nunca falha pela mesma razão?

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  2. Só um pormenor bobo: o termo "alético" deriva da palavra grega aletéia, que significa verdade.

    Alexandre: é exatamente este o problema. É muito difícil defender que uma pessoa nunca acerta ou nunca falha, isto é implausível. Que razões adicionais um anti-alético poderia apresentar para defender que ele nunca acerta? E mesmo se aceitarmos possíveis razões adicionais em um argumento do anti-alético, isto não acarreta que ele acerta, ao menos com este argumento?

    O argumento que o Desidério apresenta é bom porque suas premissas são mais plausíveis do que a conclusão: é mais fácil aceitar as premissas do que a conclusão.

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  4. Uma saída para o anti-alético seria negar a validade das duas formas argumentativas que o Desidério utiliza: silogismo hipotético e modus tollens. O problema dessa resposta é que ao negar a validade dessas formas argumentativas ele não poderá recorrer a elas na sua argumentação, o que parece difícil. Sem mencionar a tarefa hercúlea que seria negar a validade do modus tollens.

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  5. Meu ponto é: não há diferença entre se dizer que alguém nunca acerta e nunca falha. Apenas isso. E se ele aceita que nunca acerta, vai aceitar que nunca falha. A razão inicial que dará [ara isso é: não há verdade. Mas o que vai dizer em favor da não existência da verdade, isso eu não sei.

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  6. Talvez a primeira premissa devesse ser: se não há verdades, só há erros. Ate percebo o que o Desidério quer dizer com "se não há verdades, não há erros" mas o raciocinio está incompleto. Para começar, se não houver verdades, tudo o resto tem que ser erro. Isto não é um "endorsement" da posição, é uma constatação: quem afirma que não há verdades, não podemos logo a seguir afirmar que não há erros, sob pena de invalidar a primeira asserção — se não houvesse erros, tudo seria evidentemente verdade.

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  7. Não está em questão a solidez da lógica do seu raciocínio mas apenas a questão de usar argumentos de preservação de verdade das premissas quando o assunto das premissas é o conceito de verdade. Faz-me lembrar o paradoxo de Russel quando a teoria de conjuntos admitiam todos os possíveis conjuntos. Não haverá aqui um esticar do domínio de aplicação dos silogismos lógicos?

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  8. Obrigado pelo comentário, Alexandre. Se o anti-alético está disposto a dizer aceitar que não há erros, então eu não estou a errar quando digo que o anti-alético não tem razão.

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  9. Concordo com Rui Tavares, do facto de não haver verdades não se segue que não há erros.

    Se não há verdades, há erros.
    Se há erros, somos falíveis.
    Se somos falíveis
    Logo, não há verdades.

    Quem trabalha com concepções semânticas de teorias, e adopta a teoria deflacionária minimalista , recusa o princípio da bivalência aplicável a entidades linguísticas como enunciados, proposições, ou outros portadores de verdade. As teorias tradicionais da verdade estão todas equivocadas justamente porque supõem que a verdade é uma propriedade substancial cuja natureza oculta deve ser exibida por uma teoria.

    Segundo o deflacionista minimalista, o predicado "é verdadeira" é um predicado genuíno que denota uma propriedade genuína, não uma propriedade substancial, mas uma propriedade lógica. (O minimalista tem uma concepção minimalista de predicado e propriedade). Para o deflacionista minimalista o conceito de verdade é neutro no que toca à controvérsia entre aléticos e anti-aléticos.

    A relação crucial em termos de verdade como correspondência envolve dois ‘relata’ – uma entidade linguística discreta e uma porção do mundo extra-linguística discreta (o cérebro humano falível ou infalível – “somos todos infalíveis”).

    Como a referência implica verdade, logo não podemos restringir-nos à referência. E como nem todas as crenças são conhecimento, podemos ter uma crença verdadeira, sem que essa crença seja justificada.

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  10. É perfeitamente possível haver apenas verdades, e não haver erros. Mas não é possível haver erros se não houver verdades.

