20 de novembro de 2010

O galho da filosofia


Nas zonas mais anémicas da cultura põe-se a filosofia no galho mais alto da hierarquia imaginária das coisas. Mas o Luiz Helvécio Marques Segundo discorda aqui. E o leitor?

43 comentários:

  1. Parece-me que Luiz Helvécio ignora a discussão sobre a suposta prioridade da metafísica sobre a física. É claro que, num certo sentido, a filosofia não é a disciplina mais importante, dado que ela apenas investiga um domínio de perguntas diferentes das outras ciências - domínios estes cuja apenas a união dos mesmos nos proveria uma descrição completa da realidade (se é que uma descrição completa da realidade é possível). No entanto, há uma certa relação entre os problemas investigados pelos filósofos e os problemas investigados pelos outros cientistas. Por exemplo, há como se defender que a física deve moldar suas teorias de acordo com nossas descobertas metafísicas. É essencial para defender uma paridade de importância da filosofia com relação às outras ciências que mostremos que não há uma prioridade epistêmica da filosofia (ou de alguma área sua) para com relação a outras áreas.

    Talvez uma evidência de que a filosofia esteja no galho mais alto seja o fato de cada ciência ter uma filosofia daquela ciência, que investiga questões metafísicas e epistêmicas com relação aos problemas envolvidos em tal ciência, e cujas respostas dessas investigações regulamentam (ou deveriam regulamentar) as teorizações dentro da ciência em causa.

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  2. errata:

    - Substituir "prioridade epistêmica" por "prioridade metafísica".

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  3. Rodrido, discordo.

    O fato de ser impossível que uma ciência (a própria física) não se assente em alguma metafísica não torna a última superior (somente anterior). Mas também seria impossível uma filosofia da ciência (com todas suas implicações metafísicas) se não houvesse conhecimento científico já estabelecido.

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  4. Cid,

    e parece que você ignora que não há prioridade da metafísica sobre a física, mas apenas uma relação de influência mútua entre ambas. Assim como uma determinada concepção metafísica pode influenciar uma determinada teoria da física, também uma descoberta da física pode influenciar decisivamente as teorias metafísicas - basta pensar no impacto que áreas da física como a mecânica quântica tiveram nas discussões filosóficas.

    É claro que há como se defender que a física deve moldar suas teorias de acordo com nossas descobertas metafísicas. Na verdade há como se defender praticamente qualquer coisa na filosofia - eu já vi gente defendendo até mesmo que há como calcular o sentido da vida ou que existem o papai noel e liquidificadores pensantes. Isso só evidencia que não há consenso entre os filósofos. No máximo temos uma determinada tese metafísica que é defendida por alguns filósofos e criticada por outros: não há toda essa descoberta metafísica para informar a ciência.

    O fato de cada ciência ter uma filosofia daquela ciência pode ser interpretado como uma evidência para defender precisamente o contrário: na verdade, seria possível argumentar nesse caso que todas essas áreas de estudo da filosofia são parasitárias da ciência, que só existem e têm importância devido a essas ciências, etc. Não defendo isso, mas isso mostra como sua argumentação pode ser facilmente torcida para extrair a conclusão contrária.

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  5. Na minha opinião, discutir qual o valor da filosofia apenas aparece numa dimensão de comercialização da mesma, dimensão esta que concordo e eu próprio advogo.

    Seja qual for o cerne do argumentário de vendas (que é epistémico-metafisicamente mais importante ou prioritário, que tenha precedência em qualquer outra disciplina ou pensamento, ou acerca da claridade de pensamento que possa oferecer, etc.), o objetivo será a venda da mesma a terceiros, em ordem a garantir a nossa subsistência enquanto profissionais de filosofia.

    Defendo que, pensar de outra maneira, pode roçar a pura ingenuidade.

