3 de outubro de 2010

Intuições filosóficas?


A crónica semanal deste Domingo tem por título "O Problema das Intuições" e é da autoria de Matheus Silva.

8 comentários:

  1. "A principal é que a sua posição é incoerente, pois os próprios filósofos experimentais usam intuições que não foram confirmadas a partir de testes — por exemplo, dependem da intuição de que apenas as intuições que foram testadas empiricamente são confiáveis".

    Isso é um problema mesmo? O filósofo experimental não poderia argumentar o seguinte:

    Suponha que as intuições são confiáveis. Temos a intuição de que se as intuições variarem de maneira irremediável, então as intuições não são confiáveis. Temos dados empíricos de que as intuições variam de maneira irremediável. Por redução, as intuições não são confiáveis.

    Neste caso será que existe alguma pressuposição que faz o argumento se tornar incoerente?

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  2. Esta saída não funciona, pois a tese de que as intuições não são confiáveis porque variam de maneira irremediável é ela mesma justificada por uma intuição. A razão independente para sustentar essa intuição, que são os dados empíricos, também se baseia na intuição de que os dados empíricos são relevantes. Intuições filosóficas nessas discussões são como a própria noção de verdade objetiva: não é possível colocá-las em causa sem se contradizer porque elas são mais fundamentais e estão presentes em qualquer tentativa de abandoná-las.

    Pense na analogia da escada do primeiro Wittgenstein e considere a escada como as intuições: o que acontece é que uma vez que chegamos no topo não temos nenhuma razão para jogar a escada fora, pois ela funciona. Mais do que isso, se jogarmos a escada fora, caímos com ela.

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  3. Talvez o argumento não funcione por alguma outra razão, mas ainda não parece que seja auto-contraditório.

    É um raciocínio por redução. Supomos inicialmente que as intuições são confiáveis. Daí podemos utilizar ao longo do argumento qualquer coisa que dependa das intuições. No final chegamos a uma contradição. Só daí abandonamos a suposição inicial, de que as intuições são confiáveis.

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  4. Eu sei que é uma redução ao absurdo, mas é auto-refutante mesmo assim: essa saída depende da suposição de que argumentos por redução ao absurdo são válidos, mas como demonstrará isso sem recorrer à intuições?

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  5. Ou seja, você será obrigado a admitir que pelo menos uma intuição é confiável: a de que a redução ao absurdo é válida. Do contrário sua resposta não funciona. Mas se a sua resposta funciona e as intuições não são confiáveis então não temos razoes para admitir que a redução ao absurdo funciona e assim sua resposta não funciona. Em suma: se sua resposta funciona, ela não funciona. Se sua resposta não funciona, ela também não funciona. Logo sua resposta não funciona de qualquer modo.

    Eu volto a repetir: a auto-refutação que ocorre aqui é muito semelhante à auto-refutação do relativista epistêmico. Não é possível argumentar a partir de lugar nenhum para recusar a noção de verdade objetiva ou o uso das intuições.

    De qualquer modo, mesmo concedendo que esse problema fundamental não exista, ainda é preciso demonstrar que a intuição que serve de premissa, que consiste num suposto desacordo de intuições demonstrado nos dados empíricos, é verdadeira. E não vejo nenhuma boa razão para acreditar nessa premissa.

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  6. Ah, ok. Agora melhorou.

    Não me é de todo em todo claro que a validade da redução ao absurdo dependa das intuições, mas é provável que dependa mesmo.

    A segunda premissa também acredito que seja falsa.

    O ponto era só que a posição do filosofo experimental não é tão óbviamente auto-refutante.

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  7. Nada em filosofia é óbvio, mas não vi nenhum problema na minha objeção - voltei ao texto para ver se havia alguma premissa suprimida, mas não vi nada de errado. O argumento vem precedido de outro argumento similar aplicado ao empirismo radical.

    Você disse que à primeira vista o experimentalista radical pode utilizar uma redução ao absurdo para escapar da acusação de auto-refutação. Isso é corriqueiro, é um argumento comum: o relativista epistêmico também pode utilizar essa estratégia, à primeira vista. Se o relativismo não deixa de parecer ser auto-refutante por isso também não o deixa de parecer auto-refutante o experimentalista.

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  8. Não tem nada de errado com os argumentos do texto mesmo. Os argumentos do experimentalista que você apresentou no texto parecem óbviamente auto-refutantes mesmo.

    O meu ponto é apenas que o experimentalista radical pode recorrer a um argumento por redução ao absurdo, que não é óbviamente auto-refutante.

    Se a justificação das verdades lógicas depender das intuições, então o argumento é auto refutante na mesma. Se a justificação das verdades lógicas não depender das intuição, então o argumento já não é auto refutante.

    Agora, se a justificação das verdades lógicas depende ou não das intuições, é uma tese mais substancial que não é óbvia. Você pode defender que depende, e que o argumento é de fato auto-refutante. O experimentalista pode defender que não depende, e que o argumento não é auto-refutante.

    Agora já não é tão fácil refutar o experimentalista por essa via.

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