    No primeiro caso, trata-se apenas de um agente que só tem crenças verdadeiras. Não conhecemos agentes destes, mas a sua possibilidade não parece estar em dúvida.

    No segundo caso, tratar-se-ia de um agente conseguir ter crenças erradas quando não é possível ter crenças verdadeiras, não por inadequação epistémica, mas por impossibilidade metafísica (que é o que o anti-alético defende). Não consigo ver como tal coisa seria possível. Se a verdade é uma impossibilidade metafísica, é também uma impossibilidade metafísica ter crenças erradas.

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  12. do facto de x ser uma construção humana nada se segue acerca da impossibilidade metafísica de haver verdades acerca de x.

    Argumentar, por exemplo, que não se pode falar objectivamente em "obras musicais" porque a ideia de obra musical é um produto da cultura dos últimos 300 anos é cometer a confusão habitual entre epistémico e metafísico: será que podia ser verdadeira em 399 a.C a afirmação "Sócrates não é filho de Abraham Lincoln"? A tentação habitual é confundir a) a impossibilidade de acesso cognitivo por parte dos atenienses deste período ao valor de verdade da afirmação com b) a possibilidade ou impossibilidade metafísica da afirmação ter valor de verdade em 399 a.C.
    Do mesmo modo, que a ideia de obra musical seja um produto da cultura dos últimos 300 anos não faz que deixe de haver verdade ou falsidade nas nossas afirmações acerca de obras musicais.

    É tão relevante, no que à metafísica da verdade respeita, dizer que x é uma construção humana como dizer que x é um produto da natureza. Ser produto da natureza não faz que deixe de haver verdades acerca dessa coisa, tal como ser produto da acção humana também não o faz.

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  14. A posição anti-alética só é interessante se não for palerma. E é palerma se confunde de modo infantil a existência de verdades com a possibilidade de sabermos que elas existem. Isso é verificacionismo, e o verificacionismo é incoerente porque é uma tese que se for aplicada a si mesma significa que não pode ser verdadeira.

    Quem argumenta que nunca podemos saber se algo é verdade ou não devido às nossas limitações epistémicas está já comprometido com a aceitação da posição alética. E se essa pessoa pensa que está a defender uma posição anti-alética é demasiado palerma para levar a sério.

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  15. Um anónimo fala de "argumentos de preservação de verdade das premissas". Presumo que esteja a falar de argumentos dedutivos válidos, que são os que tradicionalmente se diz que preservam a verdade das premissas -- uma maneira pouco lúcida de dizer que não é possível as premissas serem verdadeiras e a conclusão falsa. (Pouco lúcida porque a expressão "preservar a verdade" é só uma metáfora para o que na verdade é uma impossibilidade; nada se preserva literalmente falando.)

    Ora bem: esse comentador considera que o anti-alético poderá chatear-se com argumentos dedutivos válidos, e preferir outros. Hum. Será então que os argumentos não dedutivos são menos susceptíveis de serem postos em causa? Isto seria uma curiosa inversão das coisas, pois quem está disposto a pôr em causa as validades dedutivas, que são muito mais óbvias e seguras do que as não dedutivas, não deveria estar disposto a aceitar as validades não dedutivas, que são bem menos óbvias e seguras.

    Ah, já percebi. É a tal falácia da falta de vergonha na cara. Se eu tivesse usado um argumento dedutivo a favor da posição anti-alética, estaria tudo bem; se eu tivesse usado um argumento não dedutivo contra a posição alética estaria tudo mal. Mas qualquer argumento que eu use contra a posição anti-alética é desqualificado. É como um futebolista que só não põe em causa as regras do jogo quando a equipa dele marca golos. Mas quando sofre golos, põe em causa as regras. Falácia da falta de vergonha na cara.

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  16. disse um disparate no meu comentário. Aquilo a que os atenienses clássicos não podiam ter acesso cognitivo era à entidade Abraham Lincoln e à propriedade de ser filho e Abraham Lincoln, porque esse indivíduo só começou a existir no século XIX. Claro que sabendo que Sócrates é filho de Sofronisco, sabem que não é filho de outro. A ideia é que a verdade ou falsidade da afirmação naquela data (e para quem é realista: a existência da propriedade de ser filho de abraham lincoln?) é independente dos estados de crenças dos atenienses antigos.