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  6. Cid,
    Ainda que a metafísica seja um guia extremamente seguro para a física, daí não se segue que a filosofia esteja no topo de toda a árvore do conhecimento. Um exemplo será iluminante. Num sentido, a física é mais elementar que todas as outras ciências empíricas; tudo o que elas estudam é ultimamente constituído por prótons, elétrons, quarcks, etc. No entanto, a física não explica porque o homo sapiens sobreviveu e os homens de neanderthal não; não explica porque a nobreza portuguesa deixou portugal em 1808 e veio para o Brasil, e assim por diante. E não vejo qual a vantagem explicativa teríamos caso conseguíssemos explicar tudo isso em termos da física. Isso por sí já indica porque a física não é mais importante; e do mesmo modo, ainda que a metafísica fizesse para todas as outras ciências o que a física faz, não teríamos qualquer vantagem com isso.

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  7. Apenas uma sugestão de correção:

    onde constou

    "Portanto, as peças que a filosofia fornece ao nosso quebra-cabeças não é menos importante do que as peças que a física, a biologia ou a história fornecem.",

    que conste

    "Portanto, as peças que a filosofia fornece ao nosso quebra-cabeças não são menos importantes do que as peças que a física, a biologia ou a história fornecem."

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  8. Luís Inácio,
    Não me parece que esta discussão tenha como objetivo a venda da filosofia, e sim se as questões com que ela lida possuem um status superior aos das outras. P. ex., afirmar que a psicologia e outras ciências se originaram da filosofia poderia ser uma forma de tentar lhe dar um status superior, todavia não penso que isso contribua para o debate.
    É mais interessante deixar claro quais os tipos de questões os filósofos tentam responder, do que tentar atribuir um valor a cada uma dessas disciplinas e posteriormente tentar compará-los.

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  9. Caro Bruno,

    Eu percebo que seja interessante delimitar campos e disciplinas, e respectivas perguntas-base do seu objecto de inquérito. E respeito esse trabalho.

    E compreendo também que esta delimitação seja o espaço de promoção da disciplina, pois só faz sentido essa delimitação em contraste directo com as outras disciplinas. No meu ponto de vista, tal demarcação tem em vista pessoas que não conhecem essa disciplina e ao qual queremos que prestem atenção e a aceitem como válida, i.e., que a aceitem como parte social de um tecido de inquérito, seja qual for o objecto de inquérito.

    Repare que não faz muito sentido fazer esse trabalho a quem está dentro campo, a não ser que mesmo nesse campo ainda exista versões concorrentes. Mas lá está, será utilizado como argumentário de venda, ou, se preferir, de persuasão.

    Abraço

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  10. então a única razão para discutir o valor da arte é a de vender pinturas e coisas semelhantes?

    a questão de saber "quem fica por cima", se a ciência ou se a metafísica é uma daquelas palermices que acaba por ser responsável pela noção enviesada que por vezes se tem da filosofia. que significado há neste conceito de "superioridade"? O que quer isso realmente dizer, como se traduz? que conteúdo se pretende transmitir com a ideia de "superioridade" aplicada seja a actividades seja a pessoas? Será a ideia de que "é mais importante"? Mas em que se traduz isso por sua vez?

    Em macacadas sociais. nada tem a ver com o conteúdo das próprias actividades, trata-se apenas de exteriorizar atitudes palermas e superficiais. "tenho uma certa atitude" para com este fulano, ou seja, sugiro através dos meus tiques e dos meus esgares imbecis que mereço ser catado pelos outros, mais do que ele. (a seguir ouve-se um bugio primevo).

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  11. Luis Inácio,
    estás a ser um tanto simplista. O intuito não é vender a filosofia, e sim divulgá-la satisfatoriamente, apresentando-a pelo o que ela realmente é (como consequência espera-se que mais pessoas inteligentes se interessem pela filosofia).
    Além do mais, aqui no Brasil (e acredito que em Portugal seja parecido) muitos professores (inclusive universitários) começam seus cursos por fazer um discurso pomposo sobre a superioridade da filosofia... O resultado é que a imagem da filosofia continua sendo de algo que ela não é: cultura geral (às vezes com ares de misticismo) e passa-tempo de militantes políticos!

