10 de outubro de 2010

Para que serve a filosofia?


"A filosofia não serve para nada se não servir para transformar o mundo," ouve-se por vezes dizer. Mas o Vítor Guerreiro discorda aqui. E o leitor?

19 comentários:

  1. Creio que a interpretação de Vítor Guerreiro força um sentido para a célebre ideia de Marx que não se encontra no texto e a enquadra enquanto resposta a problema que ela não pretendia resolver. Guerreiro interpreta o raciocínio de Marx como se ele escondesse uma proposição que defendesse que “compreender o mundo é não servir para nada”. Sendo que tal acrescento não se encontra no que Marx aí escreve. Nem se encontra no que está escrito uma negação da utilidade da Filosofia. Não se compreende assim onde está ancorada a ideia de que a frase é uma versão restrita da ideia de que a Filosofia não serve para nada…
    Encontra-se na frase que Marx defende que a Filosofia precisa de ser mais do que compreensão. Não se escreve que a compreensão não tem valor “por não ser uma “arma de arremesso” na transformação política da sociedade”. O que será discutível na frase é a distinção (rígida?) entre compreender e transformar o mundo ou mesmo se a valoração da “transformação” como superior relativamente à “compreensão” será lícita.
    A imagem de Marx como um irracionalista que é sugerida no trecho seguinte é apenas uma má caricatura: “No caso de Marx, a atitude não é particularmente sábia, uma vez que se queremos mudar o mundo, não será má ideia tentar compreendê-lo tão bem quanto possível. O próprio Marx passou anos a escrever O Capital, que é também uma “interpretação do mundo.” Como é óbvio Marx não terá sido ingénuo ou defensor de um aventureirismo ignorante ao ponto de pensar em transformar o mundo sem o compreender, gostemos ou não da sua compreensão do mundo e da sua tentativa de alteração. Ou não terá sido tão inconsequente como o defensor da inutilidade da compreensão que dedica anos de vida a compreender a realidade. Sendo que todas estas variações sobre o mesmo tema derivam do equívoco inicial do texto que fica por provar.
    De qualquer forma, a frase tem sido entendida mais de outra forma: enquanto convite à prática transformadora e ao saber empenhado (política e socialmente) em contraste com um modo de fazer Filosofia de gabinete, supostamente sem implicações sociais, supostamente neutral. Aliás, o uso de Marx no texto é apenas instrumental para outros fins argumentativos. E se se tivesse apenas discutido esses fins em vez de traçar uma caricatura desfigurada?

    Carlos Carujo

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  2. Olá Carlos, obrigado pelo comentário.

    Marx podia igualmente dizer a um cientista, a um compositor ou a qualquer praticante de qualquer actividade humana, que é preciso algo mais do que compreender o mundo, compor música, etc., se é verdade que há que mudar o mundo de alguma forma. Não se precebe o especial enfoque na filosofia, a menos que Marx esteja a querer dizer algo de pouco abonatório acerca da filosofia que o precedeu (trato desta ideia mais à frente). (Parece que muitos filósofos, e não apenas Marx, tiveram este tique)

    O maior ou menor activismo político de um cientista é independente do valor cognitivo das teorias que defende, tal como a verdade ou falsidade das representações do mundo em O Capital é independente do maior ou menor empenhamento político de Marx na Internacional e noutras organizações. Como mesmo os politicamente conservadores não estão cognitivamente fechados às verdades científicas nem incapacitados de fazer descobertas científicas, não se vê exactamente a relação especial entre a ciência ou a filosofia e o compromisso com a transformação do mundo. Pode é dar-se o caso de Marx pensar que o compromisso com a transformação do mundo introduz outro tipo de actividade teórica no lugar da filosofia e que a actividade filosófica antes disto sofre de alguma deficiência particular que a ciência empírica não partilha.

    No marxismo há mesmo a ideia de "superação" da filosofia, passando esta a tornar-se "científica" com o materialismo histórico. A tese parece portanto estar a afirmar algo acerca da filosofia anterior ao materialismo histórico. Mas isto é uma enorme confusão, uma vez que o materialismo continua a ser uma doutrina metafísica, porque é uma teoria acerca da natureza fundamental da realidade, cuja verdade não pode ser estabelecida empiricamente. Assim, não é por passarmos de uma doutrina dualista ou de um monismo espiritualista para um monismo materialista que o estatuto filosófico daquilo que fazemos ao tentar defender essa doutrina sofre alguma mudança especial.