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  17. Se A PRIORI não há verdades, então as distinções acerto/erro e falível/infalível não fazem sentido. Um anti-alético pode, simplesmente, desqualificar o argumento ao sustentar que as premissas são pseudo-proposições.

    O argumento ataca uma forma radical de anti-aletismo. Mas podemos imaginar formas brandas de anti-aletismo. Por exemplo, a negação da existência de verdades em determinados domínios dos quais tradicionalmente se postula a existência de verdades, ou a existência tão somente de verdades relativas ao indivíduo ou a um grupo restrito de indivíduos. Nesse último caso, o anti-alético pode, inclusive aceitar a existência de erros (relativos às SUAS verdades) e a falibilidade.

    O anti-aletismo radical é uma posição muito difícil de ser sustentada e, em razão disso, provavelmente sustentada por pouquíssimos, ao contrário do que provavelmente acontece com o anti-aletismo moderado. Um anti-alético moderado poderia acusar Desidério de cometer a falácia do espantalho, por atacar uma posição radical e frágil, não representativa do ponto de vista majoritário entre anti-aletistas.

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  18. Se a priori não há verdades, então as distinções acerto/erro e falível/infalível não fazem sentido.

    As distinções acerto/erro e falível/infalível fazem sentido.

    Logo há verdades.



    Frank

    o anti-aletismo radical de fato é pouco comum na literatura relevante, mas é
    defendido frequentemente por pessoas de má formação filosófica e geralmente vem associado, por incoerente que seja, com defesas de relativismo epistêmico radicais. Eu mesmo já vi mais de um colega de graduação defender isso sem entender as consequências do que dizia e eles não eram espantalhos : )

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  19. Matheus,

    algumas coisas que parecem fazer sentido não fazem, e outras que parecem não fazer sentido fazem. O senso comum nem sempre é uma fonte confiável.

    Perceba, além disso, que eu não disse que não fazem sentido, nem que fazem. Tampouco disse que Desidério comete a falácia do espantalho, disse que um anti-aletista poderia acusá-lo disso. Além disso, mesmo que a cometesse, Desidério estaria em boa companhia: toda a parte inicial de "Os fundamentos da aritmética" de Frege é uma grande falácia do espantalho, atacando as mais frágeis posições rivais. Não estamos livres de cometer falácias, só está livre de cometê-las quem não argumenta.

    Finalmente, seu argumento é inválido: somente posso concluir que não é o caso que A PRIORI não há verdades (o "a priori" não pode ser simplesmente cancelado).

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  20. Matheus,

    nem tudo que parece fazer sentido de fato faz, e nem tudo que parece não fazer sentido de fato não faz. O senso comum nem sempre é uma fonte confiável.

    Seu argumento é inválido: somente posso concluir que não é o caso que a priori não há verdades (o "a priori" não pode ser simplesmente cancelado).

    Perceba que não disse que as distinções não fazem sentido. Tampouco disse que Desidério comete a falácia do espantalho, somente disse que o anti-alético poderia acusá-lo disso. Mesmo que Desidério a tivesse cometido, ele estaria em boa companhia: a parte inicial de "Os Fundamentos da Aritmética" de Frege é uma grande falácia do espantalho, atacando os argumentos mais frágeis dos pontos de vista rivais. Além disso, somente estão isentos de incorrer em falácias aqueles que não argumentam, mas isso é pior do que cometê-las, pois nesse caso não me submeto ao jogo da razão.

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  21. Perdão pela mensagem repetida. Ocorreu algum problema no momento do envio.