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  12. Luís Inácio e Vitor

    discordo de ambos. A questão de saber se a filosofia é superior às demais áreas do conhecimento é uma questão que tem interesse cognitivo próprio e não precisa ser apenas uma expressão de macaquice social ou tentativa de "vender o próprio peixe".

    Superioridade nesse caso pode ser entendida como relevância epistêmica ou prioridade cognitiva. Se de fato há uma maior relevância epistêmica da filosofia isso acarreta uma série de consequências na maneira como devemos considerar a filosofia e as outras áreas. Portanto é uma questão que tem interesse cognitivo próprio.

    É preciso não confundir a relevância dessa questão com as motivações, muitas vezes cretinas, dos que defendem a superioridade da filosofia. Do fato de um filósofo ter a pretensão de ser superior usando como razão o fato de a sua área ter alguma prioridade cognitiva, não segue que sua área não tem alguma prioridade cognitiva.

    Na verdade é possível ter uma motivação forte para acreditar nessa superioridade que não seja interesseira: pura e simplesmente pode parecer a alguém que a filosofia é superior às demais áreas do conhecimento.

    Reduzir todo o interesse da discussão a motivações espúrias é incorreto, pois podem estar em jogo motivações não espúrias, além de ser um modo de raciocinar claramente ad hominem.

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  13. a conversa da "superioridade" só serve para turvar, confundir e sugerir falsidades vagas a quem não pensa nisto com grande afinco.

    se o que queremos dizer é que a investigação filosófica é "mais fundamental" no sentido de que discutimos as categorias que usamos em todas as outras áreas para fazer afirmações, as relações entre essas categorias, condições de existência e de identidade, etc. então mais vale dizer isso mesmo.
    aliás, parece-me que a metáfora espacial correcta não seria a de superioridade mas de inferioridade - a filosofia está no patamar "mais inferior", ou seja, mais fundamental.
    o problema é que a palavra "fundamental", como a de "superior" e "inferior", está carregada de conotações valorativas - o hábito de dizer que algo é "fundamental", ou seja, que é imperdível, e coisas triviais semelhantes.
    agora, o que não consigo compreender é por que razão um estudo mais "fundamental" ou "mais inferior" (neste sentido classificativo) seria "mais importante" do que a produção que ocorre nos outros "patamares" mais "acima" - o das diversas ciências empíricas, etc. para mim é como estar a discutir em música se a harmonia é mais importante que o ritmo. não faz sentido.

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  14. Vitor,

    O que eu quero dizer é que o meio de corrigir essa conversa de superioridade consiste em argumentar com rigor e delimitar com precisão o que queremos dizer, deixando de lado essas motivações espúrias, que são muito comuns em todas as áreas do conhecimento.

    Uma motivação espúria comum é encarar a filosofia como uma briga de galo para decidir quem é o mais forte. E isso pode ocorrer até nas discussões mais técnicas da filosofia. Não há meios de impedir isso, são motivações psicológicas.

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  15. Caros

    Discutir o valor, seja do que for, no meu ponto de vista, resume-se a atribuir um determinado estatuto binário em contraste directo com outra coisa qualquer, e depois posicioná-lo hierarquicamente (cima/baixo, direita/esquerda, frente/verso, etc.). Parece simples mas não creio que o seja. Talvez porque terá de obedecer a estruturas de justificação dentro do tipo de comunicação em que se tenta apresentar o valor que se quer enaltecer.

    A verdade é que temos a necessidade de escrever sobre o posicionamento da filosofia, pois necessitamos desse contraste para promovermos a disciplina nas universidades, entre os jovens, entre as outras disciplinas. Mais: precisamos desse posicionamento para os filósofos terem emprego nas universidades, nas escolas secundárias, e que se possa vender os livros que se produzem todos os anos nesta disciplina.