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  3. Além disso, é falso que a investigação da verdade sem activismo político não transforme o mundo. A teoria de Darwin transformou o mundo e não apenas o modo como algumas pessoas compreendem a evolução biológica. A investigação filosófica e científica transformam o mundo ao contribuir para que haja mais pessoas a discutir entre si em paridade moral e epistémica (colocando a autoridade da razão acima das lealdades de grupo), que é uma condição para um mundo mais justo, ao passo que a instrumentalização da ciência pela guerra política produziu algumas das piores monstruosidades.

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  4. Pegando aqui no "equivoco inicial", eu diria que a tese de Marx é uma versão mais restrita da ideia geral da inutilidade da filosofia, na medida em que ele parece entender que toda a filosofia anterior ao materialismo histórico (excepto talvez os materialismos antigo e setecentista) são meros reflexos das relações de poder na sociedade, juntamente com a ideia de que nada é tão útil como a subversão dessas relações de poder.

    Assim, é verdade que Marx não pensava que compreender o mundo não serve para nada - isto seria inconsistente com pensar que alguma filosofia serve para legitimar relações de poder; e seria também inconsistente com a valorização da ciência, que ele faz - mas é também verdade que ele pensava que um certo tipo de actividade teórica - a filosofia naquilo que para ele era o sentido "tradicional" do termo: filosofia não materialista - se tornara cognitivamente redundante. Ora, isto é uma versão mais estrita da ideia segundo aqual a actividade filosófica em bloco é cognitivamente redundante.
    A ideia de Marx, mais precisamente, é que testar filosoficamente a doutrina materialista, confrontando-a com teorias metafísicas rivais, e levando a sério teorias rivais, era uma actividade cognitivamente redundante. Por outras palavras, não era preciso fazer mais filosofia uma vez que chegássemos ao materialismo. A partir daí só restava transformar o mundo. Ora, a ideia popular de que a filosofia não serve para nada é semelhante.

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  5. peço desculpa pela profusão de comentários, mas ocorre-me sempre algo depois de publicar.

    O que digo no comentário anterior pode ser corroborado constatando a posição de Marx relativamente à filosofia da religião. Marx achava que a "crítica da religião" estava feita ou concluída. Portanto, era cognitivamente irrelevante continuar a discutir argumentos contra e a favor da existência de deus.
    A ideia de que a "filosofia materialista" superava a filosofia "tradicional" parece estranha se pensarmos que a única forma de testar a força dos argumentos materialistas, ou seja, a única forma de corroborar o materialismo no caso de este ser verdadeiro, é elaborando contra-argumentos ao materialismo para ver o que resiste e o que tem de se modificar. A filosofia tradicional permanece, do mesmo modo que a teoria de Darwin, sendo corroborada, não dispensa a ciência "tradicional".
    Sucede que para Marx a "filosofia materialista" não é já discussão de argumentos. Para ele a filosofia materialista é a própria acção de transformação do mundo. Grosso modo, a ideia é que ao transformar o mundo as pessoas libertam-se das "ilusões metafísicas" da filosofia pré-materialista: os conceitos de deus, de almas cartesianas, de formas platónicas, etc. Portanto, a insistência na filosofia "tradicional", mesmo para testar a verdade do materialismo, não passava de ilusão - um esforço cognitivamente redundante.
    Porém, a ideia de que é possível eliminar teorias metafísicas ou refutar argumentos transformando politicamente o mundo é tão insensata como a ideia de que postular a existência de entidades que não têm partes temporais ou espaciais equivale a legitimar relações de poder. Além disso, ignora que acerca do mesmo problema pode haver mais do que uma variedade de teoria materialista para o tentar explicar, e que não se pode decidir entre elas simplesmente mudando a forma como as pessoas vivem e produzem riqueza.

    Junte-se a tudo isto o facto de que Marx tinha uma concepção fundamentalmente equivocada acerca da natureza da metafísica.

