2 de agosto de 2010

A filosofia é um disparate?

É improvável que o leitor pense que a filosofia é um disparate -- pois nesse caso não estaria aqui. Mas o que responder a quem o pensa? E como descobrir se as pessoas o pensam sem se aperceberem disso? Enviando-me a módica quantia de apenas 500 dólares, terá a resposta para todas estas perguntas, e muitas mais, além da solução do velho problema de saber se devemos mudar o óleo do carro quanto o carro está frio ou quando o carro está quente. Mas se não tiver agora aí o dinheiro à mão, leia à mesma o meu artigo "A Possibilidade da Filosofia", e pague depois.

21 comentários:

  1. Não seria melhor dizer: "A filosofia ocupa-se de problemas fundacionais insusceptíveis de resolução empírica"? Dizer que a filosofia lida com questões insusceptíveis de resolução científica implica que a filosofia não é uma ciência.

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  2. Boa noite,

    Gostaria de tentar esclarecer uma dúvida. No texto citado são apresentados problemas filosóficos advindos das ciências, das artes, da religião, etc. Mas a grande questão parece girar apenas em torno da cientificidade dessas questões (ou suas respostas). Um exemplo ocorre na passagem:

    "É verdade que, entre os problemas abordados ao longo da história pelos filósofos, muitos puderam transitar para a ciência empírica mal se descobriram métodos que podiam abordá-los proficuamente."

    Com isso, parece ser sugerido que mesmo que a filosofia não produza resultados imediatos, ela pode ter uma utilidade futura (é mais fácil surgir uma boa resposta de várias tentativas do que de nenhuma, por mais extravagantes que sejam).

    Mas, eu pergunto, como ficam os problemas que emergem da arte e da religião? A "feliz solução" deles deveria ser também científica? Penso numa possível resposta: as questões filosófica são teóricas, cognitivas (não artísticas nem religiosas) e, portanto, a filosofia não é completamente distinta da ciência. Seria esta uma boa saída? Seria ela compatível com o texto "A possibilidade da filosofia?"?

    Grato pela atenção,
    Marcelo Fischborn

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  3. Texto claro e esclarecedor. Vou simplesmente recomendá-lo para minhas velhas tias e primos. Divagando um pouco mais, o que noto muitas vezes em pessoas sem interesses cognitivos relevantes é que elas sequer conseguem formular o argumento cientificista. Para elas, conta o que podem ver como resultado prático. Assim, um engenheiro é útil porque constrói pontes; um advogado porque arruma um hábeas corpus e um médico porque desobstrui uma coronária. Desse ponto de vista, mesmo um matemático brigando com a demonstração de uma abstração qualquer seria tempo jogado fora. Tem gente que para conseguir chegar ao ponto de vista cientificista tem, ainda, de comer muito arroz com feijão – como se diz entre mineiros.

    Matheus, parece que você vê a filosofia como uma ciência. Você pode dar algum argumento em favor disso? Já ouvi essa afirmação antes, mas não me recordo de ter dado as caras com um argumento.

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  4. Obrigado a todos pelos comentários!

    1. Os problemas da lógica também não são problemas filosóficos, e no entanto não são empíricos.

    2. Alguns problemas que emergem da religião, por exemplo, são científicos: saber se há mais budistas ou cristãos é uma questão estatística que se resolve cientificamente. Mas outros problemas que emergem da religião não são susceptíveis de resolução científica: saber se existem deuses ou se é legítimo crer sem provas são problemas que não têm resolução científica (o que não significa que não venham a ter). Note-se que não defendo de modo algum que um problema, para ser cognitivamente legítimo, tem de poder vir a ser resolvido cientificamente, ainda que num futuro distante; na verdade penso quase o oposto disso. Por um lado, penso que a maior parte dos problemas centrais da filosofia nunca serão resolvidos cientificamente. Por outro, penso que isso não lhes retira a pertinência cognitiva.

