30 de junho de 2010

W. K. Clifford

Nunca é legítimo silenciar uma dúvida; pois que ou se lhe pode responder honestamente através da investigação já feita, ou então a dúvida é a prova de que a investigação não está completa.

28 de junho de 2010

Filosofia e reforma curricular

Soube a partir DAQUI que anda a circular um powerpoint sobre a proposta de reforma curricular para os ensinos básico e secundário. Numa análise muito rápida, como é que ficaria, segundo esta proposta a disciplina de filosofia? O documento dá a entender que o ensino secundário passaria a ser de 4 anos, sendo que os primeiros dois seriam de formação geral e os dois últimos de “ensino secundário superior” subdividido entre cursos científico humanísticos e ensino profissional. Estas são as designações dadas. A filosofia desaparece do 10º ano e passa a constar como formação geral obrigatória para os dois últimos anos de “ensino secundário superior” dos cursos científico humanísticos dos,11º e 12º anos. Se assim for, a disciplina de filosofia deixa de existir – se é que ainda existe de facto – como opção no 12º ano. Por curiosidade, a híbrida disciplina de Área de Integração deixa de existir, pelo menos como formação geral, nos cursos profissionais. A minha pergunta é: que lugar deve ocupar a disciplina de filosofia na formação geral que se propõe do secundário para 4 anos? Deve existir somente nos 2 últimos anos de “ensino secundário superior” ou deve existir nos 4 anos de ensino secundário? E se não é obrigatória para os 9º e 10º anos, será que faz sentido como opção para estes 2 anos? Ou será que se esta proposta for para a frente é um momento oportuno para propor a disciplina de pensamento crítico que ainda não existe nos currículos do ensino público não superior em Portugal? Aceitam-se sugestões. O documento merece ainda outra análise, pelo discurso que envolve e pelas propostas que faz, mas para já pretendo tratar somente a questão da disciplina de filosofia. Se algum leitor tiver dificuldade em descarregar o ficheiro pode pedi-lo para o e-mail do Assistente Editorial da Crítica que o mesmo será enviado por esse meio.

25 de junho de 2010

número dedicado à filosofia da música

A Revue Internationale de Philosophie, 4-2006 / volume 60 / nº 238 é dedicada inteiramente à filosofia da música, com textos de filósofos anglófonos menos conhecidos ou discutidos, como Stefano Predelli e Saam Trivedi (ainda que neste caso o primeiro seja de origem italiana e o segundo indiana). Neste volume trata-se questões como a ontologia musical, a improvisação, a natureza do jazz, a cognição musical, o papel das emoções na música, entre outras.

Pode ser consultado na biblioteca central da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, no piso -1.




23 de junho de 2010

Demasiadas publicações académicas?

Isto é algo que de vez em quando se ouve entre académicos: "há artigos a mais". Isto para não falar de livros. Uma pessoa que queira sair do universo bibliográfico e da língua dos seus pais (coisa que muita gente não quer fazer) vai descobrir com espanto que sobre qualquer assunto da filosofia há tantos livros e artigos que uma vida inteira não daria para ler os mais importantes. O que fazer? "We Must Stop the Avalanche of Low-Quality Research" é a polémica resposta de cinco professores norte-americanos. Que, ironicamente, deu logo origem a tantos comentários (146, no momento em que escrevo), que poucas pessoas os vão ler todos. Mas alguns comentários têm críticas contundentes e boas. E os autores dão-se ao trabalho de responder. E o que pensa o leitor?

22 de junho de 2010

Palhaçadas



Do alto do seu prédio de vários andares, brincava aos patriarcas e recebia paternalmente toda a gente. Fora desse modo que, em princípio, aceitara a nossa entrevista. Eu queria avistar-me com ele? Pois bem, que fosse! Era para um jornal? Ora, estava-se nas tintas para os jornais, não conhecia o nosso... «Publicam poemas? Não! Que pena...» Mas, já que me divertia recolher as suas palavras, não via inconveniente... 

[...] Acabou mais cedo do que previa! Tocaram à porta. 
«Quem é?», gritou Bachelard, já a remexer-se, a longa barba agitada num sobressalto à ideia de se arriscar a que lhe acontecesse algo de imprevisto! 
Era isso, efectivamente: um amigo que subira por acaso! Bachelard não era capaz de resistir, dei-me conta, à felicidade infantil de passar a outra coisa... Despediu-me imediatamente.
[...] 
«Vá, vá, disse acompanhando-me à porta. Tive muito prazer em conhecê-la! Faça com isso o que quiser! Corte! Modifique! Acrescente! Pode pôr-me a dizer o que lhe aprouver, estou certo de que ficará muito bem e, além do mais, eu poderia tê-lo dito!»
Obedeci? Escreveu-me uma carta entusiástica a felicitar-me pelo meu talento para a «animação». Que este era comparado com o dele!

