11 de outubro de 2010

Concurso: Provas para quê?


Para assinalar a publicação em Portugal do mais recente livro da colecção Filosoficamente, o livro A Ética da Crença, org. por mim e com tradução de Vítor Guerreiro e introdução minha, a Bizâncio, em colaboração com a Crítica, promove um concurso. Diz-se por vezes que para crer em Deus não são necessárias provas; mas será esta posição defensável? Porquê? Os autores das duas melhores respostas (sintéticas, bem argumentadas, informadas) receberão como oferta um exemplar do livro; a oferta abrange apenas Portugal. O concurso termina no próximo Domingo, às 17:00 de Lisboa. As respostas são dadas na caixa de comentários.

17 comentários:

  1. "PARA CRER EM DEUS SÃO NECESSÁRIAS PROVAS?"

    A minha resposta a esta pergunta é:

    "Para acreditar em Deus não são necessárias provas."

    Em seguida vou apresentar:
    1) a minha argumentação para defender esta minha resposta, e

    2) uma explicação para uma possível interpretação tendenciosa desta pergunta.

    Primeiro a defesa da minha resposta.

    1)Para acreditar em Deus não são necessárias provas pois para acreditar em alguma coisa em geral basta, simplesmente, acreditar, pois uma crença é um estado meramente subjectivo referente a uma atitude psicológica de aceitação em relação a uma determinada proposição: "Deus Existe", neste caso.

    Ou seja, para acreditar em Deus basta ter Fé, que é um tipo específico de crença (uma crença particularmente forte para quem acredita piamente). Mas isto é o mesmo que dizer que para "acreditar em Deus" basta "acreditar", o que é uma resposta banal mas a que a pergunta se presta.

    Agora segue uma tentativa de clarificação de um possível equívoco face a esta pergunta.

    2) Já se por por "ACREDITAR" queremos dizer "CONHECER" ou "ACREDITAR DE FORMA JUSTIFICADA" aí então a ausência de provas é injustificável, exactamente por que se para conhecermos algo é exigida uma justificação é por de mais óbvio que a falta de provas (ou outro tipo de justificação que convença um ser humano racional e ímpio) impede que se considere essa crença uma forma de conhecimento.

    Mas se aceitarmos esse significado para o conceito "ACREDITAR" utilizado na pergunta então estamos perante uma falsa pergunta, ou seja uma pergunta retórica onde de forma implícita já se avança com uma resposta.

    Se não vejamos, substituindo nesta 2ª versão enviezada da pergunta "acreditar" pelo seu significado implícito "acreditar de forma justificada" e substituindo também "provas" pelo seu significado implícito "justificação" ficamos com a seguinte pergunta:

    "PARA ACREDITAR DE FORMA JUSTIFICADA EM DEUS É NECESSÁRIA UMA JUSTIFICAÇÃO?

    Ora, esta pergunta é claramente uma falsa pergunta, mas é que o transparece se aceitarmos esta leitura enviezada (repito) dos conceitos utilizados.

    Desta forma julgo que ficou provado que:

    1 - Ou estamos perante uma verdadeira pergunta (em que o conceito de "acreditar" é simplesmente "ter uma crença", e aí a resposta é: "Para acreditar em Deus não são necessárias provas."

    2 - Ou então estamos perante uma pergunta retórica e aí não vale a pena avançar na investigação pois ela já contém em si a resposta a si própria.

    Assim, esta pergunta ou é uma verdadeira pergunta e a sua resposta é quase banal, ou então é uma falsa pergunta (uma pergunta retórica) e nem sequer merece resposta.

    abraços,

    Tomás Magalhães Carneiro

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  2. Tomás,
    1) uma adesão sem mais a uma crença só me parece ocorrer em crianças ou agentes cognitivos pouquíssimos sofisticados. Mesmo quando aceitamos afirmações do tipo "o sol converte hidrogênio em hélio" ou ainda "Papai Noel existe", só aceitamos porque confiamos na autoridade de quem diz (testemunho). Mesmo aquelas crenças da roça coma a crença no Lobisomen, pretendem ser justificadas (o sumiço das galinhas durante à noite se dá porque o Lobisomen as come). Portanto, não me parece que alguém minimamente sofisticado seja capaz de aderir sem mais a qualquer crença que seja.
    2) Se não é o caso que aceitamos uma crença sem mais, temos de arrumar uma justificação qualquer (por mais tola que seja).
    3) Bem, mais então a crença em Deus é totalmente aceitável, uma vez que basta arrumar uma justificaçãosinha qualquer, com por exemplo, me justificar pelo testemunho do padre. Sim, mas isto só prova que aceitar uma crença envolve o mínimo de justificação.
    4) Já a justificação ser boa ou não é outra coisa. No caso da existência de Deus, como não há o mínimo consenso e muitos argumentos contra sua existência, é de se esperar que um crente na existência de Deus tenha uma boa resposta, e, por consiguinte, uma justificação razoável.