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  22. Não tenho qualquer problema com o anti-aletismo moderado. A partir do momento em que se admite que há algumas verdades, a posição perde a implausibilidade do anti-aletismo radical. Uma pessoa pode coerentemente defender que não há verdades num dado domínio, mas desde que admita que as há noutro, não incorre em incoerência. O meu argumento visa tão somente isto: qualquer posição que implique a impossibilidade do erro é muitíssimo implausível.

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  23. Frank, dizes que "Um anti-alético pode, simplesmente, desqualificar o argumento ao sustentar que as premissas são pseudo-proposições." Mas não pode. Se for um anti-alético radical não pode fazer tal coisa. Pois fazer isso é admitir que é verdade que o meu argumento é composto por pseudo-proposições. Coisa que pela sua própria posição ele não pode aceitar.

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  24. Mas, Desidério, se o que dizes está certo, então o anti-alético não pode dizer nada. Mas se ele não pode dizer nada, ele não pode dar assentimento às tuas premissas. Logo, não pode ser convencido pelo teu argumento, Se queres convencê-lo argumentando, tens que dar a ele a permissão desse movimento no debate: asserir algo. Acho que um anti-alético vai tentar explicar a asserção sem usar o conceito de verdade. Acho que isso não funciona. Seja como for, o debate não acaba tão rápido.

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  25. Frank,

    eu me esqueci do a priori, o argumento então fica da seguinte maneira:

    Se a priori não há verdades, então as distinções acerto/erro e falível/infalível não fazem sentido.
    As distinções acerto/erro e falível/infalível fazem sentido.
    Logo, a priori há verdades.

    Eu concordo com você que o senso comum nem sempre é confiável e que nem tudo o que parece fazer sentido, faz sentido. Mas nesse caso há uma crença comum compartilhada por praticamente todas as pessoas, i.e, uma intuição pre-teórica forte, de que as distinções acerto/erro e falível/infalível fazem sentido. Se uma posição filosófica recusa essa forte intuição, ela tem que apresentar boas razões para aceitarmos a recusa. O problema é que a posição do anti-alético radical não apresenta uma única boa razão para aceitarmos essa recusa e se torna insustentável.

    Sobre as falácias de espantalho: não me entenda mal. A minha intenção não foi defender o Desidério de uma acusação de falácia. Na verdade o que quis defender é que por mais caricata e insensata que seja essa posição, há de fato pessoas sem treino filosófico que defendem essas coisas.

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  26. Alexandre: o anti-alético radical pode dar assentimento às premissas do argumento apresentado e se deixar convencer, mesmo sem dizer nada.

    A posição do anti-alético é implausível exatamente porque é auto-refutante. Se concedermos, para fins de argumentação, que ele não se auto-refuta ao defender determinadas afirmações, a discussão perde o sentido, pois assim ele poderá provar o que quiser. Em suma, isso acaba se tornando uma variação do que o Desidério denominou ironicamente de falácia da falta de vergonha na cara: eu defendo que não há quaisquer verdades, mas posso defender que é verdade que os que discordam de mim estão dizendo falsidades sem me auto-refutar.

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  27. Matheus, é claro que ele pode dar assentimento sem dizer nada. Mas o ponto é que ao fazer isso ele vai ser acusado pelo Desidério de estar tomando as premissas como verdadeiras. Meu ponto era: se ele não quer tornar impossível convencê-lo por meio do seu argumento, então ele não deve fazer essa acusação. Caso contrário, qualquer argumento cujas premissas o anti-alético aceita seria bom para mostrar os problemas da sua tese.

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  28. Desidério, afirmaste atrás algo que merece esclarecimento, pois parece dar lugar a uma ambiguidade entre os sentidos epistémico e metafísico da noção de verdade. Dizes:

    1.«É perfeitamente possível haver apenas verdades, e não haver erros.»

    E depois explicas melhor:

    2. «trata-se apenas de um agente que só tem crenças verdadeiras.»

    Em 1 falas de verdades em sentido metafísico, certo? Mas depois em 2 passas a falar de crenças verdadeiras, ou seja, passas para o domínio epistémico.