    Claro que não defendo a generalização que seja esta a única motivação. Mas também é verdade que alguém tem de nos pagar, ou dito de outra maneira, temos de ter um rendimento quando exercemos essa actividade. E o problema é que tal não é suposto escrever sobre esta perspectiva, porque supostamente ofende a visão nobre da 'filosofia'.

    Isto nada tem a haver com o interesse cognitivo próprio, pois isso é assumir um determinado valor intrínseco em alguma coisa. Resta saber se essa coisa será numa 'Filosofia', ou numa suposta capacidade humana chamada de 'cognitiva'. Neste domínio, eu permaneço em silêncio.

    Grande abraço.

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  16. Oi, Tiago. Como eu bem disse, podemos pensar a metafísica como superior EM ALGUM SENTIDO, e não em todos. Certamente a metafísica não é melhor que a física, mas se ela for básica e fundamental para a física ("fundamental" no sentido de que respostas metafísicas dão ou deveriam dar base para a física), então haverá um sentido de superior que a metafísica terá em relação à física. E "superior" aqui nao quer dizer nada mais que "mais fundamental" ou "mais basilar".

    Você disse uma coisa interessante, que foi o fato de as ciências também informarem as filosofias das ciências e até a mesmo a metafísica. Sobre isso, eu não estou certo de se as ciências informam as filosofias, ou se elas simplesmente colocam mais dados na mesa para as filosofias lidarem. Os dados das ciências certamente são objeto, pelo menos parcial, da filosofia. Mas penso que as ciências não podem obrigar racionalmente a filosofia a aceitar alguma teoria. Toda obrigação racional dentro da filosofia é estabelecida pela própria filosofia, por mais que leve em conta dados obtidos nas ciências. No entanto, a filosofia pode obrigar racionalmente as ciências a aceitarem certas teses (por mais que na vida prática muitos cientistas evitem uma relação tão íntima com a filosofia).

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  17. Oi, Matheus.

    Como eu poderia ignorar que não há prioridade metafísica se ninguém nunca descobriu que não há? O que eu fiz foi apenas falar na condicional. SE houver uma prioridade metafísica de uma com relação à outra, não será um absurdo pensarmos que a metafísica, por exemplo, é superior, em algum sentido, à física.

    Além disso, o fato de descobertas na física influenciarem discussões metafísicas não implica que a física pode obrigar racionalmente a metafísica a aceitar alguma teoria. Certamente a metafísica deve dar conta dos dados obtidos pela física, mas não precisa aceitar suas teorias. No entanto, uma teoria metafísica, se for verdadeira, deve regulamentar as teorias físicas.

    Sobre não haver descobertas metafísicas (que formem uma teoria positiva da realidade), talvez poderíamos sair desse problema apontando para as relações entre a física completa e a metafísica completa. Daí não falaríamos em termos de descobertas sendo racionalmente aceitas, mas de explicações mais basilares.
    [rsrsrsrsrs - adorei lembrar dos liquidificadores pensantes e do papai noel]

    Sobre as filosofias das ciências, poderíamos realmente tentar defender que elas são parasitárias. Eu não acredito que elas o sejam, dado investigarem pontos basilares sobre os quais as ciências dependem, alguns dos quais seriam problemas filosóficos mesmo sem o desenvolvimento de uma ciência relacionada ao problema. Mas o ponto fundamental não é esse: não quero defender que as filosofias são mais básicas, mas apenas que se elas o forem, Luiz Helvécio deve revisar sua tese.

