1 de novembro de 2010

Kit Fine

A filosofia é a mais estranha das disciplinas: visa o rigor, mas é incapaz de estabelecer resultados; procura lidar com as questões mais profundas, mas vê-se constantemente preocupada com as trivialidades da linguagem; e proclama ter a maior relevância para a investigação racional e para a conduta da nossa vida, mas é quase completamente ignorada. Mas o que é talvez mais estranho é a paixão e intensidade com que é feita por quem ficou preso nas suas garras.

18 comentários:

  1. Fiquei a pensar numa analogia (grosseira, pese embora) com a escala de dureza dos minerais em que o diamante aparece em primeiro plano como o único que é capaz de riscar os outros e só se deixa riscar por si próprio. A Filosofia reflecte sobre tudo e sobre todas as disciplinas e não evita,nem pode deixar de reflectir sobre si própria. A mim, que não sou filósofo "profissional" cada vez mais me fascina este pensar da filosofia sobre si própria.

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  2. Não sei se deveria, mas a filosofia acaba sendo para poucos...

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  3. Leonardo, quase tudo é para poucos, à excepção das novelas brasileiras, futebol, cerveja e outras inanidades para as massas: a astronomia é para poucos, a literatura é para poucos, a pesca e a agricultura é para poucos, a confecção de cuecas é para poucos. Quase tudo é para poucos e poucas coisas são para muitos.

    A falácia consiste em pensar que a filosofia é para poucos no sentido de se excluir as pessoas, contra a vontade delas, de fazer filosofia.

    Mas isso é mentira.

    Não só não se exclui as pessoas da filosofia, como se perde imensas horas e trabalho e esforço e dedicação para as pessoas gostarem mais da filosofia. Mas, claro, elas têm o direito pleno de não gostarem assim tanto e de preferir cuecas, sapatos, novelas, futebol e cerveja gelada.

    Qual é então o problema que está em causa com a sua observação, além de dar voz a um lugar-comum impensado?

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  4. Desidério, já que também sou professor de ensino médio, pensei na disciplina filosofia sob esta perspectiva. Ela não tem o mesmo "sucesso" que uma matemática, uma língua portuguesa ou história têm, e acaba ficando para poucos.

    Deveria ter posto "ficando" no lugar de "sendo", e talvez ter analisado numa perspectiva mais ampla, como você o fez.

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  5. Obrigado pelo esclarecimento, Leonardo. Penso que é normal poucos estudantes se interessarem pela disciplina, tal como menos estudantes ainda se interessam por estudar música, por exemplo.

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  6. Leonardo,

    não concordo que a filosofia seja para poucos.

    Repare, inclusivé, que a justificação que mais à frente dá é que "ela (a filosofia) não tem o mesmo "sucesso" que uma matemática, uma língua portuguesa ou história,"

    Ou seja, não me parece legítimo que conclua da pouca popularidade da filosofia que esta seja uma actividade para poucos.

    A meu ver a filosofia é para todos, todos têm capacidade para fazer filosofia e todos (bem, quase todos) têm gosto em pensar filosoficamente quando para isso são convidados.

    Quanto à questão da impopularidade da disciplina julgo que há uma pergunta que se deve colocar a todos os professores:

    "O que faz para tornar a filosofia mais atraente para os seus alunos?"

    Se não pensarmos sobre isto não vamos tornar o ensino da filosofia mais atraente e, aí sim, a filosofia continuará a ser para poucos quando podia ser para todos.

    Tomás Magalhães Carneiro

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  7. Não acho que tenhamos de tornar a filosofia mais atraente. Se alguém prefere biologia ou química ou música a filosofia, nenhum mal daí vem ao mundo. A ideia de tornar a filosofia mais atraente pode mesmo incorrer em algo pouco saudável, que é fazer a filosofia parecer aquilo que não é (para atrair as pessoas que à partida não se sentem atraídas pela filosofia). É preciso não confundir esta questão com a questão de o ensino da filosofia ser muitas vezes convertido numa espécie de misticismo moralista que ainda torna os alunos mais avessos à argumentação e ao gosto pelo raciocínio claro e organizado. Combater este estado de coisas não é tornar a filosofia mais atraente, é apenas ensinar a filosofia como ela é - raciocínio intenso e organizado sobre coisas que já sabemos, para descobrir verdades que ainda não conhecemos.