    Vejamos de outra maneira. 1 implica que não há proposições (não se trata de crenças) falsas, o que me deixa algo perplexo: alguma das proposições expressas pelas frases "Deus existe" e "Deus não existe" tem de ser falsa.

    O que afirmas em 2 já me parece aceitável. Posso perfeitamente imaginar um agente que tenha apenas duas crenças, por exemplo, e que tais crenças sejam verdadeiras, como o solipsista que acredita que pensa e que acredita que existe.

    Mas, por outro lado, se em 1 estiveres a falar de verdades em sentido epistémico, então o que dizes 2 parece-me inadequado, pois não se trata apenas de um agente com crenças verdadeiras, dado que há outros agentes com outras crenças. Terias de incluir aqui todas as crenças de todos os agentes. Assim, 1 só seria verdadeira se o conjunto de todas as crenças de todos os agentes não fosse inconsistente.

    Como a classe das verdades e a classe das crenças verdadeiras são classes diferentes, pelo que não é correcto dizer que haver apenas verdades = haver um agente que só tem crenças verdadeiras.

    O que dizes?

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  29. Não sei se te entendi bem, Aires. É verdade que fui palerma ao dizer que haver só verdade é haver um agente que só tem crenças verdadeiras; esqueci-me de acrescentar que estava a pensar num modelo em que não há mais agentes. Para ser um modelo menos solitário, será então um modelo em que todos os agentes têm apenas crenças verdadeiras.

    Eu insisto em falar de crenças e de agentes porque me parece que provoca muitas confusões falar de verdades como se estas não fossem propriedades de crenças (ou outras representações da realidade), mas antes uma espécie de objectos como cadeiras e árvores.

    Portanto, quando digo ser possível haver apenas verdades é porque não vejo impossibilidade conceptual em agentes omniscientes. Mas vejo uma impossibilidade conceptual em errar, caso nenhuma crença possa por princípio ser verdadeira por não haver verdade alguma.

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  30. Obrigado pela achega, Alexandre. O que provoca perplexidade em qualquer pessoa adequadamente formada em filosofia é haver anti-aléticos radicais, cujo discurso está para lá do minimamente razoável por ser pura incoerência. Neste caso, é difícil saber o que dizer a uma pessoa destas excepto que devia pensar melhor e ser honesto intelectualmente, em vez de encarar a discussão filosófica como uma erística.

    Eu considero que o anti-alético não pode mesmo dizer seja o que for, pela simples razão de que qualquer asserção envolve o acto de admitir como verdade o que se está a afirmar (nem que seja que o alético não tem razão).

    Para isto não ficar no ar: quando Rorty afirma que devemos abandonar o conceito de verdade como abandonámos os deuses gregos, por serem meros mitos, está a ser trapaceiro. Pois ele quer dizer que é verdade que os deuses gregos são mitos apenas, mas ao mesmo tempo não pode dizer tal coisa porque não há verdades.

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  31. Não sou nada simpático à concepção anti-alética, mas talvez os ajudasse a distinção fregeana entre a mera expressão de um pensamento e o assentimento a ele. Um anti-alético radical pode expressar e apreciar diversos pensamentos, sem assentir a nenhum deles. O anti-aletismo radical exige uma brutal reforma da linguagem, porque a linguagem ordinária não distingue adequadamente entre a mera expressão de um pensamento e o assentimento a ele. Talvez a mesma distinção pudesse ser estendida ao caso dos argumentos: uma mera "expressão" ou "apreciação" dos argumentos, sem o "assentimento" a eles. Sem uma devida reforma da linguagem, o anti-alético radical APARENTA estar participando de um debate.

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  32. Frank, entendo o que dizes. Mas isso não resolve o problema que aponto. Ainda estaríamos impossibilitados de convencer o anti-alético por meio de um argumento, pois para isso ele deve dar assentimento às premissas (e também, é claro, à conclusão). A única saída para ele seria explicar a asserção e o assentimento sem usar o conceito de verdade. Mas essa parece uma tarefa fadada ao fracasso, pois parece inquestionável que

    p sse "p" é verdadeira

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  33. Alexandre,

    um genuíno anti-alético radical não pode e não quer ser convencido ou convencer de nada. Se ele altera seu ponto de vista, isso não pode ser explicado por nenhum recurso à correção de argumentos. Infelizmente a linguagem ordinária parece ter sido construído por aléticos radicais, impedindo o anti-alético radical de expressar-se como ele realmente gostaria.