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  6. a profusão de comentários permitiu-me chegar à formulação que responde directamente à objecção do Carlos:

    Não é injusto afirmar que a tese de Marx é uma versão da ideia comum da inutilidade da filosofia porque, nos termos da teoria marxista, só haveria problemas metafísicas porque o homem vive económica e politicamente alienado. É por isso que para ele "a questão" era transformar o mundo: sem alienação económica não há problemas metafísicos para resolver, pois estes são um mero reflexo das relações de poder na sociedade pré-comunista.
    Além disso, ele não via o materialismo como uma teoria metafísica que continua a enfrentar problemas metafísicos em aberto. Pensava que o único problema metafísico do materialismo era o de responder à questão categorial de haver apenas entidades concretas na nossa ontologia e ainda por cima pensava que este problema categorial era resolvido pela ciência empírica. Isto é tão insensato como pensar que se não houvesse desigualdades sociais não haveria problemas científicos para resolver.

    E pronto... estamos perante a ideia de que num mundo em que as pessoas vivem económica e politicamente alienadas a filosofia é redundante porque apenas reflecte as relações de poder; e que num mundo onde as pessoas não vivem económica e politicamente alienadas a filosofia é redundante porque não há problemas filosóficos para resolver. Isto é evidentemente uma versão da ideia popular de que a filosofia não leva a lugar algum, ou seja, àquilo que interessa.

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  7. estou a testar a paciência do leitor mas... finalmente, para defender a relevância do exemplo de Marx na minha crónica:

    Apesar da sua erudição em história da filosofia, Marx ignorava a natureza e extensão dos problemas metafísicos. Pensava que aquilo que lhe parecia a única coisa metafisicamente interessante para dizer acerca da realidade - responder ao problema categorial de só haver entidades concretas (excepto deuses e almas cartesianas) - era a única coisa metafisicamente interessante para dizer acerca da realidade. Mas não só o problema categorial não pode ser respondido empiricamente como há muitos mais problemas metafísicos para resolver, mesmo para quem defende uma ontologia materialista - basta folhear um manual de metafísica ou de filosofia da mente para perceber isto. Além disso, Marx estava enganado ao pensar que estes problemas não se colocariam num mundo sem desigualdades sociais, ou em pensar que num mundo sem desigualdades sociais só haveria problemas científicos mas não metafísicos.

    Um exemplo de problema metafísico cuja resposta é indiferente à existência ou inexistência de desigualdades sociais é a difculdade de apresentar uma distinção entre abstracto e concreto que resista a todos os contra-exemplos (daí que não seja exacto dizer que o materialismo é a defesa de que só há entidades concretas, como atrás sugeri que a questão se colocava para Marx). Mas a lista é extensa, incluindo os problemas de filosofia da religião, que não são eliminados simplesmente eliminando os factores sociológicos das religiões.

    Mesmo que houvesse uma conexão causal entre as desigualdades sociais e a tendência para postular a existência de deuses, isso não significaria que os problemas metafísicos são um mero reflexo de relações de poder, do mesmo modo que quaisquer razões sociológicas para a adesão de um grande número de pessoas ao criacionismo não fazem do problema científico da origem das espécies um mero reflexo de relações de poder.

    Todas estas razões que apresentei fazem da tese de Marx um excelente e apropriado exemplo para criticar na minha crónica. Tem ainda a vantagem de mostrar como podemos compreender melhor o mundo através da filosofia, mesmo quando não resolvemos problemas filosóficos fundamentais.

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  8. Pois bem, penso que filosofia nada mais é que a "desbanalização do banal".
    A partir do momento que voce não se satisfaz apenas com a "coisa", vem a necessidade de se aprofundar na natureza dessa "coisa".
    Filosofia é compreender o mundo e não mudar o mundo, a "transformação" do mundo é consenquencia da atividade filosofica. Na verdade, o mundo não se transforma, são as pessoas que juntamente filosofando vem a ter uma nova concepção daquilo que pensavam ser outra coisa.
    Se vc tenta compreender algo e futuramente descobre que esse algo é realmente o que as pessoas pensam sobre isto, você não mudou nada, continua do mesmo jeito que tá, mas mesmo assim não dá pra dizer que esta sua força pra tentar compreender esse "algo" foi inutil só pq não conseguiu transformar a visão das pessoas sobre o esse algo.

    um dia serei mais claro.

    Pensar em mudar o mundo sem primeiro procurar compreende-lo, é fazer o mundo de acordo com seu gosto.

