8 de setembro de 2010

Objecções precisam-se


Encontrei este argumento recentemente. Para muitos de nós não é inteiramente desconhecido. Bem, para alguns é até muito familiar. Eu não estou de acordo com a conclusão do argumento. Que objecções acha o leitor que podemos dar para refutar a tese do argumento?


As verdades expressam-se linguisticamente. Contudo, as línguas são constructos sociais: as pessoas criaram-nas. Concomitantemente, as línguas corporizam realidades culturais, reflectindo paroquialismos e parcialidades. Assim, nunca exprimimos a verdade de uma forma neutra. Relacionamo-nos com o mundo apenas através das nossas formas  de falar e pensar construídas e correlativamente restringidas. Não podemos «escapar» a essas influências sociais. Sejam quais forem as verdades que exprimimos, elas estão assim socialmente imbuídas. E isto importa pois tudo quanto for socialmente construído não precisa de ter existido. Há uma arbitrariedade em qualquer construção social parcial; podíamos ter desenvolvido diferentes línguas e aceitado diferentes visões expressas nessas línguas. Há, portanto, uma arbitrariedade em relação à verdade. Como criamos verdades, podemos controlá-las e modificá-las. O que é verdade hoje, não tem de o ser amanhã, na medida em que adoptamos novas formas de falar e de pensar.

20 comentários:

  1. O fato de as verdades expressarem-se por meio da linguagem não é o bastante para concluir que a verdade depende apenas da linguagem. O fato de as línguas serem construtos sociais não é o bastante para concluir que elas não tenham qualquer objetividade compartilhada como pano de fundo. A verdade da conclusão de que a verdade é criada arbitrariamente, para ser aceita, não pode ser criada arbitrariamente, o que demonstra que é uma conclusão auto-refutante: se for verdadeira, é falsa, e se for falsa também é falsa, logo é falsa de qualquer modo.

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  2. Nessa citação afirma-se que o que é verdade hoje não o é amanhã, o que quer apenas dizer que o que hoje se pensa que é verdade amanhã pensa-se que não o é. Seja quem for que confunda sistematicamente "pensar que é verdade" com "é verdade" não merece refutação porque se auto-refuta. Dado que eu penso que é verdade que essa pessoa está errada, ela está errada.

    Não vale a pena perder tempo com filosofia feita à toa.

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  3. Mesmo por que a afirmação de que que o que hoje se pensa que é verdade amanhã pensa-se que não o é é mais fraca e até trivial: somos falíveis e mudamos de crenças. Este fato, por si só, é insuficiente para concluir o que quer que seja acerca da verdade.

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  4. Penso que as objeções levantadas ao argumento são bastante convincentes e mostram que as premissas apresentadas são incapazes de sustentar a conclusão pretendida. Porém podemos pensar em uma tese mais fraca (que sem dúvida não era o que o autor tinha em mente) onde as premissas dêem conta de sustentar a conclusão. Se aceitarmos que a nossa linguagem é um construto social arbitrário e a única maneira de falarmos verdades é através da linguagem, então temos um problema que ainda segue como pano de fundo ao argumento que as objeções apresentadas ainda não refutaram. Até que ponto podemos afirmar que dizemos verdades? A sugestão inicial do Matheus parece ser um ponto de partida.

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  5. Um aspecto curioso da filosofia feita à toa é ser incoerente. Isto é curioso porque outra característica da filosofia feita à toa é valorizar a “coerência”, como se isso fosse o género de propriedade maximamente interessante de uma tese filosófica, quando de facto é o grau zero de qualquer tese: o mais importante vem depois de se ver que a tese é coerente, porque se for incoerente é compatível com tudo, incluindo a sua negação. Assim, pelos seus próprios padrões, a filosofia feita à toa é desinteressante, porque é incoerente. No caso exposto pelo Rolando, trata-se de um género de tese incoerente porque é uma tese que supõe o que se propõe negar. Isto porque afirma que é falsa a tese de que a verdade não é uma mera construção social, ao mesmo tempo que afirma que é verdade seja o que for que alguém pensa que é verdade. Outra incoerência típica de quem defende estas ideias é esquecer-se que se a tese de que a Lua não é feita de queijo é uma mera construção social, também a tese de que tal tese é uma mera construção social é uma mera construção social.

    Por que razão ideias tolas destas são tão apelativas? Porque sempre contêm um grão de verdade. Neste caso, a ideia de falibilidade humana (o que hoje pensamos que é verdade pode de facto ser falso e vice-versa) e a ideia de que as teorias (incluindo as científicas) são coisas que nós fazemos. Ambas as ideias são verdadeiras. Mas não só são muito diferentes da tese de que a verdade é uma construção social, como esta tem de ser falsa para aquelas serem verdadeiras.

