26 de setembro de 2010

Uma por semana


Acabo de publicar a minha contribuição para as crónicas semanais da Crítica, com o título "Lógica, Psicologia e Epistemologia."

8 comentários:

  1. Desidério

    eu não consegui identificar a concepção formalista da lógica que você critica com a idéia cientificista de que a lógica terá de depender da experiência. Na verdade, me parece que o cientificismo que motiva essa concepção formalista está na idéia de que para a lógica ser científica ela precisa envolver matemática.

    Agora quanto à questão de saber se a concepção formalista ser maioria, eu não saberia dizer. Certamente o é no Brasil. Porém, a bibliografia que utilizo na minha pesquisa de lógica das condicionais está a mil léguas de distância dessa concepção e envolve lógicos respeitáveis como Read, Priest, Restall, Ernest Adams, Robert Stalnaker, entre outros. E não é necessário qualquer um dos componentes teóricos que um formalista consideraria essencial: teoria da demonstração, sistemas axiomáticos, etc, para compreender e dominar a bibliografia. Pelo menos 99% da bibliografia sobre a condicional material é não técnica.

    Seria bom que algum defensor dessa concepção de lógica defendesse aqui seu ponto de vista abertamente, pois fico com a sensação incômoda de que o Desidério argumenta para o vento e os formalistas vão falar pelas suas costas que você não tem rigor e está confundindo lógica com teoria da argumentação.

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  2. Não afirmo que a concepção formalista é cientificista, mas antes que a concepção psicologista o era, no séc. XIX. Fui até reler o artigo para ver se isso poderia ser sugerido, mas acho que não. Leste mal.

    Quanto ao resto: o que conta é esclarecer leitores de boa-vontade e estimulá-los a reflectir por si. Estou-me nas tintas para o que dizem de mim os meus colegas. Não encaro o meu trabalho como um despique para ver quem tem o pénis mais comprido. Escrevo e defendo aquilo em que acredito e investigo o que me parece interessante. O resto, não me interessa.

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  3. Desidério,

    «A lógica, se é alguma coisa, é uma teoria sobre algo. E o algo de que ela é teoria é constituído por dois tipos apenas de fenómenos: o fenómeno metafísico de ser impossível as premissas serem verdadeiras e a conclusão falsa, num argumento dedutivo válido; e o fenómeno epistémico de podermos descobrir esse fenómeno metafísico considerando apenas a forma lógica.»

    Ok, o primeiro facto metafísico parece-me razoavelmente pacífico. Mas quanto ao fenómeno epistémico haveria algo a dizer. A ideia é introduzir na lógica um elemento epistémico que satisfaça a exigência expressa na pergunta: Mas como posso saber que num argumento dedutivo válido é impossível as premissas serem verdadeiras e a conclusão falsa? E a resposta é: inspeccionando apenas a sua forma lógica. Mas não estaremos aqui a chamar a atenção para o fenómeno metafísico que consiste em a forma lógica de certos argumentos dedutivos válidos depender apenas da sua forma lógica.

    Digo isto porque me parece que estás a defender que a forma lógica é como se fosse apenas uma marca ou sinal epistémico que aponta para a validade e não o fenómeno metafísico que torna certos argumentos válidos.

    Será que me fiz entender?

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  4. Desidério

    tem razão, fiz confusão aqui! Você estava se referindo ao cientificismo do psicologismo, não do formalismo!

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  5. Boa questão, Aires. A resposta simples é: não sei. Mas sei que seja como for, é elementar que uma impossibilidade não pode resultar da forma lógica apenas. Seria como insistir que uma frase pode ser verdadeira apenas porque as suas palavras dizem o que dizem, como antigamente se pensava que ocorria com as analiticidades. Se isto fosse verdade, violaria um aspecto elementar da língua: que para qualquer "p", esta é verdadeira se, e só se, p. Ora, a validade é o que ocorre quando se dá uma certa relação de valores de verdade; daí que seja de esperar que também aqui a metafísica ocupe o lugar central.

    Um argumento dedutivo é válido se, e só se, é impossível as premissas serem verdadeiras e a conclusão falsa. Pensar que esta impossibilidade poderia resultar apenas da forma lógica seria insistir que, fosse o mundo como fosse, o argumento seria válido. Mas isto não é verdade: se o mundo permitisse que as premissas fossem verdadeiras e a conclusão falsa, o argumento seria inválido, ainda que tivesse a mesma forma lógica.

    Baralhei ainda mais?

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  6. Concordei totalmente com o artigo, e a passagem que eu iria destacar, mas o Aires já destacou, me pareceu uma expressão magnífica do que seja, realmente, o objeto de estudo da lógica.

    Acho que o impulso formalista tem sido, justamente, o de negar a todo custo esse "fenômeno metafísico". Mas por incômoda e estranha que a ideia seja, nunca pude ver como negá-la seria melhor - pois isto quase certamente resulta em que a "validade lógica" seja mera arbitrariedade.

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  7. Não, não baralhaste, Desidério. Mas a questão que te coloco agora é: será que existe algum mundo possível em que argumentos com a forma lógica do modus ponens, por exemplo, têm premissas verdadeiras e conclusão falsa?

    Seja como for, precisaria de penar melhor na tua resposta e, se fiquei baralhado, a culpa é minha.

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  8. Não estou comprometido com a ideia de que há mundos possíveis onde as premissas de um MP são V e a conclusão F.

    O que eu ataco é o seguinte: mesmo que em nenhum mundo possível as premissas de um MP sejam V e a conclusão F, daí não se segue que não é a realidade de cada um desses mundos a responsável por neles as premissas nunca serem V e a conclusão F.

    Talvez isto se compreenda melhor falando com um exemplo. O que faz a frase “A neve é branca” ser verdadeira é a realidade de a neve ser branca, no nosso mundo possível. E em cada mundo possível, a cor que a neve tem nele faz esta frase ser V ou F. Se a neve for branca em todos, a frase é uma verdade necessária, mas o que a faz necessária é ainda a neve ser branca em todos os mundos possíveis.

    Claro, esta frase é contingente, e portanto há mundos possíveis onde a neve não é branca e a frase é falsa. Mas o que eu disse desta frase diz-se de todas. Incluído a frase “Se a neve é branca, a neve é branca”, que é uma verdade lógica e portanto uma necessidade (se aceitarmos que todas as verdades lógicas são verdades necessárias).

    O que a faz ser uma verdade necessária? É a nossa linguagem? É a forma lógica? Não me parece. O que a faz ser uma verdade necessária é o que a faz, em cada mundo possível, ser verdadeira. E o que a faz em cada mundo possível ser verdadeira é o modo como cada mundo é.

    Agora podemos fazer uma pergunta mais profunda: e o que faz os mundos todos serem tal que em nenhum a frase é falsa?

    Mas a resposta a isto fica para outro artigo, talvez, ou outra caixa de comentários.

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