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  34. Infelizmente para o anti-alético radical, é claro!

    É um problema análogo ao encontrado pelo nominalista.

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  35. Um nominalista tem maiores dificuldades para expressar seu ponto de vista na linguagem ordinária do que o seu oponente.

    Que a linguagem ordinária precise de ajustes não é novidade. Basta pensar na equivocidade do verbo "ser" e no estrago que a aparente univocidade dele, induzida pela linguagem ordinária, causou na história da filosofia.

    Uma preferência da linguagem ordinária por certas construções nada prova sobre a correção dessas construções.

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  36. O problema é que os anti-aléticos não seguem o exemplo de Crátilo, que ficava em silêncio e só acenava o dedo. Pelo contrário, escrevem livros e dão aulas e enchem a cabeça dos estudantes de tolices que constituem obstáculos epistemológicos poderosos ao desenvolvimento da filosofia. A falácia da falta de vergonha na cara é constante: os anti-aléticos fartam-se de fazer afirmações e de apresentar argumentos, usando precisamente a lógica que eu uso para os refutar; mas mal se deparam com um argumento que eu uso, surge então a conversa dos limites da lógica ou da linguagem -- lógica e linguagem que é a mesmíssima que eles usam sem se queixar para exprimir os seus pontos de vista e apresentar os seus argumentos. Só se queixam dela quando eu mostro que defendem uma posição incoerente. Eu não estou aqui a pensar em espantalhos, nem num anti-alético ideal, coerente, que se remetesse ao silêncio (mesmo presumindo que isso era possível, o que não é, porque ele teria de ter pensamentos assertivos como "estou com sede"). Estou a pensar em anti-aléticos reais, que dão aulas e palestras e escrevem livros e discutem com pessoas e fazem afirmações.

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  37. Sim, percebeste bem, Desidério, embora eu não tenha sido claro (a essa hora já devia estar a dormir).

    A tua resposta, contudo, deixa um problema: como explicas que seja verdade que Júpiter tem 63 luas independentemente de haver agentes que acreditam nisso? Já era verdade que Júpiter tem 63 luas mesmo antes de haver quem acreditasse nisso.

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  38. Sem agentes não há verdades. Antes de haver agentes que pudessem ter a crença de que Júpiter tem 63 luas, não havia tal crença e consequentemente não havia tal verdade. Mas o que faz tal crença hoje ser verdadeira já existia quando não existia qualquer agente cognitivo. É isso que queremos dizer quando dizemos que já era verdade, antes de haver agentes cognitivos, que Júpiter tinha 63 luas.

    Esta perspectiva parece-me bem mais plausível, inicialmente, do que começar por afirmar que as verdades são como que objectos abstractos que existem independentemente dos agentes cognitivos. Não vejo necessidade, à partida, para aceitar tal coisa.

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  39. Desidério, compreendo perfeitamente a tua resposta. Mas isso não desfaz as confusões que referes.

    As crenças são estados mentais a que chamamos "atitudes proposicionais". Não será precisamente porque se trata de atitudes proposicionais que dizemos que as crenças são verdadeiras? Ou seja, não serão as crenças apenas derivadamente verdadeiras ao invés de directamente verdadeiras? Tal como dizemos acerca das frases declarativas: as frases declarativas, que são entidades linguísticas, não são em rigor directamente verdadeiras nem falsas; o que é verdadeiro ou falso é o que as frases declarativas expressam.

    Dizes que pode gerar confusão falar de verdades como se estas não fossem propriedades de crenças. Mas isso está implícito em afirmações tão vulgares como "A polícia descobriu finalmente a verdade acerca do que se passou com Maddie". Se for como sugeres, então nunca se descobrem verdades, apenas se descobre que certas crenças são verdadeiras.

