27 de agosto de 2010

Paleolítico pós-estruturalista


Visitei recentemente, na minha terra natal, o interessante Museu do Côa, acabadinho de inaugurar. Fiquei agradavelmente surpreendido, sobretudo com o que vi lá dentro, pois a fabulosa paisagem envolvente é algo a que já estou habituado desde pequeno. 

O museu é pequeno, mas bastante informativo e atraente, recorrendo de forma adequada às novas tecnologias, mas sem aparatos despropositados. Desde o som ambiente, que reproduz o que se pensa ser o ambiente característico de há cerca de 15 mil anos, à catalogação de indícios geológicos e à apresentação virtual de todo o parque, a impressão que fica é muito boa. Conversei durante algum tempo com uma das guias do parque arqueológico, que me pareceu bastante bem preparada e sobretudo muito entusiasmada com o seu trabalho. Só senti falta de informação mais detalhada e esclarecedora sobre a delicada questão dos diferentes métodos de datação da arte rupestre, nomeadamente das gravuras. 

Uma semana depois visitei o museu de Altamira e, embora este tenha uma dimensão muito maior, não vi grande diferença (não estou a incluir aqui a impressionante réplica da gruta original com as famosas pinturas de Altamira). Acresce que o próprio edifício do Museu do Côa é uma coisa despojadamente estranha. Chega a parecer um achado arqueológico no alto do monte sobranceiro aos rios Côa e Douro. Um achado contemporâneo, que ora se confunde com o próprio solo onde está implantado ora (visto do rio) sugere um megalito moderno a perturbar as alturas. 

Há, contudo, algo no interior do museu que me deixou francamente decepcionado e que mostra até que ponto  as ciências humanas se encontram nos últimos tempos expostas às mais delirantes leviandades académicas. Numa das salas do museu encontra-se um enorme painel a esclarecer o visitante sobre as várias formas de estudar ou compreender as gravuras paleolíticas. São, então, apresentadas as quatro diferentes abordagens ou formas de interpretação das gravuras: uma delas é interpretar as gravuras do ponto de vista da arte pela arte; outra é a abordagem xamanística; a terceira é a abordagem simbólica; a quarta é a interpretação... estruturalista e pós-estruturalista. 

Conversei com a guia sobre o que fazia o estruturalismo e pós-estruturalismo ali (ainda por cima trata-se frequentemente de coisas incompatíveis), ao que me respondeu que a maioria dos estudos recentes sobre arte paleolítica partem de uma perspectiva estruturalista e pós-estruturalista. Enfim, pós-estruturalismo paleolítico. 

O que pensa disto o leitor?

A primeira foto é da entrada do museu, a segunda uma projecção numa parede interior e a terceira é a vista do exterior do museu para o rio Douro.

19 comentários:

  1. A única explicação que deu foi essa repetição do que estava no painel?

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  2. Mas que explicação haveria de dar Vitor?

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  3. Não perceberam... queria algo que me fizesse rir durante mais tempo.

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  4. Ora boas. Sendo arqueólogo aqui no Museum do Côa não queria deixar esta pergunta sem resposta (na medida das minhas capacidades) e ao mesmo tempo agradecer a referência que faz ao Museu no seu blogue.

    Penso que quando falamos de estruturalismos e pós-estruturalismos em Filosofia e Interpretação de Arte Rupestre falamos de coisas talvez um pouco diferentes. Talvez haja um erro 'formal' da nossa parte em intitular a interpretação que refere como 'estruturalismos e pós-estruturalismos'. É uma designação lata que pretende enquadrar para o grande público esta interpretação mais recente da arte pré-histórica. No entanto, este estruturalismo que é mencionado vem, através da antropologia de Lévi-Strauss, dar à arqueologia pela mão de Leroi-Gourhan, importante pré-historiador françês. Este autor tenta demonstrar que a arte rupestre não é apenas a mera acumulação sem sentido de motivos em superfícies escolhidas aleatoriamente; é uma arte estruturada com o significado preciso perdido no tempo mas cuja organização podemos tentar entender hoje. O pós-estruturalismo, sobretudo em arte rupestre com base numa certa escola anglo-saxónica, entra aqui como crítica a uma leitura demasiado 'funcionalista' da arte rupestre lembrando-nos que tudo o que fazemos em ciência são construções interpretativas sobre o real que podem ou não ter correspondido à realidade que no humano também é feita de muitas facetas intangíveis (sonhos, sentimentos, etc.). Enfim, Tese, Síntese, Antítese...

