13 de agosto de 2010

Definições

Acabei de publicar o artigo "Definição", extraído da Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos. É uma boa ideia complementar o estudo com o artigo "Definições: Disjunção Significa Disfunção?", de Justine Kingsbury e Jonathan McKeown-Green.

11 comentários:

  1. Eu tenho um problema que gostava de colocar à consideração do Desidério, que passo a expor com o seguinte exemplo:
    O meu filho perguntou o que era o vermelho. E eu piquei o dedo com uma agulha, derramei uma gota de sangue numa folha de papel branco e disse apontado com o dedo: “O vermelho é uma cor como esta, é a cor do sangue”.
    A minha mulher, que é licenciada em Química, disse que não senhor. “Vermelho é uma onda de energia electromagnética no espectro da luz visível entre 625 e 740 nanómetros”.
    Então eu disse: “Ah, está bem, eu dei uma definição realista implícita ostensiva.” A minha mulher replica dizendo: “Não senhor, a minha definição é que é realista, explícita e essencialista.” Eu volto à carga argumentando: “A minha definição é tão realista como a tua, e digo mais, até é extensional.” A minha mulher não desarma: “Não, a minha é que é extensional e mais real do que a tua. A tua definição é apenas formal (no sentido fenomenológico)”.
    A pergunta é: quem está mais certo – ele ou ela?
    Obrigado

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  2. Confundir o que provoca a percepção de vermelho (uma certa frequência de luz) com o vermelho é como confundir o que provoca uma dor num pé com a dor no pé: a primeira é o sapato apertado, a segunda não é o sapato apertado. Do mesmo modo que se não houver animais não há dores nos pés, mesmo que existam sapatos, também não existem cores se não houver animais que as vejam, ainda que a luz continue a existir.

    As definições reais não se chamam definições realistas.

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  3. F. Dias, o que faz o vosso filho enquanto os pais têm essas discussões filosóficas? ;)

    E já que estamos numa de perguntas ao Desidério (e aos leitores do blogue, obviamente), tenho duas:

    1 - As definições podem ser verdadeiras ou falsas?

    2 - Como se avalia uma definição?

    abraços,

    Tomás

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  4. As definições estipulativas, por exemplo, não são verdadeiras nem falsas, mas apesar disso podem ser enganadoras.

    Já as definições reais explícitas são verdadeiras ou falsas, consoante a realidade em causa tiver ou não as propriedades invocadas.

    Quanto a avaliar definições, depende também de que tipo de definição se trata.

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  5. Concordo que as definições estipulativas não podem ser verdadeiras nem falsas, uma vez que o que se estipula é o significado de algo. Este tipo de definições aproxima-se de uma recomendação e recomendações não são V´s ou F´s.

    Porém em filosofia não me parece que procuremos definições desse tipo, mas antes as ditas "definições reais". Assim deixo aqui uma definição de um conceito que eu e um grupo de alunos "encontrámos" há uns tempos para o conceito de Liberdade.
    Interessa-me ver que críticas podem ser feitas a esta definição para perceber de que diferentes formas podemos criticar uma definição:

    "Liberdade é a experiência da relevância das nossas escolhas ou da ausência de constrangimentos."

    O relato da discussão em causa está aqui: http://umcafefilosofico.blogspot.com/2009/10/filosofia-na-reitoria-iii.html

    abraços,

    Tomás

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  6. Essa definição da liberdade, entendida não como liberdade política, mas como livre-arbítrio, é inadequada. A ser verdadeira, não haveria qualquer diferença entre ter realmente livre-arbítrio e apenas ter a impressão que se tem livre-arbítrio.

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  7. Desidério,

    a tua crítica é interessante mas não me parece correcta por dois motivos diferentes.

    Em primeiro lugar a tua crítica falha pois depende de uma errada relação de sinonímia entre os conceitos de “experiência” e “impressão”, talvez devido a alguma ambiguidade do termo “experiência”.
    Para deixar bem claro que estamos a falar de dois conceitos diferentes poderíamos falar em “experiência real” quando queremos falar de “experiência” e “experiência virtual” quando queremos falar de “impressão”.
    Exemplificando, ver um elefante a voar seria uma “experiência real” quando de facto vemos um elefante a voar. E ver um elefante a voar seria uma “experiência virtual” quando, por exemplo, tomamos LSD. O que diferencia uma da outra é o objecto “elefante” que está presente na “experiência real” e não está presente na “experiência virtual”

    Assim uma reformulação da definição para enfrentar a tua crítica seria a seguinte:

    "Liberdade é a experiência real da relevância das nossas escolhas ou da ausência de constrangimentos."

    Esta parece-me uma definição de “liberdade” bastante aceitável uma vez que apresenta o género a que o conceito pertence (“experiência real”), assim como a espécie, ou aquilo que diferencia a “experiência real” de liberdade de outras “experiências reais” (e o que diferencia é a “relevância das nossas escolhas ou da ausência de constrangimentos”).
    Como julgo ter refutado o teu contra-exemplo também me parece que a definição não é demasiado abrangente e, até agora, ainda não me foram apresentados exemplos que devam pertencer ao conceito de liberdade e não se encontrem abrangidos por esta definição. Também não é uma definição circular pois não se limita a ser auto-referente mas antes apresenta novos conceitos (“escolhas relevantes” e “ausência de constrangimentos”) e diz-nos como o conceito de “liberdade” se relaciona com eles e com a realidade. E, por fim, utiliza uma linguagem bastante clara.
    Mesmo uma possível crítica do género, “mas não podemos ter a certeza se a nossa experiência é uma experiência real ou virtual”, não será uma crítica pertinente pois a pergunta a que esta definição tenta responder é “O que é a liberdade?” e não “Podemos ter a certeza se somos livres?”
    (...)