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  3. Luiz,

    parece-me que as "justificações" que falas para podermos ter uma crença (concordo contigo que tem de existir alguma coisa que provoque a crença) aproximam-se mais de "racionalizações" que de provas. Como é no caso da crença no lobisomem ou na autoridade do padre para acreditar em Deus.
    O termo "Racionalizações" não será o adequado, chamemos-lhes antes "modos de inferência pouco racionais mas bastante humanos" - "wishfull thinking" será o termo correcto que não sei como traduzir para português.

    ps - de qualquer forma para já sou o principal candidato ao prémio final uma vez que não apresentaste um argumento mas uma refutação ao meu ;)
    A não ser que o júri considere que sem uma qualidade mínima nas respostas o prémio não será atribuido a ninguém o que seria extremamente humilhante caso eu continue a ser o único concorrente. Nesse sentido apelo à participação dos leitores para não dar ao júri um pretexto para usar a cláusula da "qualidade mínima" e dessa forma a minha "derrota" passar mais despercebida

    abraços,
    Tomás

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  4. Tomás,

    acho que estás a confundir duas coisas: o facto psicológico da crença e o facto epistémico da crença.

    se eu perguntar se é legítimo acreditar que a água tem a estrutura química tal e tal, é óbvio que não me estou a referir ao mero acontecimento psicológico de ter uma crença. Isso seria, como muito bem dizes, trivial, uma vez que nada me impede de acreditar que a água tem a estrutura química XYZ. O que estou a perguntar é se tenho legitimidade epistémica para acreditar sem provas que a água tem essa estrutura química.

    Ora, uma crença é uma representação do mundo que pode ser verdadeira ou falsa (há outras representações que não são crenças). Já sabemos que a fé denota uma classe específica de crenças: as crenças que aceitamos independentemente de haver ou não haver uma demonstração racional delas (não têm de ser crenças que não podem ser racionalmente demonstradas). Claro que do ponto de vista psicológico eu posso acreditar sem provas que Deus existe, nada me impede. Mas a questão filosófica interessante é a de saber se essa classe de crenças é ou não epistemicamente virtuosa e porquê.
    enquanto facto epistémico, a minha crença não é puramente subjectiva, pois é um facto que eu tenho uma certa representação acerca do mundo, e é um facto metafísico que essa crença tem um certo valor de verdade, independentemente de eu ter ou não uma demonstração racional dela.

    a leitura puramente psicológica, visto ser trivial, pode fazer-te incorrer no risco de estares a lutar contra um espantalho.

    também me parece que estás a entender o simples colocar a questão da legitimidade epistémica da fé como uma espécie de ataque às pessoas que decidem acreditar sem provas. mas não se trata disso. o problema epistemológico de saber se a fé é epistemicamente virtuosa faz tanto sentido como o problema de saber se a aceitação de argumentos de autoridade para as nossas crenças científicas é epistemicamente virtuosa.

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  5. estás também a incorrer numa falsa dicotomia, pois apresentas a situação como se se tratasse de escolher entre duas perguntas: a versão trivial (leitura psicológica) e a versão "retórica", que consistiria em perguntar se precisamos de justificação para crer justificadamente.

    Ora, como não é claro à partida se a justificação é critério (ou o único critério) de virtude epistémica... essa alternativa é uma falsa dicotomia, e a pergunta original não equivale à pergunta redundante "precisamos de justificação para crer justificadamente?"

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  6. olá Vitor,

    aceito que a versão trivial da pergunta me faria argumentar contra um boneco de palha - é claro que desconfiava que não se tratava dessa interpretação da pergunta ;)

    Mas ainda não me convenceste de que se trata de uma falsa dicotomia, pois na segunda versão da pergunta, para não ser meramente retórica temos de aceitar que a justificação não é um critério necessário para a tal "virtude epistémica".

    Só se aceitarmos como pertinente um argumento que defenda que não é necessário esse critério é que a pergunta (e a resposta) deixam de ser redundantes.

    Mas fico então à espera que alguém defenda que a crença não justificada pode ser "epistemicamente virtuosa".

