3 de junho de 2010

Falsificabilidade



Ana - Uma teoria verdadeira pode ser falsificada?

Carlos - Claro que não. Como poderíamos mostrar que é falso o que é verdadeiro?

Ana - Mas acreditas que todas as teorias científicas são falsificáveis?

Carlos - Sim, são falsificáveis. Mas isso é diferente de serem falsificadas.

Ana - Qual é a diferença?

Carlos - Uma teoria falsificada é uma teoria que foi refutada, ao passo que uma teoria falsificável é uma teoria que é possível refutar.

Ana - Humm... isso quer dizer que não pode haver teorias científicas verdadeiras?

Carlos - Como assim?

Ana - Pensa bem no que disseste até aqui. Afirmaste que 1) As teorias verdadeiras não podem ser refutadas, que 2) Todas as teorias científicas são falsificáveis e que 3) Uma teoria é falsificável se pode ser refutada.

Carlos - E depois?

Ana - Bom, segue-se daí que nenhuma teoria científica pode ser verdadeira.

Carlos - Hã...?

Será que a Ana ou o Carlos deram algum passo em falso? Haverá algo errado neste diálogo?

25 comentários:

  1. Uma teoria T é falsificável se há um conjunto C de proposições de observação incompatíveis com T. Se se descobrir que ao menos uma das proposições de C é verdadeira, a teoria é refutada. Caso contrário, T continua falsificável mas não falsificada. A inferência de Ana me parece inválida.

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  2. O que queremos dizer com "teoria falsificável" é que "caso a teoria seja falsa, pode ser provada falsa".

    Nesse sentido, teorias verdadeiras são falsificáveis, no sentido de que, caso fossem falsas, poderiam ser provadas falsas.

    Por exemplo, supõe que a Teoria da Relatividade é verdadeira e, portanto, o fato V fará com que a previsão crucial X se revele correta. Pois bem, SE a Teoria da Relatividade fosse falsa, então o fato F faria com que a previsão crucial X se revelasse errada. Por isso, a Teoria da Relatividade é falsificável, em princípio, mesmo se for verdadeira. Significa, claro, que ela não faz afirmações triviais ou vazias.

    Ana faz um capcioso jogo entre "falsificada" e "falsificável", e Carlos cai no truque.

    *****

    Há um aprofundamento a fazer, da distinção entre "falsificável de fato" (de forma independente do que sabemos) e "falsificável em princípio" (i. e., em relação à nossa situação epistemológica), mas creio que não é necessário aqui.

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  3. A falsificabilidade é um conceito filosófico aplicável à cientificidade das teorias. É uma questão de atitude epistémica e não uma questão metafísica.

    Aqui, trata-se de saber se uma teoria científica verdadeira pode ser falsificável. E pode. Uma teoria científica, seja verdadeira ou não, se não permitir a possibilidade de a refutarmos empiricamente não é uma teoria científica. Aqui trata-se da cientificidade das teorias, isto é, de uma atitude epistémica. O facto de uma teoria científica verdadeira ser falsificável não implica que seja falsa. Implica que foi possível submetê-la ao teste da falsificabilidade e até agora não se verificou que fosse falsa.

    Uma teoria científica se é verdadeira, não pode ser falsa. Mas quando se diz que é falsificável não se está a dizer que não pode haver teorias científicas verdadeiras. Está-se a dizer que podemo-nos enganar ao atribuir um valor de verdade a uma teoria. A falsificabilidade é a possibilidade de uma teoria se sujeitar a refutação, e poder sujeitar uma teoria à falsificabilidade é uma atitude epistémica que parece correcta. Isso não implica que o falsificacionismo em si seja infalível.

    1 – uma teoria só é científica se pode ser falsificável (ou refutável).
    2 – logo, todas as teorias científicas são refutáveis (por definição de teoria científica).
    3 – de 1 e 2 não se segue que as teorias científicas verdadeiras não possam ser refutadas.

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  4. O argumento da Ana é válido:

    As teorias verdadeiras não podem ser refutadas.
    Todas as teorias científicas são falsificáveis.
    Se uma teoria é falsificável, pode ser refutada.
    Logo, nenhuma teoria científica pode ser verdadeira.

    Portanto, quem rejeita a conclusão tem de explicar qual das premissas é falsa.