    O que temos de fazer não é proporcionar às pessoas uma imagem que seja atraente para elas do que a filosofia seja. Temos é de criar as condições para que as pessoas que se interessam pela filosofia poderem desenvolver as suas aptidões tão bem quanto possível.
    O desinteresse dos estudantes pela filosofia pode dever-se a duas coisas: a o ensino da filosofia ser uma prostituição ideológica da filosofia, que é a situação mais comum, o que sobretudo em alunos perspicazes tem um efeito repulsivo, empurrando-os para outras áreas onde a treta não seja tão abundante. Neste caso o que temos de fazer é de ensinar a filosofia como deve ser, como ela é, para que os estudantes susceptíveis de sentir interesse e vocação para a filosofia se envolvam mais intensamente na disciplina.
    Ou pode ser devido ao facto de se sentirem vocacionados para outro género de actividade teórica ou outra. Neste caso, o que temos de fazer é estimular essas preferências nos alunos, e não dar-lhes a ideia de que se divertiriam mais a fazer filosofia.

    Além disso, a ideia de que todos têm igual capacidade para tudo escamoteia o facto de mesmo em circunstâncias razoavelmente ideais, as pessoas manifestarem sempre graus diferentes de aptidão. O mesmo sucede no desporto. A competição no desporto é possível precisamente porque as aptidões das pessoas variam mesmo em circunstâncias nas quais o seu talento foi estimulado. Estudantes de música igualmente estimulados e vocacionados exibem graus diferentes de aptidão em aspectos diferentes da mesma actividade.

    Claro que toda a gente pode aprender algo de música, tal como toda a gente pode jogar à bola. Mas é simplesmente falso que todos tenham a mesma capacidade para ser músicos ou atletas. E o mesmo se aplica na filosofia. Uma coisa é ser capaz de ter opiniões filosóficas, outra coisa é ser capaz de filosofar. Filosofar exige treino, tempo, esforço, tal como para ser músico, e ao tornarmos a filosofia mais atraente podemos estar a passar a ideia falsa de que todos filosofam sem esforço, tal como é falso que todos consigam ser músicos sem esforço.
    Quanto menos criarmos a ilusão de que a filosofia não exige esforço, que é tudo uma questão de deixar fluir as "virtudes inatas" do indivíduo, melhor. O que não significa dizer às pessoas para não tentarem filosofar antes de terem lido 500 livros (que é o que o mau ensino já faz hoje). O treino consiste precisamente em tentar filosofar, tal como um músico treina exercitando-se no instrumento. Mas criar a ilusão de que com treino todos vão manifestar exactamente o mesmo grau de aptidão, ou que antes de treinar todos começam com o mesmíssimo grau de aptidão, é errado.

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  8. Só faltou observar que além do treino é necessário ter bons professores e muita leitura.

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  9. a ideia de que se exige esforço já inclui o estudo, a leitura. o problema está em pensar ou que se consegue tudo só a ler ou que se consegue tudo só a tentar discutir, sem rede. para já não se consegue tudo, e o que se consegue consegue-se estudando e discutindo. sem uma ou outra destas coisas estamos mal.

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  10. Concordo com a tese do esforço... Se fosse necessário desvirtuar a filosofia para fazer com que os alunos gostem da disciplina (ou do professor, o que é pior ainda) então não estaremos a oferecer aquilo em que a filosofia realmente se destaca como pensamento rigoroso, argumentado e reflexivo.

    Bastaria pensar aí o que nos levou a gostar de filosofia. Será que foi um professor pop star? Ou foi a potencialidade crítica e argumentativa da atividade filosófica, a seriedade dos problemas e a importância de como uma resposta filosófica a tais problemas incide na nossa maneira de viver, agir e pensar?