    Espero que não tome como inoportuna esta minha tentativa de esclarecimento que reflecte obviamente uma perspectiva e sobretudo interpretação pessoal.

    Com os melhores cumprimentos
    António Batarda

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  5. A terceira não é a simbólica, já que todas as interpretações pretendem descodificar os símbolos que são as próprias gravuras. Deve estar a referir-se às teses condensadas na mais vulgarmente conhecida como "magia simpática" ou "magia da fecundidade"" (tudo isto é colhido das antropologias).
    É verdade que o estruturalismo e o pós-estruturalismo estão ali misturados, já que a teoria mais marcante dos tempos pós-estruturalistas é novamente o... xamanismo, muito difundido a partir dos trabalhos de David Lewis-Williams a partir do estudo da arte dos San; e deste com Jean Clottes para as grutas europeias.
    E nesse painel estão sumariadas as principais teses interpretativas de 130 anos da chamada arqueologia rupestre. Há outras que ali não estão. Pretendeu-se sugerir ao visitante que há várias abordagens teóricas à arte paleolítica e poucas certezas. Terá reparado que os exemplos apresentados como ilustração a essas diferentes teses são todos intencionalmente colhidos no Vale do Côa.
    Saudações cordiais.
    António Martinho Baptista

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  6. Fiquei curioso.
    Em que consiste então a visão estruturalista da arte paleolítica? E a pós-estruturalista?

    Té,

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  7. Se bem compreendi, tenho uma abordagem "estruturalista" sempre que não considero que o objecto da minha análise é desprovido de "estrutura", ou seja... sou estruturalista acerca de alguma coisa quando penso que essa coisa não é um amontoado aleatório.

    E o pós-estruturalismo é a teoria que se opõe ao funcionalismo.

    Não. Continuo sem perceber patavina. Segundo estas definições, quase todas as teorias acerca de qualquer coisa são "estruturalistas", e tão-pouco se percebe porque a negação do funcionalismo teria de ser "pós" estruturalista.

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  8. Gostaria de agradecer o esclarecimento de António Batarda e pedir desculpa pela minha intervenção já que a explicação não me é dirigida, mas ao colega Aires. Quando diz:

    "O pós-estruturalismo, sobretudo em arte rupestre com base numa certa escola anglo-saxónica, entra aqui como crítica a uma leitura demasiado 'funcionalista' da arte rupestre lembrando-nos que tudo o que fazemos em ciência são construções interpretativas sobre o real que podem ou não ter correspondido à realidade que no humano também é feita de muitas facetas intangíveis (sonhos, sentimentos, etc.). Enfim, Tese, Síntese, Antítese..."

    O que me está a dizer é que se confio na abordagem pós-estruturalista, posso deixar de ter confiança e curiosidade em visitar o museu. Se, segundo essa abordagem, a ciência não passa de uma construção interpretativa, que base científica segura tenho então para pensar que a arte rupestre do Côa não passa de uma invenção? É que eu não compreendo cientificamente nada de artes rupestres, mas se o próprio museu me diz: "o que está aqui é o fruto de muita investigação científica, mas a ciência é fruto de uma construção interpretativa", eu fico com uma péssima imagem da investigação feita.
    Isto parece não fazer sentido, mas em todo o caso, confesso que não conheço os métodos de estudo invocados na arte rupestre e, daí, possa estar a ver mal o que se passa. Mas tenho uma vaga ideia de que o estruturalismo, ou pós estruturalismo pouco ou nada têm a dizer sobre os mais modernos métodos de investigação em arqueologia. Ou estou a dizer disparates?
    Obrigado

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  9. Parece-me evidente um desfasamento na publicação dos comentários visto que, quando coloquei as minhas questões, ainda não existiam as tentativas de resposta (senão as questões podem entender-se como uma forma irónica de abordar o assunto).

