4 de julho de 2010

Contra Kripke

"Intuições Cartesianas e Circularidade" é o título do artigo de Matheus Silva que acabo de publicar. Terá Kripke sido refutado? O que pensa o leitor?

11 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderEliminar
  2. Obrigado! E olha que não consegui publicar em uma outra revista brasileira porque, segundo o parecerista, eu não citei Descartes e só uso bibliografia de uma tradição de filosofia que privilegia a argumentação. O curioso é que a discussão é sobre o argumento do Kripke (não sobre o argumento de Descartes) e não entendo o que é filosofia sem argumentação: deve ser algo parecido com a literatura sem palavras ou música sem som.

    E depois que vou criticar esse tipo de coisa não tenho apoio dos meus colegas! Que ira!

    ResponderEliminar
  3. Também fui convencido Matheus, parabéns pelo texto. É inacreditável, vergonhoso, que teu trabalho tenha sido recusado por tais motivos. Eu não imaginava que coisas assim realmente aconteciam...

    ResponderEliminar
  4. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderEliminar
  5. Obrigado Gregory!

    Aconteceu em uma revista conhecida e tive que esperar mais de um ano para saber a resposta. Para falar a verdade, eu acho que por causa da palavra "cartesianas" no título eles acabaram enviando o artigo para alguém especializado em em repetir a filosofia de Descartes e não para um especialista em filosofia da mente.

    A filosofia no Brasil está desenvolvendo cada vez mais rápido, com pessoas fazendo boa filosofia cada vez mais jovens, mas o sistema acadêmico que temos não acompanha isso e está repleto de pessoas com formação deficiente, que não sabem sequer o que é um argumento.

    Só mais uma coisa: eu vi a sua objeção ao post do Desidério sobre a explicação científica. Na época eu acabei não comentando, mas a sua objeção me convenceu também! Excelente objeção, não consegui pensar numa resposta.

    ResponderEliminar
  6. Matheus,

    parabéns pelo texto. Fabuloso e esclarecedor.

    Contudo, eu realmente discordei da conclusão. Parece-me que toda a argumentação depende de uma confusão entre "calor-sensação" (subjetivo, mental) e "calor-físico" (objetivo).

    Mesmo após você reconhecer a distinção acima, que é levantada por Kripke, eu diria que você em seguida praticamente volta a ignorá-la. É como se, então, tivéssemos três coisas:

    1. calor-sensação
    2. calor-físico
    3. movimento de moléculas

    Você descarta 1 (correto) e passa a argumentar que, apesar de tudo, podemos conceber 2 sem 3 (errado) - e sustenta ser essa a analogia adequada para o caso dor-fibrasC.

    Mas o que é 2, senão exatamente 3? E, se é assim, não podemos conceber movimentos de moléculas "sem movimentos de moléculas".

    Obviamente, Lavoisier & cia. conseguiam conceber apenas, outra vez, 1 sem 2. E não 2 sem 3, porque eles não conheciam ambos.

    Uma alternativa é dizer que existe algo, que não é a sensação de calor, mas o fenômeno objetivo do calor-físico "em versão macro" (a saber, termômetros subindo, consequências não-mentais de uma fogueira por perto, impacto num bloco de gelo, etc.) e, então, distingui-lo conceitualmente do movimento de moléculas.

    Isto nos dá apenas outra versão da analogia água-H2O. Mas a situação não muda: só podemos conceber "água" sem H2O porque, nesta concepção, o que estamos chamando de "água" é, na prática, o aspecto da água.

    Uma vez que aprendemos que "água" não é o aspecto, e sim a coisa que tem o aspecto, nada muda em nossa capacidade de conceber coisas (ao contrário do que você sugere no fim do texto), só na maneira como entendemos os nomes.

    De modo que continuamos podendo conceber "água" (o aspecto) sem H2O; mas não podemos conceber água (i. e., H2O) sem H2O.

    Independentemente de descobertas empíricas, e desde que mantenhamos claro o significado dos nomes, não há qualquer meio possível de conceber calor sem movimento de moléculas (se a palavra se refere exclusivamente ao calor físico tal como é, e não tal como nos parece); e não há qualquer meio possível de não podermos conceber dor sem fibras-C - pois são coisas diferentes, tanto quanto "água" (tal como nos parece) é diferente de água/H2O (tal como é).

    ResponderEliminar
  7. Oi Lauro,
    obrigado pelos elogios!

    Eu vou indicar algumas das pressuposições utilizadas no artigo, pois elas mostram algumas brechas na argumentação que podem atrair objeções como a sua e depois explico porque não concordo com você.

    O uso da concetibilidade como guia de possibilidade metafísica é controverso. Se uma situação é concebível então é metafisicamente possível? Qual a diferença entre conceber e imaginar? Uma brecha na minha argumentação é que eu não especifico a diferença entre conceber e ter a ilusão de conceber. Devemos dizer que era possível conceber que a água não é H2O no passado, porque ainda não tínhamos descoberto essa identidade ou devemos dizer que apenas podíamos conceber de modo ilusório que a água não é H2O, porque é necessário que água seja H2O?