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  9. Olá, Vitor,

    Estou genericamente de acordo com tudo o que dizes e, salvo melhor juízo, parece-me que respondes cabalmente à objecção levantada. No entanto, permite-me que faça uma precisão num ponto secundário dos teus argumentos (que julgo teres esquecido ou considerado irrelevante para a discussão), a qual poderá relativizar um pouco a tua ênfase no materialismo histórico como substituição marxista pretensamente científica da metafísica: é que, do ponto de vista do marxismo ortodoxo - isto é, da doutrina que não se encontra em Marx, mas foi começada por ele e desenvolvida por Engels, Lenine e respectivos discípulos, adquirindo então a consistência e a completude dogmáticas de uma verdadeira concepção geral da realidade - aquilo que substitui realmente a metafísica no plano teórico é o materialismo dialéctico e não tanto o materialismo histórico. Para o marxismo ortodoxo, os três erros ou pecados originais da metafísica tradicional, para além do seu carácter especulativo, não-científico e puramente teórico ou contemplativo, consistiam em, por um lado, aquela ver a realidade fora do tempo e da história, convertendo assim realidades materiais compostas e dinâmicas em essências ideais atemporais (ou eternas), simples e estáticas; por outro lado, ao transformar desse modo o real concreto no ideal abstracto, e ao confundir este com aquele, comete o erro do idealismo,o qual consiste na inversão das relações reais de dependência, tanto metafísicas como epistémicas, entre a consciência e realidade exterior a ela, passando assim a ver o mundo como um reflexo daquela e não esta como um reflexo daquele (o famoso problema do primado da matéria sobre o espírito,ou do ser sobre a consciência, na linguagem marxista). Ora, são precisamente estes supostos erros estruturais da metafísica que o materialismo dialéctico pretende resolver e superar definitivamente através da inversão materialista da dialéctica hegeliana, cujo erro maior seria então o facto de ainda ser metafisicamente idealista ou espiritualista, mas cuja lógica dialéctica poderia ser aproveitada uma vez restabelecida a sua materialidade. Portanto, do ponto de vista da doutrina marxista que se tornou oficial, não é propriamente o materialismo histórico a parte da doutrina que substitui teóricamente a metafísica, mas sim o materialismo dialéctico enquanto concepção geral da realidade, sendo aquele tão somente a extensão e aplicação deste ao domínio da história humana. Assim, embora a citação de Marx fosse secundária e meramente instrumental à defesa da tua tese, e ainda que a objecção levantada e as tuas respostas visassem exclusivamente a posição do próprio Marx, pareceu-me mesmo assim pertinente fazer este comentário complementar à discussão.

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  10. Obrigado pelo esclarecimento complementar, João.

    Estou ciente da diferença entre materialismo histórico e materialismo dialéctico, mas por um lado, como dizes, não me pareceu relevante para a argumentação (podemos permutar "histórico" com "dialéctico" no meu texto e o argumento não se altera. na verdade, a ideia de Marx de que a resolução dos problemas metafísicos coincide com a resolução das desigualdades sociais e da opressão política é anterior à formulação do materialismo dialéctico). Mas gostaria de observar o seguinte:

    A ideia de superação da metafísica pelo materialismo dialéctico é um equívoco, porque o materialismo dialéctico continua a ser uma teoria, portanto, uma interpretação do mundo; a afirmação "a realidade é dialéctica" é uma afirmação metafísica. Afirmar que todas as propriedades são relacionais, que tudo o que existe são entidades concretas com partes espaciais, e que tudo existe contingentemente não é uma afirmação menos metafísica do que a afirmação contrária. Afirmar que o facto de a prata ter o número atómico 47 é contingente (uma tradução de "não estar fora da história") não é uma afirmação menos metafísica do que a afirmação de que essa é uma propriedade essencial e individuadora da prata, que se verifica em qualquer mundo onde haja prata.