    Mas quanto ao que foi adiantado coloco outras questões:
    António Batarda diz que a visão estruturalista de Leroi-Gourhan “tenta demonstrar que a arte rupestre não é apenas a mera acumulação sem sentido de motivos em superfícies escolhidas aleatoriamente” o que leva à seguinte interrogação: haveria alguma visão anterior (“da arte pela arte”, “xamanística”, “simbólica” ou outra qualquer) que tentasse demonstrar o contrário – que a arte rupestre é apenas a mera acumulação sem sentido de motivos em superfícies escolhidas aleatoriamente? Se essa é a visão estruturalista e vem negar uma visão que não existia qual é a sua validade?
    Das afirmações de António Batarda também não se entende qual é a “leitura demasiado «funcionalista»” que o pós-estruturalismo crítica. Sendo essa a distinção avançada entre as diferentes visões do estruturalismo e pós-estruturalismo, e o que define esta última, julgo que seria importante esclarecer também esse ponto – sob o risco de nada ter sido esclarecido.

    té,

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  10. Este é um diálogo interessante pois está situado precisamente no centro de uma questão transversal à história do homem e também cara à pós-modernidade: o que é a arte? Sendo que a minha formação não é de Filosofia, tentei dar uma resposta muito sucinta à pergunta colocada. Um debate mais aprofundado não será talvez para as páginas de comentário de um blogue. No entanto, tanto quanto vejo a questão, (e não é de todo uma leitura original) a arte - como aliás toda a acção humana - tem um carácter plural. Ou seja, é isto e não só isto como também aquilo e o seu contrário provindo de e dando origem a e assim sucessiva e iterativamente.

    De uma forma mais concreta respondendo às questões:
    1)Vitor Guerreiro - não, de todo, é a resposta às perguntas que coloca. Tentei definir estruturalismo na interpretação de arte rupestre sucintamente mas temo não conseguir elucidá-lo cabalmente. Mais uma vez penso estarmos a falar de coisas um pouco diferentes.

    2)Rolando Almeida - é livre (ou talvez não) de confiar na abordagem que bem entenda. O que é facto, é que toda a ciência é uma construção... humana. Não quero com isto dizer que é uma construção subjectiva, como afirma a chamada Escola de Frankfurt. De qualquer modo, o conteúdo expositivo do Museu pode (e deve) ser avaliado por diferentes pessoas. Mesmo provindo de um meio académico, cada um terá os seus 'preconceitos' (entendida a palavra como conceitos existentes à priori dados pela personalidade, background, formação, etc.) que poderão ou não influenciar ou determinar julgamentos.
    A Arqueologia, talvez mais do que qualquer outra ciência humana, está numa posição priveligiada de contacto com as ditas ciências 'duras' (Geologia, Fisíca, etc.). Por um lado, recebe muitos dos seus dados por via destas ciências (a datação, p. ex.). Por outro lado, tem de tentar conciliar estes dados com uma tentativa de conhecimento o mais total possível (ou se quisermos, interpretação) do 'homem fóssil'. Se falarmos mais concretamente da arte rupestre como uma disciplina da Arqueologia, mais evidente se torna um dilema: se nos contentarmos apenas com uma qualquer datação de uma ou várias figuras de arte rupestre, onde enquadramos isso? Numa descrição meramente monográfica da sucessão de estilos ou técnicas ou localizações privilegiadas na paisagem ou, por outro lado, tentamos integrar esses dados numa tentativa de explicar o porquê de no Vale do Côa, p. ex., num determinado momento se representarem os motivos de uma determinada forma (motivos realizados por picotagem e abrasão que resultam em figuras de sulcos profundos e muito visíveis) e alguns milénios mais tarde (ainda no Paleolitíco Superior) os motivos passarem a ser feitos por incisões muito finas díficeis de observar?
    Dentro da Arqueologia, a interpretação de arte rupestre terá de ir procurar noutras ciências possíveis termos de comparação em busca de respostas. Por exemplo, na Antroplogia, aos estudos realizados sobre os chamados 'primitivos modernos'.