    3. Parece-me menos grave que pessoas sem formação académica não vejam o interesse seja do que for que não sirva para ganhar dinheiro ou fazer pontes, do que pessoas que têm formação académica. Este segundo caso é a demonstração de que se pode ter uma formação académica e não alargar a sua compreensão fundamental da realidade: fica-se apenas treinado como macaco numa coisa qualquer que se estudou, mas sem sofisticação intelectual.

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  5. Aluízio

    há várias distinções de grau na sofisticação das pessoas que expressam seus preconceitos cientificistas. Do fato delas não possuírem consciência da idéia que justifica seu preconceito, não significa que não seja esse o preconceito em causa. A maioria provavelmente deve dizer isso mesmo que você disse, mas há também pessoas que dão uma importância maior para a matemática, porque há algum tipo de objetividade ao fazer contas, por exemplo. Os meus parentes sempre prestam mais atenção quando falo da minha pesquisa se menciono as coisas complicadas da lógica.

    Sobre a filosofia ser uma ciência: um argumento é de que qualquer princípio demarcador minimamente plausível que distinga ciência de pseudociência incluiria a filosofia. Consegue oferecer um argumento para pensar o contrário? Obs: não vale oferecer nenhuma concepção caricata de ciência típica dos cientificistas.

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  6. Desi, o 'link' ao trabalho de Hutchinson e Johnson está com algum problema.

    E parabéns pelo ótimo texto. Traz uma contextualização bastante oportuna dos argumentos contrários à natureza filosófica da filosofia, modernos e antigos.

    Abraço!

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  7. Desidério,

    quando dizes que "a filosofia ocupa-se de problemas fundacionais insusceptíveis de resolução científica" parece-me que deixas de fora alguns problemas que ainda não têm de momento uma resposta científica mas cuja resposta é teoricamente possível num futuro mais ou menos próximo (necessitando para essa resolução de um maior desenvolvimento tecnico-científico - alguns anos - ou de um maior desenvolvimento cognitivo dos seres humanos - alguns milhares de anos).
    Estou a pensar em problemas como o problema "mente-corpo" e questões de Filosofia da Mente e Ciência Cognitiva como a coinsciência, o emergentismo e a superveniência. São temas ainda considerados filosóficos por muitos autores mas que podem mais cedo ou mais tarde passar para o campo da ciência uma vez resolvidos (ou pelo menos encontrado o caminho para a sua resolução.

    Âssim sugiro que a frase com que abres o artigo deveria ser ligeiramente alterada parea: "A filosofia ocupa-se de problemas fundacionais AINDA insusceptíveis de resolução científica."

    Que te parece?

    abraço,

    Tomás

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  8. Olá, Tomás! Obrigado pela sugestão, mas não concordo. O que me sugeres é que todos os problemas da filosofia irão transitar para a ciência, e isso parece-me pelo menos duvidoso. É evidente que isso ocorreu com alguns, mas daí não se infere que ocorrerá com todos. A minha expressão é propositadamente neutra quanto a isso. Tudo o que digo é que nos ocupamos de problemas insusceptíveis de resolução científica; se alguns desses problemas transitarem para a ciência, deixarão de ser problemas filosóficos; e saber se todos transitarão ou não é algo que deixo em aberto. Ou estou a ver mal?

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  9. Desidério,

    parece-me que embatemos aqui num problema interessante e sobre o qual nunca tinha pensado. Para resolver e4ste problemas vou sugerir que se faça uma distinção conceptual entre “PROBLEMAS DA FILOSOFIA” e “PROBLEMAS FILOSÓFICOS”.

    Para começar acho que não tens razão quando dizes que sugiro que todos os problemas filosóficos transitarão para a ciência. Quando digo "ainda não transitaram" estou apenas a ressalvar que caso venham a transitar para a ciência (e não é necessário que o façam) houve uma altura na história do pensamento em que foram problemas filosóficos mas que simplesmente deixaram de o ser.
    Ora, isso não pode ocorrer com a tua definição de problema filosófico ("problema fundacional insusceptível de resolução científica"). Segundo esta definição todos aqueles problemas que numa dada altura foram da filosofia e transitaram para a ciência na verdade nunca foram “problemas filosóficos”, mas antes “problemas erradamente tratados por filósofos”.