    PS - como já tenho o livro em causa podemos trocar o prémio, caso me seja atribuido, por uma viagem às Bahamas?

    abraço,
    Tomás

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  7. mas o que está em causa é precisamente saber se uma crença sem justificação pode ser epistemicamente virtuosa e como. Nem sequer é claro que todas as crenças justificadas sejam epistemicamente virtuosas. A justificação não garante a verdade da crença, porque podemos estar enganados quanto à justificação sem o sabermos, ou podemos estar a ser vítimas de um preconceito sem nos apercebermos. A ideia de que a justificação garante a verdade é como a ideia de que a certeza garante a verdade.

    Não se trata de saber se as pessoas podem ter fé, mas de saber se algo confere virtude epistémica à fé.

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  8. Olá,

    Acabei de ler a resposta do Tomás e, como estou já de saída, não tive tempo de ler os comentários seguintes. Mas há uma coisa que o Tomás tornou clara: no mínimo, a pergunta é ambígua.

    Quero dizer com isto que a interpretação da pergunta feita pelo Tomás é perfeitamente aceitável. Isto porque, tomada literalmente, não é claro que a pergunta tenha um sentido normativo.

    Ok, podem perguntar-me: mas porque sugeres que é suposto a pergunta ter um sentido normativo? Não será porque há ali elementos que apontam para aí e que, portanto, o Tomás deveria interpretar a pergunta normativamente?

    Talvez. Mas este "talvez" mostra precisamente que a pergunta deveria ser reformulada.

    De resto, é completamente claro que não é necessário ter provas para acreditar seja no que for. E esta suspeito que nem sequer é uma questão filosófica. Mas posso estar a ver mal as coisas, claro.

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  9. Parece-me que quando perguntamos se é defensável pensar que não precisamos de provas para acreditar em Deus estamos já a sugerir que isso acontece com frequência: as pessoas pensarem que não precisam de provas para acreditar em Deus. Ora, parece também razoavelmente claro, ainda que isso não seja explícito, que não se trata de saber se as provas tornam possível a crença.
    É um pouco como perguntar se precisamos de seguir o código da estrada para conduzir. não se trata de perguntar se é possível conduzir sem respeitar o código da estrada porque as pessoas fazem isso frequentemente.

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  10. Lida no sentido do que torna a crença possível, a questão torna-se absurda. A humanidade não começou a formar crenças depois de ter descoberto que há umas coisas chamadas "provas".

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  11. Aqui vai a minha humilde tentativa de responder à questão inicial…
    «Diz-se por vezes que para crer em Deus não são necessárias provas; mas será esta posição defensável? Porquê?»

    A minha tese é a seguinte: Para se crer em Deus, ou em outros seres ou realidades, são necessárias provas.

    No entanto, é preciso clarificar inicialmente o conceito de prova; pois, “prova” é um termo polissémico que pode levantar vários equívocos. Com “prova” podemo-nos referir às provas científicas (como as de biologia e física), às provas lógicas e/ou a priori (como em filosofia), às provas testemunhais (como nos tribunais ou em história), etc…
    No caso concreto de Deus, que tipo de prova se poderá pedir? Será possível uma prova científica em que analisamos em laboratório, com microscópios ou telescópios por exemplo, indícios da existência de Deus? Talvez este tipo de prova não seja possível, uma vez que a tradição refere-se ao conceito de Deus como o criador do universo, ou como um ser transcendente e trans-espacio-temporal, não estando portanto dentro do universo (como o bule celestial de Russel à volta do sol). Ora, tendo em conta que a ciência só trata de fenómenos do universo material, de realidades espacio-temporais, e tendo em conta que Deus é, segundo a tradição, um ser trans-espacio-temporal que não está delimitado pelo universo; então, a ciência não pode provar ou desaprovar Deus. Portanto, temos que arranjar outro tipo de prova. Será que as provas lógicas e/ou a priori cumprem este requisito? É bastante possível, pois a forma lógica e a priori de raciocinar não se limita às entidades espacio-temporais, nem a experiências empíricas, nem sequer àquelas que são susceptíveis de investigação com instrumentos de laboratório. As provas a priori fazem-se unicamente pelo pensamento e são susceptíveis de abordar realidades trans-espacio-temporais como “2+2=4” ou como a possibilidade lógica de “Deus”. Pelo menos ao longo da história da filosofia conceberam-se várias provas/argumentos deste tipo; veja-se por exemplo o famoso argumento ontológico. Logo, pode ser uma das vias para provar ou desaprovar Deus. E a prova do testemunho também servirá? É verdade que a maior parte dos conhecimentos que temos se devem ao testemunho. E no caso de Deus até pode ser uma via que pode servir; imaginemos que Deus se revela efectivamente a uma comunidade e essa comunidade transmite de geração em geração todo um conjunto de crenças acerca de Deus e de vivências relacionais com Ele (é o que acontece mais ou menos com o Judaísmo e Cristianismo). Porém, isto levanta algumas questões: como sabemos que o testemunho é verdadeiro? Para além disso é importante analisar as condições de aceitação de um testemunho: independência das testemunhas; convergência de várias testemunhas; o facto testemunhado ser público e facilmente reconhecível; competência e veracidade das testemunhas, etc… Portanto, na prova testemunhal convém analisar bem estas condições para provar ou desaprovar um Deus ou uma religião.