    (continua...)

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  11. 3) José Oliveira - "demonstrar que a arte rupestre não é apenas a mera acumulação sem sentido de motivos em superfícies escolhidas aleatoriamente” o que leva à seguinte interrogação: haveria alguma visão anterior (“da arte pela arte”, “xamanística”, “simbólica” ou outra qualquer) que tentasse demonstrar o contrário – que a arte rupestre é apenas a mera acumulação sem sentido de motivos em superfícies escolhidas aleatoriamente? Se essa é a visão estruturalista e vem negar uma visão que não existia qual é a sua validade?"
    Digamos que essa visão senão existia 'de facto' (mas por vezes, em certos autores, existia mesmo) existia por omissão, era subentendida. A arte pela arte supõe apenas a busca lúdica do esteticamente interessante enquanto que a magia simpática põe (também) a tónica numa visão demasiado 'funcionalista' da arte como propiciadora da sobrevivência do homem através do sucesso da caça.
    O 'funcionalismo', por si só, não é o que, nos estudos de arte rupestre, opõe estruturalismo e pós-estruturalismo. No fundo, a grande objecção prende-se com a aplicação generalizada de esquemas de associação de figuras (p. ex., cavalos associavam-se obrigatoriamente a auroques representando cada qual um dos géneros humanos), a toda a arte de um determinado périodo, como se não existissem variações geográficas e como se esses esquemas fossem um 'diktact' que todos os artistas individuais tivessem de seguir.
    Reforço a ideia que estas designações não terão talvez sido muito felizes já que tentam englobar no mesmo saco várias abordagens, algumas contraditórias, que poderão ser definidas por outros termos que não os que foram utilizados: 'funcional-processual', pós-processual, etc.
    No entanto, se para a maioria de grande público ter presente o espaço temporal que significa 20 000 anos (e esses como um grão de areia na história do planeta) é díficil de sugerir, estar a entrar em discussões aprofundadas sobre teorias da cultura, da arte, progresso, etc. seria impossível num Museu com as características das do Côa.

    Eu sei que estas respostas não serão satisfatórias, mas talvez fosse interessante, como leigo que me confesso nas diversas(?) leituras em Filosofia sobre o estruturalismo e pós-estruturalismo, que me pudessem fornecer algumas ideias introdutórias sobre o tema e que depreendo estarem na base das objecções que colocam.

    Com os melhores cumprimentos
    António Batarda

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  12. Escrevi ontem uma longa resposta aos simpáticos comentários de António Batarda (AB)e de António Martinho Baptista (AMB) mas, azar dos azares, acabou por não seguir e não consegui recuperar o que tinha escrito. Vou tentar de novo agora, mas procurando ser mais sucinto e sem contar ainda com os últimos comentários de António Batarda.

    Antes de mais, aproveito para vos cumprimentar pelo belo museu que ali está (apesar de, como é natural, poder ainda melhorar; já agora, aguardo com interesse a página na net do museu) e fazer votos de muito sucesso.

    E cumprimento-vos também pela saudável disponibilidade para discutir estas coisas de forma aberta, frontal e civilizada.

    Parece-me que convergimos na ideia de que estruturalismo e pós-estruturalismo estão ali misturados. Sendo assim, ficaríamos com 5 principais abordagens interpretativas e já não com 4. Só que, se contamos com o pós-estruturalismo, por que não também outras abordagens de carácter funcionalista? Dir-me-ão, porque aquelas são as mais adoptadas pelos arqueólogos nas últimas décadas.