    Outra coisa que pode gerar alguma confusão e que talvez não estejamos a acautelar devidamente, é a diferença entre verdade (que é gramaticalmente um substantivo) e verdadeiro (que é gramaticalmente um adjectivo). Assim, talvez não seja errado afirmar que uma crença é verdadeira. Mas daí não se segue que quando estamos a falar de verdades estejamos a falar de propriedades de crenças.

    Mas, por incrível que pareça, é óbvio que posso estar enganado :-)

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  40. Boa achega, rapaz. Sinceramente, parece-me que não há verdades (ah! pareço um anti-alético); só há crenças, etc., verdadeiras. Ou seja, não há a verdade como substantivo, que teria de ser um particular ou conjunto de particulares; há apenas a propriedade que certas coisas têm de serem verdadeiras. E o género de coisas que podem ser verdadeiras ou falsas não podem ser cadeiras ou rios, mas antes representações da realidade, como crenças ou proposições. No nosso modo comum de falar, falamos como se as verdades fossem objectos; mas isso parece-me apenas uma maneira de falar enganadora.

    Haverá algum argumento a favor da ideia de que há verdades, literalmente falando, e não apenas coisas verdadeiras? Falas das atitudes proposicionais como as crenças, e a princípio parecia-me que irias montar um argumento do género: as crenças são atitudes proposicionais que têm como objecto verdades, logo as próprias crenças não podem ser o locus da verdade. Isto não funciona. As crenças são representações da realidade, e é por isso que podem ser verdadeiras ou falsas; não têm por objecto verdades.

    Que dizes?

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  41. | Se não há verdades, não há erros.
    | Se não há erros, somos todos infalíveis.
    | Mas não é verdade que sejamos todos infalíveis.
    | Logo, há verdades.

    Se eu fosse um relativista (anti-alético, rs) convicto, diria que, sim, somos todos infalíveis, oras.

    E diria que a suposta implausibilidade de aceitar esta consequência não passa de outra confusão, já que uma coisa é sermos infalíveis quando há a possibilidade de ser falível - o que implicaria numa habilidade espetacular e, por isso mesmo, implausível; mas outra coisa, nada espetacular, é sermos infalíveis porque a falibilidade é impossível, afinal. Esta já é uma forma nada espetacular de sermos infalíveis - é tão inofensiva quanto nossa "infalibilidade" para detectar o tamanho exato das cores.

    O argumento de Desidério convence porque, ao chegarmos a ler a consequência de que "todos seríamos infalíveis", ainda temos em mente o sentido comum de "infalível", que é posto em contraste com a possibilidade de falhar. E isto soa implausível.

    Dito isto, não sou relativista, mas um anti-relativista total. E onde vejo problema é no fato de o relativista fazer quaisquer afirmações substantivas - como as várias que fiz acima.

    *****

    Sou Lauro Edison, uso o nick Paralelo na net.
    Sou do Brasil, de Belém-PA. Mas moro em Alumínio-SP.

    Site: http://www.suasticazul.hbe.com.br

    Primeira vez que participo aqui, mas há anos leio a Crítica. Fabulosa.
    Abraços.

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  42. Obrigado pela objecção, que é interessante, e pelas palavras amáveis. Um relativista pode dizer que o argumento falha precisamente porque a plausibilidade da premissa resulta do carácter ambíguo do termo "infalível". Isto é interessante. Mas teria então de dizer em que sentido é plausível pensar que somos infalíveis. E isto parece-me insustentável. O sentido normal do termo é este: um agente é infalível se, e só se, todas as suas crenças são verdadeiras. Ora, o próprio relativista, caso se dê ao trabalho de argumentar contra mim, é porque está a pressupor que a minha crença de que ele está errado é falsa. Logo, ele aceita que eu sou falível. Por isso, parece-me que o argumento original funciona. Mas talvez eu esteja a ver mal.

