15 de novembro de 2010

Argumentos e explicações


Um aspecto que confunde por vezes o neófito -- e o não tão neófito -- é a diferença entre um argumento e uma explicação. Acabo de publicar a tradução de Artur Polónio de um texto de Douglas Walton, "Argumentos e Explicações", retirado do seu livro Fundamentals of Critical Argumentation (CUP, 2006). No artigo "Argumento, Persuasão e Explicação" eu abordo também este tema, entre outros. A maneira mais simples de distinguir argumentos de explicações é ver que num bom argumento as premissas têm de ser mais plausíveis do que a conclusão, e esta é o que está em disputa; ao passo que numa explicação a "conclusão" (o que linguisticamente parece uma conclusão) é precisamente o que não está em disputa e é muitíssimo mais plausível do que as explicações avançadas (que, linguisticamente, parecem premissas, mas não são).

4 comentários:

  1. Julgo que uma forma muito simples de distinguir um argumento de uma explicação é a de que um argumento tenta persuadir o auditório de algo (a sua conclusão) e uma explicação dá por garantido aquilo que pretende explicar.

    Quanto a essa distinção gostava de vos colocar à consideração o seguinte problema que me surgiu recentemente numa formação.

    Perante a pergunta, "Somos Livres?" foi avançada a resposta "Sim, porque podemos escolher."

    O que vos parece? A premissa usada para defender a conclusão é mais plausíveis do que a conclusão?

    abraços,

    Tomás Magalhães Carneiro

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  2. Olá, Tomás

    Eu diria que a premissa é mais plausível do que a conclusão, mas que o problema é haver muitas maneiras de a premissa ser verdadeira e a conclusão falsa. De modo que o problema é a premissa não sustentar a conclusão, e não a sua plausibilidade. Pelo que uma pessoa pode perfeitamente aceitar a premissa e rejeitar a conclusão.

    A maneira óbvia de a pessoa defender o argumento é acrescentar a premissa "Se podemos escolher, somos livres". O argumento agora é dedutivamente válido -- mas a premissa introduzida está longe de ser plausível. Na verdade, é provável que quem põe em causa a conclusão ponha também em causa essa premissa. O argumento perdeu cogência ao ganhar validade.

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  3. Viva, Desidério

    Dizes que as explicações avançadas parecem linguisticamente premisssas mas não o são pela simples razão de que tipicamente as premissas fazerem apenas parte de argumentos?

    Abraço

    João Paulo Maia

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  4. Exactamente, João Paulo. Não é costume chamar "premissas" às proposições que constituem uma explicação -- nem parece correcto fazê-lo. Mas já me chamaram a atenção para uma ou outra passagem do Arte de Pensar em que se usa essa designação.

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