    Ora, eu diria antes que, em vez de 4 ou 5, ficaria melhor se excluirmos o estruturalismo que, tal como parece ser entendido na arqueologia (nomeadamente por Leroi-Gourhan, referido por AB), se aproxima mais de uma teoria de carácter metodológico do que uma teoria interpretativa. Aliás, o AB tem alguma razão quando refere que o estruturalismo pode ser entendido de maneiras diversas na filosofia e na arqueologia e nas ciências humanas em geral.

    Isso é verdade e prende-se com a enorme fragilidade teórica e filosófica do estruturalismo, cujas ideias algo “maleáveis”, porque vagas e meramente sugestivas, acabaram por contaminar as ciências humanas, sendo por estas apropriadas de formas diferentes. Isto acontece também – e de forma ainda mais descontrolada – com o pós-estruturalismo, o pós-modernismo e o desconstrutivismo, que formam uma verdadeira embrulhada teórica, onde se torna penoso encontrar qualquer coerência, para não falar da completa ausência de argumentos. Em certo sentido, estas perspectivas tornaram-se uma espécie de panfletos académicos, que ao estudo aturado sobrepõem algo um verdadeiro programa de acção ao qual os factos terão de se conformar. É por isso que o estruturalismo praticamente não é discutido entre filósofos e o mesmo sucede com os outros pós.

    A ideia básica do estruturalismo é que, subjacente a qualquer fenómeno cultural ou actividade humana, há uma rede fixa de inter-relações que constituem uma estrutura complexa, a qual rege e explica tais fenómenos. Bom, que as coisas não se compreendem isoladamente é uma ideia mais velha do que o estruturalismo e não precisamos dele para chegar aí. Só que o estruturalismo vai muito mais longe, defendendo que essa rede estruturante de relações é fixa, isto é, não contextual, não histórica e determinística (uma das acusações que se faz ao estruturalismo é o seu anti-humanismo): não são os seres humanos que se exprimem ou que falam através da arte, mas antes a estrutura que se serve dos seres humanos para falar através da arte; o ser humano é apenas um instrumento da estrutura toda-poderosa e omnipresente. Assim, compreender os factos humanos é, do ponto de vista do estruturalista, submetê-los à teoria prévia.

    ... (continua)

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  13. ...(continuação)


    Do que li de Leroi-Gourhan (e confesso que foi muito pouco: algumas coisas de O Gesto e a Palavra há muitos anos e umas coisas que respiguei aqui e ali), ele não se revê certamente no que acabei de expôr, pelo que, se insistirmos em o designar como estruturalista, estamos a aplicar a designação com um sentido diferente do original. Até porque, ao que parece, Leroi-Gouhran defende que não se deve partir com uma teoria prévia para a investigação, privilegiando o trabalho empírico. O que ele diz é que em qualquer investigação, tem de se estar atento a tudo ao mesmo tempo e não descartar aspectos que tradicionalmente eram encarados como insignificantes, meramente acessórios ou até irrelevantes, isto é, que se deve encarar as coisas de modo holístico. Por isso me parece mais adequado chamar holística, em vez de estruturalista, à perspectiva de Leroi-Gouhran. Isto porque o holismo não está teoricamente comprometido com a ideia implausível de uma estrutura fixa misteriosa e determinística à luz da qual tudo se explica. Se se tratasse de uma estrutura fixa, a atenção ao contexto faria pouco sentido.