    A ideia de que a "metafísica tradicional" é ingénua por ver as coisas "fora da história" é por sua vez uma ingenuidade. Na realidade, Marx confunde problemas metafísicos com aquilo a que mais tarde se chamaria "problemas sociológicos" e pensa que tentar responder metafisicamente a problemas metafísicos é ingénuo por ignorar aquilo que mais lhe interessava: explicações sociológicas (que na altura não se chamavam assim). A "história" passa então a ter um estatuto quase mágico no seio da doutrina, dando lugar a uma série de pressuposições pouco sensatas.
    Mesmo que numa sociedade sem classes, ou seja, numa sociedade sem desigualdades sociais, etc., houvessem uma propensão sociológica para as pessoas, na sua maioria, digamos, defenderem a inexistência de livre-arbítrio, ao passo que numa sociedade com desigualdades sociais haveria uma propensão sociológica para as pessoas defenderem o contrário, a compreensão desses factores sociológicos nada faz para resolver o problema metafísico em si.
    Marx não mostrou a impossibilidade metafísica da existência de deus, por exemplo, quando muito afirmou correctamente que nas sociedades que conhecemos há factores sociológicos que fazem as pessoas acreditarem em deus. Além disso, por causa destes factores sociológicos, críticos como Marx foram levados a pensar que o problema da existência de deus é o problema metafísico central, quando não o é. Há muitos mais problemas metafísicos além do problema da existência de deus, e mesmo num universo sem deuses continua a haver imensos problemas metafísicos: por que há algo em vez de nada? Em que consiste a identidade pessoal? O que são mentes? O que é a causalidade? Há objectos abstractos? Qual a natureza do tempo? - só para citar alguns exemplos.

    O marxismo neste aspecto é inclusive mais ingénuo do que algumas filosofias que considera ingénuos, pois achou que algumas afirmações vagas sobre a historicidade permitiam eliminar de uma assentada todos estes problemas. Bastava declarar que eram tudo ilusões nas mentes de pessoas que não compreendiam a importância da história e do "movimento". Bastava mostrar que havia uns factores sociológicos a determinar que as pessoas de uma certa classe social tendiam a gostar de certas teorias para eliminar essas teorias como meros reflexos ilusórios dos "interesses de classe" dessas pessoas e não como problemas reais cuja resposta é independente de factores sociológicos, tal como a questão de saber se o materialismo é verdadeiro é independente de quaisquer propensões sociológicas de certos grupos para serem materialistas.

    Obrigado pela paciência.

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  11. Essa frase é tanto mal compreendida como utilizada com o propósito de desqualificar qualquer pensamento revolucionário. No entanto, acreditamos que a verdade é sempre revolucionária. Com a frase, Marx queria dizer que os problemas filosóficos só podem ser resolvidos, se a sociedade - da qual surgiu esse problema - mudar. Essa concepção está relacionada com a concepção de materialismo - que também é tão mal compreendida, como utilizada com o propósito de desqualificar qualquer pensamento revolucionário. Materialismo significava, para ele, que cada época histórica engendrava problemas filosóficos específicos ou - o que cabe mais aos conceitos de Marx - uma forma de pensar determinada (sei que esse conceito é problemático, mas também deve ser melhor compreendido). Essa concepção de materialismo nada tem haver com a concepção de "materialismo histórico-dialético" a qual Marx nunca utilizou, e que também não criou. Essa espressão ou conceito quer dizer que a sociedade evolui com um determinado padrão, que ao mesmo tempo determina o pensamento da sociedade. No entanto, para se compreender o pensamento de Marx é preciso entender que não era isso que ele dizia (claro, em parte ele dizia mesmo isso, mas não se limita a isso, é o que considero importante ressaltar - sem considerar isso, não compreendemos o pensamento de Marx) e que isso foi criado por seus epígonos, principalmente por Lênin. Para se compreender melhor o que Marx dizia com sua concepção de materialismo, ver: Terry Eagleton, Marx e a liberdade. São Paulo: Edusp, 1999. Acho que essa - a de Marx - é uma concepção muito sofisticada para se compreender a função da filosofia. Mauro, UFSJ, Brasil.

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  12. Pois, a mim também me parece evidente que o materialismo dialéctico é uma metafísica como qualquer outra e não a sua superação dialéctica definitiva e científica, tal como me parece igualmente evidente que é uma concepção ingenuamente dogmática que enferma dos vícios e ilusões ideológicas típicas do relativismo historicista e sociologista ao pretender resolver magicamente problemas filosóficos mediante a sua redução a forças histórico-sociais ou a factores económicos. Portanto, não poderia estar mais de acordo com o que dizes - embora este nosso acordo teórico se deva provavelmente ao facto de pertencermos à mesma classe social(?)e, logo, termos os mesmos interesses ideológicos a defender, claro!

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  13. Viva, bem vindo à discussão.

    Não se trata de desqualificar o pensamento revolucionário nem o pensamento que não é revolucionário. O interesse da discussão é cognitivo - trata-se de saber se certas afirmações são verdadeiras ou falsas e porquê - e não uma discussão sobre prestígio intelectual.