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  5. Então se queremos crer que há teorias científicas verdadeiras, temos de crer que há teorias cientifícas que não são falsificáveis: nem todas as teorias científicas são falsificáveis.

    Na verdade, como podemos falsificar o que é verdadeiro? Podemos pensar em condições que, uma vez reunidas, falsificariam a teoria. Se essas condições não estiverem reunidas, a teoria não é falsificável.

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  6. A premissa: "as teorias verdadeiras não podem ser refutadas" é falsa.

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  7. O que pensamos ser verdadeiro, mas de facto não é, pode ser refutado. O que é verdadeiro não pode ser refutado.

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  8. As verdades científicas sãao verdades epistémicas. Estas verdades são precárias, são provisórias até serem derrubadas por outras verdades. A teoria da relatividade é uma verdade científica, mas um dia pode ser derrubada por uma teoria ainda mais verdadeira.

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  9. São afirmações sobre o mundo, estados de coisas, o que quisermos. É possível e até provável que pensemos que algumas são falsas ou até parcialmente falsas, que há melhores explicações, mais precisas por exemplo, para esses estados de coisas. Mas é também possível e até provável que para certos estados de coisas não existam melhores explicações do que aquelas que encontrámos até hoje. Ou pensemos em afirmações descritivas de estados de coisas que correspondem completamente a esses estados de coisas - é muito provável. Por isso, é provável que certas verdades científicas não sejam precárias, nem provisórias, e que seja impossível serem derrubadas por outras verdades.

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  10. Uma sugestão de formalização do argumento de Desidério (com uma pequena modificação na formulação da conclusão) e, a partir dessa formalização, minha resposta:

    O universo do discurso é constituído pelas teorias, verdadeiras (V) ou não, científicas (C) ou não, refutadas (R) ou não, falsificáveis (F) ou não.

    As teorias verdadeiras não podem ser refutadas: Para todo x, se Vx então não é possível que Rx.
    Todas as teorias científicas são falsificáveis: Para todo x, se Cx então Fx.
    Se uma teoria é falsificável, pode ser refutada: Para todo x, se Fx então é possível que Rx.
    Logo, nenhuma teoria científica É verdadeira: Para todo x, se Cx então não é o caso que Vx.
    Da segunda e terceira premissas segue-se, por lógica de primeira ordem, que para todo x, se Cx então é possível que Rx.
    Dessa conclusão intermediária e da primeira premissa segue-se, por lógica de primeira ordem, a conclusão principal.
    O argumento é válido e, embora as fórmulas pertençam à lógica modal de primeira ordem, somente são necessárias deduções em lógica não-modal de primeira ordem.
    Meu voto vai para a falsidade da terceira premissa. A proposição verdadeira é: há teorias falsificáveis mas que não podem ser refutadas.

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  11. o argumento, agora com números para as premissas:

    1. As teorias verdadeiras não podem ser refutadas.
    2. Todas as teorias científicas são falsificáveis.
    3. Se uma teoria é falsificável, pode ser refutada.
    Logo, nenhuma teoria científica pode ser verdadeira.

    1 é uma verdade conceptual;
    2 é questionável, claro, e teríamos de a rejeitar -- i.e., de rejeitar o critério de cientificidade de Popper -- se 3 também fosse verdadeira, dado que a conclusão é um disparate.
    mas 3 é verdadeira? como alguém já sugeriu, o popperiano poderia alegar que não e dizer que o seguinte é que é verdade:

    3' Se uma teoria é falsificável, pode ser refutada se for falsa.

    ou seja, o popperiano pode livrar-se da conclusão disparatada pondo 3' no lugar de 3. a questão é se há algum mal em 3'.

    pedro

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  12. Concordo com 3'. Mas isso torna o conceito de falsificabilidade transparentemente epistémico e não metafísico: não se trata de qualquer teoria científica poder ser falsa, como popularmente se pensa, mas antes que se uma dada teoria científica for falsa, há maneira de a refutar. Que é o que supostamente não acontece com teorias como a psicanálise e o marxismo, pensava Popper.

    Assim, parece-me que esta é a única maneira caridosa de entender Popper. Trata-se de uma tese meramente epistémica.

