6 de junho de 2010

Falsificação, pessoas e teorias

photo by Felipe Morinvia PhotoRee

As ideias de Popper sobre o que marca a diferença entre ciência e pseudociência parecem-me subtilmente erradas. Acertou ao pensar que a resistência à refutação é uma marca importante dessa diferença. Mas errou ao pensar que essa marca é uma característica das teorias em si, e não da atitude que as pessoas têm perante as teorias.

Popper pensava que uma teoria pseudocientífica não era refutável. Mas isto é falso. Tome-se a astrologia. Não é difícil retirar dela afirmações falsificáveis, se com falsificável queremos apenas dizer que é logicamente possível fazer uma observação incompatível com a teoria. Por exemplo, podemos observar um deus a descer à Terra e a dizer “A astrologia é falsa”. Isto é uma observação e refuta a astrologia.

Mas é claro que não é este género de coisa que Popper tinha em mente. O que tinha em mente não era a mera possibilidade lógica, mas antes física ou metafísica: observar, por exemplo, que o João foi assassinado no dia em que o horóscopo vaticinava que tudo iria correr bem. Só que isto acontece vezes e vezes sem conta, com qualquer teoria pseudocientífica.

O que torna as teorias pseudocientíficas resistentes à refutação não é exclusivamente as propriedades lógicas dessas teorias, mas antes a atitude epistémica dos seus defensores. É verdade que as teorias pseudocientíficas são tipicamente mais vagas do que as científicas; mas isso é apenas uma questão de grau. O que faz a diferença fundamental não é isso, mas antes a atitude que as pessoas têm perante tais teorias. A razão pela qual as teorias científicas são precisas, apesar de todas terem começado por ser muito imprecisas, é as pessoas que fazem ciência procurarem activamente testá-las. A razão pela qual as teorias pseudocientíficas não são tão precisas é porque ao longo do tempo os seus defensores não procuram testá-las, mas apenas defendê-las.

Popper viu um aspecto importante da diferença entre ciência e pseudociência. Esse aspecto é a refutabilidade. Mas pensou erradamente que essa é uma característica lógica das próprias teorias. Não é. É apenas uma característica da atitude epistémica das pessoas que fazem ciência, que difere da atitude epistémica das pessoas que fazem pseudociência. (Esta diferença de atitude depois influencia decisivamente a estrutura das instituições: num caso encara-se a refutação como parte integrante do trabalho intelectual; no outro, encara-se a refutação como uma ofensa, um opróbrio.) Quem tem uma atitude epistemicamente proba não se limita a permitir refutações: procura-as activamente e dá-lhes muita atenção. Quem não tem essa atitude, foge o tempo todo das refutações, recorrendo a todos os truques imagináveis — desde pôr em causa a lógica, que não põe em causa quando a lógica é favorável às suas ideias, até pôr em causa todas as instituições científicas, que também não põe em causa quando essas instituições lhes salvam a vida com medicamentos eficientes, etc.

Do meu ponto de vista o que faz a diferença entre ciência e pseudociência não é, primariamente falando, uma qualquer diferença nas propriedades das respectivas teorias, mas antes uma diferença de atitude de quem faz e estuda essas teorias. Claro, essa diferença de atitude acaba por influenciar as teorias -- tornando umas mais precisas e mais facilmente refutáveis, outras mais vagas e mais difíceis de refutar por se rodearem de sofismas e jogos de palavras.

E o que pensa o leitor?

4 comentários:

  1. As pseudo-ciências tendem mais a ser artigos de autoridade e menos o resultado de uma discussão e síntese pública. Se ambas partem inicialmente de crenças privadas, o facto de não passarem por um processo dialético de polémica, torna-as distintas das crenças científicas, mais protegidas e arbitrárias. Mas também isso é uma consequência das atitudes epistémicas dos respectivos praticantes que o Desidério bem refere.

