3 de outubro de 2010

Filosofia da Arte

As livrarias portuguesas, mesmo as melhores, têm destas coisas: quase conseguem esconder bem escondidos alguns livros dos seus potenciais interessados. Não seria a primeira nem a segunda vez que entro na Fnac para procurar um dado livro de filosofia, saindo de lá sem o ter comprado. Isto apesar de terem lá vários exemplares disponíveis, coisa que só venho a saber posteriormente. Poderia ter, mais uma vez, ocorrido comigo esta tarde. Felizmente, um mero acaso fez-me olhar para o sítio errado, descobrindo assim uma excelente novidade editorial no domínio da filosofia. Trata-se de Filosofia da Arte, do conhecido filósofo da arte americano Noël Carroll. O livro não se encontrava na secção de filosofia, apesar do título, mas nos livros de arte — depois não se admirem se ficarem meses nas estantes sem ninguém lhes pegar.

Conheço muito bem o livro e é, sem dúvida, o melhor que já li sobre a questão da definição da arte: apresenta sempre definições muito claras e precisas; recorre a abundantes exemplos esclarecedores de todos os tipos de arte, tanto de arte antiga como contemporânea, da pintura e da música — incluindo a música rock e pop — à arquitectura, passando pelo cinema, literatura e até televisão; procede regularmente à reconstituição de argumentos, de modo a facilitar a sua avaliação crítica; inclui pequenos resumos com as principais ideias no final de cada capítulo e, acima de tudo, é tudo tratado com grande rigor e actualidade, o que não é de espantar de um dos filósofos mais destacados na área.

O título do livro é algo enganador, pois não trata de outros problemas de filosofia da arte. É mesmo quase só sobre a questão da definição de arte. Mas é uma questão central.

Tenho o livro nas minhas mãos há pouco mais de uma hora, pelo que não posso dizer grande coisa sobre a qualidade da tradução portuguesa, feita por Rita Canas Mendes, para as Edições Texto & Grafia. Mas, do pouco que já vi, posso dizer que a impressão geral é boa: graficamente segue rigorosamente o original, tem o índice geral no princípio e o índice remissivo não falta no fim. Além disso, reparei que há notas de tradução oportunas e informativas. A única coisa que já confrontei com o original foram as citações sobre o livro, na contracapa, que registo aqui para o leitor tirar também as suas próprias conclusões:

This book will take its place as the very best introduction to the subject on the market. Because of his vast knowledge of the popular arts as well as the traditional high arts, both old and new, Carroll is able to provide an enormous variety of examples that will speak to a very wide audience.
Professor Peter Kivy, Rutgers University

«Este livro é a melhor introdução que existe sobre a matéria; Carroll, pelo seu vasto conhecimento da arte popular e erudita, dá uma enorme variedade de exemplificações que atingirão uma vasta audiência».
Peter Kivy, Rutgers University

Parece-me algo desleixado, mas também sei que estes textos por vezes não são da responsabilidade do tradutor do livro, pelo que pode não reflectir o que está lá dentro. Seja como for, esta tradução é uma excelente novidade.

9 comentários:

  1. E quando acontece coisas semelhantes a traduzires correctamente "exemplos" e constatares só no livro impresso que alguém decidiu sem mais discussão que "exemplificações" ficava melhor?
    É muito provável que esses comentários da contracapa tenham sido traduzidos à pressa por outra pessoa.

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  2. Por muito metódico que sejas a traduzir, nada disso tem um especial valor em culturas como a nossa. Agora, se fores um escritor de meia tigela que faz uns romances de chacha, a usar expressões como "o calor comprimia o ar" (esta vi mesmo numas provas há uns anos), a narrar umas merdices cheias de dores na alma e no corno... és tratado como um gajo quase omnisciente, cheio de opiniões fortes acerca de tudo, da metafísica à política, da estética à culinária. É uma das coisas francamente intrigantes na nossa cultura: o culto dos escritores, como se não fossem apenas gajos que contam histórias, sendo uns melhores do que outros nisso. Aceitam-te tudo carago, até o não saber escrever.

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  3. Aires,
    O que dizes em relação às livrarias é parcialemente verdade. Mas creio que depende muito do funcionário. POr exemplo, passei na Fnac esta semana para comprar a ètica da Crença e quando vi o funcionário de serviço vi logo que esse jamais iria dar-se ao trabalho de ir ao armazém buscar o livro. E foi o que aconteceu. Simplesmente me disse que somente após o fim de semana iria ser exposto o livro, mesmo que me tivesse dito também que tinham 5 em armazém. Mas eu sabia que se estivessem outros funcionários que não aquele que se iriam desfazer para satisfazer o meu pedido.
    Outro aspecto que não mencionas mas que me parece importante: a grande maioria do público que faz da filosofia a sua actividade profissional - os professores de filosofia - agem como há 30 anos atrás, quando no mercado pouco mais existia que umas sebentas traduzidas do francês e que levavam na capa o nome de um tuga qualquer como se fosse um livro que tivessem produzido. Estou numa mega escola com 28 professores de filosofia e ainda não vi nenhum que trouxesse na mão um livro de filosofia acabado de sair. De que adiantaria aos livreiros exporem os livros de filosofia se os próprios embaixadores da filosofia em portugal se estão nas tintas para os livros? Portanto, eu não acho que os livreiros tenham tanta responsabilidade assim a vender livros de filosofia e aposto até que um livrode filosofia exposto no escaparate das artes é capaz de vender melhor do que se estivesse no escaparate de filosofia.