Retirado de uma entrevista conduzida pela jornalista Madeleine Chapsal para L'Express em 1960

18 de junho de 2010

Ensaios publicados pela Fundação Manuel Francisco dos Santos

A Fundação Manuel Francisco do Santos, presidida por António Barreto pretende lançar a discussão em torno dos mais variados temas e problemas que nos afectam, em Portugal, à margem da manipulação dos circuitos mais normais de informação, principalmente a televisão e o discurso político. É um ensaio de mostrar a verdade de uma forma mais lavada, espero que com sucesso. Entre outras iniciativas, a Fundação lançou  a plataforma Pordata, que apresenta números reais do que está a acontecer no país sobre muitos temas, problemas que nos afectam. Outro campo de actuação da Fundação é o lançamento de ensaios sobre esses problemas, com total liberdade dos autores. Segundo a entrevista que li na revista Visão ao Presidente António Barreto, a todos os autores se pedem soluções e caminhos para os problemas. O primeiro volume é um ensaio de Maria do Carmo Vieira, professora de Português no Ensino Secundário. O livro vende-se em quiosques, conjuntamente com publicações como a Visão por mais 3.15€. António Barreto refere que pretende que os livros, e a discussão, sejam levados às pessoas, por onde quer que elas passem. E ainda bem. Este ensaio baseia-se no ensino do Português, mas refere-se ao ensino em geral. O desprezo pelos conteúdos e a opção pelo facilitismo é o problema explorado. Mas é explorado de forma implacável, sem concessões. É preciso que as pessoas em geral tomem consciência do que se está a passar no sistema educativo português e tenho a esperança que este livro possa lançar a discussão. Ele é obrigatório para a sociedade em geral já que trata de um problema que afecta a todos, mas deve começar por ser debatido entre os professores. São esses quem primeiro tem de abandonar a postura de ingenuidade e de aceitar acriticamente o engano. Espero que os propósitos genuínos da Fundação Francisco Manuel dos Santos sejam cumpridos. 

17 de junho de 2010

Risco, política e fantasia

Julian Baggini escreve aqui um excelente artigo sobre muitas das fantasias no que respeita à avaliação dos riscos e ao valor da vida humana.

16 de junho de 2010

Podem as máquinas pensar?

Mente, Homem e Máquina, de Paul T. Sagal, apresenta, sob a forma de diálogo, uma interessante discussão filosófica que continua viva. Hoje, convivemos diariamente com o poder da computação, mas trata-se de meras máquinas pouco mais impressionantes do que um fogão: fazem coisas quando nós lhes mandamos fazer coisas, e o que fazem é elementar. Os investigadores, contudo, continuam a querer fazer computadores como se imagina nos filmes: máquinas capazes de falar connosco, responder a perguntas vagas e tomar decisões baseadas na análise complexa de bases de dados com biliões de informações. Um passo nessa direcção foi dado agora pela IBM, com a criação de Watson. Leia a reportagem no New York Times. Mas poderá uma mera máquina alguma vez pensar como nós? O que pensa o leitor? Não é a ideia de que nós não somos meras máquinas uma ilusão, dado que somos apenas organismos biológicos, com cérebros muito desenvolvidos? O que tem um cérebro que uma máquina não pode ter?

Estão aí os exames

Aproximam-se os exames nacionais. Por esta altura milhares de estudantes do ensino secundário começam a sentir alguma ansiedade. Tal ansiedade, se não for excessiva, pode até nem ser indesejável. Ao logo das suas vidas pessoais e profissionais, os jovens irão provavelmente passar por situações idênticas, em que, num par de horas, muita coisa importante pode estar em jogo. É bom que estejam preparados para enfrentar tais situações e que sejam mesmo capazes de as encarar como oportunidades a aproveitar. Pode continuar a ler aqui o artigo sobre os exames nacionais, que escrevi para o Público.

14 de junho de 2010

13 de junho de 2010

6 de junho de 2010

Falsificação, pessoas e teorias

photo by Felipe Morinvia PhotoRee

As ideias de Popper sobre o que marca a diferença entre ciência e pseudociência parecem-me subtilmente erradas. Acertou ao pensar que a resistência à refutação é uma marca importante dessa diferença. Mas errou ao pensar que essa marca é uma característica das teorias em si, e não da atitude que as pessoas têm perante as teorias.