    Por outro lado, queria sublinhar que há uma espécie de incoerência conceptual ou erro categorial ao colocar no mesmo plano teórico o estruturalismo (e, já agora, o pós-estruturalismo) e, por exemplo, as teorias da arte pela arte (a que também se dá mais adequadamente o nome de esteticismo). Esteticismo, funcionalismo, simbolismo, são teorias com um maior carácter de generalidade que estruturalismo, situando-se num nível de abstracção maior. Por exemplo, há várias teorias simbolistas e várias teorias funcionalistas. Simbolismo, funcionalismo, esteticismo são abordagens, cada uma das quais pode incluir diferentes teorias particulares incompatíveis entre si. Misturar isto é mais ou menos o mesmo que confundir espécie com género e comparar mamíferos com sardinhas.

    ...(continua)

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  14. ... (conclusão)


    A propósito de simbolismo, AMB diz que todas as abordagens são simbolistas, pois procuram interpretar os símbolos que são as próprias gravuras. É verdade que a maior parte delas o são, mas não todas. O esteticismo não procura qualquer sentido ou conteúdo que esteja por detrás das gravuras, mas simplesmente a interpretação das suas formas como objectos de fruição estética.

    Assim, eu encontraria as seguintes quatro abordagens, que penso serem bastante mais informativas e compreensíveis para a maior parte dos visitantes do museu:

    1. Esteticismo. A abordagem segundo a qual tudo o que realmente conta é a beleza, o carácter artístico e a qualidade estética daquelas formas. Ouvi comentários espontâneos de um ou outro visitante que se incluiriam facilmente nesta categoria.
    2. Funcionalismo. A abordagem segundo a qual se deve procurar sobretudo a função ou propósito com que as gravuras foram feitas. Elas tinham alguma função social, religiosa, lúdica, prática? Claro que aqui haverá algumas teorias mais promissoras e mais aceitáveis para os estudiosos da matéria do que outras.
    3. Simbolismo. A abordagem segundo a qual o mais importante é compreender o significado preciso daquelas gravuras. É um significado de cariz mágico, sexual? Claro que frequentemente o símbolo e a função cruzam-se e podemos até considerar que formam apenas uma abordagem.
    4. Holismo. A abordagem segundo a qual nenhum dos aspectos permite explicar isoladamente as gravuras tendo de se ver as coisas de forma integrada: os aspectos estético, simbólico e funcional. O estruturalismo é uma teoria holista, mas nem todas as teorias holistas são estruturalistas.

    Bom, mas parece que já estou a ser longo de mais e fico-me por aqui.

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  15. Olá a todos... Peço perdão pelo atraso no comentário mas só hoje tive conhecimento deste debate. Como autor dos textos a que ele se refere procurarei por pontos [e pela primeira vez nesta tão recente irrealidade quotidiana (perdoe-me o Eco a apropriação da ideia) que é a Internet]:

    1: Agrada-me o "sururu" que causaram estes textos que por pouco não entraram no discurso museológico porque ainda havia quem pensasse que o "não pensar/não reflectir/não discutir" é algo de tão disseminado que podíamos bem dispensar respostas a essa pergunta tão essencial como inevitável que é: "Porquê? Porque se deram ao trabalho de gravarem e pintarem em determinados locais, por vezes de difícil e perigoso acesso?"

    2. Para responder ao "porquê" tinha 4 caixas de luz à disposição. É verdade, não foi a resposta que condicionou o número de caixas de luz, foram as caixas de luz que condicionaram a (forma da) resposta. Nesse sentido pensei: "Há que ser democrático, há que em 4 caixas de luz expor o que se pensou em sobre a arte paleolítica desde há um século para trás".

    3. Obviamente que pensei na historiografia. Assim as primeiras explicações tiveram que ver com a arte pela arte e como tal devia estar presente. Mas como pensar em tal antes do Século XIX? Mais, se na origem da arte estivesse a mera contemplação estética, porque se impressionariam as comunidades do paleolítico por um tão reduzido número de temas "a cantar"? Porque só representaram um número tão seleccionado de animais? E porque não os astros, a vegetação, os horizontes?