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  4. Vítor, essa das "exemplificações" em vez de simplesmente "exemplos", como está no original salta logo à vista. Porquê esta mania de retorcer o que lá está, tornando o que é simples mais complicado e impreciso? Bom, trata-se de uma pergunta retórica, pois creio que ambos sabemos a resposta. Podes crer que estava ainda eu com o livro na mão na livraria e vi logo que que aquilo devia estar errado, mesmo sem ver o original. Alguém que saiba falar claramente diz, por exemplo, "dá-me lá exemplificações de bons compositores portugueses contemporâneos" em vez de "dá-me lá exemplos de bons compositores portugueses contemporâneos"? Irra!

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  5. Rolando, claro que não menciono muitas outras coisas. Mas a ideia também não era essa. Poderia até escrever um logo artigo sobre o assunto, que ainda ficaria algo por dizer. Mas o que quis foi escrever só um pequeno post a divulgar o livro.

    De resto, o que digo é verdade, sim senhor, pois tenho-o verificado recorrentemente. Há várias razões para certos livros não se venderem, entre as quais os potenciais interessados não se interessarem por eles (tenho a impressão, espero que errada, de que uma grande parte dos professores de filosofia não querem saber da filosofia para nada). Mas outra das razões é os livros não se encontrarem onde é suposto estarem.

    Olha, procurei uma data de vezes na Fnac o livro Ética do Aborto, coordenado pelo Pedro Galvão e nunca o encontrei. Acabei por o comprar na Bertrand (que nem sequer é bem uma livraria; é mais um quiosque de livros). Um dia um colega meu disse-me que também não o encontrava na Fnac, até que perguntou ao funcionário, que o foi buscar à secção de... medicina! Isto é uma falta de profissionalismo imperdoável.

    Um leitor informado de filosofia procura os livros que lhe interessam na secção de filosofia, não achas?

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  6. Caro Aires de Almeida,

    Fico muito contente por saber que encontrou o livro (de resto, uma absoluta novidade) e por este lhe ter causado boa impressão inicial.

    Aproveito para esclarecer que não traduzi essas notas ou outros textos promocionais relativos ao livro, responsabilidade que coube à casa editora.

    Espero que a versão portuguesa da obra não o decepcione e estarei à disposição para analisar, esclarecer e debater quaisquer questões que possam surgir.

    Quanto aos índices, num post meu (http://timenoughatlast.blogspot.com/2010/09/critica.html) comentando um seu (http://criticanarede.com/html/editores.html), também já me debrucei sobre esse assunto.

    E tem inteira razão no que diz quanto às livrarias - é um facto que os funcionários nem sempre estão preparados para a função que exercem; poderia relatar aqui dezenas de casos parecidos com os referidos. Cumpre aos clientes/leitores elevar o nível de exigência, sugerindo, reclamando, boicotando a compra quando é mal atendido e por aí fora…

    Com votos de boas leituras,
    Cordialmente,

    Rita Canas Mendes

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  7. É um prazer ver por aqui a Rita. Saiba que no Brasil os meus alunos estão a ler a sua tradução do Clive Bell, que fazia imensa falta.

    Aproveito para voltar ao The Art Instinct, e a um pormenor revelador da balda que é a sua edição portuguesa. Na capa lê-se:

    "Existirá uma predisposição genética para apreciar um romance de Jane Austen?"

    Já na contracapa lê-se:

    "Será possível que exista uma predisposição genética nos humanos etc."

    Um editor que não vê a diferença entre estas duas formulações tem uma grave deficiência na compreensão da língua. Há uma diferença brutal entre ambas. Que é possível que exista tal predisposição genética é trivial -- tal hipótese não viola qualquer lei da natureza. Pelo que esta pergunta é destituída de interesse. O que queremos realmente saber é se realmente temos tal predisposição, e não apenas se será possível que a tenhamos. Enfim, mais uma mancha numa edição muito manchada.

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  8. Cara Rita,

    Tenho de lhe dizer que esta não é a primeira boa surpresa vinda de si, pois já o clássico Arte, de Clive Bell, tinha produzido o mesmo efeito.

    Isto significa que da próxima vez basta ver que a tradução é sua e a decisão irá ser muito mais simples.

    É por isso que insisto que os livros deveriam indicar na capa o nome do tradutor.

    Apareça sempre.

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