    E a ser correcto isto temos como consequência que problemas actualmente considerados filosóficos, como os que falei (consciência, mente-corpo, etc.), podem não ser de todo problemas filosóficos pois possivelmente serão de futuro susceptíveis de tratamento científico e andam a ser erradamente tratados por filósofos. São, por isso, PROBLEMAS DA FILOSOFIA (ou da História da Filosofia) sem serem PROBLEMAS FILOSÓFICOS

    Daí que inserir o "AINDA" parece-me essencial para podermos incluir estes problemas na lista de “problemas filosóficos” (ou seja, mesmo que num futuro qualquer deixem de o ser “problemas filosóficos” eles neste momento são “problemas filosóficos”). Sem o AINDA tens de defender que DE FORMA ALGUMA esses problemas poderão alguma vez passar para o campo da ciência, e que só esses problemas que DE FORMA ALGUMA poderão passar para o campo da ciência é que são problemas filosóficos.

    Não há mal nenhum em defender isso (e até me inclino para essa posição), mas então precisamos de saber o que é que caracteriza esses “problemas absolutamente insusceptíveis de tratamento científico" por oposição aos “problemas de momento insusceptíveis de tratamento científico”.

    Voltei a ler o teu texto e não me parece que apresentes bons argumentos que provem que existem este tipo de “problemas absolutamente insusceptíveis de tratamento científico”, o único que me convence é a tua crítica aos que defendem que “devemos investigar apenas o que se pode investigar recorrendo exclusivamente aos métodos das ciências empíricas ou formais”, mas esse argumento parece-me insuficiente para o que estamos a tentar provar: que os problemas filosoficos são “absolutamente insusceptíveis de tratamento científico.”

    Provavelmente uma forma de contornar este problema seria começarmos a falar de “PROBLEMAS DA FILOSOFIA” para falar de “PROBLEMAS DE MOMENTO INSUSCEPTÍVEIS DE TRATAMENTO CIENTÍFICO” e de “PROBLEMAS FILOSÓFICOS” para falar de “PROBLEMAS ABSOLUTAMENTE INSUSCEPTÍVEIS DE TRATAMENTO CIENTÍFICO". Talvez esta distinção conceptual permita “encaixar” na categoria dos “PROBLEMAS DA FILOSOFIA” aqueles problemas que são actualmente tratados por filósofos mas que não podemos (não somos capazes de) garantir que pertencerão para sempre à esfera da filosofia.

    Um abraço,

    Tomás

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  10. Obrigado pela achega. Não me parece que seja relevante, ou sequer plausível, pensar que há algo de estável no que faz um problema ser ou não filosófico. Um problema que hoje não pode ser tratado cientificamente poderá sê-lo no futuro. Não gostaria de negar essa possibilidade. Por outro lado, também não quero sugerir que todos os problemas filosóficos podem ser tratados cientificamente. Quero apenas manter a neutralidade.
    O que importa é os problemas que estudamos hoje em filosofia não são susceptíveis de tratamento científico. Se o serão ou não, só o futuro o dirá.
    Também não me preocupa muito as divisões académicas. Só é importante ter uma ideia do que são os problemas filosóficos para não cometer o erro de dar um tratamento filosófico a problemas que serão muitíssimo melhor tratados cientificamente. A filosofia não deve ser, apesar de infelizmente por vezes o ser, uma desculpa para não estudar as coisas adequadamente. Por exemplo, ficar sentado na cadeira a reflectir sobre o que as pessoas pensam sobre a morte parece-me pura e simplesmente tolo, porque se o queres realmente saber tens de usar os meios empíricos da sociologia.

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  11. Sim, talvez a classificação dos problemas não seja assim tão importante quanto isso. E o que é hoje um problema filosófico pode deixar de o ser amanhã. Também não vejo qualquer problema nisso.

    Quanto ao que dizes no fim, "ficar sentado na cadeira a reflectir sobre o que as pessoas pensam sobre a morte parece-me pura e simplesmente tolo, porque se o queres realmente saber tens de usar os meios empíricos da sociologia."