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  6. Do facto de não podermos, perante qualquer crença nossa, garantir que ela é verdadeira, não se conclui que a crença não é verdadeira. A verdade não é transparente. Uma crença é verdadeira ou falsa consoante a realidade for de uma ou outra maneira, e isto é independente de termos ou não maneiras mais ou menos automáticas ou garantidas de excluir a sua falsidade.

    Por exemplo, a crença de que há extraterrestres inteligentes com mais de 2 metros de altura é verdadeira ou falsa conforme houver ou não extraterrestres com mais de 2 metros de altura, e isto é independente de podermos verificar ou não com toda a segurança que a crença é verdadeira. Verdade não é verificabilidade, ao contrário do que Ayer pensava (e depois ele mesmo deixou de pensar isso).

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  7. Se aceitarmos que qualquer verdade expressa linguisticamente é formulada em alguma língua socialmente criada e transmitida como é que eu posso dizer que "o Desidério é careca" é Verdade? Quem conhece o Desidério sabe que é completamente verdade, mas ficaria pasmado se eu dissesse que não, que tudo não passa de uma contrução. Daqui se vê o rídiculo da tese do texto, que não passa de uma forma de relativismo, a do construtivismo. Mas eu não escolhi a passagem á toa. Apesar dela expressar uma tese completamente disparata, esta tese é muitissimo influente em muitos meios académicos do mundo inteiro, incluindo o de Portugal. É muitissimo frequente ler e ouvir o argumento de que a ciência é o resultado de um contexto, que esse contexto é social e cultural, que a verdade é localizada nesse contexto, etc. Ainda hoje estava a ler um manual de filosofia do secundário e todo o discurso passava por aqui. Portanto, se estamos de acordo que esta tese é pateta, então temos de estar de acordo que andamos a ensinar patetadas à força toda sem nos darmos conta!!! Quem é que se importa com isso? Mas atenção a uma coisa: o relativismo do construtivismo nem sequer é algo que seja defendido explicitamente na maioria das universidades ou escolas secundárias. Ele anda misturado com outros discursos. É tudo à toa, sem rei nem rock.

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  8. Bem, mas o Desidério explicou muito bem o que se passa com a tese.

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  9. Esse tipo de ideias é apenas o resultado de anemia cultural. Sempre houve disso, e sempre haverá. Tudo o que se pode fazer é dar a alunos e professores alternativas intelectualmente sólidas. Depois cada qual faz o seu juízo e escolhe. Haverá sempre astrologias, mesmo nas escolas, onde supostamente se devia formar as pessoas para ter sentido crítico e para detectar o disparate à distância.

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  10. Este comentário foi removido pelo autor.

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  11. Eu discordo de você, Desidério. Pode ser um fato da vida que sempre haverá gente crédula acreditando em idéias prontas, mas a influência e predominância de intelectuais ininteligíveis que apresentam essas besteiras em alguns departamentos das humanidades é alarmante. e as reações dos partidários dessas idéias é ainda mais alarmante. Sokal e Bricmont demonstraram para além de toda dúvida razoável que intelectuais que ficaram famosos por defender o construtivismo cometem fraudes intelectuais, mas foram solenemente ignorados ou xingados. Portanto me parece que a coisa é bem mais séria: não se trata mais de simplesmente uma questão de oferecer uma alternativa sóbria a quem tem uma formação deficiente, pois quem tem uma formação deficiente está tão deformado intelectualmente que sequer vai entender isso.

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  12. Sempre houve e sempre haverá doidos em todo o lado, incluindo nas universidades. Hume nunca foi admitido nas universidades, as ideias de Descartes foram proibidas, e ao mesmo tempo aposto que nas universidades desse tempo se fazia tolices atrás de tolices, de que hoje ninguém se lembra. Repito: tudo o que se pode fazer é fazer melhor e divulgar e deixar as pessoas escolher. É tão desavisado espernear contra as fraudes intelectuais nas universidades como contra o frio de uma noite de Inverno.

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  13. Voltando à vaca fria, repare-se nesta pérola de analfabetismo filosófico:

    "podíamos ter desenvolvido diferentes línguas e aceitado diferentes visões expressas nessas línguas. Há, portanto, uma arbitrariedade em relação à verdade."

    Ou seja: quem quiser acabar com o problema da pobreza, basta começar a chamar "ricos" aos pobres e já está.