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  13. Se as teorias científicas fossem teorias que podem ser falsificadas, teríamos o seguinte argumento:

    1. Nenhuma teoria verdadeira pode ser falsificada.
    2. As teorias científicas podem ser falsificadas.
    C1. Nenhuma teoria científica pode ser verdadeira.

    Esta conclusão satisfaria a tese (de que as teorias científicas não são verdadeiras) da Ana.

    Carlos acredita antes que as teorias científicas são falsificáveis:

    3. Falsificável é tudo o que pode ser refutado.
    4. Todas as teorias científicas são falsificáveis.
    C2. Todas as teorias científicas podem ser refutadas.

    Com este argumento do Carlos, a Ana volta a marcar a sua posição inicial:

    4. Todas as teorias científicas podem ser refutadas
    5. As teorias verdadeiras não podem ser refutadas.
    C1. Nenhuma teoria científica pode ser verdadeira.

    Penso que para sair deste problema, o melhor é reconsiderar a premissa 3, a definição de falsificável de Carlos, porque, afinal de contas, com a sua definição, ficou tudo na mesma.

    Se uma teoria for falsificável se for susceptível de ser verdadeira ou falsa, pode-se avançar com este argumento:

    Algumas teorias falsificáveis são verdadeiras.
    Todas as teorias científicas são falsificáveis.
    Algumas teorias científicas são verdadeiras.

    Assim, uma teoria científica é aquela que aceita estar certa ou errada, aquela que aceita se conformar com a realidade, ao passo que uma teoria pseudo-científica é uma teoria que só está disposta a estar certa, uma que antes quer forçar os dados da realidade a baterem certo com ela do que o contrário
    O problema é que essa noção de falsificável é, talvez, banal demais para caracterizar o pensamento científico.

    Pedro Filipe

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  14. Obrigado a todos pelos excelentes contributos.

    Já agora, aproveito para dizer que este diálogo (com alguns retoques da minha parte, claro) decorreu numa das minhas aulas do 11º ano, tendo origem na dúvida de uma aluna. Ela revelou alguma resistência em compreender como poderia uma teoria científica ser verdadeira se adoptássemos como critério de demarcação o critério popperiano de falsificabilidade. Alguns dos seus colegas acharam as suas dúvidas risíveis, mas acabaram por se aperceber que era ela estava um passo à frente deles.

    A verdade é que tive de pensar com alguma calma, juntamente com os alunos, para vermos se havia algo errado no raciocínio da Ana. Enfim, lá tivémos de nos pôr todos a tentar filosofar ao vivo e em directo, o que muito me agradou e penso que aos alunos também.

    Há várias ideias de Popper que me levantam muitas dúvidas (a sua desvalorização do papel da indução na ciência, por exemplo), mas a ideia de que as teorias científicas têm de ser falsificáveis não me parece uma delas. Contudo, as premissas da Ana parecem-me claramente verdadeiras e o seu argumento válido. O que se passa, então?

    Vejamos a reconstituição do argumento apresentada pelo Desidério e retomada pelo Pedro. O que se passa, creio eu, é que o termo "podem" é ambíguo. N premissa 1 tem um sentido diferente do que acontece na premissa 3. Assim, a possibilidade referida em 1 é a possibilidade nómica (ou física) ao passo que a possibilidade referida em 3 é a possibilidade lógica.

    Ora, isto é diferente do que foi proposto pelos comentadores anteriores. O que dizem?

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  15. Se na premissa 1 a impossibilidade referida é de tipo nômica (física) e na premissa 3 a possibilidade referida é de tipo lógica, então o argumento é inválido, porque a possibilidade lógica segue-se da possibilidade nômica (física), mas não o inverso.

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  16. Pensei melhor é creio que a premissa 2 é falsa:

    1. As teorias verdadeiras não podem ser refutadas.
    2. Todas as teorias científicas são falsificáveis.
    3. Se uma teoria é falsificável, pode ser refutada.
    Logo, nenhuma teoria científica pode ser verdadeira.

    Substituiria por:

    2. Todas as teorias científicas falsas são falsificáveis.

    Creio que isto basta. Não é problema algum, para popperianos (não sou um), que teorias científicas verdadeiras não sejam falsificáveis. Porque elas são infalsificáveis não em virtude de serem triviais ou vazias, mas de serem verdadeiras.

