5 de setembro de 2010

É concebível. Mas é possível?

Acabo de dar início à publicação das prometidas crónicas semanais da Crítica, que serão publicadas todos os Domingos. A primeira é de Matheus Silva, e tem por título "Concebilidade e Possibilidade".

7 comentários:

  1. Provavelmente nem a concebilidade implica possibilidade nem a possibilidade implica concebilidade. Assim como podemos conceber coisas ou estados de coisas inexistentes e impossíveis de existir na realidade, também podem existir coisas ou estados de coisas possíveis ou reais que talvez não sejam humanamente concebíveis. Por exemplo, do facto de podermos conceber o deus teísta, com todos os seus predicados essenciais, não se segue necessariamente que ele seja de facto possível ou que exista na realidade, tal como a sua possível existência real não implica necessariamente que o possamos conceber sem problemas ou inconsistências lógicas e conceptuais. O mesmo se poderia dizer em relação ao Universo, pois o facto de podermos concebê-lo infinito no espaço e/ou no tempo não significa necessáriamente nem que o seja realmente nem sequer que tal possibilidade conceptual possa ser uma possibilidade real. Afirmar que podemos concebê-lo sem ter tido um princípio ou começo absoluto no tempo não quer dizer necessariamente que isso seja de facto possível ou tenha ocorrido, nem o contrário disso, concebê-lo como tendo tido obrigatoriamente uma origem absoluta e uma causa anterior necessária implica essa mesma possibilidade ou realidade. O acordo ou correspondência perfeita entre a concebilidade (ou possibilidade conceptual) e a possibilidade real, seja ela física ou metafísica, pressuporia uma espécie de harmonia pré-estabelecidada ou sintonia fina entre as nossas faculdades mentais e processos cognitivos e a própria realidade, que seria a única forma de assegurar a verdade necessária e a consequente infalibilidade da conexão entre os dois planos, o que não parece verossímil, dada a nossa óbvia falibilidade humana, demasiado humana.

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  2. A sua pressuposição de que concebilidade é possibilidade conceitual é altamente controversa. Na verdade não me lembro de ter visto um único filósofo sequer que trabalhe com essas temas defender ou pressupor que a concebilidade seja mera possibilidade conceitual. Há discussões sobre a concebilidade ser ou não um guia para possibilidades de diferentes tipos (conceitual, física, metafísica), mas não me lembro de um único filósofo defender que a concebilidade seja mera possibilidade conceitual. Tem alguma razão para pensar que concebilidade é possibilidade conceitual?

    É preciso também evitar a confusão de pensar que os argumentos de concebilidade devem ser infalíveis para serem válidos: nenhum filósofo hoje em dia defende que o uso de argumentos de concebilidade com a pressuposição de que há uma correspondência perfeita entre concebilidade e possibilidade – esta é uma pressuposição implausível demais para ser defendida. A discussão gira em torno de saber se o que é concebível como o que é comumente possível. O “comumente” aqui é importante. Como já tinha dito no texto, se não temos razões para descartar o uso de indícios falíveis como a memória, a percepção ou o testemunho pelo fato de serem falíveis, também não devemos descartar o uso da capacidade de conceber pelo fato de ser falível.

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  3. Matheus

    Excelente texto, bom saber que tendo uma espécie de diálogo!

    Continuo estudando essa questão, já até fiz rascunho de um novo texto para meu blog e, provisoriamente, o que encontrei como um problema é que quem defende a concebilidade como condição suficiente (e apenas suficiente) para a possibilidade metafísica acaba tendo de defender que tal proposição ("Concebilidade é condição suficiente para possibilidade metafísica") é, ela mesma, metafisicamente necessária. Não estou certo de que seja realmente um problema, mas é algo interessante (caso se verifique que é um corolário da ideia criticada), é por esta faceta que passei a abordar a questão, mesmo porque concordo contigo que atacar pela via da falibilidade não seja muito proveitoso. De qualquer maneira, estou aprendendo bastante com essa discussão.

    Abraço.

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  4. Obrigado!

    Entenda esse texto como um convite para você largar a publicidade e vir de uma vez para a filosofia!

    A idéia de que a concebilidade é uma condição suficiente para a possibilidade metafísica me parece um erro, por que assim a concebilidade sempre implicaria ou acarretaria a possibilidade metafísica - ou seja, é pressupor uma ligação forte demais entre concebilidade e possibilidade. Isso me parece forte em excesso, pois ficamos sem meios para explicar os casos em que cometemos o erro de conceber algo que não é possível.

    Pode ser que eu esteja errado: pode ser que haja vários modos de conceber e a relação de implicação direta entre concebilidade e possibilidade se aplique a alguns tipos de concebilidade, mas não a outros, como defende o Chalmers. Também pode ser que a questão em causa seja o tipo de possibilidade e não o tipo de concebilidade, e assim por diante. De qualquer modo não espere uma resposta razoável para esse problema sem um inventário dos diferentes tipos de concebilidade e possibilidade.

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  5. Olá Matheus

    Está a ser para mim bastante proveitoso ler os seus textos. Só não percebo por que é que utilizou neste artigo o termo ‘concebilidade’ quando no artigo anterior “Intuições cartesianas e circularidade” utilizou o termo ‘conceptibilidade’. Parece-me melhor manter esta versão, com a vantagem de constar do dicionário da língua portuguesa, e ‘concebilidade’ não.

    Desculpe a minha pertinência…

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  6. "Conceptibilidade" e "concebilidade" são sinónimos. A raiz do primeiro é o adjectivo "conceptível", que é muitíssimo menos usado do que "concebível".

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  7. Oi Fernando

    que bom que gostou do texto. A sugestão de mudança do termo foi proposta pelo Desidério: e pelo visto ele já apresentou a razão para preferir a última opção.

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