7 de novembro de 2010

Ilusões


Acabo de publicar a crónica desta semana de Vítor Guerreiro: "Ilusões Conceptuais".

3 comentários:

  1. Olá, Vitor,

    Poderá ser o caso de todas (ou quase todas?) as ilusões conceptuais serem, afinal, variantes de um mesmo erro ou confusão básica, consistindo esta no mau uso dos conceitos resultante de absolutizarmos o relativo e/ou de relativizarmos o absoluto de diversas formas? Quando universalizamos o particular ou particularizamos o que é universal, quando essencializamos o acidental e "acidentalizamos" o essencial, quando eternizamos o temporal e temporalizamos o eterno, quando "necessitamos o contingente e tornamos contingente o necessário, quando confundimos o possível com o real e o real com o possível, ou acreditamos que é real o ideal e vice-versa, quando julgamos finito o que é infinito ou a inversa, quando confundimos o todo com a parte ou a parte com o todo, quando atribuimos unidade ao múltiplo e multiplicidade ao uno, quando abstraímos o concreto ou concretizamos o que é abstracto, e até mesmo, talvez, quando confundimos o ser com o dever-ser ou o contrário, ou o verdadeiro com o falso, o justo com o injusto, o bom com o mau ou o belo com o feio, não estaremos, no fundo, sempre a cometer o mesmo erro básico de confundir o relativo com o absoluto ou o absoluto com o que é relativo, embora de diferentes maneiras? Talvez o mesmo suceda quando colocamos em forma de alternativa incondicional (ou de dicotomia absoluta) conceitos que são relativamente compatíveis entre si e de modo algum absolutamente antagónicos ou incompatíveis a não ser na sua forma erroneamente absolutizada. Que me dizes, será este "esquema de redução" verdadeiro, ou será também ele uma ilusão conceptual?

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  2. Viva,

    Não creio que todas as ilusões conceptuais sejam variações de uma só, ou que haja apenas um mecanismo de ilusão conceptual.

    Um exemplo de confusão entre o relativo e o absoluto seria pensar que este livro que está à minha frente é azul sem mais qualificações, esquecendo que a qualidade perceptiva a que me refiro depende de vários factores: as condições de observação, o modo como a superfície do livro reflecte a luz, a estrutura do meu aparelho visual, e o modo como o meu cérebro processa a informação visual.

    Mas não vejo como a ilusão de que a "historicidade" é incompatível com o essencialismo pode consistir numa "absolutização do relativo" ou vice-versa. Dois exemplos de propriedades "históricas" de um objecto são a sua origem e a sua constituição original (as partes de que era composto quando começou a existir). Ora, precisamente dois dos candidatos a "essências individuais" (propriedades essenciais não partilháveis), além das hecceidades (a propriedade supostamente não relacional de ser idêntico a A), são a origem e a constituição original. (que as teses da necessidade da origem e da necessidade da constituição - as teses de que em todos os mundos possíveis esta planta teve origem nesta semente, ou que em todos os mundos possíveis este barco era composto exactamente pelas mesmas partes no momento em que começou a existir - estejam ou não correctas é outra conversa). Observações destas permitem desfazer a ilusão e em nenhum momento temos de apelar aos conceitos de relativo e absoluto.

    Ou pensa neste exemplo: quando se infere uma relação de causa-efeito a partir de uma mera correlação. Não estou a ver como a analogia do absoluto-relativo encaixa aqui.

    A atribuição de "multiplicidade ao uno e unidade ao múltiplo" que referes não me parece um exemplo de ilusão conceptual, mas um problema em aberto da metafísica, o chamado "problema do um em muitos" de que Platão fala no diálogo "Parménides". O mesmo para o "abstrair o concreto" - o processo de abstracção em si mesmo não me parece envolver ilusão conceptual. Talvez seja melhor falar em confundir afirmações "de dicto" com afirmações "de re" - afirmações acerca das palavras que usamos para referir coisas com afirmações acerca das próprias coisas.

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  3. Link actualizado para a crónica: http://criticanarede.com/ilusoes.html

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