    João Pedro

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  2. Olá Desidério,
    O que faz a diferença entre as teorias pseudocientíficas e as teorias científicas não é só uma questão de atitude epistémica dos seus defensores. A razão pela qual certas teorias são pseudocientíficas, não é porque os seus defensores não queiram testá-las. É mais pelo facto de as teorias terem um estatuto tal que não são susceptíveis de serem testadas.
    Há de facto diferença nas propriedades das respectivas teorias. Por exemplo, os defensores da homeopatia não impedem que os cientistas a testem. Mas o carácter intrínseco da teoria não se adequa ao método. Por assim dizer, o falsificacionismo é mais uma heurística do que um argumento. O que Popper não conseguiu convencer foi que a sua heurística era suficientemente poderosa para ter um carácter universal em relação a todas as teorias, para demarcar as que eram inequivocamente científicas e as que não eram.
    Os defensores da homeopatia constatam que quando a utilizam em certos doentes, estes ficam bons. Portanto têm uma crença básica acerca da homeopatia. Uma crença é básica se não for inferida de qualquer outra crença. Limitam-se a ver que ficam bons, logo resulta. Então, os homeopatas inventaram uma teoria não básica inferida da crença básica e de outras crenças que suportam a teoria, para a qual teríamos que arranjar testes para a invalidar. O que acontece é que certos tipos de teorias, como a homeopatia, são suportadas por outras crenças (a memória da água) as quais são incompatíveis com a heurística standard para a falsificar. E é este carácter de incompatibilidade das teorias que as tornam, segundo Popper, pseudocientíficas. Portanto, não é a mesma coisa que o tipo de atitude epistémica que o Desidério faz alusão, embora no limite se possa relacionar indirectamente o carácter das teorias com a atitude epistémica dos seus autores. Mas isso é o que é preciso provar. Estou convencido que a maior parte dos seus defensores até podem nem sequer ter consciência disto.

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  3. Me parece que a defesa do Desidério de que a falseabilidade funciona como um critério para diferenciar atitudes epistêmicas se trata, na verdade, de uma generalização apressada. Podem haver casos de 'comodismo epistêmico' (é assim que vou chamar a atitude epistêmica característica dos proponentes de teorias não-falseáveis) tanto na ciência quanto na pseudo-ciência. Se pudermos constatar indutivamente que é fundamental este comodismo para a pseudo-ciência (e que não é o mesmo caso na ciência) através de uma pesquisa, aí sim a tese do Desidério se tornaria crível, mas da maneira como está não penso que seja o caso.

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  4. Gostaria de acrescentar outra consideração: acercada falseabilidade ser ou não propriedade das teorias (em detrimento de ser propriedade da atitude epistêmica de seus proponentes).

    Parece ser o caso que a falseabilidade não é propriedade intrínseca de qualquer teoria, não basta que investiguemos o conteúdo de uma teoria para descobrir se ela é falseável ou não. Contudo, não penso que disto siga que a falseabilidade de uma dada teoria será determinada, no final das contas, pela postura de seus defensores. Creio que a falseabilidade de uma teoria seja estabelecida por uma relação que a teoria mantêm com o mundo, e esta relação seria uma relação objetiva, que é tal como é independentemente de como podemos pensá-la. Em outras palavras: o mundo torna uma teoria falseável ou não.

    Qualquer hipótese cética que constituir uma teoria tornará a teoria não-falseável, isto será assim por o mundo ser da maneira que é. Podem haver mundos possíveis em que uma hipótese cética é falseável, podem haver até mundos possíveis em que uma teoria (considerada científica atualmente) não seja falseável. A própria natureza determina quais teorias são falseáveis, pois a falseabilidade consiste na possibilidade de refutação por testes e tal possibilidade, por sua vez, está restrita ao limite de nossas experiências possíveis. Sendo o caso que este limite é estabelecido objetivamente, penso que daí siga a objetividade do que torna uma teoria falseável ou não.

    Queria ter investido mais reflexão nesta questão, mas é o que me parece correto por ora.

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