14 de junho de 2010

Lógica informal

Acabo de publicar o meu artigo "Lógica Informal", retirado da Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos, segunda edição. Espero que seja esclarecedor.

2 comentários:

  1. Desidério,

    este artigo é bastante esclarecedor em relação à nossa última discussão e ajudou-me a pensar sobre um problema com que me deparo frequentemente: Nem sempre é fácil julgar se um conjunto de proposições que temos pela frente é um argumento.

    A diferença entre um argumento e, por exemplo, uma explicação é que o primeiro tenta convencer-nos de alguma coisa enquanto a segunda dá algo por garantido e tenta descrever-nos as suas causas ou tornar algo compreensível para nós. Ou seja, há nos argumentos um elemento de persuasão que não há nas explicações (ou nas definições).

    Dai escreveres
    "A noção de argumento não é definível sem recorrer a pessoas ou outros agentes cognitivos, pois são estes que decidem ou não apresentar um dado conjunto de proposições como um argumento."

    Parece-me que há outros agentes cognitivos a ter em conta na nossa definição de argumento e é isso que vou tentar provar.

    Dizes que estamos perante um argumento quando o autor tenta persuadir um determinado auditório a aceitar uma determinada asserção (a conclusão).
    Esta intenção persuasiva será então uma condição necessária (mas não suficiente) de um argumento. Sendo a outra condição necessária possuir pelo menos uma premissa e uma conclusão.

    Assim estaríamos perante um argumento sempre que estivéssemos perante um “determinado conjunto de proposições e uma intenção de um autor em persuadir-nos a aceitar uma delas, a conclusão, com base noutra(s), a(s) premissa(s).”

    Será esta uma boa definição explícita de "argumento"? A meu ver dá conta das condições suficientes apresentadas até agora para considerarmos um determinado trecho linguístico um argumento (premissa, conclusão e intenção de persuasão).

    Mas como é que apenas com estas três condições necessárias evitamos que toda uma hipotética quantidade de trechos linguísticos totalmente irracionais adquiram o estatuto de argumentos? (Também poderíamos pensar se realmente é preocupante que isso aconteça…)

    A minha questão é a seguinte:
    Será a racionalidade do autor também ela uma condição necessária para aferir se o seu conjunto de proposições é um argumento?

    Se sim, nesse caso quem decide acerca da racionalidade do autor é seguramente o seu auditório. Então aqui teríamos outra condição necessária além da premissa, a conclusão e a intenção do autor para aceitarmos que um conjunto de proposições seja um “argumento”: a avaliação da racionalidade do autor por parte do seu auditório.

    Se de facto for assim há outros agentes cognitivos a ter em conta na nossa definição de argumento para além "daqueles que decidem ou não apresentar um dado conjunto de proposições como um argumento." Esses outros agentes cognitivos serão aqueles que decidem acerca da racionalidade do autor do pretenso argumento, ou seja, a avaliação da racionalidade do autor por parte do auditório é também ela uma condição necessária da nossa definição de argumento.

    Que te parece?

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  2. Caro Tomás

    Penso que haverá sempre casos de fronteira, em que alguém apresenta o que pretende que seja um argumento, mas é de tal modo mau e sem estrutura adequada, que outras pessoas dirão que não é sequer um argumento. Em termos da discussão, é irrelevante: ou não é um argumento e por isso não sustenta a pretensa conclusão, ou é um argumento mas é tão mau que também não sustenta a conclusão; em qualquer caso, não sustenta a conclusão e por isso não está a dar aos outros qualquer razão para aceitar a conclusão.

    O que eu vejo em quem nada sabe de lógica é que nem sabe o que é um argumento. É muito comum ver-se escrito em maus textos de filosofia coisas do género: o argumento de x é que P — e depois P é só uma afirmação, e não um argumento. A palavra “argumento” é mal usada por quem não sabe lógica, porque quem não sabe lógica nem sabe distinguir meras afirmações de argumentos genuínos. Além disso, quem não sabe lógica passa a vida a falar de “argumentos verdadeiros”, pois nem entende distingue a validade da verdade. Enfim, estas são algumas das razões pelas quais me parece que qualquer discussão filosófica fica coxa quando não se sabe lógica elementar.

    Uma objecção a isto é que pessoas como Hume não sabiam lógica também e no entanto foram bons filósofos. Aceito a objecção, mas a verdade é que Hume teria sido um melhor filósofo se tivesse sabido a lógica que sabemos hoje. E se é algo tolo voltar a fazer medicina como se fazia no tempo do Júlio César, ainda que em alguns casos funcione, também é algo tolo voltar a discutir como se fazia no tempo de Hume.

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