    4. Alguns pensaram (e pensam): "Bem, porque apenas representaram os animais que desejaram caçar (nem sequer os que caçavam, porque nem se pode encontrar uma relação directa entre o que se consumiu e o que se representou). Logo, a resolução do problema estava no raciocínio simpático, tão presente até mesmo nas sociedades europeias até ao século XVIII (como tanto Foucault como Eco evidenciaram).

    5. Por outro lado, a comparação etnográficas com povos que praticaram o acto de representar sobre pedras, aliado às sistematizações de Mircea Eliade sobre o Xamanismo da Sibéria e em conluio com estudos neurológicos (debatíveis) sobre os diversos grados ao nível dos estados de consciência dos Homens levaram (e levam) alguns a defenderem a tese xamânica. Estes partem do princípio de que qualquer indivíduo passa pelos mesmos estados de consciência que desemboca inevitavelmente (no estado mais alterado) na sua transformação em animal. No entanto, este varia consoante a cultura (um ocidental acabaria por se ver transformado em lobo). Este aspecto, quanto a mim, torna irrelevante a tese, porquanto ela explica mais o "método" que a "razão" (palavra que só aqui utilizo à falta de melhor no momento). Nesse sentido, há que procurar na mesma a cultura.

    6. Leroi-Gourhan teve a particularidade de através do método estruturalista (há que aqui trocar o conceito Straussiano de "mitemas" por "temas") demonstrar que a arte paleolítica não era aleatória. Contudo, e como em qualquer ontologia (que não método) estruturalista reduziu a cosmogonia paleolítica relevada dos seus estudos a um binómio - neste caso macho/fêmea. (continua)

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  16. 7. Se, de facto, o trabalho de Gourhan não foi na sua totalidade estruturalista mas sim holístico, a sua aproximação à arte foi-o completamente (aconselho a leitura de "As religiões da Pré-história" ou a fundamental "Préhistoire de l'art occidental"). Evidentemente, e stricto sensum, não o foi porque mesmo assim arriscou a explicação e como bem diz Ricoeur o estruturalismo compreende mas não explica.

    8. As análises caso a caso dos sítios demonstram que o binómio de Gourhan não se aplica a todos os sítios (afinal há que contar com cronologias, com tradições, com o mundo em redor). Alguns autores há que por isso voltaram às explicações habituais que ora se voltam para o estômago ora para a magnificência das obras (esquecendo-se de que não é por ter um programa que o tecto da capela cistina é menos belo). Outros, contudo, não colocando de parte o método estruturalista recusam a sua ontologia. Procuram não só "compreender" como "explicar" (e socorro-me aqui de Ricoeur), procuram não só plasmar como revelar (mais do nosso Mundo que do dos Paleolíticos que a esse não teremos acesso), procuram ter em conta outros contributos da Filosofia como seja o carácter da espacialidade no Ser-em-si Heideggeriano na explicação da estrutura (que é evidente caso a caso). Como denominar essas teses senão como pós-estruturalistas (uma vez que não recusam o paradigma de ver a o conjunto rupestre como uma estrutura essencialmente textual) senão de pós-estruturalistas?

    9. Finalmente, como passar tudo isto para o grande público em apenas 4 caixas de luz (volto a frisar, número imposto)? Tentei com a sala D demonstrar subtilmente que os capítulos de um livro são os lugares que contém diferentes combinações de animais, que estes se interligam... Teve que ser subtil porque não pretendemos impor nada a ninguém, mas quem me dera que alguém que de lá saia, saia com a ideia de que a Penascosa e a Quinta da Barca são o lado de Swan e o lado de Guermantes vistos a partir de Combray (que neste caso é a mesa virtual) e que tal como o narrador de Proust se aperceba que as narrativas que ouviu em torno dos lugares que viveu são os fundamentos básicos da sua própria identidade.


    Um abraço e perdão pela extensão do texto,
    André Tomás Santos

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  17. Ora boas mais uma vez. Gostaria de agradecer ao Aires Almeida a paciência que teve em procurar sistematizar algumas ideias de forma clara sobre toda esta questão. As distinções que explanou serão importante para uma reorganização do conteúdo expositivo do Museu. Já agora, existe da nossa parte a consciência que os conteúdos beneficiarião duma revisão e acrescento. Como se costuma dizer, o caminho faz-se caminhando, e ainda há caminho para fazer.