Popper pensava que uma teoria pseudocientífica não era refutável. Mas isto é falso. Tome-se a astrologia. Não é difícil retirar dela afirmações falsificáveis, se com falsificável queremos apenas dizer que é logicamente possível fazer uma observação incompatível com a teoria. Por exemplo, podemos observar um deus a descer à Terra e a dizer “A astrologia é falsa”. Isto é uma observação e refuta a astrologia.

Mas é claro que não é este género de coisa que Popper tinha em mente. O que tinha em mente não era a mera possibilidade lógica, mas antes física ou metafísica: observar, por exemplo, que o João foi assassinado no dia em que o horóscopo vaticinava que tudo iria correr bem. Só que isto acontece vezes e vezes sem conta, com qualquer teoria pseudocientífica.

O que torna as teorias pseudocientíficas resistentes à refutação não é exclusivamente as propriedades lógicas dessas teorias, mas antes a atitude epistémica dos seus defensores. É verdade que as teorias pseudocientíficas são tipicamente mais vagas do que as científicas; mas isso é apenas uma questão de grau. O que faz a diferença fundamental não é isso, mas antes a atitude que as pessoas têm perante tais teorias. A razão pela qual as teorias científicas são precisas, apesar de todas terem começado por ser muito imprecisas, é as pessoas que fazem ciência procurarem activamente testá-las. A razão pela qual as teorias pseudocientíficas não são tão precisas é porque ao longo do tempo os seus defensores não procuram testá-las, mas apenas defendê-las.

Popper viu um aspecto importante da diferença entre ciência e pseudociência. Esse aspecto é a refutabilidade. Mas pensou erradamente que essa é uma característica lógica das próprias teorias. Não é. É apenas uma característica da atitude epistémica das pessoas que fazem ciência, que difere da atitude epistémica das pessoas que fazem pseudociência. (Esta diferença de atitude depois influencia decisivamente a estrutura das instituições: num caso encara-se a refutação como parte integrante do trabalho intelectual; no outro, encara-se a refutação como uma ofensa, um opróbrio.) Quem tem uma atitude epistemicamente proba não se limita a permitir refutações: procura-as activamente e dá-lhes muita atenção. Quem não tem essa atitude, foge o tempo todo das refutações, recorrendo a todos os truques imagináveis — desde pôr em causa a lógica, que não põe em causa quando a lógica é favorável às suas ideias, até pôr em causa todas as instituições científicas, que também não põe em causa quando essas instituições lhes salvam a vida com medicamentos eficientes, etc.

Do meu ponto de vista o que faz a diferença entre ciência e pseudociência não é, primariamente falando, uma qualquer diferença nas propriedades das respectivas teorias, mas antes uma diferença de atitude de quem faz e estuda essas teorias. Claro, essa diferença de atitude acaba por influenciar as teorias -- tornando umas mais precisas e mais facilmente refutáveis, outras mais vagas e mais difíceis de refutar por se rodearem de sofismas e jogos de palavras.

E o que pensa o leitor?

3 de junho de 2010

Falsificabilidade



Ana - Uma teoria verdadeira pode ser falsificada?

Carlos - Claro que não. Como poderíamos mostrar que é falso o que é verdadeiro?

Ana - Mas acreditas que todas as teorias científicas são falsificáveis?

Carlos - Sim, são falsificáveis. Mas isso é diferente de serem falsificadas.

Ana - Qual é a diferença?

Carlos - Uma teoria falsificada é uma teoria que foi refutada, ao passo que uma teoria falsificável é uma teoria que é possível refutar.

Ana - Humm... isso quer dizer que não pode haver teorias científicas verdadeiras?

Carlos - Como assim?

Ana - Pensa bem no que disseste até aqui. Afirmaste que 1) As teorias verdadeiras não podem ser refutadas, que 2) Todas as teorias científicas são falsificáveis e que 3) Uma teoria é falsificável se pode ser refutada.

Carlos - E depois?

Ana - Bom, segue-se daí que nenhuma teoria científica pode ser verdadeira.

Carlos - Hã...?

Será que a Ana ou o Carlos deram algum passo em falso? Haverá algo errado neste diálogo?

2 de junho de 2010

Mundos possíveis e Aristóteles

Estarei na Universidade de São Paulo no próximo dia 8 de Junho para participar, juntamente com Juliana Bueno-Soler e Osvaldo Pessoa Jr, na Jornada Mundos Possíveis promovida pelo Departamento de Filosofia. A minha comunicação tem por título "Contra os Mundos Possíveis".

Também com o Osvaldo, estarei no dia 10 de Junho no IX Colóquio de Epistemologia da Universidade São Judas Tadeu, em São Paulo. A minha palestra tem por título "O Fundamento Epistemológico da Ética de Aristóteles".