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  18. Luiz Helvécio,

    Sobre o seu exemplo, a física só não explica as coisas que você citou porque não temos uma física completa. Se tivéssemos, ela explicaria. E sobre a vantagem explicativa, ela seria vantajosa, pois além de entendermos as propriedades de conglomerados de átomos filosóficos, entenderíamos como as ocorrências derivam de propriedades dos próprios átomos filosóficos não-conglomerados. Isso é vantajoso, pois não nos dá apenas uma abordagem parcial (como as ciências empiricas atualmente, inclusa a física atual) das ocorrências, mas uma abordagem completa. Certamente a física que temos hoje em dia não corresponde à física completa.

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  19. Vitor Guerreiro,

    eu concordo com você que o problema fundamental do texto de Helvécio foi não ter especificado claramente o que é essa tal "superioridade". Certamente em alguns sentidos a filosofia não é superior, e em outros talvez seja. Eu tentei mostrar no meu comentário que pode haver um sentido no qual a filosofia é superior, a saber, o sentido de "basilar" ou "fundamental".

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  20. Vitor,

    Se queremos entender porque o mais fundamental é tomado como o mais importante, eu diria que isso ocorreria porque o mais fundamental deve ser aceito por tudo que é menos fundamental. Enquanto o que é menos fundamental não precisa ser aceito por outras de mesma fundamentalidade. Assim, o que é mais fundamental é importante para todos, enquanto o que é menos fundamental não é importante para todos. Se a importância se medir para o número de ciências para o qual algo é importante, a filosofia seria mais importante, pois, por ser a mais fundamental, é importante para todos.

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  21. então uma teoria filosófica não tem de ser compatível com o que nos diz a melhor ciência de que dispomos?

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  22. Luís Inácio,

    Certamente há várias motivações para defendermos que a filosofia é superior. Uma delas, tal qual você falou, é simplesmente comercial. Mas enquanto nos utilizamos da motivação comercial para assumir a tese da superioridade, não estamos numa discussão filosófica, mas apenas numa atitude prática (e bem política) de divulgação da disciplina. Mas enquanto essa for a motivação do filósofo, então a asserção de tal tese não terá importância nenhuma para as discussões filosóficas. O assunto sobre a importância da filosofia só se torna relevante filosoficamente, quando as motivações são investigativas, e não políticas. Por mais que alguém defendesse a tese de que a filosofia é superior por motivações meramente políticas, saber sobre essas motivações não responderá a questão filosoficamente interessante sobre se a filosofia é realmente superior. Assim, a indicação de motivações políticas - tal como você tentou prover - não nos ajuda a responder a questão. Não estamos aqui divulgando a filosofia, mas estamos antes entre pares discutindo um problema filosófico interessante. Então não pode ser que essa discussão esteja motivada numa divulgação da filosofia.

    O problema que vc colocou do valor é um tanto interessante, mas penso que não causa empecilhos aqui, pois estamos pensando no valor relativamente às ciências. É difícil que haja esquemas valorativos inconsistentes entre si, quando pensamos sobre o quanto algo vale para as ciências (ou para o nosso conhecimento).

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  23. Vitor Guerreiro,

    Sim. Tem de ser compatível. Mas não com as teorias físicas, mas com os dados obtidos (que são base para suas teorias). Podemos mostrar que uma teoria física é inconsistente. Se mostrarmos isso, teremos de dar conta dos dados. Mas uma ciência não é composta de dados, mas antes de teorias.

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  24. Se descobrimos em metafísica, por exemplo, que o espaço é um ente necessário, então será a física que terá de mudar sua teoria que implica que o espaço surgiu, e não a metafísica.

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  25. Cid,

    uma boa razão para pensar que a metafísica não é superior à física é a evidência histórica de que ambas se influenciam mutuamente: um filósofo pode desistir do determinismo, por exemplo, devido a uma série de resultados da mecânica quântica. Assim temos o seguinte argumento:

    P1) Se as teorias metafísicas têm prioridade sobre as teorias da física, as teorias metafísicas não são influenciadas pelas teorias da física.

    P2) As teorias metafísicas são influenciadas pelas teorias da física.