    (Continua...)

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  12. Aqui vai a minha humilde tentativa de responder à questão inicial…
    «Diz-se por vezes que para crer em Deus não são necessárias provas; mas será esta posição defensável? Porquê?»

    A minha tese é a seguinte: Para se crer em Deus, ou em outros seres ou realidades, são necessárias provas.

    No entanto, é preciso clarificar inicialmente o conceito de prova; pois, “prova” é um termo polissémico que pode levantar vários equívocos. Com “prova” podemo-nos referir às provas científicas (como as de biologia e física), às provas lógicas e/ou a priori (como em filosofia), às provas testemunhais (como nos tribunais ou em história), etc…

    (Continua...)

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  13. (Continuação da resposta...)

    No caso concreto de Deus, que tipo de prova se poderá pedir? Será possível uma prova científica em que analisamos em laboratório, com microscópios ou telescópios por exemplo, indícios da existência de Deus? Talvez este tipo de prova não seja possível, uma vez que a tradição refere-se ao conceito de Deus como o criador do universo, ou como um ser transcendente e trans-espacio-temporal, não estando portanto dentro do universo (como o bule celestial de Russel à volta do sol). Ora, tendo em conta que a ciência só trata de fenómenos do universo material, de realidades espacio-temporais, e tendo em conta que Deus é, segundo a tradição, um ser trans-espacio-temporal que não está delimitado pelo universo; então, a ciência não pode provar ou desaprovar Deus. Portanto, temos que arranjar outro tipo de prova. Será que as provas lógicas e/ou a priori cumprem este requisito? É bastante possível, pois a forma lógica e a priori de raciocinar não se limita às entidades espacio-temporais, nem a experiências empíricas, nem sequer àquelas que são susceptíveis de investigação com instrumentos de laboratório. As provas a priori fazem-se unicamente pelo pensamento e são susceptíveis de abordar realidades trans-espacio-temporais como “2+2=4” ou como a possibilidade lógica de “Deus”. Pelo menos ao longo da história da filosofia conceberam-se várias provas/argumentos deste tipo; veja-se por exemplo o famoso argumento ontológico. Logo, pode ser uma das vias para provar ou desaprovar Deus. E a prova do testemunho também servirá? É verdade que a maior parte dos conhecimentos que temos se devem ao testemunho. E no caso de Deus até pode ser uma via que pode servir; imaginemos que Deus se revela efectivamente a uma comunidade e essa comunidade transmite de geração em geração todo um conjunto de crenças acerca de Deus e de vivências relacionais com Ele (é o que acontece mais ou menos com o Judaísmo e Cristianismo). Porém, isto levanta algumas questões: como sabemos que o testemunho é verdadeiro? Para além disso é importante analisar as condições de aceitação de um testemunho: independência das testemunhas; convergência de várias testemunhas; o facto testemunhado ser público e facilmente reconhecível; competência e veracidade das testemunhas, etc… Portanto, na prova testemunhal convém analisar bem estas condições para provar ou desaprovar um Deus ou uma religião.

    (Continua...)

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  14. (Continuação da resposta...)

    Após analisar estes três tipos de provas (que não esgotam outros tipos de prova) estamos em condições de reformular a nossa tese inicial: Para se crer em Deus são necessárias provas, como por exemplo: provas lógicas/a priori ou provas testemunhais, mas não provas científicas (como as de biologia ou física).

