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Música para as férias



Dois discos recentes com duas excelentes vozes femininas francesas: Zaz, que cantava nas ruas de Paris acompanhada por um guitarrista e um contrabaixista e que, com este primeiro disco, se tornou num caso de sucesso bem merecido; Patricia Petitbon, o soprano cheio de frescura e personalidade que se tem vindo a impor como uma das mais agradáveis cantoras líricas da actualidade. 
Zaz é um disco que nos faz pensar que afinal a moderna canção popular francesa ainda existe. Só que a música de Zaz soa a século XXI e não aos anos 60 do século passado. Tem o perfume das ruas de Paris, que ouvíamos em Edith Piaf, mas com um toque de pop, de hip hop e de jazz. Não se pense, contudo, que se trata de colagens ou de reciclagem de material antigo. Pelo contrário, é música nova em todos os sentidos e cheia de autenticidade. As letras são vaga e suavemente interventivas, mas o que mais se destaca é a invulgar musicalidade e desenvoltura da voz de Zaz. Uma voz de rua, por vezes inesperada e deliciosamente rugosa nas notas mais agudas, normalmente acompanhada por guitarra, contrabaixo, bateria e piano.
Rosso é o mais recente disco de Petitbon, com árias barrocas italianas (em que se destacam algumas árias de óperas de Händel), acompanhada pela Orquestra Barroca de Veneza, dirigida por Andrea Marcon. A voz de Petitbon impõe-se cada vez mais como uma das melhores da actualidade no seu registo. Mas o que torna este disco cativante é que Petitbon não se importa de arriscar oferecendo-nos interpretações com uma carga emocional muito pessoal, mas sem excessos nem exibicionismos fúteis. Consegue conferir à música barroca uma frescura a que não estamos habituados.   

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