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  8. (...)

    Em segundo lugar mesmo supondo, para bem do teu argumento, que “ter uma experiência” e “ter a impressão” são a mesma coisa eu poderia ainda assim não aceitar a tua crítica e dizer que “ter a impressão de liberdade é suficiente para se ter liberdade.”
    Por exemplo, para alguém que considere a liberdade (no sentido de livre-arbítrio) uma ilusão essa ilusão de liberdade é a única liberdade que podemos almejar. Nesse caso eu estaria a “engolir a bala” aceitando a conclusão aparentemente inaceitável a que o teu argumento conduz. Parece que, se o fizer, ficamos em campos opostos e inconciliáveis. Importa então perceber o porquê dessa “oposição inconciliável” e julgo que conseguiremos isso descobrindo os pressupostos (ou as teoria filosóficas fundamentais) de que cada um de nós parte.

    Talvez, na verdade, a tua crítica seja mais eficaz se não for encarada não como uma crítica directa (explícita) por meio de um contra-exemplo mas, na verdade, uma crítica implícita a um pressuposto da definição que apresentei. O pressuposto de que a definição parte será o de que a “liberdade” é um estado do sujeito, ou seja, de que “Sou livre se me sentir livre” (devido a uma experiência de determinado tipo).
    Se não me engano esta ideia de que a “liberdade” como uma espécie de “estado de espírito do sujeito” aproxima-se bastante da concepção epicurista de “liberdade”, pelo que não será uma “teoria filosófica fundamental” tão descabida quanto isso (e não me parece que esteja aqui a recorrer a um argumento da autoridade).

    Talvez defendas então (arrisco) que a “liberdade” seja antes um estado objectivo uma condição que o mundo, o sujeito e a ligação entre estes dois têm de preencher para haver de facto liberdade?

    Terei encontrado o pomo da discórdia no pressuposto de que esta definição parte e com o qual tu não concordas?

    Que me dizes a apresentares tu a tua definição de “liberdade” para vermos se tenho razão ou não?

    PS – Deixa-me sublinhar que não quero forçar esta discussão sobre definições para o tema da “Liberdade” porque me interesse este tema em particular. Apenas quero estudar e perceber o funcionamento das definições em geral, assim como as diversas formas como estas podem ser criticadas. E, a meu ver, existem apenas duas formas de criticar uma definição em termos do seu conteúdo. Ou encontrando um contra-exemplo, ou criticando os pressupostos em que esta assenta.

    Abraço,

    Tomás

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  9. Usando o termo "experiência" nesse sentido, tenho mesmo assim uma crítica. Não no sentido de a definição não ser extensionalmente adequada, mas porque não tem adequação criterial. Ou seja, se temos livre-arbítrio, não o temos em função de termos essa experiência, mas em virtude do objecto dessa experiência invocada. Podes corrigir a definição dizendo que o livre-arbítrio é poder fazer escolhas relevantes na ausência de constrangimentos.

    Mas não escapas ao contra-exemplo do Locke. Ou era do Hume? Já não me lembro. Mas a ideia é que podes estar preso num quarto e, porque nunca te ocorreu tentar sair, não te apercebes que estás preso.

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  10. Desidério,

    julgo que o exemplo de que falas é relatado pelo Locke no "Ensaio sobre o Entendimento Humano".

    O episódio que tenho em mente é o de um homem levado enquanto dorme para um quarto onde está uma pessoa com quem deseja conversar. Esse homem é então fechado à chave no quarto. Uma vez desperto o homem quereria permanecer no quarto (pois estava desejoso por falar com a outra pessoa) apesar de, sem o saber, a porta estar fechada e não poder sair. A questão que colocada pelo Locke é se esse homem é livre ou não.

    Parece-me que este exemplo não é na sua origem um contra-exemplo à minha definição (ou a uma definição de liberdade similar). O que o Locke quis provar com este exemplo foi que uma acção pode ser ao mesmo tempo voluntária (“querer ficar no quarto”) e não-livre ou determinada (“não poder sair do quarto”).
    Ou seja, o exemplo original não é um contra-exemplo pertinente para a minha definição.

    Mas mesmo que o quisesses usar para servir de contra-exemplo à definição que avancei ("Liberdade é a experiência real da relevância das nossas escolhas ou da ausência de constrangimentos.") não me parece que funcione pois, como o próprio Locke mostra, estar preso num quarto (mesmo que sem querermos sair) não é uma "experiência real" de liberdade. Quando muito seria uma "experiência virtual” de acordo com os termos que fixamos num post anterior).

    De qualquer forma com a definição que aqui deixei não se pretende responder à questão 1) "Quando é que há liberdade?", ou saber se 2) "Somos livres?" mas simplesmente responder à pergunta 3) "O que é a liberdade?"
    O episódio do homem no quarto pode ajudar-nos a aprofundar e a responder às perguntas 1) e 2), mas não me parece de todo pertinente para aprofundar ou responder à 3).

    Além disso alguém poderia perfeitamente aceitar esta definição de “liberdade”e, no entanto, considerar que em momento algum os seres humanos têm “experiências reais da relevância das suas escolhas ou da ausência de constrangimentos”, ou seja, que em momento algum são livres.

    Abraço,

    Tomás

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  11. Se fazes a diferença entre a experiência virtual e a real é porque nenhum papel desempenha na definição a ideia de experiência. O que conta é se realmente podemos escolher, e não se temos experiência de podermos escolher.

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