    Parece-me que aqui tocas num ponto essencial para uma eventual definição de filosofia. Esta definição teria de ter em consideração o carácter pessoal das respostas aos problemas filosóficos, no sentido em que queremos saber o que uma determinada pessoa (o filósofo) pensa acerca da morte e não o que as pessoas (ou um determinado número de pessoas) pensam acerca da morte.

    Aqui vai então uma definição filosofia que deixo à consideração dos leitores do blogue:

    "A filosofia é uma área do conhecimento que se ocupa de forma subjectiva de problemas fundacionais insusceptíveis de resolução científica."

    Seguro que esta definição lançará alguma polémica fico à espera das reacções dos leitores.

    abraços,

    Tomás

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  12. Tomás, parece-me que fazes duas confusões.

    Primeiro, saber o que um filósofo pensa sobre a morte é apenas conhecimento histórico. Fazer investigação em filosofia não é fazer investigação em doxografia.

    Segundo, a tua definição exclui desde logo do campo da filosofia tudo o que não for conhecimento, dado que usas o termo "área do conhecimento": uma expressão popular e comum, mas inadequada, porque inclui nas respectivas áreas apenas o que for conhecimento, excluindo portanto hipóteses falsas, e também hipóteses verdadeiras mas a favor das quais não temos boas justificações e por isso não constituem conhecimento. Definindo as coisas desta maneira, por exemplo, caso amanhã se descubra que afinal não há átomos, toda a parte da física que os pressupõe não poderia ser considerada física. Ora, isto é ainda mais gritante no caso da filosofia, dado que para praticamente toda a tese filosófica substancial há várias outras teses incompatíveis com ela, pelo que não podem ser todas verdadeiras, e portanto não podem ser conhecidas e portanto não poderiam fazer parte da filosofia.

    Além disso, o conceito de subjectividade está longe de ser clarificador, na tua definição. Se quer dizer que cada qual diz o que lhe apetece e pronto, então a definição é historicamente incorrecta. Se quer dizer apenas que não há consenso entre várias teorias rivais, mais vale dizer isso directamente.

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  13. Desidério,

    ao falar do "carácter pessoal das respostas aos problemas filosóficos" quis sobretudo contrastá-lo ao carácter objectivo das respostas aos problemas científicos.

    É claro que, como dizes, "fazer investigação em filosofia não é fazer investigação em doxografia", mas quando digo que em filosofia "queremos saber o que um filósofo pensa" quero mostrar que, por contraposição ao que se passa na ciência, em filosofia não nos interessa o que um ser humano em particular nos tem a dizer sobre uma determinada matéria. Ou seja, não me interessa o que o Stephen Hawkings nos diz acerca dos buracos negros, mas antes o que a comunidade científica actualmente nos diz acerca dos buracos negros (ainda que o porta-voz ou principal impulsionador desse conhecimento científico seja, por hipótese, o S.H.)

    É nesse sentido que uso o termo subjectivo, ou seja, no sentido de uma aportação pessoal a uma determinada área do conhecimento (ou do pensamento).
    Sem essa lado pessoal, por outras palavras experiencial, vivencial, subjectivo, numa palavra, prático, a filosofia não passaria, aí sim, de uma doxografia.
    A meu ver filosofia só existe no momento em que é feita e morre imediatamente a seguir. Ou seja, só há filosofia no preciso momento em que um ser humano a pratica pensando filosoficamente, tudo o resto é história da filosofia, hermenêutica, ensino...
    Por analogia também o desporto só existe no momento em que é praticado e morre imediatamente a seguir. Tudo o resto são comentários, memórias, lesões...

    Agora, provavelmente a ciência também só existe no momento em que é feita, tudo o resto é história da ciência, divulgação científica, ensino... Mas, parece-me, que esse lado pessoal e vivencial da prática cientifica não é uma característica essencial da ciência, mas é uma característica essencial da filosofia (e do desporto).