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  48. Desidério,

    obrigado pela resposta. E perdão pela demora e extensão da tréplica, e também pela confusão das deleções seguidas acima. Espero que lhe seja possível apagar esses registros inúteis de que eu deletei 5 mensagens (aliás, por pura confusão mesmo).

    O sentido normal do termo "infalível" é, como você diz, o de que "um agente é infalível se, e só se, todas as suas crenças são verdadeiras".

    Mas se o relativista 1) aceita este sentido e 2) nega (ou ao menos não aceita) existirem verdades, então o que ele dirá é "não há acertos" (em vez de "não há erros"). E a conclusão dele seria oposta: somos todos 100% falhos (de fato, nunca temos crenças verdadeiras, porque não há verdades). Por hora, vou assumir que combater este tipo de relativista é outro assunto, rs.

    Já o relativista do teu exemplo afirma que "se não há verdades, não há erros". Então eu creio que o sentido dele de "infalibilidade" só pode ser:

    "um agente é infalível se, e só se, nenhuma de suas crenças é falsa"

    O relativista em questão começa assumindo este significado exótico para "crença falsa" - uma crença só pode ser falsa (falha) no caso de ser possível que fosse verdadeira (acerto). Isto vem da intuição geral de que, em qualquer área, só é possível falhar se for possível acertar. Onde o acerto é impossível, nada pode ser considerado falha. Para o nosso relativista, portanto, "se não há verdades, não há erros".

    Assim não é implausível sermos infalíveis, porque isto não é uma capacidade divina, mas uma mera consequência trivial de não ser possível acertar também (isto é, de não existirem verdades).

    Somos infalíveis, pois, não no sentido de todas as nossas crenças serem verdadeiras, mas no sentido de nenhuma crença ser falsa.

    AGORA O PONTO CHOCANTE ONDE SEMPRE SE CHEGA, AO DEBATER RELATIVISMO:

    Nem mesmo a crença de Desidério, sobre haver verdades, é falsa. Pois, para que Desidério falhasse, deveria ser possível acertar. Mas não há verdades, portanto não há erros. E portanto a crença de que há verdades é, meramente, outra crença - nem verdadeira, nem falsa.

    *****

    Isto nos joga em círculos?

    O relativista parece não perceber que, se Desidério acredita que há verdades, e não há verdades, então a crença dele [de Desidério] é sim falsa! O que, claro, faz desabar toda a conversa do relativista.

    Por outro lado, a acusação de "petição de princípio" paira no ar. ¿ Estamos nós impondo ao relativista a existência de uma verdade por ele proposta, a saber, a verdade de que não há verdades? Bem, nós pensamos que é o próprio relativista quem está fazendo isso! Mas ele talvez diga que pensamos assim por estarmos condicionados.

    Ele diria que, segundo ele, não é verdade que não haja verdades - afinal, não há verdades! (--> é difícil entender o que isto significa, se não uma reivindicação objetiva - mas o relativista acha que esta nossa falta de entendimento é justamente o problema) Se isto parece paradoxal, é porque estamos compreendendo mal o ponto. Pois o ponto é que, tampouco, é falso que não haja verdades.

    Parece que ficamos sem ter onde pisar. Nós e o relativista, diga-se.

    A questão final e decisiva, a meu ver, é se existe algum sentido em que a expressão "não há verdades" seja, ao mesmo tempo, inteligível e não proposicional (sem valor de verdade).

    Sem dúvida, parece-me que não há. E não é surpresa que os relativistas sejam confusos, em vez de claros. Mas quem sabe esclarecendo o suficiente a questão, alguns deles se animem a tentar algo eficaz.

    *****

    Desidério,
    se chegou aqui, muito obrigado, rs.

    Abraço.

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  49. Muito sinceramente, penso o seguinte: o relativismo parece atraente porque tem um grão de verdade. Esse grão de verdade, contudo, é uma tese epistemológica banal: enganamo-nos muitas vezes e o que pensamos ser verdade afinal não o é. Mas isto é muito diferente de dizer que não há verdades. Ou que as verdades são relativas ao que pensamos.

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