    C) Logo as teorias metafísicas não têm prioridade sobre as teorias da física.


    A evidência para P2 está na história das duas disciplinas e na própria prática dos filósofos contemporâneos.

    Ao contrário do que você disse, uma teoria metafísica precisa sim dar conta dos dados obtidos por uma teoria da física se essa teoria é verdadeira, assim como uma teoria da física precisa dar conta das conclusões obtidas por uma teoria da metafísica se essa teoria é verdadeira. Mais uma vez, não há prioridade alguma de ambas as partes, pois ambas as áreas se influenciam mutuamente, ou pelo menos deveriam se influenciar mutuamente.

    E os dados obtidos pelas teorias da física não são a sua base, são suas conclusões. Dados e fatos por si sós não nos dizem nada sem uma boa teoria que os explique adequadamente. Portanto, uma teoria filosófica tem de ser compatível com o que nos diz a melhor ciência de que dispomos.

    Repare, contudo, que a filosofia aqui está em desvantagem: o número de resultados obtido em filosofia é irrisório se comparado com os resultados obtidos entre os físicos. Essa é uma boa razão para pensar que é mais seguro recorrer à física na avaliação de problemas metafísicos do que recorrer à filosofia para avaliar problemas de física.

    Há ainda uma razão mais forte para pensar que não há prioridade da metafísica: são as inúmeras discussões de filosofia da física que têm um pé na física teórica. Nesses casos não está claro onde começa a física e onde termina a filosofia. Se a metafísica fosse superior à física isso não ocorreria.

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  26. Não tenho podido intervir na discussão, mas gostaria de só acrescentar que discutir se a metafísica é ou não superior à física faz tanto sentido como discutir se o braço esquerdo é ou não mais importante do que a perna direita; ou se a a pediatria é ou não superior à ortopedia.

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  27. @Rodrigo Cid

    Obrigado pelo comentário.

    Eu apenas quero salientar o seguinte.

    - O facto de se achar que a discussão sobre que a vertente económica não está no mesmo patamar, ou nas suas palavras, que não tem 'importância nenhuma para as discussões filosóficas', é incorrer numa visão meramente 'marfinizada' de uma discussão filosófica. Quem é que designou que um tópico de discussão (como pex este que estamos aqui saudavelmente a encetar) está ou não provido de interesse filosófico? Como é que vc distingue que algo, um tema/assunto/problema, é 'um problema filosófico interessante', ou não?

    Esta frase, 'um problema filosófico interessante', é uma frase chave. E o termo 'interessante' é um termo com uma função valorativa. Ao assumir este termo, está a provocar uma cisão conceptual, focando a sua atenção naquilo que considera relevante, e suprime aquilo que não considera relevante. Isto no meu p.v. chama-se 'economizar a atenção' (também sou culpado disto!).

    - A 'motivação económica' não causa empecilhos numa discussão (pex como a discussão aqui nos comentários sobre a 'superioridade meta/física', que estou a seguir com prazer) entre pares . Ou pelo menos assim aparenta. Eu acho que essa concepção contamina essa discussão. Senão, repare: imagine que se arranja um consenso aqui sobre a dicotomia meta/física. E agora? Qual a consequência disso? Cada um fica com esse consenso e 'pronto, acabou', como quem acaba um jogo de consola? Não me parece. Eu defendo que esse argumentário será reciclado para um re-posicionamento da filosofia em relação à outra área, e seu respectivo enaltecimento divulgador, económico ou comercial.

    Grande abraço

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  28. então por um lado os problemas metafísicos são metafísicos porque não podem ser resolvidos empiricamente (embora não seja só por isto), e por outro, segundo foi aqui dito, as teorias metafísicas têm de dar conta dos "dados" das teorias científicas, e não das próprias teorias.
    Bom, entre ser compatível e "dar conta" vai uma certa margem de manobra linguística, e eu prefiro a primeira. Depois, como é que uma teoria a priori "dá conta" de dados empíricos, se ela é a resposta a um problema que não pode ser resolvido empiricamente. O que ela tem de ser é compatível com o que a ciência diz, e não com o que "dizem" os dados dessa ciência.

