19 de setembro de 2010

Edições e editores


Dando continuidade às crónicas semanais da Crítica, acabo de publicar "Edições e Editores", de Aires Almeida.

10 comentários:

  1. A maioria das traduções brasileiras são também uma catástrofe. Eis algumas perolas:
    1- funcioanl-veritativo ao invés de verofuncional(Filosofia das Lógicas, Ed Unesp).
    2- conhecimento por familiaridade ao invés de conhecimento por contato (Uma nova história da filosofia, Loyola)
    3- argumento convincente ao invés de argumento cogente(Ensaio Filosófico, Loyola)
    4- argumento verdadeiro ao invés de argumento sólido (Wittgenstein, Loyola)
    5- meio excluído ao invés de terceito excluído (Uma nova história da filosofia ocidental, Loyola)
    6- teoria dos cachos ao invés de teoria dos agregados (Introdução à filosofia da linguagem, Loyola)
    7- filosofia do espírito ao invés de filosofia da mente (Hume, Loyola/ Compêndio de Filosofia, Loyola)
    etc, etc e etc.

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  2. "Evidência" ao invés de "indício"

    "Sentença" ao invés de "frase"

    "Prova" ao invés de "demonstração"

    "Os condicionais" ao invés de "as condicionais"

    "Sentido" ao invés de "significado"

    "Causação" ao invés de "causalidade"

    Termos iniciados por non que são traduzidos como se fossem iniciados por não.

    Isso sem mencionar os vícios horrorosos de simplesmente não traduzir os termos. Eu já perdi a conta de quantas vezes me deparei com textos que utilizam termos como "standard" e "hold" sem tradução - esse vício idiota é repetido por alguns professores em sala de aula e os alunos aprendem a repetir isso por hábito. Outro vício comum é traduzir o termo, mas mantendo o original logo a frente entre parênteses: o argumento não se sustenta (holds) - a mensagem para o leitor é: eu não estou seguro da minha tradução, traduza de outro modo se quiser!

    É claro que tudo isso, assim como os outros problemas mencionados pelo Aires, só são problemas dignos de nota para quem realmente leva a filosofia a sério: quem passa pelos cursos de filosofia como se ela fosse um hobby e repete atitudes anti-intelectuais de senso comum não dá a mínima pra isso e não vai querer gastar o seu tempo com isso: para esse tipo de gente, buteco, filmes pipoca, festas e jogo de futebol são mais dignos de atenção.

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  3. Luiz,

    foi bom você ter citado as fontes. Se não citasse poderiam te acusar de não ter evidência textual! : P

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  4. O pior de tudo é que grande parte dessas traduções ou das revisões foram feitas por acadêmicos brasileiros, pelo que deveriam ter a obrigação de oferecer traduções, se não tão boas, pelo menos com o mínimo de rigor. Deixar passar "argumento verdadeiro", "meio excluído", etc. é sinal de analfabetismo filosófico!

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  5. É por isso que, pelo menos nos livros de língua inglesa, mais vale comprar o original, com sites como bookfinder.com poupasse sempre algum dinheiro (mesmo contando com os portes) e não ficamos irritados durante a leitura.

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  6. Pois é Celso, até concordaria com você se não precisássemos das traduções para ensinar aos alunos que não lêem em inglês. Eu mesmo entrei na graduação sem saber ler inglês e aprendi ao longo do curso: se impusessem a leitura de obras em inglês logo no primeiro período eu abandonaria o curso.

    O engraçado é que se não bastasse as traduções cientificamente erradas que são desperdícios de oportunidade ainda temos muitas traduções de livros inúteis como "Lógica de Primeira Ordem" de Raymond Smullyan. É um livro completamente prolixo e formalista que não gera cognitivo algum: quem precisa aprender lógica não consegue entender o livro, quem já domina a lógica básica também não consegue entender o livro. No fim das contas os únicos que acompanham o livro são aqueles que gastaram o seu tempo aprendendo muita lógica matemática: mas estes não precisam do livro, porque já dominam o conteúdo. Ou seja, tradução de livro inútil. Ao invés de publicarem a tradução de um livro como o "Simple Logic" do Daniel Bonevac, publicam isto.

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  7. Só que nem toda a gente lê inglês, Celso. Se cada um de nós olhar apenas para o nosso umbigo, ficamos todos pior. Eu não preciso de traduções portuguesas. Leio tudo em inglês há mais de 15 anos. Nem jornais ou revistas em língua portuguesa eu leio. Mas os meus alunos não sabem inglês. E muitos outros estudantes e professores não sabem inglês. O que fazer? É preciso que cada vez mais as pessoas saibam que a língua portuguesa não é uma língua culta, não dá acesso à melhor cultura feita no mundo. Mas enquanto isso, precisamos de fazer um esforço para dar a quem não sabe ler inglês a possibilidade de contactar com outras realidades culturais mais saudáveis.

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  8. Por vezes a familiaridade com o inglês, através dos filmes, da televisão, a quase omnipresença do inglês, leva a um erro fácil, que é o de pensar que toda a gente lê um romance ou um ensaio académico em inglês com a mesma facilidade com que acompanha uma série televisiva. Isto é falso. Muita gente que sabe inglês suficiente para se safar numa conversa quotidiana ou jogar uma RPG com texto, etc., ainda assim tem dificuldade em seguir um romance ou um ensaio académico em inglês.

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  9. O que eu me interrogo é como é que os leitores podem mudar a situação. Eu já cheguei a enviar um mail a reclamar com uma tradução e nem se deram ao trabalho de responder. Se não compramos os livros em Português os editores têm a desculpa "se ninguém compra, não há dinheiro para haver qualidade nas traduções", se comprarmos ficamos com livros que não dão prazer nenhum a ler e ainda pagamos o imposto pela má tradução.

    "Esta falta de profissionalismo é provavelmente o resultado da falta de exigência dos próprios leitores. "

    E o que é que os leitores podem fazer para além de uns mails ou decidir não comprar? Eu sugeria é que os professores que sempre têm mais autoridade que o leitor ocasional se manifestassem, por exemplo através das associações, aos editores acerca das suas preocupações (expondo as falhas detectadas). Talvez com sorte...

    Diga-se também que infelizmente (apesar de tudo prefiro ler em português) sem inglês, a bibliografia, provavelmente em todas as áreas, fica demasiado curta.

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  10. Celso

    não há fórmula mágica para melhorar as coisas. Mesmo que pressionasse as editoras não há hoje muitos tradutores de filosofia com uma formação filosófica adequada. Esse também é um problema de falta de material humano cuja causa é o atrasado da filosofia nos países de língua portuguesa. Se quer mesmo melhorar as coisas como um leitor, escolha e divulgue as melhores traduções entre seus colegas, não tem outro meio.

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