31 de agosto de 2010

Como falsificar uma obra musical?

Goodman explica aqui por que razão é impossível falsificar uma obra de arte musical, apesar de ser possível falsificar uma pintura. Mas Kivy discorda aqui. E a procissão ainda nem vai no adro, como veremos.

11 comentários:

  1. Kivi refere o estilo e a prosa lúcida e elegante de Goodman, que é incontestável. Mas vale a pena notar também a "limpeza" da prosa de Kivy: com eloquência e rigor, mas sem ramalhetes nem pirotecnia verbal.

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  2. Uma interpretação musical não é, pelo menos aparentemente, falsificável. Como se faria tal coisa? Gould interpreta Bach de certa maneira. Eu vou a seguir e interpreto da mesma maneira. Se a interpretação dele é inimitável, é infalsificável. Se é imitável, e é, isso não constitui todavia falsificação: ninguém vai dizer que sou um falsário. Serei apenas um pianista sem originalidade. Mas se eu pintar um quadro exactamente igual à Mona Lisa, isso é falsificação e eu serei um falsário.

    Lembro que não são permitidos comentários anónimos.

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  3. Nesse caso, Desidério Murcho, o critério para aferir o que é falsificação ou não é residirá apenas na opinião de outros sobre a imitação. Um significado claro de «falso» neste contexto é, porém, «imitação», aquilo que reproduz o original, não sendo todavia o original. Qualquer dicionário de Português o esclarece.

    Por outro lado, se fulano tal conseguir tocar as variações Goldberg como Gould tocou, gravá-las e em seguida uma editora as publicar como gravações «nunca antes publicadas» de Gould, não estamos a lidar com falsificação?

    Há pouco enviei por lapso uma mensagem anónima. Espero que fique corrigido o problema.

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  4. Um exemplo desse género é precisamente o que Kivy propõe. Só que há uma enorme diferença: as diferentes execuções de uma obra musical estão claramente a imitar a obra original, seja lá isso o que for, ainda que não se imitem entre si, mas apesar disso não são falsificações da obra original. A quinta sinfonia de Beethoven é imitada sempre que alguém faz dela uma execução. Mas isso não é considerado uma falsificação.

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  5. Sim. Mas, humildemente, diria que, na arte, aquilo que separa a utilização do termo «imitação» do termo «falsificação» depende de um julgamento moral. Assim, é a utilização fraudulenta da imitação que recebe o epíteto de «falsificação». O problema reside, assim, na autoria. De outra forma, o argumento que se aplica às interpretações musicais aplica-se, mutatis mutandis, às serigrafias que reproduzem obras conhecidas. Um músico que toque um Gould ou um Casals perfeito e assuma o próprio nome é, de acordo, um pianista ou um violoncelista copista; um pintor que reproduza Van Gogh ou Kandinsky e denote o acto de imitar, um pintor copista. Mas qualquer dos dois, ao tentar fazer passar-se pelo original, será um falsificador.

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  6. Não sei se a linguagem da imitação é esclarecedora aqui. Vejamos, sempre que um som produzido por um instrumento qualquer corresponde grosso modo a 440 vibrações por segundo ouvimos um Lá "central" (relativamente às teclas do piano). Mas será que queremos dizer que sempre que se produz com um instrumento qualquer esse padrão de vibrações a nota Lá está a ser "imitada"? Curiosamente, não parece tão estranho dizer que cada espécime da bandeira grega é uma imitação da bandeira-tipo.

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  7. A imitação não é suficiente para determinar que algo é uma falsificação. Muita arte que não é falsificação tem elementos imitativos. É preciso que o objecto em causa seja intencionalmente produzido como réplica de uma obra existente, com o fim de o fazer passar pelo original. Creio que este elemento de engano, de tentar produzir crenças falsas nos restantes apreciadores da pintura, é crucial. Em si, nada parece haver de "errado" com uma falsificação que nos comove tanto quanto o original. O "problema" parece estar em induzir crenças falsas nas pessoas acerca do objecto que estão a apreciar.

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  8. João, um pintor, escreve uma série de indicações precisas sobre como um quadro deve ser pintado. João consegue imaginar mentalmente esse quadro. No entanto, por qualquer razão, não o pinta.

    Depois mostra essa indicações a Luís, outro pintor, e ele "interpreta-as", pintando um quadro.

    Criou João uma obra de arte? Parece-me que não. Criou Luís uma obra de arte? Parece-me que sim.

    António, um músico, escreve uma partitura. Consegue imaginar como essa partitura soará quando executada. Mas entrega a partitura a Álvaro e ele "interpreta-a".

    Qual dos dois criou uma obra de arte?

    Para mim, que não percebo nada de filosofia, qualquer "interpretação" musical é uma obra de arte. "Interpretação" parece-me um termo inadequado. O que o executante faz é criar.

    Até estremeço ao escrever isto, mas o compositor, tal como o pintor João, não cria obras de arte. É um criador, sem dúvida, mas não um criador de obras de arte.

    É por pensar assim que me parece que discutir se uma composição musical, enquanto obra de arte, pode ser falsificada não faz sentido.

    É como discutir se uma série de indicações precisas sobre como um quadro deve ser pintado, encarando essa indicações como obra de arte, podem ser falsificadas.

    Que fique claro que não tenho certezas nenhumas sobre o que acabo de escrever.

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  9. A reprodução de uma simples vibração ou som não poderia constituir imitação, muito menos falsificação, por si própria. A reprodução de uma sequência ordenada de sons sim, poderia. Comparar uma ordenação particular de cores e formas, como uma bandeira, com uma vibração sonora particular é o mesmo que comparar «azul» com uma sinfonia: muito sugestivo, mas pobre.

    Curiosamente (ou não), escrevi o exacto equivalente do que o Vítor Guerreiro escreve, ao afirmar que a falsificação é uma imitação que envolve a tentativa de indução em erro. Não foi publicado. Vim ver, olhei e verifico que é de não voltar. Cumprimentos.

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  10. Bem, é nítido que me precipitei no comentário anterior, pelo que peço desculpa e, reconheço, fui injusto.

    Entretanto, as questões que Pedro S. Martins coloca, se bem que não tenha reflectido maduramente sobre elas, parecem-me muito interessantes.

    Um primeiro problema que se me coloca é o de saber se podemos considerar obra de arte apenas a respectiva execução material (digamos assim). Intuitivamente, diria que não. E lembro imediatamente um exemplo: se o critério fosse a execução, ou materialização, Beethoven, que ainda por cima ficou surdo, não seria considerado um artista.

    Não obstante, penso, desde que li o artigo de Goldman, que existe nele uma clara assimetria entre composição e interpretação. Como Pedro S. Martins sugere, por outro lado, a interpretação pode não ser mera execução. O exemplo de Gould pode aqui ser repescado e sabemos o quanto diferem as duas grandes gravações que o pianista fez das Variações Goldberg, de J.S. Bach; a da «juventude» e a da «maturidade». O grau de reflexão estética assumido por Gould, que conduz largamente sobretudo a segunda gravação, é impressionante e diz-nos muito sobre isto. Gould, aliás, deixou de tocar ao vivo por entender que apenas em estúdio poderia burilar o som das suas interpretações ao ponto de criar uma experiência estética particular. Isto é arte pura.

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