    Porém, vamos supor que para se acreditar em Deus não são necessárias provas de qualquer tipo. Ora, se uma pessoa não tem provas de Deus como sabe que ele existe na realidade? Não será antes uma ilusão? Sem provas, qual seria a diferença entre acreditar em Deus, e em Zeus, em Pégaso, em Baal, no Pai Natal, ou noutra entidade ficcional? Terá mesmo sentido dizer que Deus existe “porque sim”? Até que ponto será sensato as pessoas poderem agir com base em personagens ficcionais? Vamos a uma experiência mental: Suponhamos uma pessoa malévola (denominada por ABC) que para aterrorizar e gozar com as outras pessoas imagina e cria ficcionalmente uma espécie de Deus, um “Génio Maligno” (que é egótico e narcísico, mandando para o inferno quem não gostar d’Ele). Esta pessoa malévola ABC (que se auto-intitula como enviado especial desse Deus) vai pregar dogmaticamente que esse Deus existe e que se as pessoas não acreditarem veemente n’Ele vão passar uma vida eterna a arder em chamas. Ora, como as pessoas concebem que para acreditar em Deus não precisam de qualquer tipo de provas e como têm medo de passar o resto da vida a serem chamuscados pelo lume eterno, então vão acreditar dogmaticamente nesse Deus inventado. Não será isto absurdo? Não seria preferível as pessoas acreditarem com base de provas (ou seja, investigar e pensar mais e melhor) para evitar todo aquele incómodo e sofrimento? É claro neste exemplo a manipulação que o ser humano pode sofrer ao dogmaticamente acreditar em algo sem provas. Logo, parece que essas pessoas teriam a ganhar, quer em qualidade de vida, quer em felicidade, a acreditar com base de provas (pois, não se deixariam facilmente enganar por aquela pessoa maligna que inventou esse Deus Malévolo que é castrador da felicidade humana).

    Penso que ao acreditarmos com base em provas pode ser uma atitude inclusive epistemologicamente virtuosa, pois: [1] não nos deixamos facilmente manipular; [2] com as provas queremos saber e justificar realmente que essa entidade existe (ou pelo menos que é bastante plausível); [3] as provas dão-nos segurança para nos relacionarmos realmente com outras entidades (sem existir o risco da mentira, ilusão ou ficção). Em suma, as provas constituem um caminho para uma verdade mais objectiva.
    No caso de Deus, não existem provas totalmente verdadeiras sem margem para a mínima dúvida. Muito pelo contrário. Existem muitas provas que aprovam e desaprovam a existência de Deus; neste horizonte temos que encontrar aqueles argumentos e provas que parecem ser mais plausíveis. No entanto, apesar de não existirem provas ou argumento que refutem ou aprovem de uma forma completa e total a existência de Deus, penso que o ser humano só tem a ganhar por crer com base em provas (como aludi com as razões acima apresentadas).

    Não posso terminar sem antes referir mais uma condição necessária para existir crença em Deus (para além das provas). Pois, de que vale ter algumas provas plausíveis da existência de Deus, se cairmos em fundamentalismos e em intolerâncias que só acabam por espalhar terror pelo mundo? Para evitar estes excessos é essencial o “pensamento crítico” que está sempre disposto a rever as nossas crenças e a aprender com as críticas do outro, pois, somos seres falíveis e só podemos compreender e viver melhor a realidade dialogando criticamente com os outros e pensando outra vez…

    Logo, a minha tese final é a seguinte: Para se crer em Deus é necessário pensamento crítico e provas, como por exemplo: provas lógicas/a priori ou provas testemunhais, etc…, mas não provas científicas (como as de biologia ou física).

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  15. Parabéns ao Tomás e ao Domingos, os vencedores do nosso concurso -- que infelizmente teve poucos participantes. Enviem por favor para o meu email os vossos endereços postais, para a editora vos enviar os livros.

    Gostei da desmontagem que o Tomás fez da imprecisão da pergunta inicial. Eu fi-la do modo que fiz, precisamente para dar oportunidade a um esclarecimento desses: quando dizemos “Poderemos realmente acreditar no Big Bang?” ou algo do género, o que queremos realmente perguntar é “Teremos boas razões para acreditar no Big Bang?” No que respeita a Deus, pergunta-se imprecisamente: “Poderemos acreditar em Deus sem provas?” Mas o que se quer perguntar é: “Será epistemicamente legítimo acreditar em Deus sem provas?” O livro que organizei reúne precisamente três respostas a esta pergunta. A primeira, de Clifford, que responde que não; a segunda, de James, que responde que sim; e a terceira, de Plantinga, que reafirma que sim. No meu texto, que antecede esses três, apresento várias noções e ideias que visam ajudar o leitor a discutir o tema por si.

    Gostei também da resposta cuidadosa do Domingos, que revela uma reflexão pessoal sobre o tema. Espero que o livro o ajude a desenvolver melhor as suas ideias.

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