22 de junho de 2010

Palhaçadas



Do alto do seu prédio de vários andares, brincava aos patriarcas e recebia paternalmente toda a gente. Fora desse modo que, em princípio, aceitara a nossa entrevista. Eu queria avistar-me com ele? Pois bem, que fosse! Era para um jornal? Ora, estava-se nas tintas para os jornais, não conhecia o nosso... «Publicam poemas? Não! Que pena...» Mas, já que me divertia recolher as suas palavras, não via inconveniente... 

[...] Acabou mais cedo do que previa! Tocaram à porta. 
«Quem é?», gritou Bachelard, já a remexer-se, a longa barba agitada num sobressalto à ideia de se arriscar a que lhe acontecesse algo de imprevisto! 
Era isso, efectivamente: um amigo que subira por acaso! Bachelard não era capaz de resistir, dei-me conta, à felicidade infantil de passar a outra coisa... Despediu-me imediatamente.
[...] 
«Vá, vá, disse acompanhando-me à porta. Tive muito prazer em conhecê-la! Faça com isso o que quiser! Corte! Modifique! Acrescente! Pode pôr-me a dizer o que lhe aprouver, estou certo de que ficará muito bem e, além do mais, eu poderia tê-lo dito!»
Obedeci? Escreveu-me uma carta entusiástica a felicitar-me pelo meu talento para a «animação». Que este era comparado com o dele!

Retirado de uma entrevista conduzida pela jornalista Madeleine Chapsal para L'Express em 1960

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