    Além disso, como é sabido, a neve não é branca para os ingleses. É white, que é uma coisa muito diferente. E, claro, a cor da neve muda consoante mudamos de língua: ora é branca, ora white ou weiss, etc.

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  14. O analfabetismo filosófico consiste em dar-se ares de profundidade filosófica, exactamente como os astrólogos e os numerólogos se dão ares de profundidade científica e matemática. Mas é só ares. Se fossem fazer uma prova qualquer de ciência ou de matemática bem feita, não só reprovariam como seriam incapazes, mesmo estudando, de ter nota máxima. O mesmo ocorre com o analfabetismo filosófico: pessoas obviamente sem capacidade para pensar julgam-se filósofas porque fazem uns trocadilhos que impressionam analfabetos.

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  15. Pois, talvez tenhas razão, sempre houve e haverá doidinhos a propagar ideias mais ou menos tontinhas. E também é verdade que os doidos sempre conseguiram entrar no meio académico (eu próprio conheci alguns). Nesse aspecto concordo: tudo o que temos a fazer é prestar um bom serviço à causa. E já agora também é verdade que se interiorizarmos essa ideia, fazemos mais tranquilamente o nosso trabalho.

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  16. Ainda há outro aspecto curioso que não mencionamos: o construtivismo não é uma praga somente filosófica, mas atravessa toda a cultura. E é imensamente nocivo. Basta olhar à nossa volta e o que mais vemos é exemplos desse discurso, desde os dirigentes políticos para promover a guerra, até ao discurso publicitário mais comezinho. Quer se queira quer não, o construtivismo é uma teoria e ela atravessou a cultura humana.

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  17. Eu concordo com o tom mais combativo do Matheus. O Desidério está correto ao apontar a inevitabilidade destas imposturas e tolices, mas isto não deveria servir como justificação para complascência ou desprezo, penso que deve haver reação em todo espaço que for apropriado. A crítica que mostra os erros do construtivismo deve circular em todos os meios nos quais alguém pode aspirar ao conhecimento filosófico. Afinal, em ciência será tomado como louco aquele que defender o geocentrismo nos dias de hoje, por que deveria ser muito diferente para quem defende tal formulação do construtivismo na filosofia (ou em outras áreas)? Há algo na atividade filosófica que eventualmente me parece muito permissivo e demasiado confiante de que "as coisas se ajeitarão sozinhas".

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  18. Não estou a defender que as coisas acabarão por se autocorrigir. Na verdade, penso que isso nunca acontece. Só que, como aponta o Rolando, mesmo para uma pessoa fazer o seu trabalho tranquilamente, não pode estar numa atitude combativa porque isso é autodestrutivo. Tudo o que há a fazer é fazer um bom trabalho educativo, paciente e bem feito. Promover uma atitude guerreira é contraproducente. Talvez o exemplo paradigmático do que estou a falar é o livro de Sagan, Um Mundo Infestado de Demónios: com a paciência que todo o educador deve ter, Sagan explica cuidadosamente por que as pseudociências e as crendices humanas estão erradas. Depois, cada qual pensa o que quer. Eu próprio tenho essa preocupação didáctica em muitas das coisas que escrevo: mostrar o que há de errado com certas ideias. Mas entre fazer isto e ter uma atitude guerreira há uma grande diferença.

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  19. Só mais uma coisa: sempre houve e sempre haverá crendice e tolice humana. Tudo o que podemos fazer é dar a quem quiser não ser tolo a possibilidade de não o ser. Quem quiser continuar a sê-lo, tem esse direito. E tem o direito de o ensinar, publicar e divulgar.

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  20. Boa tarde...

    «« As verdades expressam-se linguisticamente. Contudo, as línguas são constructos sociais: as pessoas criaram-nas. Concomitantemente, as línguas corporizam realidades culturais, reflectindo paroquialismos e parcialidades.»»

    Isto faz-me lembrar um dos versículos bíblicos, mais desconcertantes que eu li:

    A Humanidade, era um só povo e uma só língua e proposeram-se construir uma torre que chegasse ao céu... E assim tentaram fazer: só que o amoroso criador, não gostou dessa brincadeira e baralhou o idioma comum de tal maneira, que os homens, não conseguiram terminar a construção; e apartir daí, surgiram as mais estranhas e difíceis línguas de se compreender.

    E eu, que só sei falar o português, estou metido numa tremenda alhada, se fôr tornado obrigatório aprender o inglês, ou outro idioma internacional qualquer.

    Porque actualmente, parece-me que a Humanidade, está empenhada em adoptar um idioma comum a todas as nações, numa clara oposição à vontade de Joevá...

    Faço votos que seja o português!

    artur

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