    Sendo natural de Foz Côa (mas não residindo cá há já algum tempo, imagino eu), concerteza que Aires Almeida acompanhou todo este processo complexo e por vezes delicado do Côa. O Museu é ao mesmo tempo o encerrar duma etapa e o começo doutra em que a arte do Côa poderá ser divulgada mais amplamente aos visitantes que demandam a zona. Da nossa experiência de um mês completo de abertura, verificamos que os visitantes (que têm afluído ao Museu em números muito interessantes considerando a sua localização algo 'remota'), de um modo geral, ficam muito agradadas com todo o Museu (peça arquitectónica+envolvente paisagistíca+conteúdo expositivo numa ordem arbitrária). Tecem naturalmente algumas críticas a aspectos mais precisos e oferecem sugestões, mas é fácil apercebermo-nos duma grande satisfação, por parte do visitante, com a visita e isto é muito importante para nós como profissionais, para o futuro do projecto do Côa e também para o desenvolvimento regional.

    Forte abraço
    António Batarda

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  18. Peço desculpa pela irrelevância filosófica e pelo tom algo pessoal com que começo este comentário, mas acho que se justifica, na sequência do comentário de André Batarda.

    Sim, sou natural de Muxagata, Foz Côa, onde vou com alguma frequência. E convivi, sem o saber, com as gravuras desde pequeno. Mais precisamente desde que me atrevi, com outros "nativos", a dar as primeiras braçadas na piscina natural (açude) que havia no rio Côa, muito perto da foz da ribeira do Pisco (é assim que lhe chamamos em Muxagata).

    Claro que tenho acompanhado o assunto com interesse e até lhe confesso que a minha opinião sobre tudo o que até aqui se passou não é linear, reflexo talvez de algum cepticismo metodológico que tento exercer em relação a questões desta natureza. Mas, claro, ultrapassada a discussão que deve sempre ser feita (nunca fui adepto da ausência de discussão, seja sobre este como sobre qualquer outro assunto) é preciso virar a página.

    Ora, quero acreditar que a inauguração do Museu do Côa pode ser um bom virar de página e pode levar finalmente a Foz Côa um número de visitantes satisfatório. Não quero com isto dizer que alimento a ilusão de ver várias centenas de milhares de visitantes por ano (nem sei se isso, assim de repente, seria bom), pois trata-se de algo que depende de muitas outras coisas, exigindo muita paciência e trabalho persistente (um dos problemas de Portugal é o de frequentemente as pessoas quererem tudo ao memo tempo e imediatamente). Mas o Museu é um aspecto crucial e acredito ainda mais nisso depois de o ter visitado.

    Que António Batarda diga que o Museu do Côa não é uma obra acabada e intocável, dá-me ainda mais razões para ser optimista.

    André Tomás Santos diz que o "porquê" esteve quase para ficar excluído do discurso museológico. Acho muitíssimo bem que tenha insistido. Afinal, quem decide o que se irá ver no museu tem o dever de se tentar colocar na cabeça do visitante comum e de fazer as perguntas que qualquer pessoa interessada quer ver esclarecidas. Sem dúvida que uma delas é "porquê?"

    Mas tenho de confessar algo que talvez o deixe surpreendido da parte de quem vem: julgo ser dispensável caucionar as respostas possíveis a essa pergunta com a chamada a terreno de tão ilustres filósofos. De duas uma: ou as abordagens referidas se justificam porque reflectem o que realmente se passa no terreno, digamos assim; ou essas abordagens são em si mesmas inteligíveis e fazem, em si mesmas, sentido. Em nenhum dos casos a referência aos filósofos em causa me parece adiantar algo de substancial.

    Um abraço e volte sempre.

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