    Se conceber que P implica na possibilidade metafísica de P do mesmo modo que o conhecimento de P implica na verdade de P, então não podemos conceber que P sendo P metafisicamente impossível, do mesmo modo que não podemos saber que P sendo P uma falsidade. É claro que isso só faz sentido se admitirmos que concetibilidade implica em possibilidade metafísica e eu não preciso pressupor isso. Tudo o que fiz foi argumentar que mesmo admitindo para fins de argumentação que a concetibilidade implique em possibilidade metafísica isto ainda não é um problema para o defensor do materialismo tipo-tipo e só será um problema se o materialista estiver errado desde o princípio.

    ResponderEliminar
  8. Mesmo se conceder que há uma ilusão de conceber uma identidade metafisicamente impossível isto ainda não afeta a argumentação. O que afetaria a argumentação é se fôssemos incapazes de conceber de modo ilusório que a dor não é a estimulação das fibras-C – sempre que concebemos isso, concebemos de maneira adequada. Mas isso não ocorre e se parece que ocorre é porque pressupomos desde o início que o materialismo tipo-tipo é incorreto.

    Ao contrário do que você disse, se nossas intuições acerca do que é concebível ou inconcebível são modificadas por nosso conhecimento empírico do mundo isso não deixa de ser o caso porque podemos nos enganar quando julgamos conceber algo, do mesmo que podemos nos enganar quando julgamos saber algo.

    Sobre Lavoisier & Cia: a partir das distinções que fiz acima deve ficar mais claro porque isso não é um problema para a minha argumentação. Posso conceder para fins de argumentação que a concetibilidade implica em possibilidade metafísica e nesse caso Lavoisier não poderia conceber que calor fosse outra coisa além do movimento das moléculas. Mas ele poderia ter a ilusão de conceber que essa identidade não existia e isso basta para o meu argumento: do mesmo alguém pode ter uma ilusão de conceber que a dor não é a estimulação das fibras-C. Toda a sua insistência nos nomes é apenas uma tentativa de expressar a idéia de que a concetibilidade implica na possibilidade metafísica.

    ResponderEliminar
  9. Matheus,

    de nada, rs. Realmente absurdo terem rejeitado um texto como o teu. Aposto que os textos de fato publicados devem ser mais absurdos ainda, rs.

    Bom, sobre a conversa, optarei por focar num ponto, talvez decisivo.

    a) Creio que ser concebível é sim, necessariamente, ser possível. A razão é que, se X é impossível, então X não pode ser; e, se não pode ser, então não pode ser concebido - não existe tal X para poder ser concebido. Logo, se é concebível, não pode ser impossível. Resta que é possível.

    Creio que qualquer suposto contra-exemplo para a afirmação acima é, de fato, fruto de confusão com nomes. E que, portanto, Parmênides ainda não foi revisado, rsrsrs ("pensar o não-ser é não pensar").

    Por exemplo, você afirmar ser possível ter "a ilusão de conceber calor sem movimento de moléculas".

    Se a palavra "calor" significar o que HOJE entendemos por calor, isto é, movimentos de moléculas, então tal concepção é claramente impossível.

    E se a palavra "calor" significar o que significava para Lavoisier (digamos, "o conjunto [ou a causa X] dos padrões observáveis relacionados a fusão, solidificação, ebulição, etc."), então tal concepção continua possível - já que "calor", nessas duas definições, é algo diferente de "movimento de moléculas".

    De fato, poderia ser que tais padrões observáveis fossem produzidos por micro-duendes, ou pelo "calórico" de Lavoisier. Não há qualquer vínculo necessário com "movimentos de moléculas" (mesmo agora que descobrimos o vínculo).

    E se "calor" não nomeia tal conjunto de padrões, mas sim a causa X de tais padrões (que pra Lavoisier era desconhecida, e por isso a variável), então outra vez tal concepção ("calor/causa-X" sem "movimentos de moléculas") é possível, pois trata de coisas não idênticas.

    Só não é possível, claro, na hipótese de "X" assumir o valor de "movimentos de moléculas". Mas claro que isto nunca ocorreu a Lavoisier. Para qualquer outro X, como o "calórico", "calor/causa X" é perfeitamente concebível sem movimentos de moléculas.

    Se discordar, a direção é me dizer qual é exatamente o "calor" que, embora seja idêntico ao "calor/movimento de moléculas" (note que este sequer é perceptível enquanto tal), pode ser ilusoriamente concebido sem ele.

    Por fim, se "conceber ilusoriamente" é apenas isto mesmo que descrevi, isto é, imaginar "causa X, onde X = 'cálorico'" sem "movimento de moléculas" (que a posteriori se revelou o verdadeiro X), então a analogia não serve para "mente"/"fibras-C". A mente não é um X a ser preenchido com descobertas futuras. Já sabemos o que ela é: é subjetiva, ao passo que fibras-C são objetivas. Não podem, pois, ser a mesma coisa. E esta é a razão porque podemos concebê-las separadas.

    ResponderEliminar
  10. Este é o novo link do artigo: http://criticanarede.com/tipotipo.html

    ResponderEliminar