    Quanto à tua crítica ao meu uso do conceito "conhecimento", aceito embora ache que precisariamos de discutir se "hipóteses falsas" não são conhecimento, ou pelo menos não podem surgir numa categoria algo vaga como a de "área do conhecimento".
    Mas, por uma questão de clareza (evitando a vagueza) aceito a crítica e mudo o conceito para "área do pensamento".

    Quanto à tua crítica ao meu uso do conceito "subjectividade", agora sou eu quem te agradece a achega. Por um lado a minha definição de filosofia não diz "que cada qual diz o que lhe apetece e pronto", mas deveria dizer que para haver filosofia isso não pode acontecer (o dizer algo e pronto, leia-se). E deveria dizê-lo porque o facto de não "se dizer algo e pronto" é uma característica definitória da própria actividade filosófica.
    E se o que pretendemos é uma definição que nos dê as características definitórias da actividade filosófica - uma definição essencialista, portanto - será necessário referir que em filosofia, cada qual diz o que lhe apetece mas não pode ficar por aqui. Tem de o justificar a seguir. E esta parte da justificação é, de facto, uma característica essencial do trabalho filosófico.

    Assim, graças à tua achega, posso tentar aperfeiçoar a minha definição:

    "A filosofia é uma área do pensamento que se ocupa de forma subjectiva e argumentada de problemas fundacionais insusceptíveis de resolução científica."


    PS - Quanto ao facto de não haver "consenso entre várias teorias rivais" não me parece de todo uma característica definitória da filosofia mas, chamemos-lhe assim, um efeito co-lateral, uma consequência da referida subjectividade argumentada desta actividade. Assim sendo não me parece que deva entrar numa definição de filosofia.

    abraços,

    Tomás

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  14. Penso que estás a misturar continuamente os resultados da ciência com o fazer ciência. E como em filosofia quase não há resultados consensuais, pensas que há algo de subjectivo na filosofia que não há nas outras áreas. Mas não há. Tudo o que há, seja na ciência seja na filosofia, é tentativas de resposta a problemas difíceis. A única diferença é que nas ciências essas tentativas geram resultados com um elevado grau de consenso, o que não acontece na filosofia. É isso que dá a ideia falsa de que há algo de subjectivo ou vivencial na filosofia que não há na ciência. Isto é falso porque nas fronteiras da ciência tens o mesmo carácter subjectivo e vivencial — no sentido banal em que as teorizações são sempre feitas por alguém que leva a sério os problemas e procura responder-lhes.

    Confundir o subjectivo com “difícil de gerar consensos” é uma das confusões mais comuns, mas não deixa de ser perniciosa por isso. É perniciosa porque faz as pessoas pensar que não vale a pena tentar fazer respostas “objectivas”, passando cada qual a dizer o que lhe vai na alma. Isso dá origem a filosofia de analfabetos, e não é isso que vês os mais importantes filósofos da humanidade a fazer. Filosofia não é mera expressão de opinião pessoal à toa. É opinião, sim, mas exactamente no mesmo sentido em que as teorias científicas são opiniões. Só que neste caso estas opiniões, em muitos casos, geram imenso consenso. Mas isto não é surpreendente. Quando vais a um jogo de futebol e tens a opinião de que uma dada equipa jogou melhor e por isso marcou 5 golos e a outra nenhum, esta opinião também gera bastante consenso. O que faz a diferença, Tomás, é a dificuldade das matérias. Quando as matérias são mais fáceis, é mais fácil gerar consenso.

    Quanto à ideia de que a filosofia só existe enquanto é feita, é verdadeira, mas trivial. Também a arte só existe enquanto é feita, tal como o ciclismo ou a matemática. Eu penso que esta observação é diagonal ao que realmente conta: a diferença radical entre fazer filosofia, e aprender a fazer filosofia, e meramente compreender e relatar as filosofias alheias. Mas esta distinção aplica-se em qualquer área: é muito diferente saber fazer matemática — que é saber enfrentar os problemas em aberto da matemática — e compreender apenas os resultados consensuais da matemática.

