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Filosofar ou falar da filosofia dos outros?

Acaba de sair um novo livro de Júlio Cabrera (filósofo argentino radicado no Brasil, professor na Universidade de Brasília), intitulado Diário de um Filósofo no Brasil (Unijuí, 2010). O Júlio é dos poucos académicos de filosofia que ousa filosofar, e este bem-vindo livro tem como público-alvo os estudantes, começando por lhes perguntar se estão estudando filosofia por quererem passar o resto da vida comentando a filosofia dos outros, ou por quererem ser filósofos e fazer filosofia, ou seja, fazer o que fazem os tais autores que são comentados nas universidades.

Sou solidário com a atitude do Júlio. Na verdade, quase nada mais tenho feito desde há mais de dez anos do que disponibilizar em língua portuguesa, aos estudantes e não só, os instrumentos e as bibliografias que ensinam a filosofar, ao invés de ensinar apenas a comentar textos. Note-se, contudo, que esta não é uma posição contra a história da filosofia (na verdade, um dos trabalhos importantes que fiz foi a edição portuguesa da História Concisa da Filosofia Ocidental, de Anthony Kenny, na Temas & Debates, deixando depois a porta aberta para a publicação da sua Nova História da Filosofia Ocidental, em quatro volumes, na Gradiva). A diferença é entre fazer história filosófica da filosofia e história afilosófica da filosofia -- que consiste em leituras literárias, históricas, psicológicas, políticas, etc., dos textos filosóficos. Nada há de errado neste segundo tipo de leituras dos textos filosóficos, e as pessoas devem ter a liberdade de fazer filosofia como muito bem entenderem; mas é mentir aos estudantes dar-lhes sub-repticiamente a ideia falsa de que esta é a única maneira de fazer filosofia académica.

Comentários

  1. Em muitos casos as pessoas acostumadas a repetir as idéias dos filósofos nem têm a pretensão de que a história afilosófica da filosofia que se faz no Brasil seja filosofia, porque eles pensam que a filosofia é coisa de gênios, alemães e franceses famosos ou gregos mortos - o que é ainda pior.

    Este tipo de concepção errada das coisas geralmente vem junto com um pacotão de idéias erradas partilhadas até mesmo por filósofos dito analíticos no Brasil. Assim é errado dizer que um professor de filosofia que não sabe colocar um argumento na forma canônica é um incompetente, porque ele estudou por muitos anos ou é errado incentivar os alunos a discutirem problemas de filosofia na sala de aula, porque isso seria filosofia de buteco. Já ouvi até alguns analíticos dizerem que os filósofos que fazem divulgação de filosofia são picaretas e superficiais, porque escrevem de modo muito fácil de entender.

    O que acontece é que há um conjunto de idéias atrasadas que se reforçam mutuamente, mas não fazem o menor sentido: é melhor fazer paráfrase repleta de notas de rodapé do que filosofia com argumentos diretos, é melhor aulas de leituras de textos intermináveis do que aulas expositivas voltadas para os problemas da filosofia, etc, etc. E mesmo muitos dos filósofos dito analíticos querem recusar algumas dessas idéias e manterem as outras, mesmo que isso não faça sentido.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. é... um perigo alertado por Matheus é essa nova cultura que está surgindo, a saber, a dos continentalíticos, que são estudiosos de filósofos analíticos, que estão fazendo filosofia continentalmente...

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  4. Mas que grata surpresa esse blog. Estava eu navegando desinteressadamente pela internet quando me deparo com esse achado.
    Gostei muito e voltarei para ler com mais atenção.
    Se tiver curiosidade, visite www.projetophronesis.wordpress.com que é um blog criado por amigos do curso de filosofia da PUC-SP (Brasil).
    Bom, até a próxima e até mais.

    Diego Azizi

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  5. Os novos links:
    - http://www.livrariacultura.com.br/p/diario-de-um-filosofo-no-brasil-22162251
    - http://criticanarede.com/td_01.html
    - http://criticanarede.com/historiafilosofica.html

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