    Como nunca sabemos de antemão quais teorias são verdadeiras ou falsas, o critério de falsificabilidade só precisa conseguir o seguinte: que, caso a teoria X seja falsa, possa ser falsificada.

    Creio que isto mantém de pé a crítica de Popper contra o marxismo e a psicanálise.

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  17. Continuo a achar que:

    1 é verdadeira: como mostrar com verdade que o que é verdadeiro é falso? Impossível.

    2 é falsa: se fosse verdade, significaria que nenhuma teoria científica é verdadeira. A crermos que só o que é falso é falsificável, o que já aceitamos ao aceitarmos 1.

    3 é verdadeira, uma tautologia: se uma teoria é refutável, pode ser refutada; se uma teoria é refutável, é refutável. A menos que "pode ser fefutada" signifique "temos a capacidade, os meios, intelectuais ou outros, para refutá-la", o que não parece ser o caso.

    4 é falsa.

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  18. Vejam, se há uma proposição de observação P que é incompatível com a teoria T, disso não se segue que P seja verdadeira. Ela pode ser falsa (sem que saibamos). Mas mesmo que seja falsa, sua existência torna T falsificável no seguinte sentido: há uma observação possível que se fosse realizada tornaria a T falsa. O problema é que muitas teorias nem isso tem. Não concordam?

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  19. "Se uma teoria é falsificável, pode ser refutada."

    Julgo que a premissa 3) apresentada pelo Desiderio falha. Todas as teorias cientificas sao falsificaveis, mas nem todas podem ser refutadas. As teorias verdadeiras nao podem ser refutadas, pois por definicao irao passar todos os testes a que forem sujeitas.

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  20. Alexandre, dizes: "há uma observação possível que se fosse realizada tornaria a T falsa." O problema é sempre a palavra "possível". Popper não fazia a mínima ideia do que isto queria dizer.

    Se quer dizer possibilidade lógica estrita, quer dizer apenas que és capaz de formular sem contradição uma afirmação que, a ser verdadeira, tornaria a teoria falsa. Mas isto não serve como critério de demarcação, porque podes fazer isso com qualquer teoria pseudocientífica.

    Se quer dizer possibilidade metafísica, possibilidade real, poderá funcionar como critério de demarcação, admitindo que tais observações não sejam possíveis no caso das pseudociências. Mas então também todas as teorias científicas verdadeiras que estabelecem verdades necessárias, como “A água é H2O” seriam pseudocientíficas, dado que não há qualquer observação possível que torne isto falso.

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  21. Desidério: Se quer dizer possibilidade lógica estrita, quer dizer apenas que és capaz de formular sem contradição uma afirmação que, a ser verdadeira, tornaria a teoria falsa. Mas isto não serve como critério de demarcação, porque podes fazer isso com qualquer teoria pseudocientífica.

    Creio não ser verdade. Parece-me que teorias pseudocientíficas são ditas 'pseudo' justamente porque nenhuma observação possível (concebível, imaginável) poderia falseá-las - afinal, seja o que for observado, as teorias pseudocientíficas são de tal forma vagas que 'assimilam' toda e qualquer observação possível em seu escopo.

    E, se vejo bem, dizer que uma teoria só é 'pseudo' quando não é metafisica ou efetivamente possível haver observação capaz de falseá-la seria simplesmente dizer que toda teoria pseudo é falsa, e toda teoria científica é verdadeira, por definição.

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  22. Desidério, mesmo que eu concorde com tua crítica a Popper, meu ponto era interpretativo, Eu queria interpretar o falsificacionismo de Popper de tal forma que ele não implicasse que teorias verdadeiras não fosse falsificáveis. Só isso.

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  23. Obrigado pelo esclarecimento! Acho que te li mal.

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  25. Uma teoria A é verdadeira a partir de um quadro referencial teórico (Q.R.T) B. Se o Q.R.T B é substituído por C e A passa a ser falso, então houve uma alteração no valor de verdade da teoria. Assim, a verdade de toda teoria é dependente do Q.R.T que utilizamos. O fato de não possuirmos o Q.R.T absoluto faz com que toda teoria não seja absolutamente justificada e por isso não pode ser aceita como uma verdade absoluta.

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