    Da maneira como pões as coisas, é como da decisão de fazer filosofia subjectivamente resultasse a falta de consenso, quando na verdade é da falta de consenso que se gera a aparência de subjectividade. Mas a filosofia não é de modo algum subjectiva em qualquer sentido relevante da palavra, que permita distingui-la da matemática ou da física.

    Desculpa ter sido tão prolixo.

    O que dizes?

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  15. Desidério,

    Vou tentar centrar o nosso debate na questão da Subjectividade/Objectividade da Filosofia ou, melhor dizendo, na tua crítica à minha defesa da subjectividade da filosofia.

    Em primeiro lugar acho que me interpretas mal quando dizes que confundo “subjectivo” com “difícil de gerar consensos”. Não vejo onde é que escrevi algo que leve a essa interpretação, logo acho que aí estás a argumentar “contra um boneco de palha”.

    Logo a seguir dizes que a filosofia deve “TENTAR fazer respostas objectivas”, mas não dizes como, ou por que razão, é possível essa objectividade em filosofia. Se a filosofia apenas pode TENTAR ser objectiva, isso não faz dela objectiva. Acho que devias deixar bem clara aqui a tua posição. Defendes que a filosofia é objectiva ou subjectiva?

    Depois dizes que “a única diferença (entre a ciência e a filosofia) é que nas ciências essas tentativas geram resultados com um elevado grau de consenso, o que não acontece na filosofia. É isso que dá a ideia falsa de que há algo de subjectivo ou vivencial na filosofia que não há na ciência.”

    Aqui, parece-me, inclinas-te para uma posição objectivista da filosofia mas, mais uma vez, não é bem claro o que defendes.
    A ser assim, repara na subtil falácia que cometes: se é verdade que a falta de consenso não prova a subjectividade da filosofia, também é verdade que essa mesma falta de consenso não prova a sua objectividade (ou a sua não-subjectividade, se preferires). Mais uma vez precisaríamos aqui de premissas adicionais (que tu não nos dás) para concluir que a filosofia é objectiva, ou pelo menos que é não-subjectiva.

    Por outras palavras, a única razão que apresentas contra a subjectividade da filosofia (que eu defendo) é que não é verdade que por a filosofia não gerar consensos ela seja subjectiva. Ora, isso não foi defendido por mim, nem é uma razão para defender que a filosofia não seja subjectiva.

    Fica também por explicar o motivo por que não há em filosofia esse “elevado grau de consenso” que há na ciência. Se for apenas por causa da maior dificuldade dos problemas filosóficos então a diferença entre os problemas da filosofia e os problemas da ciência é uma diferença quantitativa e não qualitativa. E sendo assim parece-me que somos levados a concluir que também não há uma diferença fundamental entre a filosofia e a ciência.

    Resumindo, parece-me que estás a dever-nos as tuas razões para a ideia que não há uma diferença fundamental entre ciência e filosofia.


    abraço,

    Tomás

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  16. Estás a ver as coisas de pés para cima, pá. Quem afirma que a filosofia é subjectiva é que me deve um argumento. Eu só disse que o único argumento que vejo a favor disso é a confusão de pensar que é subjectiva por haver falta de consenso. E esse argumento não funciona. Mas eu não defendi nem que é nem que não é objectiva. Nem o faço no meu texto. E porquê? Porque o par conceptual objectivo/subjectivo é uma trapalhada. Se “subjectivo” for entendido no mesmo sentido em que é subjectivo gostar mais de baunilha do que de morango, então claramente a filosofia não é subjectiva. Se “objectivo” for encarado no sentido de gerar resultados muitíssimo consensuais entre especialistas, então nem a filosofia, nem a sociologia, nem a crítica de arte são objectivas.

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  17. Julgo que já apresentei o meu argumento em cima, mas provavelmente não fui comprendido. Deixa-me então pôr as minhas ideias aqui bem claras:

    Vou apresentar uma definição dos conceitos "objectivo" e "subjectivo" e dois curtos argumentos a defender a subjectividade da filosofia e a objectividade da ciência. Tentarei ser breve.

