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Demasiadas publicações académicas?

Isto é algo que de vez em quando se ouve entre académicos: "há artigos a mais". Isto para não falar de livros. Uma pessoa que queira sair do universo bibliográfico e da língua dos seus pais (coisa que muita gente não quer fazer) vai descobrir com espanto que sobre qualquer assunto da filosofia há tantos livros e artigos que uma vida inteira não daria para ler os mais importantes. O que fazer? "We Must Stop the Avalanche of Low-Quality Research" é a polémica resposta de cinco professores norte-americanos. Que, ironicamente, deu logo origem a tantos comentários (146, no momento em que escrevo), que poucas pessoas os vão ler todos. Mas alguns comentários têm críticas contundentes e boas. E os autores dão-se ao trabalho de responder. E o que pensa o leitor?

Comentários

  1. Pois, também vivemos esse problema na Crítica. Têm de existir filtros. O problema é que a submissão de artigos exige tempo e disponibilidade, para além de uma boa preparação científica de quem os avalia. Uma solução não muito popular é pagar as submissões de artigos. Sei que em algumas revistas de maior nome isso já é prática.Pelo menos para as revistas como a Crítica uma boa solução é que os autores enviem apenas o "abstract". A partir daí faz-se a selecção. Os autores terão de ter muito cuidado com o que lá escrevem sob pena de terem um bom artigo que, no entanto, não despertou o interesse de publicação.

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  2. Transpondo a questão para a historiografia portuguesa, o que mais temos é publicações de má qualidade. Primeiro as «monografias locais», elaboradas por amadores e zelosos guardiães do seu bairrismo e do seu rincão; hoje os romances históricos que imbecilizam o passado, sem passar por torná-lo «legível». Neste país de doutores, todos são historiadores. Resultado: temos uma historiografia de capelinhas, de dogmas e de má qualidade.

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  3. Eu acho normal que exista trabalho académico de má qualidade, em todas as áreas. A maior parte de tudo na vida é infelizmente mau, mas é a vida; o que me faz apreciar o que é bom com mais intensidade. A maior parte da música é má, da literatura, da filosofia, da ciência. É preciso saber viver com isso. E saber viver com isso inclui criar comunidades de pessoas que genuinamente tentam fazer melhor.

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  4. Olá,

    Na minha modesta opinião, sim, há muitos artigos e muitos deles não são sequer lidos. Se isso acontece devido à boa ou má qualidade dos mesmos torna-se irrelevante, pois a não leitura atinge o critério da qualidade de forma transversal. A opinião dos cinco professores norte-americanos parece, por isso, correcta.
    Mas a verdade é que, para um qualquer académico, publicar artigos, ou ser editor, ou ‘referrer’, aparecem como uma das poucas possibilidades de avaliação académica do seu currículo.
    Isto é tão mais dramático, para quem pretende começar uma carreira académica. E é trágico para quem pretenda apenas e tão só ‘pensar e fazer coisas interessantes’ sem uma necessidade académica a priori. Só se é um pensador ‘respeitado’, se se publicar nos sítios certos, ou melhor, se publicar, apenas!
    Este sistema que existe auto-alimenta-se, e provavelmente os professores americanos que escreveram o artigo de opinião, também usufruíram desse sistema aquando o começo das suas carreiras académicas.
    Os artigos existem apenas e tão só para dar sentido à comunidade que os escreve e os valida, nada mais. Não quero ser cínico, mas, ao contrário de outras leituras, parece-me não haver progresso do conhecimento assim, pois confunde-se um medium social com aquilo que se pode pensar que seria o ‘conhecimento’.
    Mas é só uma opinião.

    Abraço

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