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  29. não cabe à metafísica interpretar os "dados brutos" que são relevantes para uma teoria das ciências empíricas. não cabe aos filósofos interpretarem ressonâncias magnéticas ou análises de tecidos. cabe sim aos filósofos terem em conta quais as afirmações da ciência que tornem, digamos, o dualismo acerca da mente implausível ou mais implausível do que outra alternativa.
    a metafísica trata do que pode ser e do que tem de ser. a ciência diz-nos o que é. assim, o dualismo à partida pode ser. mas cabe-nos ver que indícios a priori podemos apontar de que é ou não é, e que indícios nos dá a ciência do que efectivamente é ou não é.

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  30. Sim, Vitor. Dizer que as teorias metafísicas devem ser compatíveis com as teorias científicas é mais apropriado.

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  31. Matheus,

    Posso aceitar que a superioridade da metafísica sobre a física não se dê por conta de uma ter uma capacidade assimétrica de influenciar com suas teorias as teorias da outra. Eu tentaria, então, reformular a tese da superioridade metafísica em termos de força ontológica. Com "força ontológica" o que quero dizer é o seguinte. Quando duas teorias igualmente prováveis e consistentes divergem quanto a implicações de suas asserções teóricas, a que tem mais força ontológica faz com que a outra tenha que se reformular de acordo com ela.
    .
    A superioridade vista como força ontológica talvez possa ser atribuída à metafísica em detrimento da física - pois seria medida de acordo com a fundamentalidade de uma disciplina.
    .
    Agora você disse: "E os dados obtidos pelas teorias da física não são a sua base, são suas conclusões. Dados e fatos por si sós não nos dizem nada sem uma boa teoria que os explique adequadamente. Portanto, uma teoria filosófica tem de ser compatível com o que nos diz a melhor ciência de que dispomos."
    .
    Os dados, de alguma forma, devem ser independentes das teorias que os obtêm, pois várias teorias inconsistentes entre si para explicá-los conseguem obtê-los. E, em última instância, se vamos falar de dados dependendo de teorias, parece-me que teremos que chegar antes numa teoria metafísica (formulando talvez uma ontologia de particulares e propriedades) do que numa teoria física. O que eu quero dizer é que alguns dados podem, por exemplo, mostrar que a nossa melhor teoria possível sobre suas ocorrências é uma teoria probabilística, por causa dos dados que obtivemos não mostrarem regularidade infalível. Mas se fosse um resultado metafísico (da metafísica correta) que o mundo é determinístico, então a física nunca poderia interpretar seus dados como dizendo que há indeterminismo ou probabilidades objetivas (diferentes de 0 e 1, e distinguindo probabilidade de frequência relativa). Esse seria mais um exemplo de o que eu quero dizer com "força ontológica".
    .
    Você também disse: "Há ainda uma razão mais forte para pensar que não há prioridade da metafísica: são as inúmeras discussões de filosofia da física que têm um pé na física teórica. Nesses casos não está claro onde começa a física e onde termina a filosofia. Se a metafísica fosse superior à física isso não ocorreria."
    .
    Mas eu simplesmente não entendo esse argumento. Creio que uma coisa não se segue da outra. Nem provavelmente. Mesmo que a metafísica fosse superior à física (seja em influência, seja em força ontológica), disso não se segue que não pode haver áreas de intercessão entre elas.

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  32. Aires,

    Será que a nossa analogia não deveria ser "discutir se o braço esquerdo é ou não mais importante do que o cérebro"?

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  33. Luís Inácio,

    Mas perceba que podemos chegar a conclusão que a filosofia não é superior às outras áreas e que, inclusive, é inferior. No entanto, dado o caráter intrinsecamente dialético da filosofia, certamente alguém tentará defender que ela é superior.

