19 de novembro de 2010

O lugar da lógica e da argumentação no ensino da filosofia

Acaba de ser publicado o volume, organizado por Henrique Jales Ribeiro e Joaquim Neves Vicente, com as comunicações apresentadas no Colóquio Internacional O Lugar da Lógica e da Argumentação nos Programas de Filosofia do Ensino Secundário, realizado em Dezembro do ano passado na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

Dois dos textos, um meu e outro de Artur Polónio, estão publicados também na Crítica. Os outros são os seguintes (recorro a excertos da sinopse feita por Henrique Jales Ribeiro):

Victor Thibaudeau (Université de Laval, Canadá), defendendo em «L'étude de la première opération de l'intelligence: au coeur de la formation intelectuelle au niveau pré-universitaire» que «em vez de perguntarmos que lugar deve ter esta ou aquela matéria específica de lógica ou de argumetação em tais programas, deveremos antes questionarmo-nos não só sobre quais serão as operações intelectuais que estão na base dessas matérias (...). Partindo da distinção feita pela lógica tradicional entre três operações da inteligência (definição, enunciação, raciocínio), Thibaudeau mostra o papel essencial e incontornável da primeira, que tem sido negligenciado pelos programas de filosofia não apenas no Canadá e nas Américas, mas também na Europa e no resto do mundo, em proveito especialmente da terceira (raciocínio)».

Silvia Rivas e Carlos Saiz (Universidade de Salamanca e Universidade Pontifícia de Salamanca), apresentam alguns resultados do programa de intervenção (ARgumentación, DEcisión, SOlución de problemas en Situaciones cotidianas = ARDESOS) por eles desenvolvido, o qual «visa melhorar significativamente as competências do pensamento crítico dos jovens, e que têm divulgado e experimentado internacionalmente».

José Aredes (CFUL; Universidade Aberta), defende em «Argumentação e cuidado de si» que o ensino da filosofia, e o da lógica e da argumentação em especial, deve ser comandado pelo desiderato de contribuir para a formação de uma nova maneira de ser e, consequentemente, de viver e de ver o mundo.»

Mário Pissarra (ES Dr. Manuel Fernandes, Abrantes) que, em «O ensino da lógica no ensino liceal e secundário», entende o ensino «da lógica como um 'jogo', ao encontro da curiosidade e apetite insaciáveis dos jovens alunos».

Joaquim Neves Vicente (Universidade de Coimbra) alega em «Do primado de uma logica utens sobre uma logica docens no ensino da filosofia na educação secundária» que a utilidade da lógica pode e deve «ser pensada antes do plano propriamente metacognitivo do raciocínio e da argumentação, como Thibaudeau tinha sugerido na sua comunicação a respeito da 'primeira operação da inteligência', quer dizer, aquela em que a lógica se interessa pela maneira como um 'dado objecto de pensamento foi formado, pelas relações que ele pode envolver com outros objectos de pensamento que ocupam a mente de uma pessoa, pelas diversas maneiras de como ele pode ser nomeado e, depois, definido'».

Serge Cospérec (Université de Paris XII) aponta, em «La place de la logique et l'argumentation dans l'enseignement secondaire de philosophie en France» algumas «razões para explicar o flagrante insucesso francês quanto ao ensino da lógica e da argumentação (...). O autor desmascara alguns preconceitos, mostrando como a aprendizagem da lógica é condição, em certa medida, do trabalho filosófico ele mesmo», concluindo que o programa de filosofia para o secundário em França deve ser profundamente revisto e «encarado de acordo com uma perspectiva de que a filosofia consiste essencialmente na procura de resolução de problemas».

Henrique Jales Ribeiro (Universidade de Coimbra) conclui com o esclarecedor texto «O lugar da lógica e da argumentação: do ensino superior ao ensino secundário em Portugal», indicando as «competências em matéria de lógica e de argumentação que os ex-alunos do ensino secundário devem possuir quando entram na universidade», acabando por mostrar que o programa do secundário é «tecnicamente errado e confuso», uma vez que é simultaneamente «obeso cientificamente» e «magro pedagogicamente». Com efeito, «referindo-se aos erros e confusões do programa e, em particular, ao paralelismo que nele é estabelecido entre a lógica formal e a silogística aristotélica a respeito do estudo da noção de validade formal, Jales Ribeiro concorda plenamente com as críticas já feitas por Artur Polónio e Aires Almeida. (...) Jales Ribeiro conclui a sua comunicação propondo uma reformulação de vários aspectos do programa, designadamente quanto aos conteúdos a leccionar e às competências a adquirir.»

Este volume é publicado pela Unidade I&D - Linguagem, Interpretação e Filosofia, da Universidade de Coimbra. 

4 comentários:

  1. Bom dia.
    Precisava que me esclarecesse uma duvida que tenho sobre os argumentos solidos e os argumentos persuasivos. Qual é a diferença entre estes dois tipos de argumentos? Os argumentos persuasivos são argumentos cogentes? Já li alguns posts que colocou sobre os argumentos sólidos mas a duvida persiste.
    Quanto à falacia de petição de principio o seguinte argumento : " O professor deu-me negativa. Logo o professor detesta-me" constitui um exemplo dessa falácia?
    Obrigada.

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  2. Diana, quem tem escrito mais sobre isso é o Desidério. A diferença entre argumentos persuasivos (estamos a falar de persuasão racional, bem entendido) é que todos eles são sólidos, ao passo que nem todos os sólidos são persuasivos. Por exemplo o argumento "Lisboa é a capital de Portugal; logo, a capital de Portugal é Lisboa" é sólido, mas não é persuasivo, pois a premissa não me dá melhores razões para aceitar a conclusão do que me dá a própria conclusão por si só. Dito de outro modo, a premissa não é mais plausível do que a conclusão. Assim, um argumento persuasivo é, afinal, um argumento cogente.

    Quanto ao argumento que apresenta, não é uma petição de princípio. Para tirar estas e outras dúvidas do género, pode pesqueisar na secção de lógica da Crítica, ou então no Dicionário Escolar de Filosofia (Plátano Editora), organizado por mim.

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  3. Onde se pode comprar o livro?

    Entrei no site da Unidade I&D - Linguagem, Interpretação e Filosofia, da Universidade de Coimbra, e esse livro ainda não consta na lista das publicações...

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  4. Gisele, o livro acabou de sair, pelo que é natural que ainda não conste da lista de publicações. É possível isso aconteça muito em breve.

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