    Primeiro as definições:

    por "subjectivo" entendo algo que depende de um sujeito para existir. Por "objectivo" entendo algo que não depende de um sujeito para existir.

    Agora os argumentos:

    Considero a filosofia subjectiva pois os resultados que atinge são construções humanas, logo estes resultados dependem de sujeitos que os criem. Os juízos filosóficos não são sobre factos objectivos do mundo, logo os argumentos filosóficos nunca podem ser objectivos, quando muito podem ter um elevado grau de inter-subjectividade graças às razões que os sustentam e ao facto de a Razão estar generosamente distribuída pelos seres humanos.

    Considero a ciência objectiva (pensemos na física como paradigma da ciência) pois os resultados que atinge são uma descoberta de uma realidade que não depende de nenhum sujeito para existir. Os resultados científicos são sobre factos objectivos do mundo, logo as teorias científicas podem (em teoria) ser objectivamente verdadeiras.

    Para sintetizar a minha posição numa frase-chave:
    “A ciência descobre realidades e a filosofia constrói sentidos.”

    Ab,

    Tomás

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  18. Estás a fazer uma confusão entre duas coisas. Quando falas da filosofia, falas da actividade dos seres humanos. E isso é trivialmente subjectivo, pela tua definição. Mas quando falas da ciência não falas da actividade, porque nesse caso seria obrigado a dizer que também a ciência é subjectiva. Aqui, mudas a agulha e começas a falar não da actividade dos cientistas mas da verdade das suas conclusões. E claro a verdade das suas conclusões é independente dos cientistas. Mas se não trocares as agulhas também vês que quando um filósofo defende que Deus existe, apesar de a sua defesa disso ser subjectiva no sentido em que é uma actividade humana, o que ele diz é verdadeiro ou falso não em virtude do que ele pensa mas exclusivamente em virtude de Deus existir ou não.

    Portanto, não me persuadiste. Ou estou a ver mal?

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  19. Desidério,

    estás a ver muito bem e puseste as coisas bem claras. Eu já tinha referido isso no meu post de 14 de Agosto quando disse que aquilo que define a filosofia é a sua prática (a actividade dos filósofos) e aquilo que define a ciência são os seus resultados.

    É verdade que, como dizes, "mudo a agulha", mas não vejo mal nenhum nisso pois o que estou a fazer é tentar encontrar as diferenças essenciais entre Filosofia e Ciência (ou seja, estou a contrastar e não a comparar estas duas actividades).
    Assim, como acho que são actividades essencialmente diferentes é natural que "mude a agulha" e a direccione para apanhar o que há de essencial na filosofia e o que há de essencial na ciência. Não me parece que para o fazer tenha de usar o mesmo critério incidindo a minha análise ou só na prática ou só nos resultados. Incido a minha análise naquilo que acho essencial a uma (a prática) e a outra (os resultados).

    (...)

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  20. Não me parece que tenhas razão porque tanto a ciência como a filosofia consistem em actividades, e ambas visam a compreensão da realidade. A diferença, que é precisamente o que eu defendo, é que num caso se obtém resultados amplamente consensuais e noutro não. Mas a diferença crucial não está no tipo de actividade, mas no tipo de problemas -- num caso, problemas que nos permitem chegar a resultados amplamente consensuais, no outro problemas que não permitem tal coisa, ou que têm essa tendência. Mas o impulso e a actividade é igual nos dois casos. Assim, é engandor dizer que a diferença entre a filosofia e a ciência é a primeira ser uma actividade e a segunda não, pois ambas são actividades. A diferença é a produção de resultados consensuais no segundo caso, mas não no primeiro. E portanto não é iluminante, e até é enganador, usar a diferença entre subjectivo e objectivo para caracterizar a diferença entre a filosofia e a ciência. Seria como caracterizares a diferença entre um descobridor que não conseguiu descobrir o caminho marítimo para a Índia e outro que o consguiu dizendo que o primeiro é subjectivo e o segundo não; a actividade de ambos é a mesma; a única diferença é o resultado num caso e a sua ausência no outro. Mas o modo de tentar é o mesmo.

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