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  11. não quis sugerir que "tornar mais interessante" tem apenas o sentido de desvirtuar ou apimentar com coisas "apelativas". quis sugerir que se a ideia de "tornar mais interessante" é fazer as pessoas ganhar gosto pela discussão crítica, então isso é apenas mostrar a filosofia como ela é. o problema é a crença de que a prostituição ideológica da filosofia é o estado normal de coisas, tornado interessante pela adição exterior de discussão crítica e outras coisas mais apelativas (no bom sentido).

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  12. Em acrescento, interrogo-me se a filosofia ajuda a resolver o problema da escassez e das necessidades económicas e em que medida nos esclarece sobre as melhores opções políticas, nos domínios da justiça, da defesa, da ordem pública, da saúde, da habitação, ou ajuda o artista, o arquitecto, o pintor, o músico, o poeta, o romancista, o coreógrafo, nas suas opções estéticas, ou mesmo no seu juízo sobre o que é estético ou inestético, ou nos diz o que é o bem e o mal e se e quando e como e porquê um é preferível ao outro, ou em que medida ajuda o gastrónomo na sua arte, o atleta no seu desporto, o empresário na fábrica...
    Enfim, se fizesse estas mesmas observações às religiões, às ciências, às ideologias e às opiniões, obteria respostas muito diversas e revéis ao problema do verdadeiro/falso.

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  13. Vitor,

    1 - Em lugar de "O que faz para tornar a filosofia mais atraente para os seus alunos?"
    por uma questão de clareza devia ter escrito
    "O que faz para tornar a filosofia mais atraente para os seus alunos sem perder o rigor e a seriedade da investigação filosófica?"
    (O que já estava implícito na minha primeira pergunta mas como nem sempre podemos contar que nos interpretem caritativamente fica aqui explicitado o pressuposto).

    E quanto a isto acho que todos os professores de todas as disciplinas (da física à educação física, passando pela química, pelo português, pela história e pela música) se preocupam em interessar os seus alunos pela sua disciplina. Não vejo nenhum mal nisto, até por que se os professores de filosofia gostam da sua disciplina é natural que tentem transmitir esse amor aos seus alunos.
    Tenho a certeza que a grande maioria de professores de filosofia (e não só) se preocupa em tornar as suas aulas mais interesantes para os seus alunos e que realmente o tentem fazer na sua prática docente mas já não tenho tanta certeza que muitos discutam abertamente como o fazem e, muito menos, que demonstrem como o fazem, por exemplo em workshops e encontros de professores.
    E julgo que não o fazem porque a maioria das aulas dos professores de filosofia são expositivas, o que logo aí pode explicar o desinteresse dos alunos pela filosofia.

    2 - Não escrevi que todos os alunos têm igual capacidade para fazer filosofia. Nem sei como é que seria possível defender uma alarvidade dessas.
    Escrevi, isso sim, que todos têm capacidade para fazer filosofia. Achas isto falso?

    abraço,
    Tomás

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  14. Como já escrevi aqui na Crítica a minha sugestão pedagógica para tornar a disciplina de filosofia mais apelativa nas escolas é através do recurso ao Debate Filosófico Formalizado (com regras) em sala de aula.

    Sublinho que não acho que é SÓ através do Debate Filosófico que se deve ensinar filosofia ou que este deva substituir a leitura de textos filosóficos. Defendo, isso sim, que o Debate deve ter primazia no primeiro ano de ensino de filosofia (deveria ser antes do 10º) como forma de provocar no aluno o gosto pelos problemas filosóficos e pelo confronto de ideias. Mas também para lhe possibilitar o desenvolvimento e a prática de competências e atitudes filosóficas e cívicas essenciais para qualquer filósofo ou ser humano (capacidade e vontade de ouvir os outros, aceitar críticas às suas ideias, perceber que as suas crenças saem fortalecidas do confronto com as crenças dos outros, etc.).