    Afinal, os revolucionários são seres humanos e, como todos os seres humanos, são falíveis e estão sujeitos a dizerem disparates, por muito boas que sejam as suas intenções.

    A verdade é a verdade, não é revolucionária nem reaccionária. Podemos é dizer que é reaccionário querer esconder a verdade para perpetuar uma ideia querida mas falsa, ao passo que é revolucionário não ter medo de largar as ideias queridas se a razão assim obrigar. Assim, não é surpreendente que ao longo da história mesmo os revolucionários bem intencionados tenham tido e continuem a ter comportamentos reaccionários, porque a crença de que a verdade é revolucionária leva por sua vez à crença de que tudo o que parece verdade ao revolucionário tem de ser verdade. (a verdade não ia pregar partidas dessas aos revolucionários, parecendo uma coisa e depois mostrando ser outra). Este modo de pensar conduz rapidamente a delusões de autolegitimação e infalibilidade, que tiveram as consequências tristes que se conhece.

    A concepção de que os problemas filosóficos são historicamente relativos, ao contrário do problema científico de saber qual a composição química de Marte, que é o mesmo em todas as épocas, independentemente da ignorância química dos seres humanos, é precisamente a concepção marxista que critiquei. Mesmo que houvesse uma alucinação colectiva - por factores sociológicos e psicológicos - que levasse as pessoas numa certa época a ter uma certa concepção sobre a natureza de Marte, isso não significaria que o problema científico da natureza de Marte é historicamente relativo ou que não tem resposta independente de factores sociológicos.
    Defendo, contra Marx, que os problemas metafísicos são neste aspecto exactamente como os problemas científicos. A resposta a esses problemas é independente dos factores psicológicos e sociológicos que levam as pessoas a formulá-los ou a preferir tendencialmente uma certa resposta, numa certa época.

    Temos de examinar com muito cuidado o que se está a tentar afirmar ao dizer que cada época histórica tem problemas filosóficos específicos, em vez de aceitar essa ideia só porque parece intelectualmente excitante, ou porque nos dá a sensação de mostrar que afinal as ideias de que não gostamos são um mero reflexo de factores sociológicos que manipulam como marionetas as pessoas que defendem essas ideias.

    Ora, Marx parecia pensar que os problemas metafísicos se reduziam ao problema de saber se afinal há ou não um "mundo" além do mundo material e que este problema desaparecia quando desaparecessem as causas sociológicas e psicológicas que fazem as pessoas acreditar num mundo imaterial. Pensava além disso que os problemas metafísicos são meras ilusões que exprimem interesses de classe, e não problemas reais, como o problema da composição química de Marte. Mas a ideia de que os problemas filosóficos dependem da época histórica em que são formulados é tão instável como a ideia de que o problema da composição química de Marte depende da época histórica em que foi formulado, como se antes disso não houvesse verdades acerca de Marte.

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  14. peço desculpa pelos comentários duplicados e apagados. estou com problemas no browser e as vezes ele dá erro mas publica na mesma o comentário.

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  15. Vitor, se entendi bem, você defende a idéia de que os problemas metafísicos não estão sujeitos a fatores sociológicos ou psicológicos. Contudo, tenho a impressão que a cada dia surgem mais problemas filosóficos, pois o avanço científico e a especialização dos filósofos demonstra que eles existem em biologia, física, etc. Se sua analogia está correta, e se a ciência não responde e não responderá os principais problemas filosóficos, podemos pensar que existem problemas filosóficos que nenhum avanço científico poderá responder. A variação no número de problemas filosóficos sendo abordado pelos filósofos ao longo da história, e a importância deles nas discussões de cada época não seria um indicador de fatores externos tendo influência?

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  16. Uma coisa é haver problemas filosóficos colocados, por exemplo, pela música, ou pela biologia. Outra coisa é os problemas filosóficos dependerem de factores sociológicos.

    Por exemplo, a partir de meados do século XX, os filósofos da arte começaram a dedicar cada vez mais atenção a problemas específicos colocados pela música. Mas isso não significa que os problemas e a resposta aos problemas varie com os factores sociológicos ou dependa deles. Tal como já havia verdades acerca de Marte antes de os astrónomos começarem a investigar esse assunto, a resposta aos problemas filosóficos sobre música já existe pelo menos desde que existe música. Quando muito os factores sociológicos ajudam a explicar por que razão só num dado momento é que as pessoas começaram a pensar nesses problemas.

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