    O que quero enfatizar, Luís, é que entre nós não precisamos ficar a divulgar a filosofia. Na verdade, podemos até estar tendo uma atitude de divulgador da filosofia, mas divulgá-la não será o ponto fundamental nas nossas discussões. O ponto principal será o conjunto de argumentos providos a favor ou contra a tese da superioridade da filosofia. As motivações que nos levam a defender os argumentos não são importantes para a análise dos argumentos. E não são importantes, pois os argumentos são analisáveis de acordo com a lógica e fatos externos às motivações -- a não ser, talvez, quando estamos discutindo as virtudes epistêmicas de cada teoria.

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  34. Vitor,

    Nesse sentido, em que a metafísica trata do que pode e do que tem de ser e em que as ciências tratam do que é, é que eu digo que se a metafísica descobriu que tem de ser o caso que P, então há algo de errado numa teoria física que implica ~P.

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  35. Vitor,

    Não tentei enfocar o problema na distinção entre dar conta e ser compatível. Não tenho problemas em aceitar uma reformulação em termos de compatibilidade. O problema é justamente a distinção entre dados e teorias.

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  36. "se a metafísica descobriu que tem de ser o caso que P, então há algo de errado numa teoria física que implica ~P."

    e quem disse que a metafísica pode descobrir isto na ausência do contributo das ciências empíricas? como é que estudamos, por exemplo, o carácter necessário de certas afirmações empíricas, se não houver descobertas empíricas para informar a nossa investigação acerca da estrutura da realidade?

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  37. Temos de ter dados empíricos, mas não precisamos de teorias científicas. Tomo "teorias científicas" como interpretações dos dados que visam explicá-los ou fazer previsões sobre as propriedades envolvidas nos dados.

    Antes de termos uma teoria física e matemática sobre o espaço, já podíamos falar sobre o espaço e traçar argumentos pela sua necessidade. Se as nossas premissas forem verdadeiras e o argumento válido, a física terá de aceitar as nossas observações. E, assim, terá de reformular qualquer teoria que afirme o começo da existência do espaço.

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  38. Rodrigo, entendi sua distinção entre prioridade (como fundamento)e importância. Mas nesse caso seu comentário seria improcedente. Pois o texto em questão trata da questão da hierarquia em importância (criticando os que colocam a filosofia no pedestal), ao passo que seu comentário refere-se a qual disciplina é mais basilar.

    A meu ver, também a ciência influencia na nossa metafísica (não só em filosofia da ciência). Algumas teorias científicas são profundamente contra-intuitivas e, no entanto, depois de provadas tornam-se patrimônio do senso comum. Uma revolução científica pode implicar numa mudança ontológica.

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  39. O problema, Tiago, é que se a metafísica, por exemplo, é a mais basilar, então em algum sentido ela é mais importante que as outras disciplinas, pois estas não poderiam existir sem sua base.

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  40. E meu comentário, Tiago, foi apenas que Luiz Helvécio deveria rever seu texto, tendo em vista o problema que indiquei.

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  41. @ vítor guerrreiro:

    nem todas as teorias filosóficas têm de ser compatíveis com a melhor ciência de que dispomos. caso contrário, nenhuma teoria filosófica poderia pôr em causa a melhor ciência de que dispomos. coisa que a filosofia tem feito ao longo do tempo.

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  42. Só agora vi este comentário.
    para uma teoria filosófica por em causa uma teoria científica, parece-me que essa teoria filosófica teria de responder de forma a priori a um problema que não é a priori, pois é um problema científico, e teria de o fazer melhor do que a ciência o faz.
    não me ocorrem exemplos deste género de coisa. quando muito ocorrem-me exemplos em que a filosofia critica pressupostos filosóficos de afirmações científicas.
    qual foi a última teoria científica que a filosofia pôs em causa, e bem-sucedidamente?

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