    É um lugar comum defender-se que devemos fomentar o espírito crítico, a argumentação e o debate de ideias nos alunos (já alguém ouviu alguém defender o contrário?) mas raramente vejo alguém a pensar seriamente sobre como o fazer (que estratégias implementar?, que atitude deve ter o professor e em que circunstâncias?, que competências críticas quer trabalhar e como o faz?, etc.)
    Sem essa reflexão séria associada a uma prática docente que a ponha em prática todas essas palavras de cerimónia acerca de "fomentar o espírito crítico, a argumentação e o debate de ideias nos alunos" não passam de vazio "eduquês".

    Quem quiser fomentar o espírito crítico nos alunos tem de começar por trabalhar com eles as "atitudes filosóficas" de curiosidade e espanto, e deve procurar espicaçar neles uma certa atitude de salutar confronto intelectual que contrarie o comodismo comum. O problema é "Como o fazer?"

    Quem quiser trabalhar a argumentação com os seus alunos tem de começar por trabalhar virtudes cívicas e humanas como o saber ouvir o outro, aceitar e construir a partir das críticas dos outros, procurar ser claro, defender com honestidade as suas ideias e saber abandoná-las quando assim tiver que ser, etc.

    Só depois é que faz sentido ensinar as regras do silogismo e o "ethos, pathos e logos" dos manuais. O problema, mais uma vez é, "Como o fazer?" E, já agora, quantos professores o fazem?

    Quem quiser trabalhar o debate de ideias com os seus alunos tem de lhes ensinar os passos certos para criticarem um argumento e habituá-los a fazerem-no em frente a pessoas reais com erros de raciocínio e confusões, ambiguidades, subterfúgios, desonestidades, truques retóricos, etc. (os seus colegas de turma) e não em frente a um argumento acabado e perfeitamente limpo (e por isso artificial e praticamente inatacável do ponto de vista do aluno) de um qualquer filósofo.

    Resumindo, o Debate Filosófico em sala de aula permite trabalhar todas estas atitudes e competências filosóficas que de outra forma ficam no papel como qualquer conceito do bom "eduquês".
    Além disso é a melhor forma de incentivar os alunos a procurarem por eles e com a ajuda dos seus proferssores outras formas de tentar resolver os problemas filosóficos de que entretanto se apoderaram (lendo os grandes filósofos, por exemplo).

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  15. Penso que o que o Tomás está dizendo inclui algo deste género:

    http://criticanarede.com/html/fil_fazsepensando.html

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  16. Já conhecia esse texto aqui da crítica e é exactamente esse tipo de reflexão (e aplicação na prática dos resultados dessa reflexão) feita pelo autor que acho essencial fomentar junto dos professores e, nesse sentido, seria interessante que os professores tivessem um espaço para demonstrar e aperfeiçoar a sua prática pedagógica junto dos seus pares - Workshops ou Encontros de Professores onde mais que se discutir ideias gerais sobre pedagogia se partilhassem e criticassem práticas de ensino concretas.

    Como qualquer prática, a prática da actividade filosófica é muito difícil de ser descrita. Para um atleta também lhe é muito difícil descrever a sua prática. Seguramente que prefere correr à volta de um estádio ou jogar um jogo de ténis para mostrar como o faz.

    No caso das actividades sugeridas no texto pelo Paulo Jorge Domingues de Sousa estaria interessadíssimo em ver (e aprender) como ele póe em prática a Actividade 5 - Debate Público de Ideias.

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  17. Li as sugestões do tesxto de Paulo Jorge Domingues de Sousa e tal como o Tomás me sinto interessada em aprender e ver como poe em pratica a actividade 5, e principalmente como a aplica a turmas de 28 alunos e apenas com 15 anos de idade.

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  18. Espero que não leiam mal a minha sugestão, não há aqui nenhuma dose de cepticismo.

    Sei por experiência própria que é possível e enriquecedor implementar Debates Filosóficos em turmas de 30 alunos independentemente da sua idade. Agora sinto falta de ver outros professores a fazê-lo, conhecer diferentes tipos de exercícios e formas de pôr os alunos a debater. Achava importante haver um espaço para isso em Workshops ou Encontros de Professores.

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