17 de outubro de 2010

Cidadania? Ou lavagem ao cérebro?


Aires Almeida opõe-se no texto "Educação para a Cidadania?" à politicamente correcta ideia de que a escola tem por missão a educação para a cidadania, tal como esta expressão é hoje entendida. O que pensa o leitor?

3 comentários:

  1. Olá a todos

    Subscrevo em absoluto o rotundo "Não" do Aires de Almeida!
    Além de concordar com a fundamentação dos argumentos, acrescento mais alguns.
    1-Normalmente quem fala de educação esconde-se atrás do eduquês que se dá "ares de", mas que ninguém entende na realidade. A educação para a cidadania parece ser mais um capítulo dessa novela. Nas margens dessa linguagem escondem-se além de todas as suspeitas do Aires de Almeida, ainda o facto do verdadeiro papel que as escolas representam hoje: um depósito de miudos que têm de ter alguma ocupação "cívica(?!)" até que os pais os apanhem no fim do dia de trabalho.
    2-Os atropelos da pedagogia básica do ensino responsável chegam ao cúmulo de não haver manuais de matemática no ensino básico, sendo estes substituidos por fotocópias avulso de iniciativa do Agrupamento(?!) ou do próprio professor(?!).
    3-é pedagogicamente aceite como benéfico o recurso a máquinas de calcular no 6º ano do ensino (antigo 2º do preparatório)???
    4-Quanto às avaliações, sabemos o regabofe que tem sido para ficarmos bem na fotografia das estatísticas internacionais, sem o menor respeito quer pelos professores que assumem a sua profissão como uma missão, quer pelos alunos que honestamente se esforçam.
    5-Que relevo pode ter a educação para a cidadania numa população que não sabe pensar? Que não sabe interpretar um texto cuja semântica não tenha X's e K's?
    6-O discurso da Cidadania faz-me recordar as discussões tão em voga no início da década de 90 do séc XX em Portugal, com o início das televisões privadas, sobre os conteúdos dos programas de televisão e as horas a que eram transmitidos, como se a educação das crianças não fosse um responsabilidade inalinável dos pais, que pudesse passar para a Televisão, para Escola ou outra qualquer entidade terceira foram da unidade familiar.

    Obrigado

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  2. No Brasil, os parâmetros curriculares nacionais indicam que a filosofia (e a sociologia) devem ser lecionadas de modo tal que o aluno possa exercer a cidadania.

    Isso é um problema duplo. Em primeiro lugar parece que as outras disciplinas não precisam se preocupar com a formação de valores críticos e de participação cidadã. (Para mim a Educação Física é um momento dos mais importantes para aprender a respeitar os outros e seguir regras de conduta)

    Em segundo lugar porque está suposto que valores morais podem ser adquiridos pelo estudo. Acho isso tão improvável quanto pedras falantes. Mesmo que transformemos o ensino de filosofia apenas no ensino da ética, isso não traria a menor garantia de que os estudantes seriam mais justos, honestos, participativos e o que mais se entende por "exercício da cidadania".

    Aliás, se o que se espera do aluno egresso da educação básica é isso, então não querem filosofia, mas doutrinação (quase) religiosa do que seja o certo e o errado.

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  3. Não conheço muito bem o contexto ao qual o texto está se referindo. Mas sei que, no Brasil, o lema "educar para cidadania" é um lugar comum nos discursos sobre educação tanto de educadores como de políticos e autoridades. Na verdade, o termo "cidadania" tem muitos sentidos e, por conseguinte, o lema "educar para a cidadania" pode ter muitos sentidos. Em um sentido formal, "cidadania" é um termo que denota um status e uma competência. Tenho, por exemplo, a cidadania brasileira em virtude de ter nascido no Brasil e de viver no Brasil. Se faço da parte sociedade brasileira, sou um cidadão brasileiro. Portanto, ser cidadão brasileiro é um status que tenho tanto do ponto de vista jurídico como do ponto de vista sócio-político. Mas, além do status, a cidadania também denota uma competência. Enquanto cidadão, posso exigir direitos e cumprir deveres. Ao ter certas atitudes e fazer uso de certas habilidades compatíveis com os direitos e deveres que estão vinculados ao meu status de cidadão, exerço certa competência, realizo certas ações e tenho determinadas expectativas. Se pensamos a educação para cidadania tal como explicitei, então este tipo de educação visa formar pessoas capazes de ter certas atitudes e posturas que são adequadas ao status que têm. O tipo de cidadão que se busca formar irá depender do tipo de sociedade ou Estado. A noção de educação pode ser entendida como um tipo de reprodução ou como uma forma de desenvolver e desvelar potencialidades. Se admitirmos o primeiro, educar para a cidadania é uma forma de sobrevivência e perpetuação de de uma sociedade, de seus valores e crenças. Se admitirmos o segundo ponto, educar para a cidadania é uma forma de fazer com que o ser humano se encontre ou se descubra como fazendo parte de uma sociedade, de uma comunidade, em que pode intensificar e exercer certas habilidades, certas ações, e, até mesmo dar um sentido para a própria vida, realizando, assim, a sua natureza. Neste caso, a natureza humana se resume à velha definição de Aristóteles, segundo a qual o homem é um animal político. Na minha opinião, a idéia de educação para a cidadania tem implicação com uma visão sobre a natureza humana, e esta estaria relacionada à dimensão política.

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