16 de junho de 2010

Podem as máquinas pensar?

Mente, Homem e Máquina, de Paul T. Sagal, apresenta, sob a forma de diálogo, uma interessante discussão filosófica que continua viva. Hoje, convivemos diariamente com o poder da computação, mas trata-se de meras máquinas pouco mais impressionantes do que um fogão: fazem coisas quando nós lhes mandamos fazer coisas, e o que fazem é elementar. Os investigadores, contudo, continuam a querer fazer computadores como se imagina nos filmes: máquinas capazes de falar connosco, responder a perguntas vagas e tomar decisões baseadas na análise complexa de bases de dados com biliões de informações. Um passo nessa direcção foi dado agora pela IBM, com a criação de Watson. Leia a reportagem no New York Times. Mas poderá uma mera máquina alguma vez pensar como nós? O que pensa o leitor? Não é a ideia de que nós não somos meras máquinas uma ilusão, dado que somos apenas organismos biológicos, com cérebros muito desenvolvidos? O que tem um cérebro que uma máquina não pode ter?

3 comentários:

  1. Desidério,

    Perguntas:
    "O que tem um cérebro que uma máquina não pode ter?"

    Acredito que teoricamente (e tecnicamente) não há nada que um cérebro tenha que uma máquina não possa ter uma vez que ambos são sistemas físicos.
    Logo, também acredito que teoricamente (e tecnicamente) não há nenhuma função mental (consciência, intencionalidade, etc.) que um cérebro possua que uma máquina não possa vir a possuir num futuro mais ou menos próximo uma vez que é um sistema físico (cérebro) que instancia as funções mentais (intencionalidade, consciência, etc.) que queremos que as máquinas venham a partihar connosco.

    Mas para chegarmos a esse futuro mais ou menos próximo acho que a pergunta que devemos fazer é:

    "O que tem um cérebro que as máquinas hoje em dia não têm e que lhe permite ter funções mentais?"

    Ora esta é uma pergunta empírica que não cabe à filosofia responder mas à ciência. (ciência cognitiva, mais propriamente)

    A primeira pergunta (a tua) é uma pergunta filosófica devido à vaguesa dos conceitos que utiliza (um computador muito complexo pode ser considerado um cérebro?; um corpo humano pode ser considerado uma máquina?) o que nos dá bastante margem para problematização filosófica.

    No entanto, na minha opinião, essa deixará de ser uma pergunta filosoficamente pertinente num futuro mais ou menos próximo quando a ciência finalmente responder à segunda pergunta (a minha) e delimitar definitivamente as fronteiras desses e outros conceitos (corpo, mente, consciência, intenção, vontade, emoções, sentimentos, crenças, desejos, etc.).

    Tomás Magalhães Carneiro

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  2. Tudo indica que um dia poderá haver máquinas que pensem como nós, independentemente de serem ou não parecidas com o nosso cérebro. Penso que uma máquina pode vir a ter tudo o que um cérebro tem.

    É claro que o estudo da consciência não pode deixar de ser um assunto científico, mas não acho que o Tomás tenha razão quando pensa que a ciência seja capaz de delimitar fronteiras conceptuais, e assim libertar-se facilmente da filosofia. E acho isso porque tenho uma profissão científica e sei quanto os filósofos me têm valido para resolver dificuldades de compreensão na área da ciência. É tarefa da filosofia desensarilhar as confusões conceptuais em que a humanidade está sempre a cair, isto é, a natureza da filosofia é a resolução dos problemas relacionados com a transgressão dos limites do que pode ser pensado com coerência. Não é a resolução de problemas empíricos. E a natureza da ciência é o inverso, não é a resolução de problemas conceptuais. Os erros de cada geração são típicos da moldura tecnológica de cada época. Dantes o modelo para fazer analogias com o cérebro era o da comutação de uma central telefónica. Agora o modelo é o computador. E é provável que a seguir venha outro modelo. Por isso, a tarefa dos filósofos não terá fim. Não acredito que tenham de ir para o desemprego, mesmo sem precisarem de invocar o pelouro dos valores.

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  3. Olá F. Dias,

    é bom ver um cientista a defender com tanto afinco a nossa profissão :)

    Mas na verdade não estamos em desacordo pois também acho que os cientistas vão sempre precisar dos filósofos (e vice-versa, nalgumas áreas da filosofia pelo menos). Ou seja, também acho que a "tarefa dos filósofos não terá fim."

    O meu argumento não era acerca do fim da pertinência da filosofia no geral, mas acerca do fim da pertinência filosófica da pergunta do Desidério ("O que tem um cérebro que uma máquina não pode ter?"), que não esgota, obviamente, o campo da filosofia da ciência.

    abraço,

    Tomás Magalhães Carneiro

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